domingo, 1 de janeiro de 2017

Janeiro e suas efemérides do encontro de Portugal com o Oriente.

                                                              
Ao longo de 1998 publiquei no jornal O Público diariamente umas efemérides respeitantes a cada dia desse ano em que se perfaziam os 500 anos da viagem de Vasco da Gama de descoberta do caminho marítimo para a Índia. Pouco depois publiquei as efemérides mais desenvolvidas no seu todo sob o título Livro dos Descobrimentos do Oriente e do Ocidente.
No prefácio rezava assim: «Esta obra é dedicada a Deus, aos Mestres do Santo Graal, aos Homens e Mulheres dos Descobrimentos e do Encontro do Oriente e do Ocidente, e a ti alma leitora.»
«Quem morre não morreu, partiu primeiro,
E o que há depois da morte é eterna vida».
Luís de Camões. Elegia X

«Os nossos agradecimentos, pelas conversas e sugestões, à professora de sânscrito Dra. Margarida Correia de Lacerda, à ex-Embaixatriz no Japão Ingrid Martins Janeira, à escritora e pintora Maria, ao professor do Humanismo Renascentista Doutor José Vitorino de Pina Martins, ao capitão de mar-e-guerra Abel da Costa Campos Oliveira, ao Dr. João Amaral, especialista de D. Sebastião e da sua época e, por fim, aos mestres e discípulos, livreiros e impressores, do Oriente e do Ocidente, com quem convivi. As nossas desculpas a todos aqueles que deveriam estar mencionados nesta obra, ou a qualquer menção incorrecta.»
                                    
Seguiam-se alguns textos de apresentação e logo as efemérides e por fim umas conclusões. Resolvemos partilhar as efemérides neste ano de 2017 pela Internet, em doze partes, mês a mês, ou pelo menos as de Janeiro. Certamente que poderiam ser bem melhoradas ou ampliadas, e embora eu tenha feito isso em várias datas haverá ainda muita informação e comunhão valiosa a ser acrescentada. Todavia hoje com a Internet qualquer pessoa poderá pesquisar e aprofundar o seu conhecimento de pessoas, efemérides ou ensinamentos , muitos dos quais eram inéditos entre nós e fruto das minhas estadias no Oriente e em particular no convívio com a Tradição Espiritual Indiana...
Eis as efemérides compiladas com labor e amor, e que espero ir acrescentando e melhorando ainda por alguns anos, a quem me ler oferecidas de coração a coração... 
1-I. No ano de 1541 parte de Goa uma armada comandada pelo governador do Estado Português na Índia, D. Estêvão da Gama, para se internar pelo mar Vermelho rumo à armada turca no Suez. Em Tor vencem as tropas muçulmanas e quando se preparam para saquear a cidade surgem os monges do mosteiro de Sinai a pedir-lhes que a poupem. O espírito de cavalaria desabrocha então para o plano fraterno e espiritual e com grande solenidade, no mosteiro dos frades da Ordem de S. Catarina do Monte do Sinai, à vista do mesmo monte onde segundo a legenda bíblica Moisés teria sido agraciado por uma manifestação Divina, D. Estêvão arma cavaleiros os novos que ainda não o são e o pedem, entre eles D. Luís de Ataíde e D. Álvaro de Castro. O efeito de surpresa perdido, no Suez já não conseguem destruir os navios turcos. D. João de Castro descreve entretanto cientificamente esta viagem no seu Roteiro do Mar Roxo ao Suez. No regresso, em Maçuá, D. Cristóvão da Gama e 400 voluntários partem em auxílio do Preste João da Abissínia, a pedido deste, no que se tornará uma das aventuras mais cavaleirescas da gesta dos Descobrimentos.
O P. Afonso de Castro é martirizado em 1588, depois de 19 anos de missionação no reino de Ternate, nas Molucas. Mas antes, no tempo do capitão António Galvão, que fundara um hospital e um seminário (1536), a concórdia existira e quiseram-no mesmo como rei. Agora recolhiam-se as consequências das políticas gananciosas de governadores como Tristão de Ataíde, e de comerciantes, que não souberam estar à altura dum homem «tão inteiro nas suas coisas», e que foi chamado António Galvão, o “Apóstolo das Molucas”.
O Guru Gobind Sing nasce em 1670. Será o último dos dez mestres da religião Sikh (hoje 2% da população indiana) e dos ensinamentos e poemas destes resulta o novo mestre, o Guru Granth Sahib, um livro. Gu significa trevas, ru luz. Guru é quem dispersa as trevas, é aquele em quem a luz espiritual ou divina brilha mais manifestamente. Dirá: «Quando o Supremo Ser cria o Universo, é a partir do Verbo (Omkar) que ele cria o Mundo. Primeiro, Deus, o Pai de tudo, criou a Luz infinita, e depois emitiu a Palavra divina, Omkar, de cuja Música divina o mundo manifestado e o espírito e a matéria se diferenciaram». Ainda hoje no templo mãe Sikh em Amritsar os cantos do Guru Granth Sahib ecoam diariamente em ritmos e toadas devocionais e ardentes...
Mariano Montalegre, natural de Goa, data deste primeiro de Janeiro de 1852 o prólogo do seu opúsculo polémico intitulado Noção Originária da Índia, no qual ataca fortemente a casta dos brahmanes por terem manipulado e desfigurado os ensinamentos antigos védicos. A obra em 23 páginas em letra miudinha, sem menção da tipografia, manifesta bons conhecimentos históricos, religiosos e mitológicos, embora confundindo-os e acabando por cair também em certa ingenuidade pseudo-histórica. E utiliza-os para atacar demasiado a casta sacerdotal e valorizar a guerreira. 
                                
O mestre indiano Sri Ramakrishna, em 1886, é neste dia, por algumas horas no jardim de Cossipore, em Calcutá, a mítica árvore que satisfaz todos os desejos, Kalpataru. A uns meses de morrer, cantando os seus devotos «Viva Ramakrishna» ao verem-no caminhar no jardim, este respondeu-lhes: «O que vos hei-de dizer mais? Possam todos vós ter a consciência espiritual desperta». A experiência da beatitude expandiu-se neles imediatamente pois aproximando-se um a um do mestre, este tocava-lhes na testa, dizendo: «Sê iluminado». E assim houve um momento único de graça colectiva, com que duração e efeitos não sabemos...
                        
O escritor Alberto Osório de Castro, da geração de Camilo Pessanha e António Nobre, e que fora magistrado em Goa, morre em 1946. Em carta ao escritor indiano Caetano Gonçalves elogiara-o: «A sua família é por muitos títulos ilustre. É uma ascensão contínua, pura, nobre e firme do brâmane no plano português, criado pela conquista de Goa sobre o muçulmano dominador, e que chegou à plena identificação com a alma ocidental e ao enriquecimento da alma portuguesa» E conclui: «Morro, pelo menos, com a certeza de que Goa fará de sé e que nenhum mal irremediável os portugueses fizeram à sua gente, apesar dos fumos da Índia, das violências inevitáveis, dos erros dos homens, da exacerbação dos instintos, natural em todas as transplantações súbitas». Em 1961 contudo Goa voltará à posse da Índia e os momentos de melhor interligação indo-portuguesa ficaram nas almas dos que os viveram e tanto em monumentos e livros como sobretudo no Livro dos Livros Divino.

2-I. O príncipe D. João, filho de D. João III, casado com D. Joana de Castela, filha do imperador Carlos V, morre subitamente com 17 anos, embora o seu grau de diabético já vaticinasse tal desenlace, em 1554. Casara dois anos antes, e o seu amor pela princesa era tal que tiveram de os separar, mas dessa paixão intensa nasceu D. Sebastião, 18 dias depois da sua morte. Ao príncipe, que lhe pedira obras suas, dedicou o poeta e sábio Sá de Miranda alguns sonetos: «A Príncipe tamanho, cujo rogo / (e mais òs seus) ind’ é mais que mandar / que posso i al fazer, senão passar, / pela água, pelo ferro e pelo fogo?» (i = aí, al = outra coisa).
Durante a viagem para a Índia, o Padre Urbano morreu. O P. Aleixo dá conta do sucedido em carta para Coimbra em 1555: «... o P. Urbano desejava mais padecer tudo isto que molestar a ninguém, se estava assim: seu dormir era fora da câmara, perto do convés, em cima de uma arca, que não seria de três palmos e meio, porque na câmara ardia por não ter resfolgadouro... e assim adoeceu de febres mui grandes, dizendo-me que lhe lembrasse certas devoções que ele me disse... Onze dias depois, levantou-se, sentando-se, pedindo-me um crucifixo, chamando-me que o abraçasse, que se queria ir desta vida; abraçou-me e, beijando o crucifixo, se apartou de nós, deixando-nos aquela saudade que convém ter de tal companheiro. Muitas vezes, padre meu, de o ver tão sofrido nos trabalhos, tão paciente nas adversidades, sentia em mim grandíssima confusão e ânimo para o imitar, o que ainda hoje em dia me é grande ajuda».
João Gaspar Lavater, o investigador que mais cartografou as fisionomias humanas e as suas relações com as qualidades psíquicas e as influências animais, morre em Zurique em 1801. As suas obrinhas, com as faces e as correspondências psíquicas em gravuras coloridas, circulavam entre nós nesse começo do séc. XIX.
Sai em Nova Goa o 1º número do jornal semanário A Evolução, do conde de Mahem, D. José de Noronha, em 1895, com o temível polemista e boémio Leopoldo da Gama como director e redactor,  cultíssimo e lutador, mas que também a partir de certa altura conforme o que bebia, quantas páginas escrevia. Entre os jornais literários, ainda que sempre com uma vida efémera, distinguiram-se o Mosaico, e depois o Goa Sociável de Manuel da Costa Campos, a Ilustração Goana de Luís Frederico Gonçalves, onde colaboraram Néri Xavier, Cunha Rivara, Lopes Mendes. Nos jornais diários destacaram-se os Heraldo, e o Diário da Noite, este fundado pelo pai do ilustre jornalista António Menezes, com quem ainda convivi em Panjim. Em Damão, Diu e Bombaim existiam também muitos jornais e em 1872 viera à luz o primeiro jornal em língua marata. Anos mais tarde, vários jornais noticiavam com destaque a morte do conde de Mahem. 
                                 
3-I. Face à prisão por ordem do arcebispo de Goa D. Garcia em 1653, do patriarca Ahathalla, que estivera em Roma em diligências de harmonização e protecção da igreja síria do sul da Índia, muitos dos antigos cristãos de S. Tomé, da costa ocidental e sul da Índia, juram sobre a cruz que eles e os seus descendentes não mais se submeterão aos portugueses, complicando-se assim as tentativas de uniformização geral e coincidências absolutas num ensinamento tão interior e directo como fora e é o do mestre Jesus. Só em 1896 é que a igreja do Malabar passa a ter bispos da sua própria comunidade e não enviados pelos patriarcas de Alexandria, Síria ou Goa.
O P. Francisco Azevedo, e o irmão Manuel Marques, chegam a Agra, em 1632, cumprida a missão de irem até ao Tibete ocidental renovarem a autorização de lá missionarem. Dirá que do «Cataio (China) não sabem. Mas um reino é muito célebre aqui; esta gente diz que é muito grande. Chama-se Shambhala... A rota que conduz a Shambhala é segundo eles muito difícil... Quanto a mim, com ajuda do Senhor, tentarei chegar ao reino de Shambhala». Era a cidade de Lhasa do Dalai Lama a que se referiam, ou seria ao misterioso domínio subtil do Rei do Mundo, Rigden Jyepo, como era conhecido na tradição tibetana? No séc. XX destacou-se na demanda de Shambhala, tanto física como espiritualmente, Nicholai Roerich, notável viajante do Gobi e pintor, que em quadros transmite algumas forças de tal tradição.
                                    
