quarta-feira, 29 de março de 2017

Da Mítica Atlântida à Eternidade do Amor de Inês e de Pedro. Uma Peregrinação de Maria de Fátima Silva.


Eis a Inês...
As imagens que a Maria de Fátima Silva nos oferece nesta exposição "Amare # Atlantis", organizada pela Hélder Alfaiate Galeria, na Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva, da Ericeira (inauguração a 1-IV-2017), são verdadeiramente mágicas, mais propriamente no sentido de, ao serem contempladas, permitirem-nos entrar em dimensões subtis e insuspeitadas, vencendo as barreiras do tempo-espaço e fazendo-nos sentir, intuir e comungar energias e emoções, ideias e seres, ritmos e ritos que, vividos há séculos e séculos, ainda hoje nos proporcionam expansões e aprofundamentos de sensibilidade e compaixão, de de conhecimento e de consciência... 
A série "Atlantis" remete-nos para as épocas mais ancestrais da Humanidade, quando a unidade entre os elementos da Natureza, as pedras, águas, peixes, aves, animais e humanos era intimamente sentida, vivida e celebrada, e de modos tais que só os mais artistas ou sensíveis conseguirão imaginar ou tornar a focalizar.
A Atlântida é em verdade um dos icebergues que nos chegou da história antiga e perdida da Humanidade, graças à referência de Platão no Timeu de ter ouvido os sacerdotes egípcios de Saís falarem do desaparecimento da sua última ilha no meio do Atlântico. Os mistérios da sua existência permanecem no séc. XXI, apesar dos estudos e livros tanto de historiadores e arqueólogos como dos ocultistas ditos clarividentes dos finais do séc. XIX e começos do séc. XX: Helena Blavastky, Rudolf Steiner, Max Heindel e Edgar Cayace, alguns deles algo devedores do Atlantis, The Antedeluvian World, de Ignatius Donnely, de 1882.
Celebrações e comunhões com os elementos e o Divino...
A Maria de Fátima oferece-nos uma estreita simbiose nesta série "Atlantis" entre o que poderia ter sido a Atlântida e o que sabemos terem sido os tempos pré-históricos, com os seus diversos cultos e estreita osmose do ser humano com as pedras, as águas, as aves, os animais e que a Fátima intui a partir da sua experiência concreta das antas e tholos, falésias, rios e eco-sistemas existentes na região da Ericeira e em Portugal e que ela e a sua família bem conhecem, vivendo ainda hoje no campo, cultivando a terra e com animais.
Entre nós, Dalila Pereira da Costa foi talvez a escritora que mais cultivou a chamada "memória do lugar", dando-nos seja do Porto, seja dos cultos da Antiguidade celebrados nas margens e santuários do rio Douro descrições e ressurreições em que combina tanto os dados intuitivos e oníricos, ou de reminiscências, como os históricos. A Maria de Fátima Silva fá-lo também com as suas pinturas, e não nos é difícil discernir, emergindo das pedras e águas omnipresentes, determinados ritos e celebrações, grandes deusas e deuses, prefigurações de Jesus e Maria, sacerdotisas e shamanes, espíritos da natureza e Anjos, fecundidade e maternidade, nascimentos e mortes, iniciações e purificações, sacrifícios e amores.
Das danças e peregrinações shamânicas...
A sua pintura é na verdade bem invocadora pois é bastante poderosa na policromia, nas formas dos corpos, na expressividade dos pés, das mãos, dos seios, das faces, de cada ser, que estão sempre interconectados com um momento, um ambiente natural ou ritual, o todo, visível e invisível mas bem sensível e perceptível. É verdadeiramente uma pintura animista a que nos é apresentada, e corresponde bem ao estágio da Humanidade que então via e sentia a alma presente em tudo e todos e a grande Alma do Mundo que a todos ligava, com menos barreiras entre o mundo material e o subtil e espiritual. Algumas das suas pinturas fazem-nos então entrar num "no man's land", numa percepção na qual não sabemos se estamos a ver com os olhos físicos ou se com o olho espiritual, podendo talvez então caracterizar-se como uma entrada numa terra lúcida, luminosa, a que alguns estudiosos das almas e obras místicas e clarividentes chamaram de imaginal. 
Neste sentido são especialmente mágicas algumas pinturas (e cada observador sentirá as que mais ressoam animicamente), esbatendo subtil mas fortemente as nossas certezas e limitações objectivantes redutoras e fazendo-nos pairar e entrar por um umbral misterioso, rico e profundo, mítico e divino, para o qual contribui todo o dinamismo sacralizante que as constantes metamorfoses, derivadas da interconectividade de todos os seres, apresentam e interrogam, sugerem e propulsionam.
Cada pintura pode-se então dizer que é realmente uma janela aberta para dimensões anímicas insuspeitadas e, para quem mais demoradamente as contemplar, para estados expandidos de consciência e de Amor.
Amare. Da amostragem e antevisão do que será a sua próxima grande exposição sobre o Amor de Inês de Castro e Dom Pedro de novo somos levados a realçar a grande qualidade tanto da sua pintura,  por vezes em filigrana minuciosa do sublime estilo gótico, como da sua percepção do Campo unificado e histórico de energia consciência que a todos envolve e que a Maria de Fátima soube extraordinariamente trazer ao de cima em cada pintura, unindo o passado, o presente e o futuro, o visível e o invisível, o potencial e o actual, o exterior e o interior, o individual e o colectivo, o histórico e o mítico, o animal e o humano, a dor e a beatitude, o angélico e o divino.


