terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dalila Pereira da Costa, "Encontro na Noite". Leitura comentada por Pedro Teixeira da Mota

No fim deste texto está um vídeo, realizado a 28-II-2017, no qual leio e comento algumas páginas de um dos livros da Dalila Pereira da Costa, o Encontro na Noite, respeitante ao Anjo, à reminiscência, nomeadamente de vidas anteriores, e ao mundo subtil, e ainda a serras sagradas tais como Sintra e Marão...
Um livro bastante confessional, em que ela transcreve por palavras, que tentou serem o mais precisas possível, o que vivenciou obscura e interiormente em sonhos ou visões e que nos é assim transmitido o mais transparentemente possível.
Partilha as intuições ou os diálogos que teve com o seu Anjo, ou ainda com o seu Eu absoluto, para o qual é preciso um ultrapassar do ego, do mundo e do tempo e mostra-nos como sentiu em si as correntezas energéticas que lhe permitiram vivenciar os estados expandidos de consciência e unitivos.
Por vezes era uma velha que a guiava, outras era Nossa Senhora quem ela via, brotando das árvores e da terra para o céu em mil chamas e torres, impulsionando-a nessa elevação. 
Contudo é a demanda do Anjo, que é o Amado, quem está no cerne da obra, e que num  encontro na noite, ao abraçá-la, lhe rasga no peito a fenda por onde entra o Amor.
Quantos místicos não sentiram este abrir e expandir do peito seja nos encontros com outros seres afins, ou nas suas meditações e estados unitivos?
Todavia a dimensão e o ser do Anjo que a  Dalila intui ou sente não é o clássico Anjo da Guarda, fiel e perene companheiro, mas um ser mutável, talvez mesmo diferentes Anjos que podem surgir da Natureza, das profundezas da Terra ou do mais alto do Céu. Aliás nas suas outras obras dá-nos ainda outras compreensões e visões, admitindo por vezes que o Anjo seja o Eu absoluto nosso, ou em nós...
Sendo a Dalila um ser de grande sensibilidade e amor, a junção do conhecimento e amor, que perenemente foi proposta como via e meta do Caminho, é realizada por vários modos de gnose e uma delas são as suas peregrinações pelo lado invisível das cidades e dos campos, seja encontrando as reminiscências ou os extractos históricos que eles contém, seja penetrando rumo aos níveis primordiais e centrais da Terra e assumindo capacidades de superação das convenções psico-físicas que regem a nossa vivência do tempo e o espaço na vida normal terrena e permitindo-lhe por isso aceder as experiências energéticas ou intuições conectadas com estados anteriores (ou incarnações) a esta vida actual terrena. 
Como sabemos os sonhos são grandes fontes de conhecimento e são mesmo para alguns transcrições de experiências noutras dimensões de vida. Dalila diz-nos lapidarmente: «os sonhos são a nossa grande reminiscência: um de novo entrar no mundo perdido. Um de novo possuir o nosso ser imortal. Aí se conhece, reconhece, o que estava só esquecido, o que tínhamos perdido». 
E tendo em conta os seus sonhos de casas e cidades recorrentes e tão ricos de pormenores e sentimentos, escreverá ainda: «Então aí pelos sonhos, é onde se aclara e exalta toda a nossa anamnése, se vê que as casas onde vivemos são assim um outro nosso corpo. Porque elas aí surgem, não como coisas estranhas e mortas, mas nossos verdadeiros corpos vivos, aí lembrados, aí de novo reassumidos por uma noite.» Ora a sua casa, onde tantas vezes dialoguei belamente com ela, tinha algo desse ambiente e sabor histórico...
Pormenor da sala de entrada na casa da Dalila, em 2009.
Dalila admite assim como que "revivenciamentos" de instantes de outras vivas em sonhos e que «essas repetições serão a experiência da nossa imortalidade» e assim  «vivemos na cadeia ancestral uma vida una, sem solução de continuidade», deste modo alertando-nos para tentarmos sentir mais poderosamente a continuidade de consciência tanto entre sonhos e vigília, como entre esta vida e as possíveis outras, sem quebra de continuidade, como nos diz, nessa busca da anamnése, sobre a qual se interroga também lapidarmente:«O que contém em si, revela ou encobre, a palavra reminiscência? A que plano inominável do Ser ela se refere ou pertence?», respondendo logo em seguida e de um modo talvez pouco esperado: «Sobe e surge do centro do mundo./ A ela vem agarrada toda a ganga da Vida.»  Ganga que presumimos serem as imagens instáveis do plano astral por onde passarão as imagens das reminiscências. 
O livro contém outras imagens ou injunções iniciáticas, belas e poderosas:
«Danças de mão verdes e de voltas de faúlhas»
«Virgem, põe o meu coração sobre o teu»
«Espiraliza-te no teu ser - e sobre o teu centro, ergue-te».

Realizo a 3-III, no Espaço Salitre-Amaro em Lisboa, uma conferência onde tentarei evocar e partilhar algumas das suas linhas de força espirituais femininas e iniciáticas.
E partilho uma das belas imagens que a Dalila nos deixou, quando eu e a Sandra Pinheiro a visitamos e entrevistamos, em 2009, na sala da biblioteca da sua casa, na Av. 5 de Outubro 444, Porto...


                     

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Da Inquisição e dos livros proibidos, da manipulação e do discernimento.

No âmbito das Comemorações do Terceiro Centenário do Mosteiro e Palácio de Mafra realizar-se-á uma conversa acerca dos Livros Proibidos na Biblioteca de Mafra, com a directora da biblioteca Teresa Amaral e os investigadores José Medeiros e Pedro Teixeira da Mota, no dia 24-II, pelas 17:30. A entrada é livre, na sala Diana. 
Tentaremos cingir o que caracteriza mais especificamente a Biblioteca de Mafra, as obras que ela contém e em especial as que foram as proibidas pela Censura Inquisitorial e os Índices papais, e porque razões, das quais podemos destacar no séc. XVI as de heresia,  ligadas à Reforma protestante ou ainda as doutrinas demasiado livres e irenistas dos Humanistas (tais como o nosso Damião de Goes e seu mestre Erasmo),  as pertencentes às artes mágicas e ciências ocultas, as que eram criticas dos defeitos dos religiosos ou da vida religiosa, as consideradas  "lascivas e desonestas" e as que provinham da mística menos ortodoxa, a mais ardente ou quietista, ou mesmo dos alumbrados e beatas (ainda no século XX, desde Frei Luís de Granada a Juan de Avila e a S. Teresa de Jesus, a serem atacados fortemente por Alvaro Huerga), já de certo modo desvalorizavam as cerimónias e a oração vocal e privilegiavam a oração mental e a ligação mais simples e directa com o Divino. 
Tentaremos mostrar assim um pouco a riqueza substancial desta belíssima Biblioteca trazendo ao de cima  de alguns dos seus núcleos os diversos tipos de interditos que sobre eles desceram, alguns riscando-os, o caso de vários autos da compilação intitulada Obras de Devoção de Gil Vicente (sendo na reedição de 1586  suprimido sete deles), ou encobrindo-os com tiras de papel, de modo a que a leitura se tornasse difícil ou impossível... 
A maior parte desses livros proibidos contudo ganhou nova vida nesta biblioteca de mosteiro protector, pois foram preservados das destruições a que poderiam estar sujeitos se andassem ao ar livre da circulação pública, algo que a Inquisição e o Desembargo do Paço ou, depois de 1768, a Real Mesa Censória tentavam evitar a fim de defender a fé e a doutrina da Igreja e não "causar escândalo aos fiéis".
    Assim devemos dar graças a D. João V e aos que pela Europa fora compraram tanta obra rara e preciosa e que chegou aos nossos dias depois de terem servido  mesmo para um ou outro frade mais curioso ou inquiridor (no bom sentido)  se deliciasse ao ter acesso a mais extensas ou profundas visões da Realidade que aquelas limitadas pelas determinações do que então se considerava o Santo Ofício...
      A sucessão dos Índices de Livros Proibidos em Portugal foi sobretudo grande no séc. XVI, com o de 1547 (onde além dos autores protestantes, realcemos como proibidos Cornélio Agripa, Lefévre d'Etaples e Erasmo, cuja edição conimbricense dos Colóquios, suavizados por Juán Fernández, foi logo abrangida), de 1551 (com 459 livros), o de 1559 (muito forte contra os protestantes, obras de alquimia, geomancia, quiromancia, magia), 1561 (1100 obras), 1564 (onde já aparece a Oração de S. Cebrião, e o Livro de Sortes, que deve ser o perdido de Jorge Ferreira de Vasconcelos...), 1581 (A Utopia de Thomas More, recebe a honra, e há mais censura de obras portuguesas, nomeadamente as de João de Barros, Bernardim Ribeiro, Gaspar de Leão, Jorge Ferreira de Vasconcelos, etc.) e 1597 ( a Monarquia de Dante e vários livros de Erasmo, por exemplo). 
Posteriormente, o Índice de 1624, muito extenso e que além dos autores proibidos, incluía as partes de obras de autores a serem expurgados, tais como Garcia de Resende, Sá de Miranda, António Ferreira,  Chiado, será a baliza durante muitos anos, até surgir com o marquês de Pombal a Real Mesa Censória em 1768, que exercerá a censura, com pequenas alterações de forma, até 1822, quando, por fim, demos graças a Deus, as Cortes Constitucionais reconhecem a Liberdade de Imprensa..
A propósito desta iniciativa resolvi fazer hoje 21 de Fevereiro 2017 um pequeno discurso ou oratio a partir da temática em causa e sobretudo sobre a Inquisição, a censura dos livros,  a demanda da verdade, as seitas e manipulações, o Caminho espiritual nos nossos tempos, o Espírito, a Unidade das Religiões...
Uma singela aproximação improvisada sobre  temas profundos e sempre actuais, bem desafiantes do nosso melhor ser e comunhão com a Verdade e o seu Campo unificado ou místico que nos cobre de suas asas, qual Anjo da Guarda ou Arcanjo de Portugal, a quem saudamos...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dia dos Namorados, do Amor, da Alma-Gémea...