Carta do P. Marcos, de Bengala, em 1683, para os seus superiores em Goa: «Os padres não falharam o seu dever: aprenderam bem a língua, compuseram vocabulários, gramática, confessionário, orações; e traduziram a doutrina cristã». A contribuição portuguesa para a prosa, gramática e lexicografia bengali foi notável. Chegados em 1516, como diz António Galvão no seu Tratado, através de «um cavaleiro que se chamava João Coelho. Este foi o primeiro português, que eu saiba, que bebeu a água do rio Ganges», controlam Chitagão e Hugli até 1666, e a partir de então a presença é menos concentrada. D. António, o filho do rei de Bhusna, cristão, publica um diálogo entre o bramanismo e o cristianismo, e o P. Manuel da Assunção editará em Lisboa em 1734 a primeira gramática de bengali.
4-I. O marechal D. Fernando Coutinho, comendador da Ordem de Cristo, que capitaneara a armada de 18 naus partida de Lisboa em 1509, com jurisdição independente dos vice-reis, passa o comando do Estado Português na Índia para Afonso de Albuquerque, mostrando-se pouco amistoso com D. Francisco de Almeida, e decide atacar o Samorim (o soberano de Calecut). O raja (rei) de Cochim faz um ataque de diversão e quando os portugueses avançam não há grande resistência. O marechal, agastado por as tropas de Albuquerque terem desembarcado e hasteado a bandeira primeiro, troça dos “mourinhos” e, contra o parecer de Albuquerque, decide internar-se pela cidade para destruir e saquear o palácio do Samorim ausente, mas a imprudente e arrogante incursão custa-lhe a sua vida e as de umas centenas de portugueses e, se não fossem as providências tomadas por Afonso de Albuquerque (também ferido) para a retirada, muitos mais teriam morrido. O cronista João de Barros verberou os que foram mortos sem armas por carregarem às costas objectos do palácio, «como se isto fosse peça que podia assentar nos escudos de suas armas e não podia ser havido por baixa cobiça». É possível que a morte de D. Fernando Coutinho e de outros membros da Ordem de Cristo se tenha repercutido na imagem da Ordem.
Carta escrita neste dia de Cranganor, no sul da Índia, do capitão João Pereira ao Rei D. João III, no ano de 1548: «Faço-lhe lembrança desta casa do apóstolo S. Tomé, nosso padroeiro, que tem necessidade também de um retábulo em o qual esteja toda a vida do apóstolo, porque fará muita devoção a estes cristãos de S. Tomé, porque já agora pelas endoenças e dias de festa, não cabem na igreja, e cada vez vai em crescimento, e se vem confessar e comungar, que é uma coisa muito para folgar e ver. E de tudo isto é causa o colégio de Frei Vicente de Lagos, porque vendo a doutrina que seus filhos aprendem, acodem com mais vontade a todas as coisas da igreja». Este colégio de Santiago em Cangranor foi o primeiro fundado na Índia, e pelos seus primeiros missionários, os franciscanos, em 1540, e em 1542 já acolhia 80 alunos. Com a chegada dos jesuítas, foi-lhes entregue a sua direcção, e do trabalho de conversão junto aos cristãos nestorianos resultou a adesão destes à confissão romana, no Sínodo de Diamper (Udiamperur) em 1599. Uma certa fama de santidade do fundador do colégio, Frei Vicente de Lagos, que convertera o rei e a família real de Tanor, muitos dos cristãos da Serra e milhares de indianos ao catolicismo, manteve--se pelos tempos a fora.
A bula apostólica de 1551 de Júlio III determina a união perpétua à Coroa portuguesa dos mestrados da Ordem de Cristo e, após a morte de D. Jorge de Lencastre, o filho bastardo de D. João II, os das ordens de Santiago e de Aviz.
5-I. D. Manuel em 1504: «A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que havendo nós respeito ao muito serviço que Gaspar da Gama no negócio e tratos da Índia e esperamos dele ao diante receber e querendo-lhe por isso fazer graça e mercê, temos por bem e nos praz» atribuir uma tença anual de 50.000 reais. Assim se premiava um judeu que na primeira viagem de Vasco da Gama se pôs ao serviço de Portugal, tornando-se cristão no regresso e que esteve presente em momentos decisivos como intérprete e conselheiro dos portugueses na Índia, até 1509, mas já não sintonizando com Afonso de Albuquerque.
                           
Nasce Paramahamsa Yogananda em Gorakpur, em 1894. Iniciado no Kriya Yoga por Sri Yukteswar Giri, parte para os Estados Unidos em 1920 e funda a Fraternidade da Auto-Realização que iniciou milhares de norte-americanos (e entre eles o escritor brasileiro Huberto Rodhen, que esteve em Portugal nos anos 80 e com quem convivi) nas técnicas do Kriya Yoga, uma ciência de interiorização, pela manipulação mental das energias subtis ao longo dos centros de força na coluna vertebral. Escreveu o livro Autobiografia dum Yogi, simples mas muito espiritual, mundialmente conhecido e, entre outras obras, a Ciência da Religião, onde dirá: «O sentido de identificação com o corpo transitório e a mente desassossegada são a fonte ou a causa-raiz da miséria do nosso Eu Espiritual. Se concebermos Deus como Felicidade ou Beatitude, então e só então podemos tornar necessária a religião universalmente... Assim como Deus une todas as religiões, é a realização dele como Bem-Aventurança ou beatitude (Ananda) que une a consciência dos profetas ou mestres de todas as religiões».
6-I. «Dia de Reis, três horas antes da manhã vai el-Rei e a Rainha e todo o povo à Ribeira e depois que um sacerdote benze a água lavam-se todos e metem-se três vezes debaixo da água em louvor da santíssima Trindade e São João Baptista». Assim se passava no reino do Preste João, como relata em 1551 o P. Gaspar Barzeu, o Provincial jesuíta da Índia que sucedeu a Francisco Xavier. Sobre os Reis Magos, mestres do Oriente que apoiaram Jesus, muito significativamente conta-nos Garcia de Orta, nos seus Colóquios, em conversa com monges orientais: «E porque Pico Mirandolano diz na sua Apologia, que mago em língua caldeia quer dizer sabedor, perguntei-lhe... que me dissesse que queria dizer mago, e ele disse-me que magoxi queria dizer naquela língua caldeia letrado e sabedor, e que destes eram os magos que vieram a adorar a Nosso Senhor. E assim me disse que não eram reis estes homens, senão letrados grandes, assim nas estrelas, como nas outras coisas naturais. E mais me disse este bispo que a estrela que guiava a estes magos não era de natureza celestial, senão elemental; assim como dizemos cometa». Mas cauteloso com a censura e repressão religiosas, talvez antevendo já que lhe irão um dia ao túmulo buscar os ossos e queimá-los em auto-de-fé, acrescenta: «dizei-me o que vos nisto pareça, porque eu não tenho nenhuma coisa destas por boa, até que o digam os que regem a santa madre igreja».
Frei João da Barroca, famoso emparedado que, pelo seu recolhimento numa cavidade junto ao convento de S. Francisco em Lisboa e outras virtudes, conseguia vaticinar, e era estimado pelo mestre de Aviz, pois animara-o e profetizara as vitórias sobre os espanhóis, desencarna em 1400. Na Índia, este tipo de reclusão e austeridades pasmosas eram frequentes e, mais até nos seus aspectos inferiores do faquir que sobe a corda, hipnotiza ou se deita em cama de pregos, ainda hoje atraem o imaginário colectivo da humanidade.
O governador de Malaca, capitão Rui de Brito, escreve a Afonso de Albuquerque em 1515 elogiando o conselheiro indiano Nina Chatu: «O bendara (alto dignitário) é agora quem mais por nosso amigo temos; este bendara é homem são em nossa amizade, deseja sempre o assento da terra, trabalha nisso o que pode; sua pessoa é tão fiel como se fosse fidalgo português que muito desejasse o serviço del-Rei nosso senhor. No que toca às coisas da terra e mercadorias e fazendas do dito Senhor, sempre o mando chamar e ele diz verdadeiramente o que entende». E avisa Albuquerque que não conseguiu ainda arranjar um junco para carregar sândalo em Timor. Só em 1556 é que Frei António Taveiro começará a missionar em Timor, e da actividade dominicana resultarão 50.000 mil cristãos em 1577.
Começa em 1571 o tiroteio ininterrupto durante seis meses em Chaul, no Decão, entre os 1.200 portugueses comandados por Luís Freire de Andrade e os milhares de combatentes de Nizam Melek que os cercavam.
Inácio Sarmento de Carvalho, capitão de Cochim, depois de resistência denodada ao prolongado cerco de seis meses dos holandeses, é obrigado a capitular em 1663, embora com a garantia de serem enterrados os mortos no dia seguinte e evacuarem a cidade, soldados e habitantes que o desejassem, no dia 8, partindo para Goa e Java. Ao capitão Sarmento foi permitido conservar a sua espada, pelo valor demonstrado. O desapoio do governador do Estado Português na Índia Luís de Mendonça Furtado foi fatal. Nos resistentes está Bravo de Araújo, um casado (com uma indiana) que já vinha da queda de Malaca (com Goa o local em que houve mais fusão racial) e que com outros casados foram dos esteios mais importantes para a permanência portuguesa no Oriente.
Sai Rochaldas Sahib nasce em 1879, em Rorhi, no Sind, e será um médico e mestre perfeito nos dois pratos da balança, o amor e a conduta. Via o bem em tudo, e quando se lhe queixavam de males, dizia que deviam agradecer a Deus por estarem a saldar a conta do karma. Avisava que a utilização de poderes psíquicos ocultos parava o progresso espiritual.
                            
Lanza del Vasto, peregrino às fontes da Índia, onde se tornou discípulo de Gandhi que o iniciou com o nome de Shantidas, Servidor da Paz, fundando depois no Ocidente o movimento da Arca, que conta hoje com algumas comunidades dedicadas à sua mensagem de Não-Violência (a casa-mãe é La Borie Noble, Beziers, França), desencarna em Múrcia, em 1981. Esteve duas vezes em Portugal onde catalizou um grupo de companheiros e amigos, entre os quais estive, que divulgou a sua sabedoria e frontalidade e celebrou a harmonia do microcosmo e o macrocosmo. Na Peregrinação às Fontes (recentemente editada pelo José Carlos Marques nas edições Sempre em Pé), ao visitar Goa em 1943, ele aprecia o modo como os portugueses se relacionaram grosso modo: «Eles não sobrepuseram apenas a sua fé, os seus costumes, os seus estilos aos vencidos, mas estabeleceram-nos sob o signo do casamento. Sem dúvida que massacraram muito, extorquíram muito, destruíram muito, mas deram também do seu. Entraram aqui com a sua fé e o seu sangue. Envolveram-se e arriscaram ao enraizar-se. Alguma coisa nasceu deste abraço que não é mistura mas liga. Assim também o seu contributo é aceite pela terra... A velha casa portuguesa... encontra o seu lugar no meio das bananeiras e arrozais, assim como entre as oliveiras e vinhas de Coimbra.»
                                     