Elevada aos céus do Amor Eterno...
Como todos sabemos o amor entre Inês de Castro e Dom Pedro foi e é de todos os que aconteceram na terra e mátria portuguesa o que mais foi sentido e trabalhado ao longo dos séculos, em milhares e milhares de obras, artigos e referências, seja pela sua tragédia, ou intensidade ou perdurabilidade imortalizadora na aura popular e dos literatos (bem manifestada na coroação e beija-mão), e portanto é uma alegria vermos uma mulher da costa portuguesa, da Ericeira, enfrentar o repto de desenhar e pintar, aprofundar e desvendar a riqueza do mistério inesiano, o qual ainda hoje nos aperta o coração ou faz brotar o desejo do Amor invencível e imortal que eles sacrificialmente realizaram.
Perante as razões do cérebro ou dos interesses da corporação ou do Estado, ainda hoje frequentemente evocadas contra o coração e a Humanidade, devemos, com o ensinamento-testamento do amor trágico de Inês e de Pedro, saber dizer não a tais violências ou crimes e afirmar o direito do Amor pleno e pacífico ser vivido entre os seres que verdadeiramente se amam, numa Terra mais lúcida e harmoniosa.
No fundo, sentirmos e trabalharmos a relação de Inês e Pedro nos dias de hoje, como a Fátima assumiu, é queremos afirmar o Amor invencível e imortal, que une os seres para além das oposições e ódios da sociedade, ou mesmo da morte, e comungarmos assim do Amor divino que a todos une e no nosso ser mais profundo arde, é...
Sabemos que, pelos túmulos de ambos, esculpidos como obras-primas (e ainda hoje semi-anónimas) da Beleza e do Amor, tal relação amorosa e matrimonial se tornou ainda mais imortal, permitindo-nos eles ainda hoje sentir a eternidade do Amor vivido, quando peregrinamos ao transepto do mosteiro de Alcobaça e diante dos dois túmulos jazentes nos abismamos em maravilhada contemplação...
A Maria de Fátima fez essa peregrinação à Alcobaça gótica por mais de uma vez, sentiu, emocionou-se, absorveu, fotografou, compenetrou-se. Depois viu a iconografia e leu muitas obras, modernas e antigas, algumas que eu próprio lhe fiz chegar às mãos, afluentes do grande rio mítico do Amor que passa bem luminoso para além da margem da morte aparente. E assim fez-se uma com Inês e Pedro, corpos e almas, ascendentes e descendentes, vida e morte, no histórico e no lendário, no misterioso e no íntimo, e transmite-nos, neste dealbar do séc. XXI, a última visão portuguesa plástica, emotiva, conceptual, profunda e espiritual do Amor infinito que por eles passou e passa e que ainda hoje nos toca e inspira.
Em verdade, muitas destas pinturas consagradas pela Fátima a Inês de Castro e a Dom Pedro, na história e na iconografia, no mito e no mundo espiritual, bem contempladas, fazem-nos sentir, vislumbrar ou intuir o Sublime e ajudam-nos a querer ser mais ardentes e flamejantes como eles foram, ainda que trágica e sacrificialmente, abrindo veios para o ungimento nosso, aqui e agora, como Fiéis do Amor Divino e Cósmico, cada vez mais presente e vivido pelos seres da Terra...