O Amor é o Espírito fluindo luminosamente no arco-íris do campo unificado de consciência e energia dos seres... 
Neste dia dos Namorados, no fundo um dia mais consagrado ao Amor, que tanto falta, não entre as pessoas mas no mundo político e internacional,  talvez possamos reflectir um pouco sobre a mítica vivência  das alma-gémeas e como ela, sendo uma realidade ideal ou quem sabe mesmo primordial,  pode ser construída ou alcançada por duas pessoas e que qualquer namoro ou relação pode chegar a tal resultado, e que ela é mesmo o protótipo de qualquer namoro: atingir-se um tal estado de amor e complementaridade que daí nascem aprofundamentos da sensibilidade, do coração e de comunhões de unidade, donde brotam a vários níveis descobertas interiores maravilhosas e prole luminosa, por vezes mesmo ínclita e excelsa.
A Alma-gémea, apesar da sua celestial origem mítica, provinda em termos da literatura e da filosofia da Antiguidade, dada por Sócrates e Aristófanes, segundo Platão, com as limitações ou condicionalismos da época, no Banquete, é ainda hoje um desafio, uma demanda, uma obra perfeita em aberto: ao encontrar-nos  com quem sentimos, pelo olhar intuitivo, pelo diálogo, pelo tacto e pela meditação, que as profundidades, faces e desejos das nossa almas podem ter muitos momentos de grande comunhão e afinidade e que há capacidade de sacrifício ou dádiva recíproca, e mais possibilidade de mais desabrochar das nossas capacidades e missões eventuais, então damos as mãos, interligamos as almas e avançamos pela vida a fora e a dentro, a fim de actualizar e manifestar esse Amor potencial que quer tornar-se maior, imenso, fundo e iluminante, religando-se ao Divino, e assim frutificar e contribuir para história da evolução da Humanidade seja dando filhos e filhas, seja obras, contributos, descobertas, harmonizações e abnegações.
Que essa caminhada de corações e mãos aprofundados e dadas tenha a certo momento merecido das Religiões formas de perenização e santificação deve-nos fazer lembrar que um compromisso assumido perante Deus e o mundo espiritual reforça a verticalização e a cosmicização da demanda relacional e estimula-nos a trabalhar para que, nos momentos de desencontro, adversidade,  cansaço e dúvida, casados ou não pela religiões (já que a ligação sacralizante pode ser feito sem elas), tenhamos a virtude de não perdermos de vista a essência espiritual e psíquica própria, a recíproca e a que nos une (de base e gerada por tantos fios e osmoses), e que nos projectará certamente ainda para outros estados futuros mais gnósticos, felizes ou luminosos.
Podemos pensar que a tentativa de dois seres de se tornarem Almas-gémeas será o desiderato mais elevado dum namoro ou de casamento ou relação, pois se dois espíritos dotados de corpos anímicos e físicos com tanta diversidade conseguirem harmonizar em si e entre eles as suas forças anímicas convergentemente em muito, e se receberem apoios  seja de pais, mestres ou amigos, ou espíritos da natureza,  Anjos ou da própria Divindade, então gerarão visões interiores iluminantes e estados de Unidade maravilhosos que consubstanciam a noção de alma-gémea, sem dúvida um psicomorfismo (ideia-força-imagem-energia) muito valioso e que devemos equacionar sempre, pois por ele o nosso corpo espiritual é reassumido a dois e à Unidade Divina, tanto Feminina e Masculina como Infinita e supra-dualidade, é religado...
Talvez possamos ver e dizer ainda que algumas pessoas pensaram e viveram como se a sua Alma-gémea fosse a do pai ou a mãe, tal o amor e identidade que sentiam com eles. Outras, nos sábios e justos mestres ou mestras encontraram o estímulo ao amor e ao estado de unificação e, portanto, tiveram nesses mestres as suas almas- gémeas, ou por elas se foram preparando para alcançarem o Amor Divino. Mas a maior parte das pessoas procura é na carne da sua carne, no amor do seu coração, encontrar a contra-parte com quem possam construir um lar, dos lares, expressão de origem latina e que correspondia aos deuses ou espíritos dos antepassados e das casas, no tempo dos Romanos, preservadores dos laços de amor perenes.
Na imensa continuidade da história humana, os laços de família são significativos e por eles se transmitem desejos, capacidades, realizações e assim quando dois seres se encontram pela primeira vez são muitas as gerações de seres que se aproximam também, primeiro de longe, apenas por curiosidade mas depois podem verdadeiramente bordejar os ombros e as conversas, e quem sabe segredar as palavras ditadas em cartas ou em diálogos amorosos ou inspirar nos sonhos e meditações...
Não somos nem estamos sós....
O nosso espírito (ou o coração espiritual) constantemente tem o seu comprimento de onda, a sua modelação de frequência, na qual podem comungar ou participar os que estão nessa medida qualitativa da alma. Seja antepassados, guias, artistas, mestres e anjos ou ainda uma camada ou nível do Campo unificado ondulante de vibrações e informações...
Vivemos todos entretecidos num vasto campo unificado de consciência energia, com os sub-campos familiares, profissionais, de estudos, de religiões, de aspirações, de desejos, de utopias e portanto o namoro entre dois seres é bem mais vasto e frutífero do que se pensa. E, de igual modo, o abraço..
Quando abraçamos fazê-mo-lo não só fisicamente, mas também psiquicamente, no que estamos a sentir e a pensar e, logo, no corpo espiritual, de tal forma que há certos abraços que nos fazem abraçar a humanidade e o Cosmos de modos bem fortes e significativos.
Pouca gente tem consciência do que emana ou se expande, subtil ou invisivelmente, quando se abraça ou beija... 
Saibamos melhorar estes níveis e irradiar mais beneficamente para todo o Universo...
Já quanto à ideia, tão difícil de nos certificarmos, da existência da Alma-gémea desde o momento original, cósmico, antes da queda nos corpos, explanada por Platão e trabalhada depois por  outros filósofos e mestres, presente em várias tradições no mito ou memória do andrógino, teremos de nos socorrer de textos que falem de tal e ouvirmos relatos de seres que acharam que o seu amor era ou tinha adquirido essa qualidade, sem nos esquecermos mesmo que o próprio Cristianismo na sua simples apresentação matrimonial acaba por selar tal união na eternidade quando adverte "que o que Deus uniu não o separe o humano", união esta que tanto pode ser a que acontece na cerimónia matrimonial, como também a que brota da afinidade atractiva forte e recíproca que não deve ser desperdiçada e, finalmente, para um cristão gnóstico platonizante, ou um iniciado em tal mistério, a união que realiza finalmente a ânsia imemorial de reunião das almas-gémeas primordiais.
Embora tenhamos também de Jesus a resposta, acerca da questão com quem viveria uma mulher que tivera vários maridos, com outra pergunta: "se não sabiam que no mundo espiritual não há maridos e mulheres"? 
Talvez isto aponte que para Jesus o casamento não teria a indissolubilidade que adquiriu depois como sacramento pois seria mais a da afinidade de almas livres, quem sabe guiadas pelo Espírito Santo imprevisível, como gostava de o caracterizar o Agostinho da Silva. Um dinamismo que faz com que as pessoas não matem ou limitem o espírito pela letra do contrato, mas fazendo-as também estarem bem atentas à Voz da Consciência, tão enaltecida por Antero de Quental na suas imortais cartas aos amigos, para não se deixarem desviar do Caminho da Verdade e do Bem.
Assim a relação matrimonial de duas pessoas que se amam mas que nada sabem ou crêem de Almas-gémeas tem contudo esse potencial sempre latente, se elas sentem e aceitam que o compromisso é para frutificar, para gerar aprofundamento luminoso e revelador e plenificante e libertador.
A Alma-gémea existe então em cada um de nós tanto dentro como potencial, como fora de nós em algumas pessoas, ou numa só pessoa, que ao encontrarmos e conhecermos permitirá iniciar-se o processo adaptativo, transmutador e criativo, o Caminho para a a plena unificação, a Grande Obra alquímica, a redescoberta e fruição do Fogo do Amor Primordial.
Sê Amor, ama, arde, comunga...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A ideia de Deus, ou da Divindade, em si e em nós.

Na meditação na aurora deste Domingo 12-II-2017 cingi um pouco mais a entrada no coração, no silêncio, e a sensação do Graal no coração, nomeadamente na aspiração a que a Divindade se manifeste mais em mim, e que era importante termos mais consciência de algumas ideias importantes, tal a de Deus, e que vivem ou perpassam por nós semi-inconscientemente ou seja, derivadas ou influenciadas pela mentalidade colectiva que nos chega e forma ou deforma pela educação e informação...
-  Senhor Pedro, qual é para si a ideia de Deus?
- Deus, ou se quisermos e talvez melhor, a Divindade, tem múltiplos níveis e faces, desde Consciência e Energia ao Feminino e Masculino, infinitos mesmo poderemos dizer, mas os que nos interessam mais são aqueles a que poderemos ter acesso, ou deveremos aceder, conhecer, amar e adorar, ou por eles com o Divino nos ligarmos ou iluminarmos. 
E eles são os seguintes, principalmente: 
A Divindade como a origem de todos os Cosmos e seres, ou seja, a Fonte de energia, de luz, de vida. 
A Divindade como Espírito primordial individual e fonte emanante dos espíritos individuais, das centelhas luminosas que cada ser é.
A Divindade como coração do nosso coração, o Ser do ser, a base e fundo da alma e a qual devemos conseguir ressuscitar, reanimar em nós como luz, presença, voz da consciência, chama de amor, beatitude e bem-aventurança.
A Divindade enquanto Espírito Santo (bastante desenvolvida em Portugal e Brasil, embora mais na vivência e rito), Anima mundi e Campo unificado de energia informação, a qual nos pode inspirar ou à qual que podemos ter acesso, e que alguns seres mais desenvolvidos podem também intensificar em nós.
A Divindade solar, a manifestação divina que o Sol é e que tem inclusive o seu Logos solar ou Senhor solar e a multidão de Anjos, Arcanjos e outros Espíritos celestiais que participam connosco na aventura deste sistema solar.
A Divindade como centro atractivo e bússola para a nossa caminhada em vida, na morte e na vida após o desprendimento do corpo físico, em unidade seja com os nossos antepassados, guias e mestres das religiões, seja com os Anjos, Arcanjos e outros espíritos já em ligação mais consciente e plena com a Divindade.
A Divindade como Beleza, Grandiosidade e Harmonia no Cosmos e na Terra no que mais amamos, mesmo que no mais singelo ou simples e muito notória nos cinco elementos da natureza e nas virtudes medicinais de quase tudo... 
Ora o nosso trabalho é conseguirmos mais ligação e impregnação com Ela, seja pelo nosso íntimo que a procura, sintoniza, adora e acolhe no silêncio, na contemplação, na meditação e na oração, quaisquer que sejam os nomes ou imagens que Dela fazemos ou utilizamos, ou as palavras com que oramos, seja pela nossa vida justa, harmoniosa e divina e que vai fazendo crescer o nosso corpo de luz, glória ou espiritual...
Tem a Divindade um plano divino, temos nós nesta vida alguns objectivos e logo planos ?
Parece-nos que sim. E devemos então meditar e tentar trabalhar o que sentimos, ou intuímos como sendo o que a Divindade irradia e deseja, se é que esta palavra se pode aplicar ao Ser dos seres e fonte de tudo. E que deverá ser amor, sabedoria, justiça, harmonia, partilha, ou seja, as qualidades ou virtudes que encontramos mais valiosas na mentalidade humana e mais enaltecidas nas religiões e tradições, morais e filosofias.
Quanto à missão de cada um, devemos sentir e meditar diariamente o que fizemos e o que podemos fazer, o que somos e o que podemos ser e em que é que podemos contribuir com a nossa especificidade para o avanço mais harmonioso e feliz da Humanidade visível e invisível da Terra, com todos os seus seres e eco-sistemas. E passar à acção as intuições e imagens recebidas....
E ir conseguindo encontrar pessoas afins e assim, em diálogo, em rede e no Campo unificado de energia informação, multiplicarem-se as energias sacralizantes e harmonizantes que invocamos e desenvolvermos...
Viva a Divindade em nós e em todo o Universo.
Valete!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Os livros são escadas para os céus!

       Todos nós que lemos e escrevemos e amamos a sabedoria que os livros geram sabemos que eles nos podem fazer crescer e logo melhor viver. Logo, tendemos a juntar muitos livros e com eles erguermos como que escadas para o céu e que, embora não as vejamos na sua subtileza de luzes clarificadoras e ascensionais contidas neles ou que se geraram em nós, por vezes nos próprios livros as vemos, sobretudo quando eles são empilhados de encontro a alguma parede e fora da disposição mais horizontal e burguesa das prateleiras ocidentais, transmitindo-nos uma força ascensional bem maior, ainda que mais difícil de ser consultada ou manuseada em cada um dos livros que serve de degrau ao outro.
Mas assim é a vida, pois dia após dias nos vamos elevando na escada que nos conduz ao céu, e o passado suporta o presente e a ele devemos estar agradecidos e é pena não termos bem a noção ou consciência do grau de força e verdade que cada livro e seu autor, ou pessoa ou coisa, ou pensamento ou escrito nos transmitiu ou transmitirá e assim facilita ou impulsiona a nossa ordenação do labirinto evolutivo rumo à Verdade, melhorando-se o ambiente planetário.
Raras são as pessoas que conseguem discernir a velocidade de evolução ou de ascensão ou, que seja, medirem a força elevatória da ascensão que estão realizando e nem se dão conta que a vida é um contra-relógio, algo que viram ou ouviram falar sobretudo no ciclismo mas que não assumem nos percursos das suas vidas onde tal corrida contra o tempo é fundamental: estamos a cumprir os nossos desejos, projectos, deveres, talentos, capacidades, potencialidades missões? 
Não teremos nós um tempo de vida, não está ele diariamente diminuindo e não estamos nós ou retrocedendo, ou parados ou avançando mais ou menos acertada e rapidamente nas linhas de força ou subcampos que marcarão para sempre na história da Humanidade o nosso contributo, rumo à meta divina que tem uma etapa pelo menos visível no seu fim e que é a morte terrena?
Mas que meta final é essa, para além da morte, perguntarão alguns?
Pois é chegar a ela com o máximo de despertar e consciência e harmonia colorida no corpo espiritual que fomos talhando, sempre que assumimos e intensificamos a sua existência em pensamentos, palavras ou actos abnegados, sábios, amorosos, corajosos. Ou que fomos desabrochando nas leituras de livros que nos impressionaram, que nos fizeram chorar, que nos transmitiram impulsões através das quais melhoramos, agimos ou ardemos mais de amor por Deus, pela justiça, pela fraternidade.
Meta que então se revelará como união com a Sabedoria Divina e o seu corpo místico dos seres que mais a amam e cultivam, ou que mais próximos de nós se encontram por múltiplas afinidades numa continuidade de elos luminosos fabulosa...
Sabermos então sacudir ou soltar pesos desnecessários ou estados mais negativos psíquicos e fazer de todos os momentos e acontecimentos degraus da escada para o céu é uma sabedoria bem especial que os livros empilhados a um canto da casa nos comunicam metaforica e energeticamente. 
E assim quando chegares ao fim da subida do teu dia antes de te deixares adormecer, com tantos minutos consumidos e tantos momentos de luz gerados, arde como uma estrela cadente, agradecendo em amor à Divindade e ao teu Anjo ou aos livros, autores e seres que te auxiliaram, ou que ajudaste, na subida em espiral mundial.
                                
Colunas ou escadas para o Céu, o estudo como bem-aventurança, rumo às perfeições...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Fevereiro e suas efemérides do encontro de Portugal com o Oriente.