7-I. D. Dinis, rei-poeta e sábio metamorfoseador da Ordem do Templo na Ordem de Cristo, através da qual se fez grande parte da liderança inicial dos Descobrimentos, morre em 1335. Fundou a Universidade em Coimbra e a Capela real com côro, música e missas diárias. E casou-se com a bela e santa aragonesa Isabel, fomentadora do culto do Espírito Santo em Portugal, religião do Espírito e por isso sempre Evangelho Eterno, com as ultimas páginas em branco. Jaime Cortesão, Agostinho da Silva e Natália Correia desenvolveram o seu estudo e mistério. D. Dinis deixou o seu corpo físico encerrado num túmulo no convento de Odivelas, mas ficaram-nos mais de 100 poesias suas, sempre a serem cantadas e musicadas (como ainda recentemente ouvimos no convento pela Ana Raquel Roque) e uns restos dos pinheirais balsâmicos de Leiria. «Perguntar vos quero por Deus, / senhora fermosa, que vos fez / mesurada e de bom prez, / que pecados foram os meus, / que nunca tivestes por bem / de nunca me fazeres bem».
                                            
O dramaturgo Gil Vicente nasce em 1470 e será tanto conselheiro cultural na corte, como atento observador da sociedade do seu tempo, deixando nas suas peças testemunhos satíricos da leviandade ou cobiça dos participantes na expansão portuguesa: «Fomos ao rio de Meca, / pelejámos e roubámos...» No Auto dos Reis Magos alude a ensinamentos indianos e do Ceilão é um dos magos (os mestres da Hierarquia Espiritual que religa a humanidade à Divindade, que no nascimento ou depois o acompanharam). Na Mofina Mendes as influências do Panchatantra, o antiquíssimo fabulário indiano, foram estudadas por Vasconcellos Abreu. No Auto da Índia, Gil Vicente troça da infidelidade hipócrita. Na Barca do Inferno só quatro cavaleiros da Ordem de Cristo, que morreram nas partes D’África e vêm cantando «À barca, à barca segura! / Guardar da barca perdida!... À barca, à barca, mortais! / Porém na vida perdida / se perde a barca da vida», é que são recebidos pelo Anjo da passagem para o mundo divino. Para além disto, como mestre da balança e ourives, trabalhou o ouro trazido de Quíloa por Vasco da Gama, na extasiante custódia de Belém, uma bela imagem do Santo Graal e que se encontra hoje no museu de Arte Antiga de Lisboa. Com a introdução da censura literária, no Índice dos livros proibidos de 1551 já se encontram sete autos, e no rol de 1586 as censuras são ainda maiores. A antiga liberdade portuguesa e o seu carácter franco, dialogante e alegre começava a estrebuchar...
                              
8-I. A bula Romanus Pontifex de Nicolau V, em 1454, para D. Afonso V, reconhece que o infante D. Henrique «crendo que prestaria nisto a Deus o maior obséquio, se por sua obra e actividade, o próprio mar se tornasse navegável até aos Indianos que se diz que que cultuam o nome de Cristo e assim pudesse comunicar com eles e excitá-los em auxílio dos cristãos contra os sarracenos e outros inimigos da fé... não cessou de enviar há vinte e cinco anos contra o exército dos referidos reinos, com as maiores fadigas, perigos e despesas, em naves velocíssimas, chamadas caravelas, para inquirir o mar... para se prosseguir com mais fervor em tão pia e ilustre empresa... concede a faculdade plena e livre de invadir, conquistar, expugnar e debelar quaisquer sarracenos e pagãos e outros inimigos de Cristo em qualquer lugar estabelecidos», sendo ainda proibido a qualquer cristão navegar e comerciar nas costas de África sem autorização do rei. Era a doação do direito ao Império.
É apregoada em Goa nos lugares públicos e acostumados e na rua dos Pintores e Ourives, em 1588, a recente provisão do vice-rei D. Duarte de Meneses, a pedido do padre Pai dos Cristãos, para que os infiéis não façam imagens e outras coisas do culto divino. O cargo de Pai dos Cristãos era o de um protector dos recém-convertidos e o primeiro foi o jesuíta Pêro de Almeida que tinha tanto gosto pela sua tarefa que morreu de desgosto quando em 1579 a proibição das práticas hindus só foi mantida na cidade de Goa e não nas terras a norte de Goa.
9-I. Messer Marco Polo, depois de ter franqueado muitas das portas fabulosas do Oriente, e de as ter descrito com bela imaginação, faz às da morte o seu testamento, em 1323, numa Itália em parte incapaz de o aceitar, deixando o seu livro de viagens maravilhosas à humanidade. Em 1428, D. Pedro das Sete Partidas virá recebê-lo do Doge de Veneza e entrega-lo-á ao seu irmão, o infante D. Henrique, contribuindo assim para os Descobrimentos. Deve ter sido uma tradução deste exemplar que sai em 1502 na oficina do alemão Valentim Fernandes em Lisboa, o Livro de Marco Polo.
                                          
Salvador Ribeiro de Sousa, soldado natural de Guimarães, manifesta no Oriente a sua coragem, iniciativa e poder organizativo erguendo uma fortaleza no reino do Pegu, actual Birmânia, e vence uma armada inimiga em 1601. Veio a ser rei do Pegu, conhecido como Quiay Massinga, e reconhecido pelos soberanos vizinhos. Os seus feitos narram-se num Breve Discurso em que se conta a conquista do reino do Pegu, que teve bastante circulação impresso com outros relatos de viagens que inspiravam o ânimo colectivo português à universalidade dos povos e terras.
O P. Gabriel de Matos, reitor do Colégio de S. Paulo em Macau, morre em 1633. Em 1621 confirmara a posse de Macau: «Esta terra foi de el-rei da China e agora é del-rei de Portugal e dos Portugueses que moram nela e o título por que é sua e porque os mandarins de Cantão lha deram (1557) e El-Rei confirmou a dádiva: consta isso primeiramente por tradição e histórias impressas». Mas o estatuto da cidade será sempre impreciso e oscilante.
Natana Gopal, místico e poeta indiano, nasce em 1843. O meu mestre Shuddhananda Bharati biografou-o. Alguns ensinamentos: «Pára a mente que passeia e fixa-a no coração do amor... Medita no que habita no coração, noite e dia e vencerás a morte... A repetição do nome de Deus abre o coração... Mantém a Luz do Amor de Deus ardendo com brilho no coração... O corpo murcha sem comida. A sabedoria bruxuleia sem a devoção amorosa».
                           
O venerável Gyoshoin Nichidatsu Fujii, mais conhecido por Fujii Guruji, fundador do movimento budista Nipponzam Miohoji, para a paz mundial pela não-violência, abandona o revestimento físico em 1985, com 102 anos, no Japão. Ensinara a famosa oração budista Odaimoku, que o monge Nichirem no século XIII vulgarizara como meio de salvação para o povo, Na-mu Myo-Ho Ren-Ge-Kyo (Bendita seja a flor de lótus da lei divina) ao Mahatma Gandhi, que passou a usá-la nas suas sessões diárias de oração. Depois da 2ª grande guerra fez o voto de edificar stupas, templos com relíquias de Gautama Buddha, em favor da paz em todo o mundo. Dirá: «Devemos mudar o nosso modo de pensar para vermos sempre as coisas com um sorriso e não apenas nos rirmos quando nos divertimos... O ensinamento ou portão final de Buddha foi o sorriso, exprimindo a alegria do seu coração». Resumirá assim o ensinamento do mahatma Gandhi: «não tenhais medo».
10-I. Em Amarante, em 1262, S. Gonçalo desencarna, depois de ter peregrinado até à Terra Santa, e de ter conseguido erguer a ponte sobre o rio Tâmega e o ânimo e a saúde em muitos necessitados. Será depois um santo casamenteiro, como hierofante da união do céu e da terra. Nos roteiros dos Descobrimentos era representado como santo protector nos mares e ainda hoje o seu túmulo na igreja principal de Amarante é um imã e um centro de irradiação telúrica e espiritual, bem ao lado da sagrada serra do Marão, mar de amor petrificado, como sentia o seu maior poeta visionário Teixeira de Pascoais.
D. Manuel concede em 1501 o título de Dom a Vasco da Gama e aos seus descendentes, uma tença anual 300.000 réis, a renda vitalícia e anual de duzentos cruzados de mercadorias trazidas da Índia, isenta de pagar mais que os usuais 5% para a Ordem de Cristo, e o título de Almirante do Mar das Índias, com o qual navegará ainda mais duas vezes até à Índia.
O dominicano Frei Caetano de S. José em 1728, num conselho reunido pelo vice-rei em Goa para decidir sobre os ritos hindus, dá o parecer que os «casamentos e outros ritos, que os gentios chamam políticos e legais, sendo na realidade supersticiosos e idolátricos era usar Sua Majestade, que Deus Guarde, do seu soberano poder mandando que todos os gentios moradores nas terras deste Estado ou se convertam à fé de Cristo ou saiam das ditas terras». Mas o vice-rei Saldanha da Gama escreverá ao rei para não derrogar aos gentios, pelo menos, a graça de se casarem de porta fechada.
11. O P. Miguel Vaz Coutinho, vigário geral da Índia, um dos missionários mais zelosos da conversão por todos os meios, responsável pela imposição à força do principio da exclusividade da religião católica em Goa, co-fundador com Cosme Anes do colégio de S. Paulo, morre em Chaul, oficialmente de cólera, mas suspeitando-se de envenenamento, em 1547.
Em 1574, o governador António Moniz Barreto pede ao Senado de Goa a soma de vinte mil pardaus para custear os socorros a Malaca e dá como penhor o seu filho de oito anos, mas antes negara reforços ao capitão de Malaca, Leonis Pereira (que viajará até Lisboa para se queixar), e governou despoticamente, com graves perseguições, os hindus e muçulmanos, contrariando as ordens reais e contribuindo decisivamente, acompanhado por membros do clero, para a destruição dum clima de ainda alguma tolerância.
                          