quinta-feira, 23 de março de 2017

A demanda dos Anjos e da comunhão com o Anjo da Guarda.

                                
                                                                         

Os Anjos e demais Espíritos Celestiais, têm uma percepção muito maior, melhor ou mais perfeita da Divindade do que os seres humanos e conseguem portanto receber e conservar um influxo, uma comunhão e presença bem maiores e portanto não se desviarem da Harmonia, Providência, ou Vontade Divina, servindo-a, passando-a e partilhando-a em termos energéticos e psíquicos.
O mesmo não se passa com os seres humanos, bastante menos abertos aos mundos espirituais e ao Ser Divino, demasiado identificados em geral ao corpo físico, demasiados pressionados ou stressados pela vida moderna e só intermitentemente e em certos casos tendo mais consciência ou percepção de tais níveis e seres.
Os Anjos e Arcanjos vivendo no fluxo vital e psíquico divino tentam partilhar com os seres humanos tal correnteza de Luz e o Amor divinos, ajudando-os a saírem das limitações da sua personalidade terrena, relembrando-os que também eles são cidadãos do Céu, mesmo vivendo encarnados na Terra.
Ora quem ora, medita ou contempla pode impregnar-se mais de tal consciência e receber o influxo dos Anjos, ao desejar abrir-se a ele, e tornando-se assim um ser mais alinhado e luminoso e capaz tanto de se sentir como espírito como de contemplar os mundos espirituais e divinos, comungando em alguma medida da Consciência Divina, caracterizada em geral pelo Amor e Sabedoria, mas que é também Beleza, Pureza, Força, etc, etc. Cem Nomes lhe dão os Islâmicos, Mil e uma pétalas Lhe assinalam os antigos yogis ditos clarividentes, miríades de espíritos (kami) o manifestam no Shintoísmo...
Orar com o Anjo significa então abrirmos mais o coração a ele, comungarmos mais intensamente com ele e deixarmos impregnar-nos por mais influxo do Ser e da Vontade Divina. E, por vezes, mesmo receber alguma graça de visão da Hierarquia Celestial ou mesmo das Faces da Fonte ou Sol Divino Primordial...
Quando pedimos a Deus que Ele nasça mais em nós, ou que se faça a Sua vontade em nós, estamos também a sintonizar com a essência do Anjo e a permitir que ele nos passe algo mais da sua contiguidade ou proximidade divina em termos de inspirações, de imagens, de amor, de caridade, de desprendimento, de alegria, de devoção...
Quando uma pessoa nos pede para fazermos algo no dia seguinte, nós guardamos a mensagem e no dia aprazado ela é realizada. Assim também o Anjo da Guarda, quando oramos, passa-nos certas energias ou mensagens, e por isso eles são chamados Mensageiros (Angeloi, em grego) e, ainda que não estejamos conscientes delas, durante o dia a dia vamos estar expostos a esse campo de forças transmitido e poderemos inspirar-nos e realizá-lo em parte, porque ele está dentro de nós, no nosso amplo corpo de consciência e de energia e em comunicação transparente (maior ou menor, conforme a pureza do coração e da vida) connosco...
Interrogar-nos sobre as funções dos Anjos, as suas actividades, os seus fins,  quando temos algum tempo para nos  interiorizarmos mais,  é importante, pois vamos trabalhar com as energias subtis do pensamento e da imaginação, as quais fazem de intermediárias com eles, pois se não acreditamos, se não lhes falamos ou cantamos, se não temos ou desenhamos qualquer imagem ou ideia deles, é bem mais difícil recebermos a visão, as inspirações, as bênçãos.