1-II. De Ormuz, em 1546, Luís de Falcão escreve para D. João de Castro, em Goa: «Aleixo de Carvalho me disse da parte de Vossa Senhoria, que lhe mandasse Alexandre (Magno) em persa: lá lho mando, ainda que as escrituras destes mouros, tenho-as por menos autênticas das nossas. Nesse livro vão outras histórias já fora as de Alexandre, as quais me parece que folgara mais com elas o senhor D. Fernando (o filho adolescente), ou qualquer outro homem do mundo, como eu, que Vossa Senhoria». A vida e proezas de Alexandre da Macedónia, que tentou uma certa síntese civilizacional com o Oriente, e que para alguns os portugueses continuavam, na sua redacção persa influenciada pelo sufismo (Sikandar Nama E Bara), ainda por cima todos iluminados e belamente encadernados (como se podem ver no museu Gulbenkian em Lisboa), eram muito apreciados pelos portugueses mais cultos, tal D. João de Castro. Frei Gaspar de S. Bernardino conta-nos como em Ormuz viu «junto ao paço um Mouro velho, estar lendo as histórias de Alexandre Magno e Dario, reis que foram da Pérsia, as quais explicava com tanta eficácia e espírito, que umas vezes parecia estar desafiando todo o mundo, e outras falava com tanta brandura que nos persuadimos representar alguma desastrada ou magoada morte, ao que se juntava tanta gente, como se naquilo estivera a salvação das almas». Era a velha tradição dos rapsodos gregos, trovadores, ceguinhos... Em Orfação, narra-nos Fernão Lopes Castanheda, o velho governador considerou os portugueses fadados para dominar o mundo, pois não eram inferiores aos soldados de Alexandre Magno, «surpreso inquiriu Afonso Albuquerque do mouro como se familiarizou com os feitos do grande macedónico, ao que ele respondeu tirando do seio um livro escrito em língua persa e encadernado em volume carmesim, com que presenteou o capitão português, que teve a oferta em alta estima e a houve por bom prognóstico dos seus desígnios sobre Ormuz».
   Ao fim de 18 dias de governação, em 1835, o Prefeito da Índia, por carta régia de D. Pedro duque de Bragança, o goês Bernardo Peres da Silva, é impedido de exercer o seu cargo por uma revolta dirigida pelo governador militar e refugia-se em Bombaim, donde tentou ainda repor a legalidade, mas em vão. Regressará em 1838 a Lisboa como deputado por Margão, frustrando--se assim a merecida governação da Índia portuguesa por um goês, médico, participante nas lutas liberais da metrópole, em parte devido às suas medidas de reforma demasiado rápidas. No Brasil, publicara um Diálogo entre um Doutor em Filosofia e um Português na Índia sobre a Constituição Política de Portugal.

                               
O sábio orientalista Guilherme de Vasconcellos Abreu, desde 1877 o primeiro Professor de Sânscrito do Curso Superior de Letras de Lisboa, liberta-se do corpo físico neste dia 1 de Fevereiro 1907. Nascera em 1842 em Coimbra e foi militar. Os seus estudos orientalistas são valiosos, nomeadamente os que mostram as influências da tradição indiana em Gil Vicente e Camões, e na literatura europeia. Antero de Quental, seu condiscípulo em Coimbra, com ele aprendeu algumas luzes. Escreveu um testemunho disso no In Memoriam de Antero. Mestre de ambos, e do comum amigo Fernando Leal, fora Michelet, de quem aquele último traduziu Os Soldados da Revolução, autor cujas obras e lendas da humanidade e de ideais ecuménicos embalavam as almas ardentes dos universitários de aspirações puras ou generosas. Em Paris com Abel Bergaigne, e depois em Munique com Martinho Haug, aprofundara os estudos sânscritos e a cultura oriental. Dirá: «Buda, Buddha, desperto, iluminado, sábio, é um Khristós, unjido da graça, um inspirado, um salvador».

2-II. D. Afonso Henriques abre os fundamentos da igreja real do mosteiro de Alcobaça em 1148, segundo os princípios geomânticos. No Oriente os portugueses encontrarão centenas de grandes monumentos, duma antiguidade e harmonia notáveis, que descreverão maravilhados. Na Índia, mosaico de povos religiosos e artísticos por excelência, as artes sacralizam toda a forma e relação de vida.
  O Âdil Khân de Bijapor, ao atacar o norte de Goa durante algum tempo em 1546, forçou D. João de Castro a replicar e a explicar-se ao rei: «Eu fui dissimulando e sofrendo estas afrontas, enquanto o tempo e a razão o consentiam; considerando que vossa alteza não me elegera para vir a levantar e fazer guerras à Índia; mas para a governar e manter em paz e justiça: não para a vir encher de roubos e morte de homens; senão para a limpar de vícios, e maus costumes». Vitorioso, as pazes são assinadas neste dia em 1546.
   Damão é conquistada sem grande resistência pelos portugueses comandados pelo vice-rei D. Constantino de Bragança em 1559. Com Baçaim constituirá a Província do Norte, e será fortaleza avançada de Goa em relação a gujarates, mogóis e maratas, mas também, como outras conquistas territoriais, fonte de dispersão das tropas que, se na altura abundavam e exigiam batalhas ou rapinas, depois minguarão e serão insuficientes. Mas manter-se-á na trilogia mais duradoura de Goa, Damão e Diu.
  Nasce em Bardez, em 1844, José Gerson da Cunha, médico, orientalista e numismata, membro de mais de vinte academias científicas, estando o seu busto na Sociedade Asiática de Florença. Na sua Introdução ao Estudo da Ciência da Vida criticará a instituição do dote no casamento: «Os homens em geral dão-se muito pouco ao estudo das qualidades, e prendas do espírito duma menina; se ela tem dinheiro, a varinha mágica dos tempos modernos, a sua mão é por todos procurada; mas se ela é boa e contudo pobre, ninguém se importa dela».


   Neste dia 2 de Fevereiro, Sri Ram Chandraji, de Fatehgarh, na Índia, nasce em 1873 e será um grande investigador das regiões subtis do espírito humano, elevando-se da consciência no coração às regiões da mente e do Absoluto. Para ele, a libertação (da ignorância e da identificação ao corpo, ao ego e à vida terrena) é possível nesta vida para qualquer pessoa moderada, ou seja, em quem se tenham acalmado as tendências inquietas, e que medite diariamente, de preferência com concentração na zona do coração, desenvolvendo o amor pelo Absoluto ou por Deus, seja com forma (Deus pessoal, Ishtadevata), seja sem forma (nirguna). A sua linhagem espiritual, que realça muito a meditação no amor a Deus no coração e que tem muitas afinidades com muitos espirituais ocidentais, continua até aos nossos dias, com várias ramificações, e ainda conheci um deles na Índia, de grande profundidade espiritual, mobilidade psíquica e doçura humana

3-II. O vice-rei D. Francisco de Almeida com 20 velas capitaneia a famosa batalha junto a Diu, em 1509, contra mais de 200 barcos e tropas rumes do sultão do Cairo e do Samorim de Calecut, destroçando as hostes adversárias e vingando a morte do seu filho D. Lourenço, conforme prometera ao sabê-lo: «os que mataram o frango hão-de comer o galo, ou pagá-lo». A importância desta destruição da armada turca foi grande e durante anos o oceano Índico ficou mais facilmente controlado pelos portugueses. D. Francisco de Almeida, sempre ponderado, preferiu não atacar Diu e aceitar antes a paz, tomando no regresso Cochim, e Chaul, onde seu filho perdera a vida, com o heroísmo de acometer a armada mais poderosa do Samorim e de, já com as pernas decepadas por um tiro de bombarda, fazer-se amarrar ao mastro até morrer, quando o seu barco ficara preso numa estaca da barra, por onde os outros já tinham escapado rumo a Goa a dar a notícia ao pai. As bandeiras dos Mamelucos e o estandarte do Sultão do Cairo virão para a charola do castelo convento da Ordem de Cristo em Tomar, onde suspiraram talvez pelos ventos quentes e perfumados do Oriente...
   Nasce no Bihar em 1931 Swami Jyotir Maya Ananda, e aos 22 anos tomará os votos de renúncia do seu mestre Sivananda, de Rishikesh. A partir de 1962 estará em Porto Rico e na Califórnia ensinando yoga: «No começo das práticas, um Yogi imagina-se fora do seu corpo. Imagina que pode ver o seu corpo como um seixo dum rio. Quando a sua meditação se torna intensa, vê que a sua mente é independente do seu corpo sem exercitar o poder de imaginação. Diz-se então que atingiu o estado da grande consciência incorporal. Esta prática reduz a identificação com o corpo, e permite ao yogi desenvolver a sua visão intuicional do Eu».

4-II. Bula de Paulo IV, em 1558, eleva a diocese de Goa a arcebispado, mas tal custa a módica quantia de 320 mil réis. Roma foi um sorvedouro tremendo da riqueza portuguesa durante muito tempo.
                                       
S. João de Brito é degolado neste dia 4 de Fvereiro em 1693, em Oriyur, Malabar (actual estado de Tamil Nadu), por continuar a pregar onde tinha sido perseguido e proibido, terminando assim aos 46 anos uma carreira intensa de abnegação, devoção e evangelização, sobretudo das castas mais pobres, com adopção dos usos dos monges indianos, sendo por isso um pandara swami, dos quais o iniciador fora o P. Baltazar da Costa. Apresentou-se vestido desse modo em Évora e no Porto, quando veio a Portugal em 1686 por três anos, recusando então ficar como preceptor dos dois filhos de D. Pedro II. Convertendo e administrando os sacramentos a milhares de indianos, S. João de Brito sentiu-se no local certo apesar das dificuldades e foi quase como predestinado ao sacrifício que avançou para a morte. Como vaticinara, o seu corpo decepado foi pasto de animais selvagens. S. João de Brito foi um dos muitos jesuítas abnegados, que desinteressados do poder e da influência nas cortes, a normal acusação feita à Companhia de Jesus, preferiu ajudar e inspirar os pescadores e a gente humilde indiana. Ainda hoje Oryiur é um local de peregrinação festiva. O seu desejo de evitar a morte dos seus cristãos por quem tanto trabalhara, e a sua frontalidade perante um déspota, e os milhares de catequizados, grangearam-lhe uma popularidade que se conservou pelos séculos a fora.

5-II. O P. Gaspar da Cruz, natural de Évora, morre em Setúbal em 1570. Partira para Goa em 1548, em 1554 funda o convento dominicano de Malaca e é um dos primeiros missionários no Cambodja, mas perante o insucesso (só um convertido), muda-se para Cantão, onde encontra a mesma indiferença. Passa por Macau rumo a Malaca e depois vai 12 anos para Ormuz. Regressa a Portugal e escreve o Tratado das Cousas da China e de Ormuz, valioso pelas descrições geográficas e antropológicas, mas de pouca compreensão religiosa. O prólogo, apesar das dificuldades de conversão que provara, é ainda uma apologia e expectação do V Império: «Para que as gentes fossem acabadas de chamar ao evangelho como convinha antes do acabamento do dito mundo, segundo S. Paulo e segundo Cristo por S. Mateus, ordenou Deus os descobrimentos que fizeram os castelhanos das terras novas, e o que fizeram os Portugueses da navegação da Índia, por meio dos quais Deus por seus servos tem convertido novamente muitas gentes à fé, e vai convertendo e converterá até que vindo o enchimento das gentes, Israel sendo salvo pela conversão, se faça dos judeus e dos gentios um rebanho, e assim haja de todos um curral de uma santa e católica igreja, e um pastor como diz Cristo». As várias ordens missionárias tentaram-no e fizeram de Malaca um centro de irradiação. Em 1583, Lopo Cardoso e João Madeira seguem para o Cambodja, e o primeiro visitante a falar da beleza monumental de Angkor será Frei António da Madalena, transmitindo-a a Diogo de Couto, que a descreve na Década VI, só publicada no século XX pelo notável historiador Charles Boxer.
   O beato frei Gonçalo Garçia, natural de Baçaim, luso-indiano, comerciante e depois franciscano, segue o exemplo de Jesus à risca e é crucificado com outros 25 mártires em Nagasaki no Japão em 1597, a primeira perseguição sangrenta, vindo a serem canonizados em 1627. A Igreja no Japão florescera, dadas certas afinidades entre o código de cavalaria japonês (bushido) e o ocidental, entre o amor da Natureza de ambos os povos e até entre as suas espiritualidades, mas devido às lutas e receios políticos, à destruição dos templos e à inveja de certos bonzos, será decretada a expulsão e extermínio do cristianismo em 1614, sobrevivendo ainda assim alguns milhares de católicos apoiados com grandes dificuldades por padres clandestinos.
    O vice-rei marquês de Távora em 1754 escreve ao rei elogiando o capitão de mar-e-guerra Ismail Khân, sinal de alguma vitalidade integradora da sociedade luso-indiana: «É tão notório o préstimo e valor com que Ismalcan tem servido a Vossa Majestade desde que o meu antecessor no ano de 1746 o admitiu com os seus cipaios ao serviço deste Estado trazendo a sua família a viver em Goa, e se tem havido com tanta prontidão e intrepidez em todas as acções, em que desde então se tem achado por mar, e por terra, que ninguém ignora, e todos reconhecem o seu merecimento. Ele tem concorrido muito para se fazer respeitada como hoje está, a armada ligeira deste Estado».
                               