Francisco Bragança da Cunha nasce em Cuelim em 1887. Médico, professor na Sorbonne e em Moscovo, e tradutor intérprete de Rabindranath Tagore na viagem europeia de 1923 em várias línguas, que o convidou para ser professor em Shantiniketan. Na sua bibliografia conta-se o ensaio L’Inde et l’Avenir de l’Europe, publicado em Paris, em 1942, onde apoia o nacionalismo alemão e japonês e Shubas Bose, o líder mais radical do movimento da independência da Índia, que tivera de se exilar para o Japão. Mas também analisa com grande profundidade a obra do Mahatma Gandi e a elogia A sua crítica a Portugal é mordaz: «O minúsculo Portugal, esse Pequeno Polegar do imperialismo, que calçando as botas dos seus antigos mestres, os árabes, encontrou aí (na Índia) guiado pela judiaria da época, um retorno da fortuna». A sua visão do futuro da Índia é muito inteligente e o que diz para ela aplica-se a todos nós: «conquistar a liberdade é encontrar o seu génio próprio» e que é partir desta percepção futurante que cada um de nós (ou a Índia) poderá reconstruir melhor a sua personalidade e realização. 
É fundada em 1911 em Varanasi a Ordem da Estrela do Oriente pela Sociedade Teosófica, na crença da volta do Instrutor mundial que se manifestaria através do jovem Krishnamurti, mas este alguns anos depois recusa-se a assumir tal papel e prefere caminhar sem falar de mestres ou Deus, mas apenas da alma descondicionada, livre e atenta. Em Portugal houve várias publicações desta fase inicial de Krishnamurti, que terminou em 1927, com a Ordem a ser dissolvida, seguindo-se por dois anos a Ordem da Estrela, dissolvida finalmente em 1929. A partir dessa época Krishnamurti dará um ensinamento de cariz consciencial e psicológico, com ênfase na libertação do passado, do conhecido, das autoridade para se estar plenamente no presente, descondicionadamente, aberto, em amor. Ainda o ouvi a dialogar duas vezes na Índia, em Adhyar, quando estive com o Kavi Yogi Shuddhananda Bharati. 
12-I. Relatório do bispo de Dume, um dos bispos de anel, enviados para administrar as ordens superiores e corrigir a cristandade, de Cochim, em 1522: «Acho não aproveitar nas almas segundo meu desejo e trabalho, que muitas pessoas me dizem, e das principais: pregais de restituição; não há homem que aqui possa restituir, porque não viemos aqui senão para apanhar e roubar por todas as vias... Quanto à ordem eclesiástica, toda é perdida, por causa da cabeça ser ignorante».
Um dos maiores naufrágios da história marítima sucede em 1627 quando duas naus carregadas na Índia, por causa dos corsários, recebem na Catalunha a protecção de seis galeões com a fina flor guerreira portuguesa comandada por D. Manuel de Meneses, mas em vão e para desgraça de todos quando a fúria dos elementos e a imprudência de quererem navegar com mar tão alteroso, quando deviam era ter sido logo ali descarregadas, despedaçaram as embarcações contra a costa da Biscaia, junto a S. João da Luz. Escaparam alguns, graças às fustas de franceses que os andaram a recolher das naus encalhadas. Morreram 2.600 homens. A Epanáfora Trágica de D. Francisco Manuel de Melo descreve o sucedido, destacando-se a figura do capitão D. Manuel de Meneses explicando-lhe um poema de Lope de la Vega, como se estivesse numa «serena academia». Dos galeões escapou apenas o “S. Tiago” que teve de lutar com quatro naus holandesas à entrada da barra antes de entrar em Lisboa no fim de Fevereiro. Um dos participantes na embaixada de D. Garcia de Silva y Figueroa ao Shâ’h da Pérsia, autor anónimo de 23 pequenas relações sobre as coisas do Oriente em espanhol, é um dos sobreviventes.
A Junta dos Três Estados e o vice-rei Conde de Alvor em 1684 decidem mudar para os ares mais saudáveis de Mormugão e abandonar Velha Goa. Mas só em 1835 é que Pangim, a 7 km a Ocidente de Goa, é assumida como capital.
D. João de Lencastre, governador geral da Baía, em 1701 prevê que o ouro descoberto no Brasil mal chegue ao Tejo parta para a Europa, «ficando todos estes países com o lucro e nós com todo o trabalho», o que devido à incapacidade agrícola e industrial do país se veio a verificar.
Swami Vivekananda, o discípulo principal de Ramakrishna e o impulsionador da Ordem de monges que ainda hoje é uma das mais importantes instituições religiosas na Índia, nasce neste dia em 1863. Com preocupações sociais e algo céptico, o toque de Ramakrishna e o lento discipulado abri-lo-ão ao divino e ao serviço da humanidade. Agostinho da Silva, numa pequena biografia que lhe dedica, dirá:«o grande fervor religioso que frequentemente o fazia entrar em êxtase e romper em louvores da Natureza e de Deus não o distraía da criação de escolas, de Universidades vivas em que se estudassem com um espírito novo os grandes problemas da humanidade, de centros de socorro, de instituições médicas; oferecia-se com os seus missionários para as tarefas mais humildes, sem querer saber a quem beneficiavam, certo sempre que, em última análise, só poderiam dar a todos maior força espiritual».
13-I. Nasce o santo sufi da Ordem Chishtia, Ghulam Shah, em 1647, e que seguirá o sura II-190 do Corão: «Luta em nome de Deus contra os que lutam contra ti, mas não comeces as hostilidades. Vê que Allah não gosta da agressão», ao apoiar o último mestre dos Sikhs, Gobind Sing, na luta contra um déspota muçulmano, morrendo-lhe alguns dos filhos e setecentos dos discípulos. Na Índia, acima dos confessionalismos religiosos, sempre houve exemplos de satsanga, a associação de seres com a verdade. Entre os muçulmanos, os sufis, os místicos ou gnósticos do islão, sempre absorveram ensinamentos de outras religiões, ou reconheceram com facilidade os seus iguais de outras tradições, sobretudo os yogis, jainas, ou até cristãos.
Francisco Assis de Távora, 3º marquês de Távora, vice-rei na Índia valerosamente por quatro anos (embora algo zelota religiosamente), é executado com a mulher e o filho (e outros fidalgos), acusados do crime de lesa- majestade, em Belém em 1759, depois dum cativeiro curto e um processo pouco claro, movido pelo marquês de Pombal, sendo arrancado o seu retrato da galeria dos vice-reis em Pangim, e apagado o seu símbolo heráldico da sala dos Brasões no palácio de Sintra.
                                     
14. Abu’l Fazl, sábio e místico sufi, cronista e íntimo do imperador Akbar, protector dos missionários na corte mogol, nasce (“o meu espírito puro ligado a este corpo elemental saiu do ventre materno para esta expansão agradável do mundo”) em Agra, em 1551. Muito precoce na fala e na escrita, já da sua adolescência, dirá: «Por vezes o meu coração era atraído para os sábios do Cataio, outras para os ascetas do monte do Líbano, noutras o desejo de conversar com os lamas do Tibete quebrava a minha paz e noutras vezes a ânsia de passar algum tempo com os padres de Portugal puxava a minha roupa». Com efeito, o pendor eclético e místico de Akbar, tendendo já à unidade das religiões, ao criar a Ibadat Khana, a Casa da Adoração, na cidade imperial de Fatehpur Sikri para debates teológicos de membros das várias seitas islâmicas e depois para as várias religiões, permitia a Abu’l Fazal escrever: «A corte de Akbar tornou-se a casa dos peregrinos dos sete climas e a assembleia dos sábios de cada religião e seita». As suas obras principais, biografias de Akbar e a época, são o Akbarnama e Ain-i-akbari, pois foi secretário particular dele e era filho do Seikh Mubarak, um dos que apoiou mais Akbar na fundação da nova religião, Din-i-Ilahi, uma tentativa pioneira de unidade das religiões pelo seu interior e pela aspiração a Deus. De Abu Fazal dizia o Padre jesuíta Monserrate, enviado de Goa, e que com ele privou bem, que o «acume do seu engenho facilmente superava a todos na corte». A sua descrição biográfica do nascimento é interessante:«my pure spirit joined to this elemental body came forth from the womb into this fair expanse of the world. At a little over one year I had the miraculous gift of fluent speech and at five years of age I had acquired an unusual stock of information and could both read and write. At the age of seven I became the treasurer of my father's stores of knowledge and a trusty keeper of the jewels of hidden meaning and as a serpent, guarded the treasure.» 
                                  
         "The mythical heroine Alan Qo'a, who, impregnated by a ray of divine light, gave birth to the                                 Mughals' ancestors. Abu'l-Fazl, Akbar's official biographer." 
Em 1641, ao fim de cinco meses de luta, Malaca cai para as mãos dos holandeses e malaios, com culpas do governador Manuel de Sousa Coutinho. Portuguesa durante 130 anos, serviu de apoio à expansão no Extremo Oriente e recolheu na alfândega muitos reais para o erário público. Ainda hoje na zona portuguesa da cidade há um padre português e cristãos com nomes, sangue e algumas tradições levadas de Portugal, produtos duma fusão multi-centenária, sobretudo dos malaios com portugueses, indianos e chineses.
O P. Tomás Estêvão (Thomas Stephens Buston) morre em 1643. O primeiro inglês a chegar à Índia, em 1579, autor da Kristipuranna ou ainda muito desenvolvidamente, Discurso Sobre a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo Nosso Salvador ao Mundo e de outras obras sobre o concanim, língua em que conseguia pregar, revelou conhecimentos razoáveis do hinduísmo, ao citar obras da espiritualidade indiana, e reconheceu a relação do sânscrito e das línguas indianas com o grego e o latim. Protegeu ainda os estrangeiros com problemas com as autoridades portugueses, tais como os viajantes Fitch e Laval. As suas cartas para a pátria contribuíram para o despertar do interesse inglês pela Índia.
O governador na Índia Melo e Castro, depois de não querer cumprir a cláusula do casamento da rainha D. Catarina de entregar aos ingleses Bombaim, pois verificara amargamente que estes não cumpriam as cláusulas de ajuda contra os holandeses, e de alvitrar a sua compra aos ingleses, é forçado a assinar a ordem de entrega em 1665. Dois meses depois chegava a contra-ordem do rei, mas era já irremediável.
Na Suíça nasce em 1875 Albert Schweitzer, médico humanitário, Nobel da Paz de 1952 e autor de vasta obra entre a qual se destaca o livro O Pensamento Indiano e o seu Desenvolvimento, no qual conclui que o pensamento da humanidade deve avançar para uma posição em que obtenha a sua visão do mundo a partir da ética.
                                 
15-I. Carta régia de mercê dos direitos de donatário das terras a descobrir, ou já descobertas por seu irmão Gaspar, desaparecido, a Miguel Côrte Real em 1502, que parte em busca do irmão, em parte incerta desde a sua segunda expedição à Terra Nova, América do Norte. Mas nenhum voltará e tal saga surge bem poetizada na Mensagem de Fernando Pessoa.
Carta de S. Francisco Xavier em 1544, de Cochim, onde conta como tendo encontrado num pagode 200 brâmanes, e depois de lhes ter pregado destemidamente o credo e os mandamentos e quem ia para o inferno e quem ia para o paraíso «levantaram-se todos os brâmanes festivamente e me deram grandes abraços, dizendo-me que verdadeiramente o Deus dos cristãos é Deus verdadeiro, pois os seus mandamentos são tão conformes à razão natural». Mas, segundo ele, não se convertiam porque pensavam que lhes faltaria depois o necessário.
Nasce no 36º ano do reinado de Akbar, em 1592, o seu neto Koorão, filho de Jahangir e de uma princesa indiana. Virá a ser o imperador Shah Jahan, o rei do mundo e que, para fazer juz ao nome, deixará para a eternidade o monumento perfeito do Taj Mahl, em Agra, para celebrar o Amor que brilhou na relação com Mumtaz-i-Mahl (eleita do palácio), a mulher preferida, filha do seu conselheiro e amigo dos missionários Asaf Khan. O viajante francês François Bernier, ao visitar o Taj Mahal em 1663, admira o uso do jade e do jaspe e compara a sua utilização com a técnica da pedra dura florentina, um dos factores principais da beleza extraordinária do monumento. A debatida questão duma influência directa da corte dos Medici ou um desenvolvimento independente de duas escolas, parece hoje resolvida no sentido da primeira hipótese, numa conjunção maravilhosa florentina e indiana de beleza. 
                        