A clássica distribuição dos Anjos por nove classes ou níveis, e cada um deles com certas funções, e que proveio de uma sistematização de dados soltos e até contraditórios  do Antigo e do Novo Testamento, embora bela não nos dá certezas pois quase ninguém teve vivências dos níveis mais elevados deles. Cada um tem de descobrir por si mesmo o que consegue ver e receber e intuir, pelo que vamos considerar apenas os Anjos, mencionando além deles o Arcanjo de cada país e que existem ainda espíritos celestiais que sob a designação de Arcanjos adquiriram grande nomeada e culto.
Ora, quanto ao nosso Anjo da Guarda, o que faz ele podemos admitir que em grande parte depende de nós. Se lhe ligamos, se oramos com ele, ou seja, se fazemos petições pelo bem de seres ou de causas, ele tem mais actividade.
Certamente que, quando oramos à Divindade e Lhe damos graças, a as energias levitantes da alma angélica intensificam-se, batem mais, em especial quando lhe pedimos que levem as nossas orações e aspirações até à esfera Divina. Aliás podemos orar dizendo qual mantra:«Anjo; Deus// Anjo, Divindade». Mas o que parece mais evidente é que fica a haver mais luz entre e  nós...
Certamente que uma das melhores orações é a da quietude amorosa com ele, quando conseguimos não nos dispersarmos por múltiplos pensamentos mas conseguimos sentir o nosso amor por ele e como que vê-lo sobre nós, ou mesmo descendo e fundindo-se connosco, o que pode culminar na graça de o contemplarmos subtilmente.
Há aqui um trabalho dos chakras (centros de forças, subtis) do coração, do 3º olho e do cimo da cabeça. Mantermos mais a consciência de que lhe estamos a abrir o cimo da cabeça  ou o coração pode ser bem importante e luminoso e cada um o deverá sentir por si mesmo.
Certamente que as outras funções clássicas de porem a mão sob nós quando caímos, protegerem-nos em caso de acidentes ou de perigos, ajudarem-nos a suportar ou vencer as dores e doenças, acontecem sempre que a Providência Divina o permite.
O tentar ajudarem-nos sonhos, o tentarem segredar-nos perante cada pessoa ou situação a resposta ou reacção adequada, o aconselharem-nos nos momentos de indecisões, são também tarefas que realizam no seu amor por nós.
Ou ainda inspirarem-nos a encontrar as pessoas afins e frutíferas, os livros adequados, ou mesmo a abrirmo-los na página certa.
Ou ainda para nos ajudarem a não entrar em excessos, e nesta linha poderemos lembrar-nos do Anjo ou Génio (em grego, Daimon) de Sócrates que lhe dava sinal do que ele não devia fazer (pelo menos, pois noutras versões gregas dizia também o sim) e que significa entre outros aspectos (tal como o de atrasar a decisão) que nas alturas em que estamos com dificuldades de tomar a melhor decisão, ou de inverter ou transmutar uma marcha energética (na Índia, por exemplo, explicada nos três gunas: tamas, rajas, satva), a ligação ao Anjo, ou a chamada dele, podem ajudar-nos...
Quantos dos nossos sentimentos ou pensamentos podem ser mais inspirados por eles será uma questão que ficará a vibrar entre nós e eles....
Pensemos então mais no Anjo ou no Arcanjo com o coração, o sorriso, a aspiração, o silêncio, ou tenhamos mais frequentemente momentos de recolhimento no nosso recanto meditativo para sintonizarmos  e abrirmos os canais comunicantes com eles e com o Bem, a Verdade e a Divindade...

domingo, 19 de março de 2017

Despedida do Inverno no seu último dia, 19 de Março. Fotografias


Arco-íris de passagem e continuidade luminosa. Contemplemos, comunguemos...


Extractos e níveis no Campo Unificado de energia e informação que nos inspira e onde temos o nosso Ser, para criativamente cooperar na Harmonia e Beleza do Cosmos Divino...