6-II. Aldo Manuzio, o príncipe dos impressores humanistas, que exerceu o seu vero santo ofício em Veneza de 1494 a 1515, em casa de quem Erasmo esteve instalado quando compôs os seus Adágios, utilizando a sua magnífica biblioteca e com ele aprendendo o rigor da revisão de provas, desprende-se do corpo em 1515, depois de ter escrito ao papa, na dedicatória da edição crítica de Platão de 1513, o elogio de D. Manuel I, no Oriente «vencedor de povos e feliz por lhes dar leis e vias para chegarem ao Olimpo».
  O P. Henrique Henriques, um dos mais entusiastas missionários, num apostolado de 56 anos na costa da Pescaria e em Comorim, em que mostrou convincentemente até a yogis e brâmanes o valor do cristianismo, parte para o mundo invisível em 1600, lamentado por mouros, hindus e cristãos. Fundara um hospital e uma casa de Misericórdia em Punicale, «de que cuidava como notável curioso de medicina», no dizer do médico do vice-rei D. Constantino de Bragança, o espanhol Dimas Bosque. As suas cartas mostram uma rara apreciação dos sábios yogis indianos. Imprimiu em Punicale, com caracteres em língua tamul e as matrizes feitas por um irmão jesuíta, uma Vida de Santos (Flos Sanctorum), que jaz com outros tesouros antigos na mítica (sobretudo quanto a manuscritos menos ortodoxos) Biblioteca Vaticana.

                                        
  Nasce em Lisboa o mestre dos pregadores e arauto utópico do V Império cristão, o P. António Vieira, sendo baptizado na mesma igreja e pia que S. António, junto à Sé de Lisboa, neste dia, em 1608. Génio precoce, pregador e embaixador notável, abnegado defensor dos índios do Brasil e dos judeus, perseguido pela Inquisição, os seus sermões e cartas ficarão como obras primas da língua portuguesa. Numa datada de 1672, ao marquês de Gouveia, dirá: «Verdadeiramente não sou dos mais orgulhosos no desejo dos fins, posto que se representem muito úteis; só sinto que na nossa terra se não trate tão prontamente dos meios, como pede a necessidade: nem sou tão amigo de companhia, que em muitas matérias não tenha por mais verdadeira máxima: antes só, que bem acompanhado. Isto é o que sempre me dói, e grito quanto posso contra os que nos querem ligados contra a Índia, onde é melhor ter um inimigo que três, todos desiguais na fé, e maiores no poder». A sua fina ironia, aliada a uma heróica defesa dos mais fracos, inspirou muitos missionários. Fernando Pessoa, que se considerou na sua linhagem de profetas desse sonho ou utopia de uma humanidade mais luminosa, consagra-o na Mensagem...
     Nasce em Goa neste dia 6 de Fevereiro de 1874 Francisco Xavier Paulino Dias. Formou-se na Escola Médica mas foi antes professor, jornalista e sobretudo pensador e poeta. Morrerá contudo cedo com 45 anos. Dirigiu com Adolfo Costa a Revista da Índia e colaborou muito no jornal Índia Portuguesa, deixando poucas obras publicadas e algumas inéditas. Vicente de Bragança Cunha, valorizará muito Paulino Dias, pondo-o ao nível de Fernando Leal, Floriano Barreto e Nascimento de Mendonça, como os mais notáveis poetas de Goa. E dirá: «Talento de alta intuição artística, Paulino Dias sabia colorir com mestria as cenas que feriam a sua sensibilidade de artista. É vasta a sua obra inédita - Nirvana (poema), Suria Warta, (poesias) e Jangal, (prosas)», e publicou dele em 1920 alguns versos inéditos do Nirvana no jornal que dirigia Índia Portuguesa.

                                      
7-II. Thomas More nasce em 1478 (ou 1477) em Londres. Estudante em Oxónia e Londres, amigo de Erasmo e de John Colet, humanista profundo, Chanceler do reino, deixou uma vasta obra onde se destacam a Vida de Pico della Mirandola, a Apologia, a Utopia (que tanto estimulou pensadores e missionários a procurarem uma religião e uma vida social mais humana e harmoniosa), e os Epigramas: «Uma tempestade se ergueu; o barco abanava; / Os marinheiros receiam perder as suas vidas. / Os nossos pecados, os nossos pecados, desalentados gritam, / causaram este fatal destino!” / Um monge, acontecia, era da tripulação, / e atraídos rodeiam-no para se confessarem. / Ainda assim o desassossegado barco abana, / e ainda receiam as suas vidas perderem-se. / Um marinheiro, mais ladino que os outros / berra: Com os nossos pecados ainda está ele oprimido; lancemos fora este monge que os carrega a eles todos, e então já de todo bem cruzará a tempestade. / Dito e feito; como um só / deitaram o biltre borda fora; / E agora a casca perante a ventania / foge com casco luminoso e fácil navegação. / Aprende portanto a conhecer o peso do pecado, / com o qual um barco dificilmente navegará». Em Portugal, em 2006, o prof. José Vitorino de Pina Martins e o prof. Aires Augusto Nascimento publicaram uma excelente tradução da Utopia, nas edições da Fundação Gulbenkian, hoje já numa significativa terceira impressão.
   D. Aleixo de Meneses, guerreiro corajoso e vitorioso em África e, durante dois vice-reinados, no Oriente, nomeado por D. João III aio de D. Sebastião, dos 5 aos 14 anos, tentou tornar mais prudente o impetuoso príncipe, como aliás procuraram outros sábios, tais D. Jerónimo Osório e o humanista Arias Montano, este vindo a Portugal pouco tempo antes da funesta empresa de Alcácer Kibir. Mas o mestre-pai de D. Sebastião, escolhido pelo cardeal D. Henrique, foi o jesuíta Luís da Câmara que muito contribuiu para os ideais de cruzada anti-infiel que animavam o rei Desejado, apesar da oposição do velho aio que dizia que o conselheiro «devia ser nem religioso nem secular, mas um clérigo fidalgo, douto e virtuoso, de nobres e honrados pensamentos que inclinasse o menino ao que dentro dos limites da nobreza e da cristandade se podia permitir a um príncipe mancebo e para este efeito não servia religiosos... e nas matérias da guerra, ou as ignoravam os Regulares, ou só lhes conheciam o fim de vencer, e ser vencidos, sem saberem medir as causas e meios por onde se chega aqueles fins». Por ordem de D. Sebastião, D. Aleixo foi obrigado a casar segunda vez aos 75 anos com D. Luísa de Noronha, de quem teve ainda três filhos e duas filhas, enquanto o rei era incapaz de se dar e criar a descendência que garantisse a continuidade do reino. Liberta-se deste mundo em 1569, sem assistir fisicamente ao desaparecimento do seu pupilo e ao descalabro do reino.
     João Lobo da Silveira anota no seu O Esplendor do Oriente. Resenha das famílias mais ilustres da Índia: «D. António de Noronha, frade da Ordem de S. Francisco de Goa. Nomeado bispo de Halicarnasso, senhor de Darzó, Cundaim e Pondá, brigadeiro da Legião de Pondá, homem de grande valor militar, morreu repentinamente em 7 de Fevereiro de 1778». Assim terminava com 58 anos um os mais notáveis sacerdotes-guerreiros e diplomatas do século XVIII na Índia. Eduardo Noronha biografou-o e recentemente a Fundação do Oriente editou alguns dos seus escritos graças à notável investigação de Carmen M. radulet, nomeadamente em 1995 o seu Diário dos sucessos da viagem que fez do Reino de Portugal para a cidade de Goa, de 1773.
8-II. No mosteiro das Mónicas, em Goa, sucede em 1636 um caso extraordinário: a imagem, algo tosca, de Jesus crucificado anima-se, e como consta do auto «abrira os olhos por muitas vezes e a boca como quem queria falar, e correra-lhe o sangue dos sinais da coroa de espinhos». É grande o fervor dos que presenciam tal fenómeno. Frei Diogo de S. Ana, antigo missionário da Pérsia e administrador do convento, escreverá a Verdadeira Relação do muito grande e portentoso milagre que aconteceu no Santo Crucifixo do coro da Igreja das freiras do Mosteiro da S. Mónica de Goa. O que diria Alexandre Herculano deste caso, que foi aduzido por Frei Serafim de Freitas na sua Defensão Do Justo Império Asiático dos Portugueses contra Grócio em 1621, e que foi comparado ao de Ourique? Se consultarmos as crónicas desse ano, encontramos o incêndio do convento na noite do Natal. E acabara de sair duma renhida luta com o vice-rei D. Miguel de Noronha, conde de Linhares, que procurava limitar a riqueza que ali abundava e tanto faltava ao Estado Português da Índia, que ele por vários modos disciplinava. Mas quem pode hoje ajuízar de tais fenómenos?

                                
 9-II. O imperador mogol Akbar, tendo partido numa expedição a Cabul, actal Ageganistão,em 1581 e levando consigo o Padre jesuíta, enviado pelos portugueses de Goa, Monserrate, pede a este que lhe mostre num mapa Portugal e a Índia, e discutem assuntos como o celibato do clero e a identidade do Espírito Santo, pela noite a fora. No regresso à então denominada Roma do Oriente, Goa, o P. Monserrate explicou que Akbar clamava pertencer à seita dos místicos do Islão, dos sufis e que o mais lhe importava era contemplar Deus e repetir os seus nomes. Em 1582, Akbar deixa mesmo de seguir as prescrições e doutrinas da sharia, a religião muçulmana no seu aspecto exterior de lei, e na base do Zoroastrismo, Jainismo, Sufismo e Hinduísmo funda a Din Ilahi, a Visão ou Fé Divina, embrião da tomada de consciência precoce da religião universal, ou não fosse ele um imperador de grande visão e que terá como membros uma centena de seus próximos e que transmitirá entre outros ensinamentos um dos ditos mais apreciados: «Deus deve ser adorado com todo o tipo de adoração». O seu neto Dara Shikoh, o filho mais velho de Shah Jahan, o construtor do Taj Mahal, uma das oito maravilhas do mundo, continuará a sua visão e forças anímicas dando à luz algumas obras pioneiras de traduções e de religiões comparadas, e de unidade delas, e através do persa e do latim chegarão à Europa no final do séc. XVIII.
  Pedro Teixeira sai de Goa em 1604 rumo à Europa pelo golfo Pérsico. Acabara a sua segunda estadia no Oriente e resolve vir por terra para conhecer melhor a Pérsia, cuja história o atrai (e sobre a qual escreverá), e para experimentar a fraternidade humana acima das raças e religiões, como confirma na Relaciones da viagem publicada em Antuérpia, então um dos outros centros europeus mais internacionais: «O que ali se nos oferece é com bom ânimo e vontade sincera, que nisto de oferecer liberalmente do pão que come a quem quer que passe ou chegue, é o árabe preferido a muitas nações do mundo, se não o misturaram com outros abusos que o turvam de todo». Registará muitos aspectos orientais e iranianos curiosos e ainda hoje actuais: «E por ser tarde foi toda a cáfila descarregar num khan ou caravansará, que assim se chama a uma casa para recolhimento das cáfilas e gente passageira. São como um claustro de qualquer dos nossos mosteiros... divididos em cubículos, cada qual com sua porta e chave e lugar para cozinhar». Apreciará ainda as mulheres de Bagodá, «mui formosas e em geral com belos olhos».
                               

   D. Maria Lencastre de Guadalupe, filha do duque de Aveiro e casada com um nobre espanhol, tendo derramado ao longo da sua vida fortunas em obras de caridade, deixa no testamento inúmeros bens para sustento do esforço missionário e sai deste palco terreno em 1715, jazendo o seu corpo na capela-mor do Mosteiro de Guadalupe, local de peregrinação ibérica.

10-II. O marquês de Pombal envia em 1774 ao governador do Estado Português na Índia, D. José da Câmara, um ofício para se cumprir a provisão régia sobre a extinção do tribunal da Inquisição, que até à data instaurara mais de 16.000 processos e organizara cerca duma centena dos espectáculos sinistros dos autos-de-fé. O respirar de alívio será de curta duração, pois em 1782 retomará a sua actividade, embora como fera mais amansada, só terminando o seu roncar em 1812. Mas, por outro lado, o marquês de Pombal criara a Real Mesa Censória, tanto para controlar a reacção eclesiástica, como para reprimir a divulgação dos pensadores mais modernos da Europa, como Descartes e outros, e quando D. Maria subiu ao trono, das prisões de Pombal saíram mais de 800 pessoas.
  Uma reunião revolucionária em Goa na Fortaleza de Tiracol, tenta que o prefeito, ou governador do Estado Português na Índia, Bernardo Peres, regresse de Bombaim e retome as suas funções, em 1835, mas será reprimida violentamente pelo governador militar, o coronel Fortunato de Melo, ficando algumas cabeças decepadas espetadas em paus.