O P. José Vaz, abnegado missionário goês, escreve em 1711 ao superior dos Missionários P. José de Meneses, passando-lhe o governo da missão no Ceilão, onde labutara anos difíceis mas frutuosos, e confessando-lhe o dom de intuir a sua morte próxima: «Meu Reverendo Padre e Pai espiritual. O amor de Deus, e do próximo more sempre em nossas almas. Conforme a força, com que a fraqueza vai dominando em mim, julgo que não pode deixar de se desfazer depressa esta mortalidade».
Carta de lei régia datada deste dia garante aos não-católicos os seus usos e costumes religiosos e civis, em 1774. Meses depois a Inquisição era extinta por D. José e o marquês de Pombal, mas os efeitos numa terra tão calcinada já não poderiam ser florescentes...
Recebe-se em Goa, em 1802, a notícia da paz da Inglaterra com a França, terminando o pretexto para a ocupação inglesa que há um ano procurava por todos os meios tomar conta de Goa, Damão e Diu.
O jornalista e lutador pela autonomia dos indianos na Índia Portuguesa, Luis de Nascimento de Mendonça, nasce em Chandor em 1878. Enalteceu o desabrochamento de várias liberdades com o advento da Republica, e lutou pela aprendizagem do Concani e por um currículo escolar mais ligado com a milenária Índia: «Ninguém nos disse palavra acerca das lutas lendárias dos Kauravas e dos Pandavas. Falaram-nos do cativeiro da Babilónia e do desafio entre os horácios e os cureáceos. Nada acerca dos guptas e dos mogóis. Sabíamos muito da dinastia dos Faraós. Em vez de Shivaji, foi Napoleão que absorveu a nossa admiração. Antes de ler Xacuntala lemos Frei Luís de Sousa. Éramos capazes de recitar uma dúzia de estrofes dos Lusíadas, mas não tínhamos lido uma sloca do Ramayana ou do Mahabharata».
16-I. Pedro Álvares Cabral zarpa da Índia em 1501 apenas com cinco naus das treze que levara, com especiarias, mercadorias e embaixadores, não de Calecut mas dos reinos vizinhos de Cochim, Cananor e Coulão com quem estabeleceu relações de paz, amizade e comércio que durarão longos anos. Neste segundo regresso da Índia, os barcos vinham (como tinham ido) mais carregados de que da primeira, mas devido aos falhanços das negociações e às incompatibilidades de interesses, deixavam também rastos de sangue e viveiros de ódio. Caberá a D. Vasco da Gama impor respeito na zona em 1502, algo feramente mas tal era a “língua franca” e pesada das relações islâmico-cristãs de então.
O P. Roberto da Nobili, italiano, morre em 1656, com 80 anos de idade e 50 da Índia. Estudou a religião indiana, aprendeu o sânscrito (proibido de ensinar a quem não fosse brâmane) com os sacerdotes e mestres indianos, viveu como um renunciante oriental e, sendo reconhecido como mestre sábio e nobre (ele próprio se dizia brâmane de Roma e possuidor do Veda perdido), conseguiu pela primeira vez um número grande de conversões na casta superior dos brâmanes. A sua adopção dos ritos indianos iniciou sendas pioneiras mas suscitou celeuma. Escreveu algumas obras, tal o Diálogo sobre a Transmigração das Almas, que o P. Baltazar da Costa, o mestre de S. João de Brito, traduziu com o sugestivo título Antídoto contra o mortal veneno da Transmigração das almas, e que diz ter encontrado na «barbária língua badagá» e a transladou para o português, a fim de estar sempre à mão dos missionários constantemente confrontados com esta explicação das justiças e injustiças do mundo...
Carta do vice-rei D. Fernando Mascarenhas ao rei em 1691 sobre as relações com os príncipes confinantes: «Temos correspondido com as mesmas demonstrações de amizade e em tal forma e com tanta cautela, que assim os vassalos do Mogor como os de Raza Ramo estão na fé de terem este governo propenso para os seus particulares».
Em 1711, neste dia, abandona este vale de ora florida ora espinhosa peregrinação o santo José Vaz, brâmane goês que, depois de convertido ao Cristianismo se distinguiu num arrojado e abnegado apostolado na Índia e no Ceilão, onde esteve trinta anos, dos quais dez sozinho, arrostando com não poucas perseguições, especialmente dos holandeses protestantes, duplamente seus adversários. O seu companheiro P. Sebastião do Rego, que lhe escreveu a biografia, narra que: «no último instante da vida mostrou o muito que sempre amou a virtude da Oração; porque antes de expirar pediu aos padres, que lhe assistiam, que depois de lhe rezarem o ofício da agonia, o deixassem estar quieto, e não lhe falassem mais: e nesta quiete, a que estava tão acostumado, o seu espírito, subiu à contemplação intuitiva da presença de Deus... e invocando o Santíssimo Nome de Jesus... de semblante alegre entregou a sua feliz alma nas mãos do seu Criador». Esta capacidade de uma pessoa se elevar meditativamente à identificação espiritual e nela sentir mais o Divino e deixar o corpo calma e decididamente será sempre importante de se trabalhar e apurar e por isso dizemos que até à hora da morte estamos a evoluir, ou a fortificar-nos no desprendimento do corpo e na assunção do corpo espiritual ou de ressurreição com que partimos luminosa e “conscientemente” para os mundos psico-espirituais.
17-I. Um exército numeroso do Samorim acomete contra Cananor, em 1565, mas os seus habitantes capitaneados por D. António Noronha vencem-no, apesar da habitual desproporção numérica. Contam as crónicas que, no ardor da batalha, implorando sacerdotes, mulheres e crianças a protecção do Divino, a cidade foi vista banhada de portentosa luz. Resta saber se ela está sempre em toda a parte e é apenas a cegueira espiritual que a impede de ser vista e vivida, ou se ajudas invisíveis podiam beneficiar os combatentes, de qualquer um dos lados, que as invocavam ou atraíam.
De Sripur, um dos núcleos de portugueses em Bengala, em 1599, o P. Francisco Fernandes escreve sobre um tratado composto sobre o cristianismo e traduzido para bengali pelo P. Domingos de Sousa. São padres da 2ª missão jesuítica e neste ano chegam também os agostinhos, do que resultam rivalidades. Desde 1579 autorizados pelo imperador Akbar, os portugueses chegarão a ter consigo dez mil cristãos aquando do cerco de Hugli em 1636. As igrejas portuguesas ainda podem ser vistas hoje em Hugli e em Calcutá, onde se conservam alguns luso-descendentes, e muitas famílias cristãs descendentes das convertidas nessa altura.
O Dr. Froilano de Melo, médico goês e deputado, discursa na Assembleia Nacional em 1946: «Venho da Índia e sou o portador do pensamento indiano! Porque se quatro séculos de cultura portuguesa fizeram de mim o patriota que sou, profundamente português, amante de Portugal, não devo esquecer a minha ancestralidade indiana, orgânica, milenária, de que justamente me orgulho... Porque se a gente da minha geração, mais conhecedora da alma amorável da Nação, não vê em certas dissonâncias que não condizem com o sentimento igualitário, terno e justiceiro da gente portuguesa mais do que desvios momentâneos que a própria natureza da alma nacional se encarregará de dissipar, na alma da gente moça, mais revolta, mais explosiva ao sabor dos tempos, se vai firmando a convicção de que se vai criando, no tratamento, que a Índia merece hoje à metrópole, uma espécie de dissociação entre o Estado Português e a Nação Portuguesa. É meu dever de lealdade, de amor e de patriotismo informar a Assembleia Nacional do perigo que corremos... À nossa roda lavra o incêndio. Massas revoltosas hindus e muçulmanas cantam na Índia inglesa o “Quit India” nas estrofes de Bande Matharam. E, enquanto isto se passa à nossa ilharga, a Índia Portuguesa diz-vos: Nós orgulhamo-nos de ser portugueses, nós queremos continuar a ser portugueses. E vós quereis enjeitar-nos?»
18-I. Frei Jorge de S. Luzia, bispo de Malaca, arcebispo de Goa, clarividente e portanto capaz de vaticinar, escapou de acidentes e aconselhou governadores acerca dos desígnios providenciais com êxito. Fundou e dotou o convento de Almada da ordem dominicana. Em 1579 deixa o corpo terreno e parte para o mundo espiritual.
Em Malta, é eleito mestre da Ordem de S. João Baptista de Jerusalém, em 1741, Frei Manuel Pinto da Fonseca, o último dos quatro grão-mestres portugueses da Ordem, também conhecida por Ordem do Hospital (estiveram na Terra Santa até 1291) ou Ordem de Malta, desde que receberam esta ilha (em 1530) de Carlos V, e que no Mediterrâneo lutará contra o expansionismo turco e islâmico. O governo de Pinto da Fonseca foi de 31 anos (até morrer aos 91 anos), marcado contudo por certo despotismo e crueldade. Criticado por gastar o dinheiro das missas pelas almas dos cavaleiros mortos, respondeu com à vontade ligeira ou fundamentada: «Já estou muito velho, pelo que resolverei isso com os nossos irmãos falecidos, quando brevemente voltar a encontrá-los...»
A. P. Sinnet nasce na Inglaterra em 1848. Jornalista, conhece na Índia Helena Blavatsky, a fundadora, com o seu então companheiro o Coronel Olcoot, da Sociedade Teosófica e torna-se membro dela. Será responsável por um dos primeiros livros de divulgação orientalista com o título de “Budismo Esotérico”, que sai em 1883, embora a obra seja mais uma explicação das doutrinas teosóficas sobre o mundo e o homem, «porque budismo quer dizer Doutrina do Budha, o Sábio, isto é, a Religião da Sabedoria». Foi traduzido e publicado em Lisboa na colecção Teosófica e Esotérica, da editora A. M. Teixeira, em 1916, por João Cid, tendo uma 2ª edição em 1922. Nesta colecção colaborou Fernando Pessoa com seis traduções, desde 1915, de obras de Teosofia a qual o impressiona muito como sistema mas não o convence, reagindo mesmo em alguns escritos contra os seus expositores que traduzira, Helena P. Blavatsky, Annie Besant e Charles Leadbeater
19-I. «Noite má, para quem te aparelhas», exclamou o cavaleiro Gomes Freire de Andrade à vista dum cometa, mas a impetuosidade do infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, em 1464, já estava destinada a estilhaçar-se em vão contra Tânger, do que resultou mortandade inútil. Já anos mais tarde «Um cometa grandíssimo em demasia» sulcou o céu entre Novembro e Dezembro de 1577 e como eram as vésperas da partida da expedição ao norte de África, foi considerado mau augúrio, mas D. Sebastião perfilhou outra interpretação: «O cometa diz-me que acometa»... Podemos dizer que ver os sinais é fácil, mas saber interpretá-los ou com eles fazer luz nas nossas dúvidas, eis a questão. D. Sebastião, vivendo num ambiente de cruzada e demasiado impulsivo e belicoso, não soube tomar em consideração os avisos que se entrecruzavam na corte e que tentavam dissuadi-lo do acometer fatal de Marrocos, tanto mais que alguns dos seus famosos antepassados ali tinham ganho a condição de cavaleiros. Sobre os sinais dos céus, o cientista e sábio Ribeiro Sanches publicou em 1578 um importante opúsculo desmistificador das interpretações dos cometas e da astrologia, no qual afirma:« o universo no seu conjunto não tem poder suficiente para induzir um homem» a realizar actos se a livre vontade não consentir nisso deliberadamente». A outro nível também nesse século XI Erasmo lutara pela afirmação do livre-arbítrio contra o fatalismo ou predestinação divina de Lutero. 
Uma provisão do Conselho Ultramarino de Goa, de 1732, mostra que os principais interessados na obrigatoriedade do uso da língua portuguesa e na proibição do concanim eram os párocos preguiçosos, sobretudo franciscanos.
A Academia Real das Ciências de Lisboa reúne pela 1ª vez em 1780, e até aos nossos dias uma plêiade de grandes almas atravessarão os salões e a biblioteca investigando e transmitindo a cultura científica, literária, histórica e espiritual, debaixo da protecção da dinamizadora do culto do Espírito Santo em Portugal, a rainha Santa Isabel. Fundada pelo duque de Lafões e pelo abade Correia da Serra, recebeu no seu seio inúmeros seres ligados ao Oriente, por estudos ou origens. Entre os seus últimos presidentes destacou-se o notável investigador José Vitorino da Pina Martins, com quem convivi bastante, autor de uma obra vasta e de grande valor sobre a cultura, em especial do Humanismo e de Camões, Sá de Miranda, Erasmo, Thomas More e Pico della Mirandola. 
20-I. Carta de S. Francisco Xavier, de Cochim, em 1548, «para que saibais quão abundantes ilhas são estas de consolações espirituais para que todos estes perigos e trabalhos voluntariamente tomados só por amor e serviço de Deus nosso Senhor são tesouros abundantes de grandes consolações espirituais, de tal modo que são ilhas muito dispostas e aparelhadas para um homem em poucos anos perder a vista dos olhos corporais com abundância de lágrimas consolativas. Nunca me recordo de ter tido tantas e tão continuadas consolações espirituais como nestas com tão pouco sentimento de trabalhos».