Estarmos mais conscientes nas cores das nossas almas ao longo da Primavera florida...

Árvores sagradas, ainda tão mal tratadas em Portugal em tantos casos...

Árvores divinas que ligam a terra e o céu, eixos do mundo e por onde se sobe e desce, tão cultuadas e protegidas no Shintoísmo nipónico e em tantos povos africanos...

Omkar Sat Nam Ek Omkar

Demos graças e amor ao Inverno natural benigno e oremos e lutemos para que o Inferno humano diminua na Terra e termine a desgovernação mundial...

Deixa a ave do teu espírito voar e descer sobre ti

Nimbos, coroas e coretos flamejantes. Chakra do alto mais resplandecente...

Transfigurações, em persa Xvarnah, Far, Khorreh

Raios e flechas ardentes de Amor Divino

Qual copa do Graal...

Toques de almas, subtis, beatíficos...

A processão e procissão de equinócios e solstícios, e sabermos darmos graças incessantemente, ou estar em postura, tensão e respiração de graça...

Dragão telúrico-celestial



Santo Antero, oremos com ele pela Justiça e o Bem na Humanidade



Nuvens viajantes com os seus habitantes...

Paz luminosa no céu e na terra, fim dos imperialismos e opressões. A criança-coala ao poder. Amor!

A Primavera (com as andorinhas) a chegar, dia 20, pelas 10:29. Seja Bem-vinda com os seus Espíritos celestiais (anjos e arcanjos) e da Natureza (sílfides e fadas, dríades e duendes).
Sintonizemos com eles, sejamos templos deles e do Espírito e da Divindade, em felicidade...

sexta-feira, 17 de março de 2017

"Contemplação", soneto de Antero Quental, comentado.


Antero de Quental na fotografia que mais gostava..
        Contemplação foi o título para um poema da fase final da estruturação dos Sonetos de Antero de Quental, estando portanto incluído nos que terão sido escritos entre 1880 e 1884, e foi dedicado ao seu conterrâneo e grande amigo Francisco Machado de Faria e Maia.
O soneto, com um título bem ambicioso ou caro na mística, acaba contudo por revelar-se como uma visão intelectual da vida senão pessimista pelo menos bem triste e vazia, mais uma vez contrastando com a ideia que se faz de que os seus últimos poemas seriam já uma antevisão de unidade entre espírito e matéria algo que ele viria contudo a idealizar e a escrever ou demonstrar bem nos últimos anos de vida no seu seminal texto Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX.
Na ordenação dos poemas foi feita por Oliveira Martins, mas a ela anui Antero, saindo mesmo um segunda edição em vida,  e o poema é o terceiro da série final, seguindo-se ao primeiro, intitulado Transcendentalismo, onde anuncia um "espírito impassível" que terá avistado acima do bem e do mal terrenos, o segundo, Evolução, onde afirma a sua crença na metempsicose através dos vários reinos da natureza até chegar a este estado em que ergue os braços e aspira só à liberdade,  e ao terceiro, o longo Elogio da Morte, composto de seis sonetos, nos quais (muito sumariamente resumidos por mim) poetiza a sua imaginação da Morte como uma Beatriz de mão gélida mas consoladora e que no seu nível mais elevado é paz universal, e regresso ao Não-Ser que é o único Ser absoluto.
Estamos a ver que a força psico-espiritual convocada para o difícil ou elevado nível da contemplação não é a melhor: Antero no término dos seus esforços vai apenas, e já foi muito na época e pela demanda filosófica em que se embrenhou,  conseguir aspirar e intuir um nível espiritual do Universo impassível e libertador que é no fundo o que traz a morte  vista pelos filósofos do Inconsciente (bem superficiais em relação, por exemplo, aos níveis de consciência estudados pela Psicologia moderna transpessoal) ou de certo tipo de Budismo, num regresso ao Não-Ser e que tem uma avatarização, aparentemente e assim entendida, mais cristã no soneto final Na Mão de Deus, mas que deve ser vista dentro da realização  de Deus por  Antero como Justiça, e liberdade, e não um ser pessoal, assim se compreendendo até melhor a sua morte voluntária.
 Oiçamos então o poema que se segue a esse Elogio da Morte, a Contemplação:

«Sonho de olhos abertos, caminhando 
Não entre as formas já e as aparências, 
Mas vendo a face imóvel das essências, 
Entre ideias e espíritos pairando... 