11-II. É impressa em Lisboa em 1554 por Germão Galhardo (um impressor francês radicado em Portugal) a Cartilha que Contém Brevemente o que todo o Cristão deve Aprender para a sua Salvação, em tamil e português. É a primeira obra impressa numa língua indiana e, merecidamente, em Lisboa. Dois anos mais tarde chega a Goa a primeira tipografia e em Outubro de 1556 saem as Conclusiones de Lógica e Filosofia, nas quais presidiu o P. António Quadros, sustentando-as os irmãos Francisco Cabral e Manuel Teixeira, a primeira obra impressa em caracteres móveis no Oriente, da responsabilidade do irmão impressor João de Bustamante, de Toledo, seguindo-se uma Doutrina Cristã que fez o mestre Francisco Xavier. Relembre-se que o processo usado na Índia, ou como ainda hoje se vê em alguns mosteiros do Tibete ou templos hindus, era o xilográfico (que subsistiu também na Europa para gravuras ou xilografias), com a impressão em papel ou tecido a partir dos moldes lavrados ou cavados na madeira.
  Quem se distinguiu também na Índia neste amor dos livros foi o P. Henrique Henriques, um dos mais entusiastas missionários, e que num apostolado de 56 anos na costa da Pescaria e em Comorim, mostrou convincentemente até a yogis e brâmanes o valor do cristianismo e e da arte médica que dominava caridosamente, partindo para o mundo invisível neste dia em 1600, lamentado por mouros, hindus e cristãos. As suas cartas mostram uma rara apreciação dos sábios yogis indianos e imprimiu em Punicale, com caracteres em língua tamul e as matrizes feitas por um irmão jesuíta, uma Vida de Santos (Flos Sanctorum), que jaz com outros tesouros antigos na mítica Biblioteca Vaticana à espera de virem à merecida e ansiada luz...
                             
   O Padre Leonardo Paes nasce em 1662, em Gaudalim. Descendente dos Reis de Sargapur, virá ser o primeiro goês a obter o grau de licenciado em Lei canónica pela Universidade de Coimbra, tendo sido proto-notário apostólico e notário de Sua Santidade. Escreveu um valioso e, ao defender a supremacia da casta chardó (guerreira), polémico, Prontuário das Definições Índicas deduzidas..., em que inclui histórias muito valiosas que entretecem o real heróico e o lendário miraculoso, e onde disserta sobre as Gentes, Reis e castas da Índia, o vaticínio da Sibila encontrado na serra de Sintra respeitante à ligação Oriente-Ocidente, os Reis Magos, os apóstolos S. Tomé e S. Francisco Xavier, etc. A dado trecho explica algumas regras da indagação da verdade: «Todo o tratado se reputa jocoso, quando carece de prefácio, como se colhe do que disse Saloizano: Aristóteles, sol da Filosofia, entre outros documentos que nos deixou, foi, que antes que tratássemos de alguma faculdade, primeiro examinássemos nela alguns requisitos: o primeiro se a causa de que se trata tem a sua excelência; segundo que coisa seja o que se trata; terceiro quais sejam as suas propriedades; quarto qual seja o seu préstimo». No cap. III do Tratado V, intitulado tão valiosamente: Das Árvores, Tanques, & Rios que a gente Indiana venera, escreve:«Todos os Pagodes da Índia têm ao seu redor certas árvores, que os gentios veneram, por se dizer, que os seus Deuses habitam nelas. Também adoram os gentios uma árvore chamada Pimpol, por se dizer, que é Rei das mais árvores, e ser também figura do Brama, Deus da Gentilidade. Adoram mais uma planta chamada Tislassy, por se dizer ser esta árvore, do pátio dos seus Deuses, e por esta razão todos os Gentios da terra firme têm em seus pátios as ditas árvores, e em todas as manhãs lhe fazem sua veneração».

                        
                                                             Moinuddin Chishti
12-II. Abandona o corpo físico na cidade indiana de Ajmer, em 1239, o mestre sufi Muin Uddin, ou Moinuddin Chishti, ainda hoje muito venerado, sobretudo nesta data (que corresponde a 6 e 7 de Rajab) em que o seu túmulo (Maqbara) se torna um imã para milhares de devotos e peregrinos, mas onde toda a atenção às apalpadelas furtivas é pouca, pois assim o senti quando fiz as deambulações à volta do corpo santo completamente comprimido com os outros peregrinos, neste santuário inegavelmente cheio de grande amor místico e de devoção. bem intensificados pelas expressões anímicas e visuais, cantos, música e danças sufis...
O P. Gonçalo da Silveira em carta de 1560 relata como foi a chegada à ilha de Moçambique e como se fez uma procissão e missa cantada na ermida de Nossa Senhora do Baluarte, com «muita música de charamelas, flautas, violas de arco e cantores». A idílica ilha de Moçambique foi considerada por Frei Gaspar de S. Bernardino como «refúgio, e amparo dos navegantes da carreira da Índia».
   Informados por uma cingalesa, talvez com o peito a arfar no choli (blusa) e no sari envolvente, pois o amor natural ou religioso a tudo ajuda, do modo de ataque à fortaleza de Cota que se preparava por Raju, o filho do rei de Ceilão, os portugueses comandados por D. Pedro de Ataíde resistem vitoriosos em 1566 a dois ataques e, ao ser criada uma outra frente de batalha pelo capitão de Manar Jorge de Melo, as tropas de Raju são obrigadas a retirar.
  Pedro Teixeira, ao fim de um ano de viagem por terra de Goa chega neste dia a Alepo, Síria, em 1605, no séc. XXI tão tragicamente destruída pela maldade humana. Partirá depois para Antuérpia, onde imprime em 1610 as Relaciones, que incluem três relações ou narrações do que conhecera por experiência ou estudo: a da viagem, a da origem e descendência dos Reis da Pérsia, esta com consulta de obras e fontes locais, e a do reino de Ormuz. A sua cultura histórica, etimológica e bíblica é grande e permite-lhe descobrir constantes hipóteses explicativas das tradições que encontra.
                                
O milagre da imagem de Jesus crucificado no coro do mosteiro das Mónicas em Goa que se move, é presenciado neste dia pelas mais altas autoridades religiosas em 1636 e termina os seus quatro dias de animação, ficando transformada a sua rusticidade e imperfeição numa imagem talvez mais à semelhança e, ao ser contemplada, capaz de produzir alto estímulo e subtil influência.

                                 
                  Henrique Lopes de Mendonça pintado  por Columbano
   Nasce em Lisboa neste dia em 1856 Henrique Lopes Mendonça, oficial da Marinha, historiador, sócio da Academia das Ciências, chegando mesmo a Presidente em 1915 e autor de muitos contos, romances e estudos sobre a época de quinhentos, a Índia, a Marinha, a vida nacional. É dele e de 1890, A Portuguesa, com música de Alfredo Keil e que com o advento da República se tornou o Hino Nacional, tendo nascido portanto do opressivo e humilhante Ultimato de Inglaterra a Portugal, a propósito das terras e nações africanas. Nessa salutar reacção patriótica destacaram-se ainda Antero de Quental, que esteve à frente da Liga Patriótica do Norte e Fernando Leal, que já antecipando tal em 1884 escrevera, na esteira de Camilo Castelo Branco, as suas audazes críticas na obra Palmadas na Pança de John Bull, foguete de guerra offerecido a Camillo Castello Branco. Lopes Mendonça escreveu muitas peças de teatro representadas com grande sucesso na época e na minha meninice os seus romances históricos sobre os Descobrimentos e a Índia entusiasmavam-me. Viverá até 1931. Realçará nos seus estudos de historiografia naval a «missão secular da Marinha Portuguesa: revelar aos homens o planeta, abrir novos mercados ao comércio e novos horizontes à ciência».

13-II. O regimento de Diogo Lopes Sequeira dado pelo rei em 1508, para descobrir a costa oeste de S. Lourenço (Madasgar) e quaisquer terras até Malaca, é explícito no objectivo: assentar «paz e amizade... com o rei ou reis da terra».
   As rendas das terras dos templos hindus são atribuídas por Provisão ao colégio de S. Paulo dos jesuítas em 1545. Com o destruir dos templos e com esta medida matava-se toda a actividade cultural que se exercia ao lado deles e da qual dependiam muitas pessoas desde actores e cantores, a bailadeiras e sacerdotes.
    Com 95 anos de idade desencarna em Lisboa em 1734 o P. Rafael Bluteau, nascido em Londres, estudante em Paris, professor em Florença, mestre, pregador e académico em Portugal, onde vive os últimos cinquenta e pouco anos. Nas Primícias Evangélicas, diz: «Um dos actos da caridade mais gratos aos homens é dar-lhes alívio nos seus trabalhos; e este acto, é tão próprio da humanidade, que é uma quase diferença específica, que constitui o ser moral do homem. De modo que só se há-de julgar por homem, aquele que acode às misérias humanas. E quem deste exercício de piedade inumanamente se retira, não parece homem». No sermão a S. João de Deus, o P. Bluteau dirá: «que a união que se alcançará com Deus, é sempre consequência do desapego da terra; isso mesmo ensinaram já os platónicos dizendo que as almas dos defuntos voavam ao Céu, mas que não chegavam ao trono de Deus, senão depois de ter passado pelo centro de cada planeta para apurar-se nele de todas as imperfeições de maneira que deixavam na Lua as inconstâncias, em Mercúrio os enganos, em Vénus as lascívias, no Sol a ambição, em Marte as inimizades, em Saturno a inveja e nos restantes dos astros todos os mais defeitos». Um aviso correcto contra os paraísos ilusórios e as estagnações no Além.

                        
                                    Imagem de Agostinho da Silva, talvez nos anos 70...

«Para a vida posso dizer que vim importado, sendo a origem o céu das Ideias do velho Platão ou o vazio absoluto do Oriente, capazes até de serem dois aspectos do mesmo fundamental». Nasce no Porto em 1906 Agostinho da Silva, que sem nunca ter ido à Índia, escreveu, falou e viveu como um dos seus mestres, no Brasil e em Portugal. O círculo da vida era por ele quadrado pelos princípios das ordens monástico-militares, o culto franciscano do Espírito Santo, a ilha dos Amores de Camões e o V Império da cultura portuguesa do P. António Vieira e Fernando Pessoa. Escreveu acerca do Budismo e o Taoísmo, Swami Vivekananda e Ramakrishna, e lançou muitas ideias sobre os modos de se continuar os Descobrimentos, combatendo o infiel que está em cada ser pela incapacidade de se assumir a si próprio, e coroando como imperador a criança pura, a criatividade absoluta, para que se venham a unir os vários povos numa comunhão audaciosa e imprevisível.

14-II. Nuno da Cunha, governador na Índia, encontra-se no seu barco com Bahadur, sultão de Cambaia, junto a Diu, mas em ambiente de grandes intrigas e suspeitas de parte a parte. Este, ao regressar a terra, é acometido por alguns portugueses em batéis e morre no meio de refrega, com o capitão de Diu, Manuel de Sousa, em 1537. Da reacção contrária surgirão os grandes cercos de Diu que serão ocasião para muitos homens e mulheres entrarem nas páginas da história pelo seu comportamento destemido e abnegado, tais Isabel e Bárbara Fernandes, e Catarina Lopes.
                               
                                    Imagem do belo frontispício do Itinerário da Índia
    Em 1604 Frei Gaspar de S. Bernardino chega neste dia a Chipre, vindo de Goa, via Mombaça. O seu Itinerário da Índia é obra cheia de digressões históricas, geográficas e religiosas, sobretudo pelo facto de nascerem presencialmente. Os encontros com cristãos e portugueses e até eremitas islâmicos, ao longo do trajecto, iniciavam-se sempre com o abraçarem-se nos pés, tal a devoção e o júbilo sentido. Explica que o mito da sereia deve ter origem num tipo de peixe que lhe mostraram em Diu e «a meu ver se no mundo há sereias devem ser estas, ainda que é fábula e temeridade dizer que cantam. Digam os autores estrangeiros, o que quiserem acerca disto, que os segredos do mar e terra só a nação portuguesa nasceu no mundo para os saber, e descobrir (Eclesiastes c. 7)... Todo meu trabalho neste caminho, não era outro que procurar saber, se havia gente de outra espécie, ou feições diferentes das que todos temos, porque me lembrava de ter lido» tal em S. Agostinho, S. Jerónimo, Plínio, Pompónio Mela, as grandes autoridades. «Porém ao presente não sabemos que no mundo as possa haver, e cuide cada um que andei, e comuniquei com tanta variedade de gentes, que andou tantas províncias e reinos como eu, os quais jamais viram nem ouviram de que vissem homens diferentes de nós, em algum extremo notável». Foi à lagoa termal de Ginão perto de Ormuz, onde teve a sua primeira experiência ecuménica: «nela entramos cento e sete pessoas, das quais oito eram cristãos, os mais mouros e gentios. Aqui foi a primeira vez onde vi uns chamarem por Deus e Santa Maria, outros por Ali e Mafoma... nos quais não estive mais que seis credos, assim pela sua quentura grandíssima». Refere ainda que os Jainas «são tão compassivos de condição, que se o mar anda bravo, botam-lhe coisas de comer só a fim de que se abrande e amanse». Desfaz a dúvida dos padres da Igreja sobre quanto tempo demoraram os Reis magos da Babilónia a Belém: de caravana são apenas treze dias e não um ano. E apresenta a razão de ser da via islâmica, segundo eles, «como a de Moisés e Jesus eram muito rigorosas, Maomé veio para salvar o mundo».