D. Sebastião nasce no ano de 1554 e em 1568 no mesmo dia, a maravilha fatal da idade, toma posse da coroa de Portugal. Não soube contudo conservá--la por muito tempo pela sua imprudência de se imiscuir em lutas do norte de África, ainda por cima sem descendência. Das suas boas medidas: uma para o regimento da Carreira da Índia, e que evitou muitas mortes, as naus não poderiam ter mais de 300 ou 400 toneladas; outra para o Extremo Oriente: «daqui em diante os Portugueses comprem e vendam por um mesmo peso e balança, a qual será a que sempre houve na terra, onde os ditos portugueses falarem».
O governador geral do Brasil Mendo de Sá e o seu sobrinho Estácio de Sá, em 1567, expulsam definitivamente os franceses do Rio de Janeiro.
O P. Alexandre Valignano, natural de Nápoles, Visitador das missões jesuítas além do Cabo da Boa Esperança, morre em 1606 em Macau, depois de três estadias em Goa, onde chegara em 1574, e no Japão, e seis em Macau, tendo sido o sagaz organizador da penetração ocidental e cristã na China e um prudente embaixador e Visitador no Japão, onde promoveu a tipografia missionária, a pintura, a música ocidental e a formação dum clero local. Já em relação a África a sua expectativa era pessimista. Deixou obras valiosas sobre o cristianismo no Japão e centenas de cartas entre as quais respigamos a escrita de Lisboa em 12 de Janeiro de 1574 ao Geral da Companhia, o P. Mercuriano, outro italiano, nas vésperas de partir para Goa, acerca do governo dos jesuítas (portugueses): «Reina o espírito de servidão e temor. Os pobres padres e irmãos vêm a sofrer quase uma humilde escravidão. Sinceramente, Padre meu, desde que entrei em Portugal e vi e tratei com os nossos em Évora e Lisboa, tornei-me tão melancólico que verdadeiramente, ainda que me esforce, não pude mais alegrar-me». Indica ainda como capitão, o P. Luís Gonçalves da Câmara, o influente confessor de D. Sebastião.
O P. António de Gouveia escreve a História da China dividida em Seis Idades tiradas dos livros Chinas e Portugueses com o contínuo estudo, e observações de 20 anos em a Metrópole de Fó a 20 de Janeiro de 1654 com um apêndice da Monarquia Tartárica”, na qual defendia que o cristianismo era o coroamento natural do budismo e do confucionismo, estuda a vida e obra deste mestre, e depois de 30 anos de permanência no Império Celeste, dos quais seis preso, morrerá com 84 anos de labores, em Fevereiro de 1677.
O vice-rei na Índia conde da Ega, em 1764, louva em ofício «o bispo eleito do Halicarnasso (D. António José de Noronha), que foi o primeiro que passou aquelas terras de Pondá, comandando o Corpo de Sipaios do Estado para efeito de se fazerem operações como eu tinha determinado ao princípio, sem que o mesmo Estado figurasse com cara descoberta, obrou com muito desembaraço. O seu carácter é mais de soldado que de eclesiástico; tem bastante conhecimento dos costumes e génios asiáticos, fala as línguas moura e marata, e com o título de nababo (deputado do imperador mogol), unido ao seu conhecido valor, se faz temer e respeitar em todo o Goncão. Por este motivo o nomeei general das Novas Conquistas, interinamente, enquanto existissem em nosso poder; e agora o determino mandar com algumas diligências ao Marata; não só por este meio procurar que o dito Marata não nos altere o sossego, mas muito mais ainda para diligenciar embrulhar todos os régulos do interior das terras, sendo este o único modo com que poderemos aqui conservar a tranquilidade».
21. Diogo da Azambuja, cavaleiro da Ordem de Aviz, funda na costa da Guiné (acompanhado entre outros por Cristóvão Colombo), no ano de 1482, com o consentimento do rei Casamansa, uma fortaleza, dedicada ao Defensor de Portugal — S. Jorge — e chamada S. Jorge da Mina, pela sua riqueza de ouro, e que chegou a ser núcleo de cidade populosa, permitindo a D. João II o título de Rei de Portugal e dos Algarves, de Aquém e Além Mar e Senhor da Guiné. Nos dois anos e meio que a governou, Diogo Azambuja soube manter relações cordiais com os africanos. Três reis serviu com perfeição e aos 75 anos foi ainda erigir a fortaleza de Mogador, junto a Sanfim.
Em 1510 o rabi Abraão Zacuto, médico e astrónomo, autor do Almanach Perpetuum Coelestium Motum, editado em Leiria em 1496 (e portanto ainda um incunábulo), utilizado nas tábuas solares náuticas que os navegadores seguiam, morre já emigrado no Médio Oriente, devido à expulsão dos judeus de Portugal. Fora um conselheiro importante de D. João II e de D. Manuel, depois de ter sido expulso de Espanha. Esta perseguição religiosa, para além dos sofrimentos provocados, custou cara a Portugal, pois homens de valor e capitais internacionais tão necessários ao esforço duma nação em expansão emigraram e aumentaram o poderio dos turcos e das nações europeias, que vieram depois impor-se aos portugueses no Oriente. Já no fim da sua vida, no rescaldo da diáspora ibérica, como astrólogo e cabalista, Abraão Zacuto previa para breve a vinda do Messias, o que aliás era frequente na época no cripto-judaísmo. Bernardo Santareno dedicou-lhe uma interessante peça teatral.
Amato Lusitano, um dos grandes médicos e botânicos do Renascimento, figura ímpar do verdadeiro cientista, «na minha clínica nada tive mais a peito do que promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros», liberta-se do invólucro físico em 1568, em Salónica, na Macedónia, para onde tivera de se exilar, mas onde encontrara outros sábios judeus portugueses, como o filho do Dr. Judas Abrabanel, o famoso tratadista do Amor, Leão Hebreu.
Pyrard Laval, que viajara nove anos pelo Oriente e fora preso pelos portugueses, sendo libertado da prisão ao fim de três semanas pela intercessão de cinco jesuítas, já livre, no regresso ao tocar num porto da Corunha: «Quando felizmente desembarcámos a 21 de Janeiro de 1611 lembrei-me da promessa, que na minha prisão em Goa havia feito, e era, que se Deus me fizesse a graça de me levar algum dia a Espanha iria em romaria a Santiago da Galiza, e isto era o que eu pedia sempre a Deus de todo o meu coração, quando ia no mar». Mas antes escrevera: «É costume dos portugueses ocuparem-se antes em fazer promessas aos santos do que trabalhar por salvar a vida». Agostinho da Silva lembrou que Santiago de Compostela «deu aos povos, com as peregrinações, a ideia de que existia uma Europa» e «que a mercadoria que os portugueses embarcaram foi a Europa», o que Pyrard Laval parece ter provado.
António Teles de Meneses e a armada portuguesa vencem neste dia a armada holandesa na baía da Aguada, em Goa, em 1638. O Santíssimo esteve exposto no monte da Senhora do Cabo, com o arcebispo primaz e muitos religiosos em oração. As escaramuças sucederam-se por meses, pois os holandeses tentavam manter cercada Goa. Teles de Meneses foi ainda governador da Índia portuguesa, governador do Brasil em 1647 e governador de Angola, antes de morrer na viagem para a Índia em 1657, quando já ia nomeado vice-rei.
Painéis de S. Vicente, ou do Infante D. Santo, no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa 
22-I. Dia de S. Vicente, mártir em Valença em 303 e sepultado na costa algarvia na igreja dos Corvos, local de peregrinação moçárabe até 1173, quando depois duma tentativa de D. Afonso Henriques de o encontrar, partiu de Lisboa uma expedição que acabou por trazer o seu corpo, acompanhado dos corvos, consagrados a Saturno, para a Sé de Lisboa. Alguns dos reis notabilizaram-se pela fé na intercessão de S. Vicente, e os painéis de Nuno Gonçalves, no museu de Arte Antiga, em que poderão estar representados os iniciandos de Portugal perante um dos seus mestres da Hierarquia dos despertos e activos na Eternidade, será sempre uma das obras primas da arte portuguesa, embora misteriosa quanto à identidade precisa da figura dupla central: será S. Vicente, ou será o Infante Santo D. Fernando, a aparição luminosa e iniciática?
Em 1532 é eleita a 1ª Câmara Municipal das Américas, em S. Vicente (S. Paulo), presidindo ao acto o governador da província de Santa Cruz, Martim Afonso de Sousa. Os portugueses exportaram o seu órgão político mais importante, o Município, que representava e defendia as liberdades populares e que vinha das raízes da nação, o ajuntamento dos homens-bons, os vereadores. Era perante ele que os governadores do Estado Português na Índia e no Brasil nomeados pelo Rei tomavam posse, jurando cumprir os seus deveres. Mas ao longo dos séculos a centralização real e governamental, iniciada na metrópole com D. João II, veio a limitar estes órgãos de poder local, dos quais Alexandre Herculano foi um dos últimos grandes defensores.
Carta de Rui Gonçalves Caminha, em 1547, ao vice-rei D. João de Castro: «Mandei pedir a Vossa Senhoria que se houver de fazer novo oficial deste cargo de Brás de Araújo, que se lembrasse de mim, porque o vice-rei, que santa glória haja, me começou de fazer mercê por seu respeito, e que agora me a pode acabar de fazer para meu contentamento e honra deste mundo, e não com tenção de proveitos, nem de ganhar riquezas porque não nas quero».
Carta do provedor e irmãos da Misericórdia da cidade de Goa ao provedor e irmãos da Misericórdia da vila de Sintra, em 1631, comunicando terem dois depósitos para serem pagos a moradores em Sintra. Como os templários e os judeus, as Misericórdias exerciam actividades bancárias, e a elas alguns vice-reis recorreram, para além das suas mais conhecidas funções caritativas, de assistência e cultura, que as mantém ainda hoje bem vivas.
23-I. O farmacêutico leiriense Tomé Pires, embaixador à China, parte finalmente de Cantão rumo a Pequim em 1520, mas devido às informações enviadas pelos mandarins de Cantão ao imperador, não recebe a aprovação imperial e é remetido para Cantão, onde será preso como espião e, por fim, depois das incompatibilidades entre Simão de Andrade e os chineses, executado. Em carta a seu irmão escrevera porém já realçando o seu belo conceito do dever:«Quando cumpre ao serviço de El-Rei não deve homem contradizer, mas ir onde cumprir e morrer quando oferecer» Das suas experiências e cogitações (desde 1511 na Índia e em Malaca), resultara a valiosa Suma Oriental, verdadeiro resumo geográfico e antropológico do Oriente e entusiástica apologia do comércio: «Sem ele, não se susteria o mundo: isto é o que enobrece os Reinos, que faz grandes as gentes e nobilita as cidades e o que faz a guerra e a paz... Tal actividade é gostosa, é necessária, é conveniente». Desta mundivivência fraterna pelo comércio, resulta a ausência de críticas às outras religiões, embora como farmacêutico omnívoro não deixe de comparar como os indianos «nas enfermidades não comem carne os doentes. Somente pescado têm por dieta. O principal remédio é tangerem-lhe atabaques e outros sons, dois, três dias, que dizem que têm virtude». Nas febres, lavam a cabeça com água fria, enquanto os «nossos homens com febre, comem galinhas gordas e bebem vinho e são sãos». Hoje talvez a balança penda para o tratamento oriental. Tomé Pires desfez o mito oriental do sangue do dragão, ainda que contra a autoridade de Plínio e os antigos: «pela experiência que hoje temos do que se colhe nesta ilha, o qual se destila de umas árvores muito grandes, que nela se criam, chamadas comummente dragões, e delas se congela este licor ao modo de resina, feita em lágrimas mui vermelhas e transparentes». Mas o dragão, enquanto símbolo da energia vital, telúrica e celestial, sobreviverá até aos nossos dias.
Luís de Camões, segundo os estudos astrológicos de Mário de Sá, nasce num Sábado em 1524, em Lisboa, em pleno período dum esperado fim do mundo a 4 ou 5 de Fevereiro, devido ao ajuntamento de planetas no signo dos Peixes, e que deu origem à famosa obra de Frei António de Beja Contra os juízos dos Astrólogos, em que algumas ideias de Pico della Mirandola foram assumidas e que mais recentemente José V. de Pina Martins dissertou com a sua proverbial erudição e bom senso. Luís de Camões escreve: «Quando vim da materna sepultura / De novo ao mundo logo me fizeram / Estrelas infelizes obrigado...», parecendo referir tanto a reencarnação do espírito, como as influências dos astros e, embora reconhecendo panteisticamente, numa das Elegias, «um saber infinito, incompreensível, / uma verdade que nas coisas anda, / que mora no visível e invisível», crê em «Aquele único Ser, alto e divino, / Que tudo pode, manda, move e cria». Numa das suas mais belas e elevativas poesias, em que vibram os acordes platónicos e neo-platónicos, cantará: «Mas ó tu, Terra de Glória, / Se eu nunca vi tua essência, / Como me lembras na ausência? / Não me lembras na memória, / Senão na reminiscência; / Que a alma é tábua rasa / Que, com a escrita doutrina / Celeste, tanto imagina / Que voa da própria casa / E sobe à Pátria Divina».
                         