Que é o mundo ante mim? Fumo ondeando, 
Visões sem ser, fragmentos de existências... 
Uma névoa de enganos e impotências… 
Sobre vácuo insondável rastejando... 

E dentre a névoa e a sombra universais 
Só me chega um murmúrio, feito de ais... 
É a queixa, o profundíssimo gemido 

Das coisas, que procuram cegamente 
Na sua noite e dolorosamente 
Outra luz, outro fim só pressentido...» 



Realçaremos numa hermenêutica simples e espiritual, a rica expressão inicial de sonhar de olhos abertos e caminhando entre essências, ideias e espíritos.

Este "sonhar de olhos abertos" tanto aponta para o sonhar no qual estamos conscientes e lúcidos do que sonhamos ou vemos, como ainda para um acto imaginativo, em que de olhos abertos sonha ou visualiza-se caminhando por entre ideias e espíritos.

Antero tem a franqueza de não falar que é uma visão clarividente e assim podemos concluir que a descrição dele corresponderá em grande parte ao que ele pensa e crê e assim dá-nos uma visão do mundo subtil intensa e sentida mas que, embora com uma alma ou psique de grande espacialidade e compaixão e bem aberta ao universal e ao infinito,  ele não consegue alcançar bem ou para tal nível desenvolver ou despertar os órgãos de uma verdadeira contemplação. Deste modo a descrição dada do Além e do mundo espiritual tem as suas limitações, derivando das suas leituras e tendências, experiências e configuração psicocorporal e logo do seu difícil caminho e demanda.

A visão que nos oferece então é algo morta e pessimista e tendo por base um vácuo insondável, a que se sobrepõe um mundo de névoa e sombra do qual só lhe chegam os gemidos das coisas e seres que procuram outra luz e fim, contemplando ele mais alto as faces imóveis das essências por entre ideias e espíritos pairando.                                               
Antero algo dantesco no olhar de Columbano Bordalo Pinheiro

Que filosofias e autores, que leituras e conhecimentos estão por detrás desta trindade que paira acima do vácuo e do gemido do mundo, é certamente difícil de determinar com segurança, possivelmente os filósofos gregos, nomeadamente Sócrates e Platão, mas também já as suas leituras mais espirituais, sendo valiosa esta trindade com as essências, que Antero vê como imóveis e fixas (e que na minha visão não o serão), atribuindo depois o movimento de pairar às ideias e aos espíritos, aqui acertando e no fundo mencionando a existência da Alma do Mundo, que refere por vezes na sua obra e que corresponde também ao hoje denominado campo unificado de energia, que Antero também intui e deduz das experiências de magnetismo e transmissão de pensamento em que participou ou conheceu.

É claro que o verbo pairar aplicado às ideias e aos espíritos não será o mais rigoroso, pois o dinamismo intrínseco (aliás bem valorizado nas Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX) dos espíritos individuais fora de corpos físicos não os reduz a pairarem, notando-se assim uma certa visão do Além fruto de uma justaposição ou compromisso entre a dissolução no Não-Ser e um provavelmente relativo pairar dos espíritos por algum tempo ou fase.

Não poderemos dizer que foi feliz a escolha contemplativa de Antero, embora seja a sua sofrida e ansiosamente vivida e demandada. Seria melhor outra contemplação do mundo espiritual, mais luminosa e mais interactiva ou unitiva e em que estivesse mais clarividente e com o coração flamejante e em comunhão maior e mais dialogante com os espíritos. Mas mesmo assim a sua grande alma de compaixão e de solidariedade e de aspiração à liberdade e à justiça e logo ao amor, ao bem e à felicidade surgem nessas coisa ou seres «que procuram cegamente/ Na sua noite e dolorosamente/, Outra luz, outro fim só pressentido...» 
Anote-se que os sonetos seguintes são todos bem significativos no desvendamento da busca ansiosa de Antero, estando intitulados Lacrimae rerum e Redempção, referindo em carta a Carolina Michaelis de 1885 que neles está expresso o «psicodinamismo ou panpsiquismo» que ele descobrira reger tanto os seres como a Natureza, e que os faz encaminhar para o Bem e a liberdade moral.