15-II. A fortaleza de Malaca, comandada por D. Leonis Pereira, resiste, com as costumadas panelas de pólvora e à lançada, à última arremetida das tropas malaias do rei de Achém e dos seus aliados turcos, em 1567, depois dum mês de duelo de artilharia e escaramuças. Quando a armada de Achém chegou a Malaca, D. Leonis Pereira e outros militares treinavam-se num jogo de canas que não foi interrompido devido à calma do capitão, que mais tarde virá a notabilizar-se por essa mesma qualidade de auto-domínio, lastimavelmente ausente nos que se precipitam pelos seus desejos.
    Em Goa, o coronel Fortunato de Melo, que chefiara a revolta contra o prefeito Bernardo Peres em Janeiro 1835 (obrigado a refugiar-se em Bombaim e depois a governar apenas Damão e Diu), e que em seguida reprimira com mortes qualquer veleidade de o fazer regressar, acaba finalmente por ser preso em 1837 pela Junta Provisonal, desde há dois anos pouco exercendo as suas funções de governação. Só com a chegada do novo governador na Índia Simão de Sousa Tavares, no final do ano, é que a ordem é reposta, sendo ainda amnistiados os partidários de Bernardo Peres da Silva. Época e sociedade contemporânea e filha das lutas liberais, reflectia em tudo a sua progenitora e ainda a agudizava com os conflitos de castas e nações.

16-II. D. António de Noronha, sobrinho de Afonso de Albuquerque, aconselhado pelo capitão de mar indiano Timoja, um dos muitos e preciosos aliados e auxiliares dos portugueses no Oriente, toma em 1510, depois de ter derrotado os defensores turcos, a fortaleza de Pangim, às portas de Goa, enquanto Timoja e os seus conquistam outra, abrindo-se boas perspectivas para a rápida conquista daquela cidade, que pertencia ao soberano de Bijapor, pelas tropas de Afonso de Albuquerque.
   António Moniz Barreto, pouco depois da conquista de Damão capitaneada pelo vice-rei D. Constantino de Bragança, contra o aviso de serem necessários 2.000 mil homens para pacificar os arredores da cidade, contrapõe 500 e consegue derrotar mouros e abexins (mercenários etíopes) em rija batalha. Mas no governo do vice-rei seguinte, o de D. António de Noronha, rebelou-se contra este, intrigou para Lisboa e conseguiu que D. António fosse destituído, sendo ele nomeado governador da Índia entre os anos de 1573 e 1576, executando tal governo duma forma incompetente e fanática. No seu vice-reinado foi decapitado o octogenário D. Jorge de Castro, capitão de Chale e com longa folha de serviços, por se ter rendido, após prolongado cerco, ao Samorim, a rogos da sua jovem mulher, mas da confusa regência lisboeta virá mais tarde nova ordem, a de ser nomeado governador doutra fortaleza. Tanto Digo de Couto como Faria e Sousa, notáveis historiadores, reprovaram tais procedimentos e elogiaram D. António de Noronha

17-II. Oito moiros principais de Goa, em 1510, entregam rendidos as chaves e a bandeira da fortaleza de Goa a Afonso de Albuquerque. A ausência do Âdil Khân em luta com o rei de Vijayanagar, as profecias dum asceta yogi da conquista da cidade por um povo estrangeiro de terra distante e a pouca simpatia que os indianos tinham pelos muçulmanos terão contribuído para a entrega. Afonso de Albuquerque entrou assim triunfalmente e garantiu a protecção dos direitos e privilégios dos seus habitantes, nomeadamente das gãocarias, as comunidades agrícolas, reduzindo até os impostos. Goa iria substituir-se a Cochim como o centro do poder português e da síntese civilizacional que Albuquerque e outros sonharam.
    Para ser entregue, regressada a alma ao mundo espiritual, o corpo de Francisco Xavier às multidões da Índia, uma vez que o seu sonho da China se desfizera, o piloto Francisco de Aguiar, seu amigo íntimo, inicia o seu transporte por barco de Sanchoão para Malaca em 1553, onde fica alguns meses numa cova, antes de retomar viagem para Goa. Com a cal a não o destruir, tal corpo servirá como luva à mão invisível, se do santo, anjos ou Deus não o sabemos, para abençoar ao longo dos anos os que têm sabido aproximar-se de tal ícone com a fé que pode libertar energias e até remover as montanhas das dúvidas e moléstias.
   Nasce Gago Coutinho neste dia em 1869. Cientista, geógrafo, historiador, maçon, oficial da marinha, aviador da 1ª travessia do Atlântico Sul com Sacadura Cabral (e utilizando um sextante modificado e adaptado por si), viverá 90 anos e um dia. No folheto A Minha Viagem na Barca “Foz do Douro" do Brasil a Portugal afirma que a expansão portuguesa «dependeu de uma inteligente orientação, derivada daquela cooperação de cientistas e caravelistas, a que se deu o nome simbólico de Escola de Sagres. A qual também aproveitou ao próprio Colombo... Ah! Não me cega o nacionalismo. Mas entristece-me a falta geral de compreensão a respeito da natureza do esforço inteligente dos nossos Antepassados que, com tão escassos recursos, laboriosamente desbravaram Oceanos, revelando aos outros Povos as suas complicadas rotas, nem sempre costeiras nem directas, apesar do que alguns críticos afirmam... Um século se levou para ir da Madeira ao Oceano Pacífico».

18-II. S. Teotónio, primeiro prior do Convento da Santa Cruz em Coimbra, amigo e conselheiro de Afonso Henriques, a quem apoiou com as suas eficazes orações nos lances mais perigosos da sua vida, regressa à sua pátria espiritual em 1162, sendo canonizado a instâncias do seu discípulo real.
O nauta alemão Martim Behaim é armado cavaleiro, diante de todos os príncipes, cavaleiros e rainha, por D. João II, que lhe cinge a espada, D. Manuel que lhe calça a espora direita, Cristovão de Melo a esquerda, e o conde de Mascarenhas que lhe poz o morrião e lho armou, acolhendo-o cavaleiro D. João II, em 1486.
                             
Em Karmapur, Bengala, nasce neste dia 18, em 1836, Ramakrishna, um dos últimos grandes mestres da Índia, por muitos considerado um Avatar, uma manifestação maior da divindade. Sacerdote no templo de Dakshineswar, em Calcutá, cheio de espírito e alegria percorrerá os vários yogas e religiões para em todos encontrar, com nomes diferentes, a Divindade única. Dirá: «Há muitos que falam do conhecimento divino, mas permanecem ocupados em coisas inferiores como a casa, o dinheiro, a fama, os prazeres. Enquanto permanecerdes em baixo do monumento apenas vereis os transeuntes, os carros, as casas, mas quando subis ao cimo dele, contemplareis apenas o céu expandindo-se no infinito, e então não vos satisfareis com as pequenas coisas em baixo, que surgem como vermes... Quanto mais vos aproximardes de Deus, mais obtereis Paz, Paz, a Suprema Paz». A sua influência no reconhecimento da religião universal é importante, não só pela sua experiência, como pelos que, a partir dele, têm ora experimentado internamente, ora aprofundado as semelhanças e pontos comuns entre as várias religiões e tradições.

19-II. O P. Prancudo, tentando cristianizar o capitão de Surate em 1561, relata como de repente ele matou dez dos seus principais «e que saíra da fortaleza como doido, vendo que não tinha de quem se fiar pois os que o criaram lhe armavam traições para o matar. Esteve seis dias fora da fortaleza, todo rapado, até as sobrancelhas, dizendo que queria ser yogue».
    O vice-rei D. Francisco Coutinho, conde do Redondo, morre em 1564 numa aparente sincronia com o assassínios que autorizara ao capitão Domingos Mesquita: em tempo de paz afundar 24 barcos autorizados a navegar, matando mais de 2.000 pessoas cruelmente e provocando os protestos do Samorim. O vice-rei seguinte D. João de Mendonça fingiu prendê-lo, mas deu-lhe antes mercês, e tais barbaridades vieram a provocar o cerco de Cananor.
   O exército mogol de mais de 100.000 homens, ao fim de três meses de encarniçado cerco, neste dia em 1633, derrota os 300 portugueses de Hugli e os mil combatentes indianos. Hugli, o principal centro luso no golfo de Bengala, então no seu auge, contaria uns 10.000 cristãos, mas o seu apoio aos compatriotas piratas foi-lhe fatal. Em barcos escapam ainda alguns. Os sobreviventes caminharão até Agra e padecerão antes de serem aos poucos libertados pela acção dos jesuítas, na corte do imperador Shah Jahan há muitos anos. Uma lenda piedosa, ainda hoje vendida em livro na igreja de Bandel, junto a Hugli, conta como os elefantes que deviam espezinhar os padres se recusaram a fazê-lo, o que levou Shah Jahan a soltá-los, concedendo-lhes Bandel um ano depois. Ora como esta concessão é um facto histórico, senão soubéssemos quão convincentes eram os jesuítas nos seus pedidos e quão liberais também sabiam ser os soberanos da casa mogol (e aqui com a intervenção de Asaf Khân, sogro do imperador), permaneceria misteriosa a mudança de atitude de Shah Jahan.

20-II. D. Manuel concede em 1508 a todos os impressores as mesmas graças e privilégios que os dos cavaleiros da sua casa real, ainda que não tivessem armas, nem cavalos segundo as Ordenações.
    Alvará de 1581 proíbe sob graves penas os ritos públicos hindus, o que afasta ainda mais alguns indianos das terras de Goa. O ideal de um aprofundamento mútuo de culturas, religiões e civilizações, em parte até em sintonia com a perda da Independência de Portugal, ensombrava a a Grande Alma Portuguesa e os seus cavaleiros de Amor
   Parte de Nagasaki em 1582 a primeira embaixada do Japão ao Ocidente, composta de quatro jovens de 14 anos, sobrinhos e familiares dos dáimios de Bungo, Arima e Omura, no barco do capitão Inácio de Lima para, fazendo escalas demoradas em Macau, Cochim e Goa, só largarem daqui rumo à Europa, exactamente dois anos depois de terem deixado o Japão.
   No mar de Ormuz, numa das mais interessantes batalhas navais do Oriente, o capitão-mor dos galeões e comendador da Ordem de Cristo, Nuno Álvares Botelho, a maior figura naval do século XVII, em 1625, impõe-se sucessivamente à armada dos ingleses e holandeses. Em seguida envia um cartel de desafio aos generais que sobrevivem escondidos na enseada de Surate, para não piratearem e virem batalhar com ele. Aguarda fora da enseada, onde os seus barcos não podem entrar pelo maior calado, três dias, mas não haverá resposta dos generais atemorizados, que incapacitados de andar divididos no corso, retiram-se posteriormente, enquanto Nuno Álvares se lançava em luta contra outros barcos que chegavam.
     O notável investigador Joaquim Heliodoro Cunha Rivara, na Índia desde 1855 como secretário do Governo Geral («dizer sempre com lealdade e franqueza a minha opinião, e cumprir religiosamente as resoluções do governador»), renovador da historiografia goesa, autor do importante Ensaio histórico da língua concanim, no qual defende o seu uso, e de vasta obra histórica e bibliófila, morre em Braga em 1874. Vicente de Bragança Cunha, na Literatura Indo-Portuguesa. Figuras e Factos, elogiou-o assim:« Cunha Rivara revelou profundos conhecimentos da vida indiana. Inquiriu estudou as causas dos fenómenos políticos e sociais, e fez judiciosas considerações. Não houve com efeito assunto indiano - comunidades, concani, etc - que não fosse objecto de algum seu trabalho; a tudo consagrou momentos de estudo, a actividade espantosa do erudito Secretário do Governo Geral da Índia».
   Madhava Ashish, um escocês que se veio a formar em engenharia aeronáutica nasce neste dia 20, em Edimburgo, em 1920. Destacado na 2ª grande guerra para a Índia, veio mais tarde a conhecer o famoso mestre advaita Ramana Mahrishi e em seguida tornou-se um discípulo de um outro inglês que vivia na Índia, na busca espiritual, Krishna Prem (1898-1965). Prestou serviços relevantes à agricultura indiana, nomeadamente com publicações e experiências, e foi por isso condecorado pelo governo da Índia, em 1992. Escreveu alguns livros, com Krishna Prem, e sozinho, e depois da morte dele em 1965 dirigiu o seu Mirtola ashram, perto de Almora, tornado-o um modelo de auto-subsistência para a região e onde ainda o fui visitar e dialogar. Viveu até 1997. A sadhana deles foi muito especial, pois por um lado eram bhaktas, vaisnavas tradicionais, com culto a Khrisna e Radha e simultaneamente dedicavam-se aos mais especulativos estudos de teosofia e de cosmogénese e antropogénse de que os livros publicados dão provas, em especial O Homem medida de todas as coisas, na qual parafraseiam as míticas estâncias de Dyzam, tibetanas, reveladas pela fundadora da Teosofia, Helena Blavastky. 