O príncipe mogol Dara Shikoh, filho de Shah Jahan, casa-se em 1633, em Agra, com a princesa Nádira de quem nascerão dois filhos, Sulaiman e Siphir. Praticante das tradições espirituais sufis, dialogante com a tradição hindu, simpático com a católica, embora sendo o filho mais velho acaba por ser morto pelo irmão Aurangzeb, que se tornará o imperador intolerante, com conversões forçadas, e a destruição de templos hindus e das aproximações que se faziam entre hinduísmo e islamismo e até com o catolicismo.
Em 1676 em Goa, o jovem médico francês Dellon é sentenciado a cinco anos de confissões e rezas e «a guardar segredo de tudo quanto viu, disse ou ouviu, ou se tratou com ele tanto na mesa, como nos outros lugares do Santo Ofício». Enviado calçado de ferros para Lisboa, será libertado em 1677 e divulgará por toda a Europa o sucedido.

24-I. O P. Mateus Ricci consegue, depois duma progressão metódica pelo interior da China, chegar a Pequim e finalmente oferecer os seus valiosos presentes, entre os quais três quadros, quatro relógios, dois prismas e a obra Theatrum Orbis Terrarum, de Ortelius (1570) ao imperador chinês Shengzonz em 1601, os quais são aceites e contribuem para lhe granjear o tratamento de hóspede de categoria elevada. Falando chinês, pintor, cientista e dotado duma memória extraordinária, o P. Ricci torna-se admirado dos letrados chineses e inicia-se um período de abertura da escol chinesa à cultura ocidental, com uma boa aproximação entre os confucionistas e o cristianismo na versão jesuítica, que permitirá várias adesões significativas a esta e um bom relacionamento de transmissão de culturas entre pessoas civilizadas. Mais tarde, com a entrada dos missionários dominicanos e agostinianos, questionar-se-á se os ritos dos chineses ao Céu, aos antepassados e a Confúcio devem ainda ser permitidos, e criticar-se-á a ocultação do mistério da Redenção feita pelos jesuítas. O P. Ricci, embora atacando os aspectos niilistas do Budismo, reconhecia que os seus métodos de meditação não eram opostos aos dele e admitia influências de Pitágoras, sobretudo na metempsicose. Às condenações dos ritos chineses decretadas por Roma em 1645 e 1707, respondeu o imperador em 1708 só autorizando a entrada dos missionários que seguissem o sistema do P. Ricci acerca da doutrina dos letrados da China, ou seja, os que «aceitavam que os chineses antigos conheceram o Deus vivo e verdadeiro e o significavam pelas vozes Tien e Xanti e que o culto a Confúcio e aos antepassados não era supersticioso». As pressões anti-jesuíticas serão responsáveis por novas proibições de Roma, até a Companhia de Jesus ser dissolvida em 1773. Só em 1929 é que o Papa Pio XI confirma de novo as teses dos jesuítas de que o culto civil de Confúcio e o dos antepassados não eram condenáveis.
É dado o beneplácito régio em 1629 à casa de Recolhimento de Freiras de S. Mónica em Goa, depois de muitos anos de pedidos de Goa e recusas da corte em Lisboa. Chegou a albergar 400 freiras e portanto a causar muitas despesas e celibatários. Com o Tempo e os seus testamentos, conventos como este tornaram-se ricos, enquanto o Estado empobrecia em dinheiro e homens de armas. E como o entendimento político e religioso não se fez entre os povos e tradições em jogo, tudo se tornava cada vez mais adverso à permanência lusíada em tanta terra e mar do Oriente.
25-I. O império hindu de Vijayanagar, depois de muitos anos de lutas vitoriosas contra os árabes, termina em 1565 quando o imperador Rama Raja é vencido pela aliança muçulmana do Âdil Khân e do Nizam Melek. Desde o começo do século XIV tentando assenhorear-se da Índia, os muçulmanos encontraram no sul maior resistência e o seu domínio aí sempre foi incompleto, cabendo a Aurangzeb dirigir uma campanha final que esgotou em parte as forças dos mogóis, manifestamente decadentes pelas riquezas e domínios obtidos. Algumas contradições internas dos hindus contribuíam para o seu enfraquecimento, tais como as de Krishna Deva, o senhor do império de Vijayanagar, quando mandava matar 60 pessoas para cimentar melhor um tanque, ou arrastava na sua morte centenas de mulheres, das quais em poucos minutos só se viam as cinzas. É curioso que a primeira referência na literatura sânscrita aos óculos, trazidos pelos portugueses, diz que Vyassaraya, o guru do soberano de Vijayanagar, os usava e que lhe tinham sido oferecidos pelos portugueses.
Procissão das mais ricas de sempre em Portugal, em 1588, para receber as relíquias de santos e santas trazidas da Alemanha, a tornar-se luterana, por D. João de Borja, filho de S. Francisco de Borja, e que permanecem ainda hoje a irradiarem as suas altas virtudes, na igreja de S. Roque, Lisboa, e que, quem sabe, tanta falta terão feito à Alemanha em momentos críticos da sua história...
Frei Aleixo de Meneses nasce em Lisboa em 1599. Filho do aio de D. Sebastião, estará 16 anos no Oriente como enérgico arcebispo de Goa, convertendo alguns dos antigos cristãos da Índia e da Arménia aos preceitos católicos de Roma, fundando igrejas e governando até o Estado Português na Índia. Já a sua rigidez ortodoxa foi de efeitos funestos para o Estado, pois fez destruiu a relíquia do dente de Gautama Budha, aprovou a execução pela Inquisição do irmão do Rei de Ormuz refugiado em Goa e não forneceu a André Furtado de Mendonça o dinheiro necessário para as armadas. A Relação da sua jornada ou viagem a converter os cristãos de S. Tomé, pré-portugueses, é obra valiosa, tal como a descrição do Sínodo diocesial reunido para tentar corrigir diferenças e unificar formas de culto e de visão dogmática diferentes, mas que no fundo eram complementares e mutuamente enriquecedoras...
Frei Paulo da Trindade, macaísta e franciscano, autor dos três volumes da Conquista Espiritual do Oriente, morre em 1651 em Goa. A obra é uma crónica apologética dos franciscanos, com alguns dados interessantes sobre o hinduísmo e sobre os cristãos de S. Tomé, embora os primeiros «creiam em coisas indignas do lume da razão natural» e os segundos se tenham deixado «infeccionar pela heresia do nestorianismo». Na polémica sobre a adaptação religiosa aceitou as posições mais moderadas pelas quais se deviam permitir certos usos simbólicos aos convertidos, tal o fio dos brâmanes, apoiando a tradição iniciada pelo P. Roberto da Nobili, já que ele próprio era fruto duma miscigenação de povos e tradições.
26-I. O imperador mogol Humayun, filho de Babar, nascido no Usbezquistão em 1483, e conquistador de Deli e do começo do império mogol na Índia, ao consultar um livro da sua biblioteca, cai da escada e morre em 1556, sucedendo-lhe o seu filho Akbar, um génio guerreiro e espiritual, que estenderá o domínio desta dinastia de origem turca e mongol, mas que passou a designar-se por mogol, a grande parte da Índia
O general das tropas holandeses no Recife rende-se aos exércitos e armada portuguesa (era a frota da Companhia de Comércio), e termina a longa tentativa de ocupação do Brasil pelos holandeses (trinta anos), sendo concedidas condições honrosas para os sobreviventes, em 1654, pelos comandantes portugueses João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros.
Shri Bhausahib, maharaja de Umadi, desincarna em 1914. Mestre do professor de filosofia e guru Ranade (1886-1957), meditava nove horas por dia. «Para se ter a profunda intuição da natureza das coisas, deve-se primeiro entrar em contacto com os bons e os santos, e segundo, tentar ao máximo aumentar o apego, devoção e dependência de Deus por meio do exercício regular da meditação no nome de Deus... A mente estará em paz e sem qualquer agitação, se uma pessoa fizer o seu dever com alegria e fizer o máximo por dar alegria aos outros».
                                