Possamos nós em comunhão com Antero de Quental e com os demais espíritos luminosos demandarmos, menos cegamente ou mais clarividentemente, a Luz, a Divindade o Bem...

Visão dos mundo espirituais pintada por "Bô Yin Râ, escritor" .

domingo, 12 de março de 2017

Giordano Bruno, Dos Furores Heróicos, no jardim e zimbório da Estrela.

 

Lermos um bom livro, ainda é do que melhor se pode fazer num Domingo. No meu caso, hoje e em parte, no jardim da Estrela, espaço paradisíaco que alberga uma evocação de Antero de Quental e patos conviviais, um aberto coreto e dois lagos refrescante, além de flores, arbustos e de algumas grandes árvores que aqui encontram protecção....
O livro que estivemos a ler e a meditar é de Giordano Bruno, Dos Furores Heróicos, na edição bilingue franco-italiana da Les Belles Lettres, dado à luz em 1954, numa cuidada edição e tradução anotada de Paul-Henri Michel.
«Tal como acto da vontade que tende para o Bem não tem termo, assim é infinito o acto de cognição que tende para a Verdade» 
«O corpo não é o local da alma porque a alma não está no corpo localmente, mas como forma intrínseca e extrinsecamente como formadora... O corpo está portanto na alma, a alma na mente, a mente ou é Deus, ou é um Deus, como diz Plotino. E assim como por essência está em Deus, que é a sua vida, semelhantemente, pela operação intelectual e pelo acto de vontade consequente, relaciona-se com a sua luz e o seu fim beatífico» 

Que luzinha se terá acendido lá em cima das nuvens no céu ou no campo unificado de energia-informação-mente, sinalizando que em Portugal alguém está a ler com studium aquela magnífica obra, tão sábia e profunda na abordagem em diálogo das relações do corpo, alma e espírito, nomeadamente nas suas potencias de vontade, conhecimento e amor, que constituem o caminho espiritual, publicada pela 1ª vez em Paris, em 1585, numa das mais belas e luminosas sínteses do Humanismo no Renascimento?
E Giordano Bruno, tão perseguido na Terra (1548-1600), que terá ele sentido do meu agrado ou amor, esforço ou visão? Um leve sorriso? Onde? Lá ou cá, ou no espaço tempo do aqui e agora do coração?
Giordano Bruno foi um erasmiano e leu muito Marsilio Ficino, nomeadamente as suas traduções de Platão e Plotino e Jâmblico e Pitágoras, que cita com frequência... 

Um belo livro e da mais elevada espiritualidade que bem merecia ser traduzido em português e entrar mais no zimbório da grande Alma Portuguesa, tão aberta ao Universal e ao Infinito, ao Bem e à Verdade, valores que Giordano Bruno cultivou com grande coragem, pioneirismo e profundidade ...
«Pois que eu desfraldei as asas ao belo desejo/ Quando mais sob os meus pés descubro o ar// mais ofereço ao vento a minha plumagem rápida/ e menosprezo o mundo e para o céu me envio.///
E nem o fim trágico do filho de Dédalo/ faz com que eu retorne, antes mais me elevo./Que ele caiu morto na terra bem me recordo:/ Mas que vida se equiparará à morte minha?///
A voz do meu coração através do ar sinto [que frase maravilhosa...)
Onde me levas, temerário? desce
Pois raro é sem dor muito ardimento (ou audácia)///
Não temer, respondo eu, a alta ruína.
Fende seguro as nuvens, e morre contente;
Se o céu a tal ilustre morte nos destina.»
Este poema, da Prima parte, Dialogo III, revelou-se profético quanto ao seu destino e morte... 
Vale, Giordano, Amore!