21-II. O P. Gaspar Afonso morre em 1618 em Coimbra. Viajando para a Índia em 1596 viu-se obrigado pelas tempestades e doenças a fazer um périplo de três anos pelo Brasil, Antilhas e Cuba até regressar de novo a Portugal. Escreveu então a Relação da viagem e sucesso que teve a nau S. Francisco, em que ia por capitão Vasco da Fonseca, na armada que foi para a Índia no ano de 1596, incluída na História Trágico-Marítima, onde avulta o seu pendor de desasombrado naturalista: Os tubarões «andam sempre pelo mar acompanhados de uns peixes muito pintados, que chamam romeiros (não sei de que santos) salvo dos padroeiros das naus que vão pintados na proa, que é primeira coisa que eles visitam... muito mais alegre vista e mais nova nos deu a nós, e à boa parte do Colégio (oito jesuítas na nau) um dia uma nuvem descida sobre a água, de tal feição e postura de boca, pescoço e corpo, e com tal fervura ou sorvos de água para cima, que pus eu mui pouca culpa à ignorância daqueles que dizem, que vêm elas beber ao mar. E depois desta daí a alguns dias, navegando já para este reino, vimos no meio do oceano, bem perto da nossa nau, outras quatro ou cinco juntas da mesma figura e feição, e na mesma postura e ocupação de matar a sua sede». Sobre os colibris brasileiros não hesita, tanto mais que cita S. Basílio e S. Gregório, a favor das metamorfoses e ressurreições: «Vimos mais uns passarinhos, que depois de se enfadarem de ser borboletas, e de viver em tão baixo e tão imperfeito estado, com desejo de subir e valer, que até nos brutos parece que reina, se passam a outro mais alto, e mais perfeito, fazendo-se passarinhos muito lindos, e de cores muito louçãs, de que há muitos na nossa quinta, que no modo de voar, e tomar pouso não podem todavia encobrir quem foram em outro tempo»... As suas descrições do uso do tabaco, também chamado erva-santa, são pioneiras: «os quais canudinhos acessos por uma ponta, e metidos na boca, pela parte que estão acesos, estão chupando o fumo, reprimindo o fôlego quanto podem, para que o fumo tenha tempo para andar visitando, consolando e amezinhando todas as partes interiores». Mas confessa que apesar de tão louvado pelas suas virtudes salutares, um fumador cujo corpo foi aberto mostrou os pulmões como carvão. Entretanto nascera uma «celebérrima, e mui altercada questão... Se pode tomar-se este fumo antes de comungar ou dizer missa?».
    Bernardo Francisco da Costa, advogado de Margão, político e parlamentar, morre em 1893. Ao regressar a Goa fundara a 1ª tipografia particular e em Abril de 1859 o semanário O Ultramar, orgão dos brâmanes, respondendo-lhe em 1861 os chardós, a casta nobre dos guerreiros, com o semanário A Índia Portuguesa. Em 1908 será fundado O Heraldo o diário mais importante e que chegará até 1961. Grandes jornalistas se distinguirão, tal Leopoldo Cipriano da Gama, Luís de Meneses Bragança, Evágrio Jorge, António de Meneses e tantos mais. Segundo uma estimativa houve 189 jornais até 1956, e em 1961 saiam ainda cinco em língua portuguesa.

22-II. A nau comercial “Bretoa” de Bartolomeu Marchioni, Morelli, Fernão de Loronha e Francisco Mendes, parte de Lisboa em 1511, comandada por Cristóvão Pires para percorrer a costa do Brasil até ao Cabo Frio, o que fazem obedecendo a um cuidadoso regimento que proibia «ao mestre e a toda companha da dita nau que não faça nenhum mal nem dano à gente da terra», não se podendo trazer nem um dos «naturais da terra do dito Brasil que queira vir ao reino, porque se alguns que falecem, cuidam esses de lá que os matam para os comerem, segundo entre eles se costuma». Sobreviveu um diário.
  Natural de Coimbra, o P. Diogo de Carvalho, depois de 24 anos de abnegados trabalhos evangélicos no Oriente, clandestinos e arriscadíssimos desde a expulsão dos missionários do Japão (1613), falando perfeitamente o japonês, é caçado, convidado a abjurar da sua fé e, como se recusa, é lançado durante três dias no martírio das águas geladas, resistindo estoicamente com o fogo do seu amor, e morre em 1624 em Sendai, no Japão, onde hoje tem um belo monumento, no meio dum samurai e dum pobre, os que mais receptivos estiveram à mensagem evangélica e que neste sítio deram também a vida por uma fé estrangeira mas que os atraíra perfumada e entusiasticamente.
  Manuel da Laranjeira, autor dum estudo sobre o Nirvana, em que o considera, na linha do evolucionismo positivista, uma desadaptação psíquica e o compara ao êxtase dos místicos cristão, sofrendo de tuberculose, constata com lucidez: «O Nirvana era o repouso, a extinção. Que importa? O negativismo europeu conclui logo que devia ser o repouso da morte, a extinção da existência, em suma: o suicídio elevado à categoria de princípio dogmático duma doutrina moral». Mas acaba por não aguentar e suicida-se neste dia em 1912. Glosando Antero de Quental, considerou o budismo «um pessimismo coroado por uma cúpula de misticismo», pois «não diz que a felicidade é realizável. Mas diz que existe um caminho místico que conduz à libertação do ser. Vale o mesmo». Alma sensível, auto e hetero-limitou-se no positivismo da época, ainda hoje vivo em muitos cultores das ciências.

                                 
Tenzin Gyatso, o actual 14 º Dalai Lama é consagrado neste dia 22 de Fevereiro de 1940 no Trono de Ouro do Leão, no mosteiro de Potala, na capital do Tibete, Lhasa (o local dos deuses ou anjos), perante os representantes do Nepal, Butão, Inglaterra e China. Sir Basil Gould, o chefe da delegação britânica, conta «que a gravidade e a dignidade da criança (quatro anos e meio) nas horas intermináveis que duraram as bênçãos individuais, foram verdadeiramente emocionantes».

23-II. D. Gonçalo da Silveira nasce em Almeirim em 1526 e virá ser exemplar Provincial jesuíta de Goa três anos. Participando na expedição da tomada de Damão, foi o único dos padres que estava em jejum e pode celebrar a missa «oficiada com boa música, de vozes e de instrumentos por haver de tudo muito no exército, e acompanhada da salva de artilharia, com universal prazer e alvoroço da gente. Acabada a festa, vindo-se o P. Dom Gonçalo para o Vice-rei, Sua Senhoria com os olhos e a boca cheia de riso disse logo ali na presença dos fidalgos e cavaleiros que o acompanhavam, que pois somente ele se achara naquele dia para tomar conta com o divino sacrifício posse da mesquita de Mafamede por Jesus Cristo nosso Redentor, razão era que ficasse com ela a Companhia do mesmo Cristo Jesus». Sempre animado, em 1560 parte para missionar em Moçambique, a partir da bela ilha de Moçambique, mas será martirizado em Março de 1561.
   Aparição dum Cristo crucificado em 1619 no monte da Boa Vista em Goa. Erguida uma igreja e depois o Convento da S. Cruz dos Milagres, a Congregação do Oratório virá aí instalar-se. S. José Vaz, o principal missionário do Ceilão, formou-se neste convento.
Ofício do governador na Índia, Cunha e Meneses, ao rei em 1792: «Seria fácil provar a Vossa Ex.ª pelos livros da secretaria deste Estado que a piedade dos senhores reis de Portugal a respeito do tribunal da Inquisição produziu efeitos bem funestos, não só ao Estado, mas à mesma religião». Aponta ainda a soberba, a imprudência e a avareza, como responsáveis pela aniquilação do comércio, para além dos indianos terem a religião cristã por perseguidora e cruel, quando a igreja devia ser mãe piedosa.

                           
Pintura quinhentista de Pico e que foi do professor e co-fabulator José V. de Pina Martins

24-II. Pico della Mirandola, o anjo sábio da Renascença, um dos primeiros seres, com Marsilio Ficino, a explicitar a Filosofia Perene comum aos vários povos e religiões, nasce em Mirandola, Itália, em 1463. A sua tentativa de discutir 900 teses filosófico-religiosas com os sábios de todo o mundo, não foi bem vista pelo clero de Roma e treze das suas proposições são consideradas heréticas. Ao responder-lhes com a A Apologia das Treze Questões, é excomungado. Na sua Oração sobre a Dignidade Humana, talvez a sua obra prima pelo fogo espiritual e ascensional que a anima, exorta-nos: «Invoquemos Rafael o médico celeste, a fim de que ele nos liberte pela moral e a dialéctica, como por remédios salutares. Então, nos que formos restaurados, habitará doravante Gabriel, a força de Deus, que nos conduzirá através dos milagres da natureza: ele mostrar-nos-á por toda a parte a virtude e a potência de Deus, enfim levar--nos-á a Miguel, o sacerdote supremo, para que tendo-nos alistado ao serviço da filosofia, nos cinja, como duma coroa de pedras preciosas, do sacerdócio da teologia». A influência de Pico nos homens dos Descobrimentos é visível em Garcia de Orta, o sábio dos Colóquios dos Simples e das Drogas escrito e impresso em Goa, quando cita Pico Mirandulano a propósito dos Reis Magos que certa tradição apontava como vindos da Índia ou Ceilão, e que noutra se diziam enterrados na bela catedral de Colónia na Alemanha, onde D. Pedro das Sete Partidas foi em peregrinação. O teólogo agostiniano místico Sebastião Toscano, no sermão pregado na transladação dos ossos (se vieram mesmo) de Afonso de Albuquerque para a igreja do convento da Graça em 1566, comparou estes dois seres, universais pelo menos na fama das suas ideias e obras.
    Mateus, o embaixador arménio enviado pela imperatriz Helena da Etiópia, depois de ter sido muito bem recebido por Albuquerque em Goa, mas mal tratado na travessia, desembarca em Lisboa em 1514, trazendo na mensagem: «Eis chegado o tempo da promessa feita por Cristo e Maria sua mãe, de que no derradeiro tempo se alevantaria um rei da parte dos francos, e que daria fim aos bárbaros... E se quiserdes armar mil naus, nós as abasteceremos de mantimentos e de tudo que for preciso».
   O luxemburguês Joseph Hackin, diplomado em sânscrito e tibetano, Legião de Honra na 1ª guerra mundial, arqueólogo do Afeganistão à China, director do extraordinário museu Guimet em Paris, morre com a sua mulher à proa dum navio torpedeado em 1941 no Cabo da Finisterra, numa missão para o general de Gaulle. Disse um dia: «Para uma pessoa impregnada de filosofia búdica, o eu é apenas um estado temporário, transitório, um acidente na natureza. Não oferece razões nem de orgulho nem de receio. Pelo contrário o facto de se viver pressupõe certos deveres e deve inspirar a preocupação de uma pessoa justificar a sua existência. Por muito transitória e acidental que seja a nossa passagem aqui, é importante que ela seja marcada por uma obra benfazeja. A filosofia indiana trouxe-me um bem precioso, esta boa vontade infinita que se chama maitri, esta indulgência constante, esta igualdade de alma que faz aceitar e compreender».

25-II. Meher Baba nasce em Poona, em 1894, numa família de Parsis. Pars era uma província do Irão donde emigraram muitos para a Índia quando os árabes a conquistaram. Levavam consigo a sua religião, Madzayasni Din — Fé (ou Visão) na Adoração de Deus — tal como tinha sido reformada pelo profeta Zoroastro, que significa «Estrela brilhando douradamente», por volta do quarto milénio A.C. O resultado da sua demanda de Deus e da verdade foi escrito séculos mais tarde em avesta, uma linguagem próxima do sânscrito, nome este que veio também a designar as próprias escrituras. O ênfase desta religião é na adoração e inspiração do Ser Supremo e dos seus seis atributos divinos, dos quais se destaca Asha, Verdade recta, pura e harmoniosa em pensamentos, palavras e actos, e numa ética de deveres para com Deus, o ambiente, e nós próprios. Eis alguns dos seus ensinamentos: «Para cada ser humano há uma escolha dum tipo especial de fé. Que ele use a luz da sua própria sabedoria... Os espíritos que já partiram perguntam com desejo: «Quem nos louvará e amará? Quem oferecerá algum sacrifício por nós? Quem se lembrará de nós, e dará alguma comida ou roupa por amor de nós?... Oh! Deus, declara-me os melhores ensinamentos da nossa Fé, e os actos que devo praticar, de modo a que eu derrame o meu coração em gratidão, sintonizado com a benevolência e a verdade... O Fogo olha para as mãos de todos os que o aproximam, perguntando: o que é que o amigo ambulante (o corpo) trouxe, como presente para o amigo sentado (a alma)?... Oh! Fogo, Tu és um símbolo do Senhor Omnisciente — o Criador Divino Invisível e Beneficiente». Em grande medida suplantado e destruído pelo Islão, no século XVI o imperador mogol Akbar adoptou-o em parte na sua religião e hoje em dia há apenas uns milhares de parsis, sobretudo na Índia, na zona de Bombaim. Meher Baba aprendeu com cinco mestres de diferentes tradições e atinge a realização divina em 1921. Desde 1925 até morrer em 1969 em silêncio, comunicou só por escrito ou mentalmente com os seus discípulos mais próximos.