                                     Om sri Gurudev Ranade namah... 
27-I. Nina Chatu, um dos ricos indianos do sul, instalado em Malaca e que tinha o título de mais alto dignitário, bendara, cooperante de forma notável com os portugueses cinco anos, política, comercial e financeiramente, desiludido com os portugueses, que se preparavam para atribuir o seu lugar de regente dos gentios a outrem, toma a infeliz e trágica decisão de suicidar-se, passando prematuramente para os mundos invisíveis, em 1514.
Carta de S. Francisco Xavier de Cochim em 1545: todos os que vêm com cargos del-rei «vão pelo caminho de rapio, rapis e estou espantado como os que de lá vêm acham tantos modos, tempos, e particípios a este verbo de rapio, rapis. E são de tão boa prosa os que de lá vêm despachados com estes cargos que nunca largam nada do que tomam, por isso podereis ver quão mal despachados vão as almas desta vida para a outra dos que com estes cargos vêm».
André Furtado de Mendonça, no vice-reinado do enérgico Matias de Albuquerque, com uma frota de vinte velas, destroça as naus turcas e do corsário Muça no caminho para o Ceilão, onde vence a armada do rei de Jafanapatão e o seu exército em 1591. Este rei, hostil aos portugueses, morre, e o filho será coroado em 1591, mas como aliado de Portugal.
O regente do Japão Iyeiasu publica o édito de expulsão dos missionários estrangeiros e de perseguição aos cristãos em 1614, porque estes ameaçavam perturbar a harmonia da sociedade japonesa e a integridade do Império.
Os ranes de Satiri revoltam-se em 1852, e durante muitos anos farão guerrilha com as autoridades portuguesas, que culmina em 1895, quando se juntam à sedição dos soldados maratas desgostosos de terem de ir para Moçambique. Era a voz do instinto de independência da nação marata, que nunca se deixou subjugar, tanto pelos mogóis, como pelos portugueses e ingleses.
28-I. «Senhor, Jesus Cristo nosso Salvador dê a Vossa Alteza graça e lume no entendimento, para fazer as coisas de Seu serviço, como até aqui tem feito». Começo auspicioso e sugestivo da carta dum franciscano ao rei em 1552.
No vice-reinado de D. Francisco de Mascarenhas (1581-1584), o primeiro nomeado pelos reis espanhóis, mas em que os portugueses mantêm ainda o seu poder perante os ataques constantes de forças contrárias, Nuno Monteiro vindo de Singapura com 60 portugueses de Malaca chega com uma galeota ao porto de Malaca em 1582 e, vendo-o cercado e em luta contra mais de uma centena de barcos inimigos do sultanato de Achém, em vez de retroceder, avança intrepidamente para o meio deles fazendo tais estragos na armada inimiga que, se não fosse o fogo cair no paiol da galeota e este explodir, poderia ter tido uma vitória extraordinária. Os barcos de Achém que sobreviveram, retiraram-se.
O vice-rei António Melo e Castro em carta ao rei, em 1666: «Os padres da Companhia em nenhuma forma as querem obedecer (ordens régias); mas não é muito, porque em nenhuma coisa se dão por obrigados a mostrarem que são vassalos de Vossa Majestade, e não há autoridade nem poder em um vice-rei que lhe seja inferior». Porém, a acusação mais grave foi: «a nossa destruição nestas partes todas nasceu de tratarmos os naturais delas, como se foram cativos e pior que se nós fôramos mouros».
29-I. P. Jerónimo Lobo, missionário na Etiópia, onde desenterrou as relíquias de D. Cristóvão da Gama, mandando-as para Goa com o seu capacete, investigador dos segredos do Nilo, enviado a Roma e a Lisboa, preso por conflitos entre os jesuítas e o vice-rei conde de Linhares, com 82 anos parte para a Grande Viagem em 1678, em S. Roque. Deixou um vivíssimo Itinerário, onde conta, como chegados por fim a Angola, depois dum dos seus três naufrágios, todos os sobreviventes se disciplinaram publicamente para satisfazerem as promessas ou votos com que tinham implorado a Misericórdia divina, prática esta (de alta antiguidade) então corrente entre os religiosos (generalizada na Páscoa), que assim imitavam a paixão de Jesus, penitenciando-se e desapegando-se do corpo e dos confortos.
Gandhi em  Dezembro de 1931 visitando Romain Rolland na sua casa na Suiça.
Nasce em Clamecy o francês Romain Rolland em 1866. Professor, escritor, prémio Nobel da Literatura em 1915, responde assim a uma carta dum admirador indiano: «Isso é para mim uma prova adicional da fraternidade universal das almas em que creio, e luto por estabelecer uma profunda consciência disso entre os seres de todas as nações e raças. Em particular, sinto agora a necessidade urgente de juntar o espírito da Europa e o da Ásia. Nem um nem outro chegam por si sós. Eles são dois hemisférios da alma. É preciso reuni-los. Que isso seja a grande missão para os anos futuros». Foi um dos primeiros divulgadores do mestre Ramakrishna na França, ao publicar a biografia e a mensagem, mas também de Gandhi, Vivekananda e outros seres.
Yasushi Inoué, o mais popular dos escritores japoneses modernos, morre em 1991. Escreveu O Mestre do Chá, sobre a arte do chá e os mistérios da vida do mestre do século XVI Sen no Rikyu, que terá recebido influências de vários missionários portugueses e de cristãos japoneses. Dos portugueses que escreveram sobre o Cha-do, foi o P. João Rodrigues quem mais tentou compreender esse culto e ritual contemplativo, de «sobriedade, grande quietação e modéstia». Já no séc. XX Wenceslau de Moraes deixou-nos uma obra prima tipografica em papel de arroz impressa no Japão intitulada o Culto do Chá, que tem vindo a ser reeditada.
30-I. Em 1502 deixa a barra de Lisboa, pela 2ª vez rumo a Aryawarta, a terra dos nobres ou respeitáveis, D. Vasco da Gama, com o título de Almirante dos mares da Índia, Pérsia e Arábia. Levava uma armada de vinte navios com muitos portugueses com vocação de mártires, heróis, comerciantes e rapinantes, e ia vingar-se das humilhações que ele e o seu reino tinham sofrido, ora castigando brutalmente, ora premiando magnificentemente...
O vedor da Fazenda Simão Botelho, uma das raras individualidades que teve a coragem de contrariar os desmandos fanáticos, aponta ao rei em 1552 que os religiosos «querem muitas vezes fazer cristãos por força, e vexar tanto os gentios, que é causa de se despovoar a terra, como digo: proveja vossa Alteza como for mais serviço de Nosso Senhor».
O humanista Damião de Goes morre neste dia em 1574 em Alenquer, pouco depois de ser preso (aos 70 anos) e sentenciado pela Inquisição a prisão perpétua no mosteiro da Batalha. Escrivão da feitoria de Antuérpia, casado com a holandesa Joana de Hargen, músico, coleccionador de obras de arte, das quais mandou vir muitas para Portugal, embaixador itinerante, amigo de Erasmo (onde viveu alguns meses, dos mais maravilhosos da sua vida) e do cardeal Bembo, cronista do Reino, autor de crónicas reais e de uma descrição de Lisboa Quinhentista, e momentos importantes dos Descobrimentos (o cerco de Diu), pagou caro o seu amor ao amplo espírito do humanismo renascentista e a «inflamar os ânimos dos leitores com narrativas verdadeiras», sem temor dos poderosos (a casa de Bragança a propósito da sua crónica de D. Manuel), ou dos fanáticos que o acusaram (o jesuíta, companheiro de S. Inácio de Loiola, Simão Rodrigues, três vezes, e o genro Luís de Castro). A figura portuguesa mais cosmopolita da época, soube estabelecer contactos com figuras chaves do Humanismo e da Reforma e defender tanto a causa portuguesa, como a dos etíopes e lapões. Colaborou ainda nas últimas tentativas de se obstar à separação protestante, tentando ligar o cardeal Jacobo Sadoleto com Melanchthon. O seu túmulo e restos mortais estão em Alenquer na igreja de S. Pedro, onde há mesmo um pequeno museu.
António Lopes Mendes nasce em 1835. 16 anos de serviço na Índia como agrónomo permitem-lhe realizar a Índia Portuguesa, ilustrada por si e uma das mais belas obras sobre tal tema realizadas. Viajará ainda no Brasil e Peru em expedição geográfica e estabelecerá analogias insuspeitadas entre o Oriente e a América, que publicará em livro na Sociedade de Geografia.
É assassinada a grande alma da independência da Índia, Gandhi, em 1948, às cinco e meia da tarde, poucos meses depois da separação da Índia e do Paquistão, embora por um brâmane fanático ligado a um movimento político extremista, senão as consequências da tragédia seriam bem maiores, quando se dirigia para uma reunião de oração e meditação em Deli. Dissera: «Eu cheguei há muito à conclusão, depois duma demanda de oração, estudo e discussão com quantas pessoas consegui encontrar, que todas as religiões são verdadeiras, e, também que todas têm algum erro nelas». Perdoando ao assassino, morre pronunciando as palavras Jay Rama, a heróica e fiel incarnação de Vishnu, imortalizada na famosa epopeia milenária Ramayana, e que era a forma e o nome divino que ele mais cultuava.
31-I. Nasce em 1512, filho da infanta D. Maria de Castela, a 2ª mulher de D. Manuel I, o infante D. Henrique que terá como professores Clenardo e Pedro Nunes. Cardeal muito novo, o Príncipe D. João III tentou em vão fazê-lo papa, quando tinha em Roma um bom cardeal D. Miguel da Silva. Protegeu a espiritualidade devocional cristã, correspondendo-se com S. Teresa e convivendo com Luís de Granada (o seu confessor), João de Ávila e outros místicos, mas que não se deviam afastar da ortodoxia. Por morte de D. Sebastião é rei, mas não consegue unificar as duas correntes portuguesas pretendentes ao trono vago, a dos Braganças e a de D. António prior do Crato, o filho do malogrado infante humanista D. Luís e de Violante Gomes (tanto mais que D. Filipe também tinha os direitos de sucessão), e acaba por deixar o governo a uma junta, morrendo no mesmo dia em que nascera, aquando dum eclipse do sol, em 1580. Escreveu um livro de Meditações e Homílias.
A bula Romana Sedis antistes de Gregório XV, em 1623, apoia as práticas do jesuíta italiano Roberto da Nobili, desde 1606 no Malabar, que permitiam aos nobres indianos convertidos manterem alguns dos seus costumes e ritos: linha na testa, as sandálias e as abluções, e que o próprio P. da Nobili usava, imitando ainda com maior rigor as reservas e as honras que se estabeleciam entre um mestre ou guru e os discípulos, em certos aspectos algo teatralmente. O objectivo do P. da Nobili era alcançar as castas nobres e para isso fez-se vegetariano, com um cozinheiro brâmane, retirou-se um ano em meditação, aprendeu o sânscrito e o tâmul, estudou os textos sagrados indianos e apresentou-se como Tatuva-Podapar Swami (mestre das 96 perfeições do sábio), um nobre renunciante, dividindo os padres em saniasses, os mestres estudiosos que só se comunicavam com os brâmanes, e os pandara swami, os frades destinados a missionar toda a gente. Compôs algumas obras e cânticos que revelam uma precoce adaptação do cristianismo com as riquezas do hinduísmo.
O imperador mogol Shah Jahan, construtor de belas mesquitas, palácios e fortalezas, e que governara magnificentemente e com justiça durante 30 anos, embora com menos abertura à religiosidade universal de que seu avô Akbar, neste dia em 1666 recebe a ordem divina citada no Alcorão: «Ó tu, alma contente, retorna ao teu Deus voluntária e alegremente». Então o pássaro do espírito, tendo sacudido das suas asas o pó das coisas transitórias, elevou-se rumo às altas esferas da visão gloriosa do Deus Vivo. Seu corpo repousará ao lado dos restos da forma perfeita de sua mulher preferida, Mumtaz Mahal, no belíssimo Taj Mahal em Agra, que viu ser completado (onze anos de obras) já confinado num palácio próximo, onde o seu filho mais fanático e ambicioso Aurangzeb o aprisionara. O seu epitáfio reza assim: «O Ilustre Sepulcro de sua mais Exaltada Majestade dignificada como Guardião do Paraíso, tendo a sua morada no céu estrelado, habitando a região da beatitude, o segundo senhor da conjunção de Júpiter e Vénus, Shah Jahan, o rei valente. Viajou deste mundo transitório para o mundo da eternidade na noite de 28 do mês de Rajab 1076».
                                 
Desencarna em 1969, com 73 anos, Meher Baba, mestre indiano nascido em Puna numa família parsi e que se tornou para muitos dos seus devotos um avatar (incarnação divina) mas silencioso durante 44 anos, em grande parte passados na América do Norte. A atestar a sua unidade de mestre e de unido conscientemente ao mundo divino, afirmou «Eu sou um com Deus. Eu vivo Nele com Buddha, Cristo, Krishna. Eles conhecem-no, como eu O conheço». O kavi yogi Shudhananda Bharati, com quem eu vivi dois meses, conheceu-o e escreveu um livrinho sobre ele, mas grande é a bibliografia sobre este pioneiro dos gurus indianos na USA.
                                         

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