26-II. Jorge de Montemor, poeta e autor da Diana, um dos livros que os navegantes levavam nas suas viagens, senhor de grande sensibilidade e inteligência, morre em Espanha em 1561, quando se preparava para escrever um poema sobre o descobrimento da Índia. Uma carta de Sá Miranda a ele começa assim: «Monte mayor, que a lo alto del Parnaso subiste, por que al nuestro lusitano truxieses dulces águas de Pegaso». Como estes livros de Amor e de Cavalaria chegassem a ser proibidos pela Inquisição, e nisso o seu contemporâneo, e outro Fiel do Amor, Jorge Ferreira de Vasconcelos também foi abrangido, Rui Sobrinho pediu de Goa que, dado os perigos em que os soldados se encontravam não deviam ser impedidos de ler tais obras, realçando já na época o aspecto biblioterapeutico, ainda hoje pouco estudado e aplicado com as melhores visões e metodologias.
    Alvará régio de 1595 proibindo o casamento de desembargadores e letrados na Índia, o que vem diminuir os casamentos e a interpenetração indo-portuguesa, tão necessária à expansão. Seria fruto de uma política
    O P. Estêvão Cacela, natural de Aviz e o P. João Cabral, de Celorico da Beira, são os primeiros ocidentais a chegarem ao reino do Butão, em 1627, país ainda hoje muito isolado do mundo e por isso bem preservado (para o que contribui ainda a consagração do pais a uma agricultura biológica ou orgânica), tentando o rei retê-los por ter descortinado incompatibilidades religiosas. Viajavam rumo ao Tibete, vindos de Hugli na Bengala, e chegarão até Shigatsé onde serão bem recebidos, autorizados a pregar, e hospedados no famoso mosteiro de Tashi lhumpo, ainda hoje hospitaleiro apesar das restrições chinesas, e que foi a residência habitual do Tashi-Lama, a incarnação do Buddha Amitabha, e que com o Dalai-Lama constituiam os dois polos espirituais do Tibete.
    Fernando Pessoa compõe neste dia em 1934 o poema Tormenta, na Mensagem, altamente poderoso, ou kundalinico numa concepção indiana:
«Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
    Nós, Portugal, o poder ser.
    Que inquietação de fundo nos soergue?
    O desejar poder querer».

                                 
27-II. D. João de Castro nasce em Lisboa em 1500. Discípulo de Pedro Nunes em matemáticas, esforçado guerreiro em Tânger e Tunes, autor das pioneiras obras científicas do Renascimento que são o Tratado da Esfera por Perguntas e Respostas a modo de Diálogo e três Roteiros de viagens, nos quais para além de registos históricos, náuticos e astronómicos, investiga experimentalmente as teorias admissíveis e desenha bem, veio a ser um integro governador na Índia, apreciando a sua cultura milenária, como se observa nas descrições dos seus Roteiros. Amante da serra de Sintra, onde se retirava na sua quinta nos intervalos das empresas guerreiras, para aí quis que os seus ossos viessem, mas estes ficarão em S. Domingos de Benfica e apenas o seu coração passa para a capela da quinta da Penha Verde onde se encontram também as famosas inscrições sânscritas vindas da Índia, talvez por ideia de Nuno da Cunha, como refere Diogo de Couto, embora um sábio que descrevera duma forma tão cativada as grutas sagradas da ilha de Elefanta em Bombaim pudesse ter tomado tal iniciativa: «um grandíssimo templo, o qual é lavrado de tão maravilhosa obra que parece ser impossível ser feita por mãos de humanos, e todos os lavores, imagens, colunas, romanos, oficinas que nele estão são lavrados na pedra maciça do monte». Descreve a Trindade hindu: «Numa destas capelas está um homem que se mostra da cinta para cima com três grandes rostos e quatro braços. Em a mão direita tem uma cobra de capelo pela cabeça e na esquerda amostra uma rosa; em outra mão tem o mundo alevantado; a outra por estar quebrada não aparece a divisa que tinha... Por toda esta capela estão infinitas imagens com as mãos alevantadas como que dão graças a Deus. Em outra capela está uma mulher de grande corpo como giganta, toda nua, e somente tem a teta esquerda e da direita nenhum sinal parece, assim como é escrito das Amazonas...» Era contudo a representação do andrógino primordial e arquétipo... Sobre a qualidade da ciência náutica que sustentou os Descobrimentos, diz: «concorreram assim demonstrações dos matemáticos, com a prática dos pilotos e homens do mar, que muitos anos a esta parte lavram por este oceano, grande e infinito mar», sem dúvida uma das grandezas da gesta pioneira dos descobrimentos e navegações.
    Rudolf Steiner, o fundador da Antroposofia, nasce em 1861 na Austro-Hungria. Os seus métodos, educativo, agrícola, medicinal e espiritual são tentativa pioneira da aplicação dos resultados da clarividência dos mundos subtis. Ao comentar o famoso IX canto da Bhagavad Gita, diz: «Aquilo que pode falar ao ser individual como o Mais Alto, fala em Krishna a Arjuna. E Aquilo a que o indivíduo, quando pode erguer ao mais alto as forças que estão no seu ser interno, — ao Mais Alto a Que a alma humana singular pode educar--se, a Quem a pessoa individual, quando trabalha sobre si própria no melhor modo, pode elevar-se, — é Krishna».

 28-II. Mateus, o embaixador do Presbyter Johanes, o Preste João, enviado pela imperatriz regente Helena, por sugestão de Pêro da Covilhã, para pedir ajuda aos portugueses, encontra-se finalmente em 1514 com o rei D. Manuel em luzidia cerimónia e entrega-lhe um pedaço do santo lenho na forma de cruz, recebendo-o este com lágrimas, prostrado em terra. A carta que o embaixador Mateus entregou a D. Manuel rezava de início assim: «Em nome do Padre, do Filho, do Espírito santo (...) Prospere-vos o senhor Cristo e dê-vos vitória sobre vossos inimigos e alargue e estenda vossos reinos pelos rogos e devoções dos mensageiros do redentor Cristo; os quatro evangelistas são João, Lucas, Marcos e Mateus, suas santidades e orações vos guardem». Collin de Plancy escreveu nos princípios do séc. XIX um famoso livro em que provava como a soma das relíquias existentes em tantos lugares resultava no fantástico, neste caso as da santa cruz, mas a fé sempre se riu das certezas e provas e é natural que D. Manuel a valorizasse muito e quem sabe onde estará ela hoje encastoada. Contudo o mito do Preste João, fomentado e construído sobre as notícias amplificadas desse rei cristão da Etiópia, que já nessa primeira carta terminava-a assim :«Mais vos fazemos saber que se ordenássemos nossas gentes em hostes que encheriam e abastariam todo o mundo. Mas não temos nenhum poder no mar e vos sois poderoso no mar. Cristo Jesus vos queira ajudar quão certo as coisas que tendes feito na Índia são coisas milagrosas. E se quiserdes armar mil Naus nós as abasteceremos de mantimentos e daremos aos que nela vierem toda abastança. Deo gratias.» Tudo isto inflamará a imaginação colectiva e virá a ser identificado miticamente a um Rei do Mundo, existindo numa legendária cidade secreta, Agartha.
                             
Chega neste dia em 1580, de Goa, a primeira missão de jesuítas à corte do grão-mogol Akbar, a pedido deste, então em Fatehpur Sikri, para diálogo religioso. É composta pelo P. Rudolfo Aquaviva, italiano, António Monserrate, catalão, e Francisco Henriques, persa convertido. A ânsia de conhecimento de Akbar era tão grande que quando chegaram foram logo levados à sua presença, ficando à conversa até às duas horas da manhã, muito provavelmente na Ibadat Khana, casa de adoração, que construída em 1575, começara a servir de local para os debates ecuménicos pioneiros e bem luminosos entre representantes das diferentes religiões.
                                      
                         Akbar e os religiosos na Ibadat Khana, numa pintura de Nar Sing.
O governador inglês de Bombaim recebe dos portugueses um cartaz para o livre trânsito dos seus barcos, em 1668.
 O Marquês de Pombal escreve uma carta ao povo de Salsete neste dia em 1775, insurgindo-se contra o pacifismo e a repugnância pelo serviço militar.
   Em Margão nasce em 1859 Alfredo da Costa, cirurgião habilíssimo e que preparou a fundação da maternidade que tem o seu nome e onde milhares de portugueses viram a luz do dia no planeta azul. No séc. XXI interesses imobiliários corruptores tentarão destruir tal missão geradora e curativa.
    Fundação da cidade de Auroville em 1968, no sul da Índia, junto a Pondichery, inspirada nas ideias dos mestres Aurobindo e a Mãe. Da Carta de Fundação: «1. Auroville não pertence a ninguém em particular. Auroville pertence à humanidade como um todo. Mas para se viver em Auroville deve-se ser de boa vontade um servidor da Consciência Divina. 2. Auroville será um local duma educação infinita, de constante progresso e duma juventude que nunca envelhece. 3. Auroville quer ser uma ponte entre o passado e o futuro. Aproveitando todas as descobertas de fora e de dentro, Auroville brotará corajosamente para realizações futuras. 4. Auroville será um sítio de demanda material e espiritual duma corporização viva duma Unidade Humana actual». Hoje é já uma realidade em firme expansão e aberta a novos aurovilianos.

29-II. Afonso de Albuquerque manda em 1514 o feitor de Goa, o florentino Francesco Corbellini (nesta posição de 1510 a 1521), dar a Krishna, capitão das tropas indígenas de Goa, duas vacas de que lhe fez mercê em nome del-Rei «por amor do seu filho que há-de mamar o leite delas para se criar». O capitão Krishna distinguiu-se tanto que foi convidado a vir a Lisboa em 1520, foi armado cavaleiro em 1536 e embaixador em 1544, nunca deixando de ser hindu. Por isso o P. Miguel Vaz em 1545, num relatório ao rei sobre Goa, pede que o expulsem «pois não tem bastado para o converter a criação desde moço entre cristãos... e mandar cada dia ao tronco arroz cosido para os presos naturais da terra». O rei aceitou, mas Krishna ficara detido na corte de Bijapor, onde não soube da ingratidão, ou se desiludiu dos lusos.

                         
Nasce em Margão, em 1871, Mariano Gracias, licenciado em Direito em Coimbra, secretário da Relação em Goa e Moçambique, poeta lírico e saudosista, que deixou vasta obra poética, onde destacamos Missal de um Crente (1898) Regresso ao Lar (1906), O ABC da Nenita (ilustrado) (1913), A Bíblia do Amor (1913), O Crepúsculo da Saudade (1922), Terra de Rajáhs (1925) Oração ao Suryá (1925, dedicada «à luminosa alma do altíssimo poeta Gomes Leal, saudoso amigo e mestre»). Eis um seus belos poemas: «Nossa Senhora da Piedade, / que do alto do Monte olha o mar, / Do grande mar na imensidade / Pelo meu amor há-de olhar». Em 1952, em Goa, o jovem Caetano Francisco da Costa prestou-lhe homenagem, dedicando-lhe o Caderno nº 1 Poetas Indo-Portugueses. Mariano Gracias. Notas sobre a sua vida e a sua poesia (Antologia) onde nas palavras prévias refere os nomes dos principais poetas de Goa: «Paulino Dias, Nascimento Mendonça, Cristóvão Ayres, Fernando Leal, Floriano Barreto, Leandro Pereira, Adeodato Barreto, Joaquim Filipe Soares, Joaquim Araujo Mascarenhas, Pedro António Sousa, Joseph Furtado, Frederico Ayala, Roque Barreto Miranda, H. Menezes Rodrigues, e quanto mais não falando, todavia, dos vivos», e terminando-as humildemente: «caro leitor: a poesia indo-portugues é um produto exótico, cuja análise tem de ser minuciosamente feita. Eu não sou um Gaspar Simões ou um Vitorino Nemésio, ou um Santana Dionísio ou qualquer desta espécie de intelectualidades críticas contemporâneas, que mergulham no mais íntimo dos poetas ou dos prosadores e fazem geralmente a mais perfeita crítica dos seus trabalhos. Cada um dó o que pode dar - foi sempre o meu princípio. O resto é com os outros.» Comparará ainda Antero e Mariano Gracias.
    Em Pondichery, no sul da Índia, em 1956, a francesa Mira Alfassa, «uma mulher distinta, uma intelectual de tendências místicas, de origem levantina e de educação francesa», no dizer da orientalista e ousada exploradora do Tibete Alexandra David-Neel e, desde que se juntou ao mestre Aurobindo, conhecida como a Mãe, vivencia o que descreve assim: «Neste dia, a Presença Divina, concreta e material, esteve entre vós. Eu tinha uma forma de ouro vivo, maior que o universo e estava diante duma porta dourada maciça e imensa. Eu olhei a porta, soube e quis que era a hora e erguendo com as mãos um poderoso machado dourado desferi um golpe, um só golpe, na porta e a porta estilhaçou-se. Então a Luz, e Força e Consciência Supramental correram sobre a terra num fluxo ininterrupto». Considera-a portanto como facto planetário e a culminação da sadhana, as práticas espirituais, que Sri Aurobindo, seu mestre, empreendera. Dirá: «Embora haja uma presença espiritual em toda a gente, um ser, entidade organizada e auto-consciente com o poder de se afirmar e reger a natureza é apenas uma possibilidade, cuja realização é o resultado de longos esforços que se estendem por vezes por muitas vidas». As suas observações sobre o corpo psíquico são valiosas, contudo algumas da suas actuações após a morte do mestre foram contestadas.