sábado, 30 de dezembro de 2017

A VERDADE em si, em nós, no Cosmos...


 Aproximar-nos da Verdade, ou talvez não sairmos muito da Verdade, significará não nos deixarmos enredar e obscurecer pelas mentiras, dúvidas e conflitos, nossos e do mundo e antes estarmos em estudo (studium) e demanda de comunhão com a Verdade, a qual é a essência dos seres e a correspondência justa entre o que é ou somos e o que se pensa e sente, diz e faz. 
A Verdade, no seu nível mais elevado humano, é pois uma ligação e união com o Espírito Divino em nós e a Ordem do Universo em que estamos inseridos,  uma luta pela harmonia, um esforço pela plenitude e felicidade nossa e dos outros, nomeadamente a Natureza, os campos, os animais, tão explorados e violentados...
Esta Verdade, esta realização do Ser e desabrochar,  é nossa no  interior, na alma espiritual e no coração, e é a que por si só nos bastaria, se a conseguíssemos sentir e intuir mais nas nossas meditações, diálogos e vivências.
Assim, temos de a demandar e observar também no exterior e na história, porque algo é a verdade interior, a transparência, sintonia  e comunhão que podemos conseguir com a essência do nosso ser e a sua verticalidade espiritual, outra é a procura dela, mais ou menos activa, por vezes mesmo conflituosa, com as outras aproximações ou realizações da verdade, num mundo interactivo cada vez mais global e no qual milhões de egos, com as suas relativas tendências, informações, conhecimentos e verdades se encontram e confrontam.  
Em termos históricos, o sentimento de que há a Verdade e que portanto se deve  demandar a Verdade é uma característica bem essencial da Humanidade, e não tentaremos cingir mais de onde ela vem, senão apontando para o núcleo mais profundo do nosso ser,  e será a partir dessa imanência quase sanguínea que se deverá compreender tanto  a busca do conhecimento de biliões de seres como também alguma violência quando o sentido de justiça, irmão-gémeo da verdade, indignado perante a falsidade ou violência, sai do amor e usa outra forma de violência para estabelecer limites ou castigos aos erros e falsidades, algo bem próximo da mítica mas bastante real sede justiceira de vingança, tão visível, por exemplo, no que se tem estado a semear tragicamente pelos mais ricos no Médio Oriente e noutras partes do mundo mais sujeitas a violências e opressões.
A demanda da Verdade é então realizada tanto na realidade do dia a dia e das relações humanas e sociais, desde a alimentação à saúde, vivendo-as com discernimento, equanimidade, justiça e com perspectiva contextualizante histórica, como também na demanda do conhecimento que paulatinamente se ergueu na civilização moderna até aos níveis desafiantes, por exemplo, da física quântica, mas sem deixar de a procurar também mais psicologica e espiritualmente  na demanda do conhecimento psíquico, espiritual, filosófico religioso e divino, acima tanto das ditas Escrituras sagradas das várias religiões como também acima da quase religião última, e a sua objectividade replicável laboratorialmente, da ciência moderna.
Poderemos questionar se havendo uma Verdade absoluta poderemos ter acesso a ela, nas condições frequentemente tão limitadas pelos Estados e as políticas e media, ou se devemos antes contentar-nos com as verdades relativas, particulares, específicas, próprias de cada ser na sua humanidade e temporalidade, ou apenas em cada campo do saber que possa investigar mais? 
- "O que é a Verdade", perguntou Pilatos, a Jesus, este respondendo com o silêncio e provavelmente com a irradiação psico-espiritual do que ele conseguira realizar da Verdade e Unidade, e que poderia transmitir aos que acreditando nele se abrissem ao que nele já brilhava. Algo disso em testamento prometeu, nomeadamente aos que se reunissem em seu Nome, que mais do que Jesus, é o de Verdade e a Vida, isto é, o Amor Sábio e Justo provindo do Espírito e da Unidade.
Já Gautama, o Budha, acentuou na procura da Verdade o Caminho do Meio, por um processo de libertação  da ignorância, do desejo e do sofrimento e vivida num posicionamento ora activo ora introspectio correcto, desprendido, sem ego conflituoso antes compassivo. 
A tradição indiana yoguica, que o nutriu, sempre valorizou muito a Verdade, Satya, repudiando a mentira, a falsidade, a hipocrisia e caracterizando mesmo o núcleo essencial do ser humano como Sat, Chit, Ananda, ser verdadeiro, consciência pura e beatitude, mais atingível porém por quem estuda, se disciplina e aspira a tal unificação.
Poderemos então admitir que a Verdade Absoluta é primacial ou primordialmente o Divino Ser-Consciência-Felicidade e depois a Consciência, a Vida Cósmica e o Amor Sábio divinos que perpassam por tudo e todos. Uma Verdade que é também a totalidade coincidente ou harmoniosa do que é e se conhece e se ama, cada um de nós sentindo ou vivendo mais ou menos tal vera Unidade.
Esta Verdade em si mesma é todavia algo de tão infinito, incomensurável e  transcendente que apenas nos é acessível em parte em experiências imanentes místicas ou de expansão de consciência  que a afloram, pelo que temos antes de mais de acolher e trabalhar  os aspectos que estão manifestados na realidade física, energética e psíquica e nos desafiam ao sim e ao não, à verdade e à mentira, à dispersão ou à unificação anímica. Tais desafios ou testes, se são bem resolvidos ou respondidos, permitirão conseguirmos intuir e conhecer, amar e vivenciar mais a Verdade e a Unidade, o Amor e a Divindade.
Nesta vivência entramos ou estamos na Sabedoria-Amor, a qual é uma relação entre a destilação interior de toda a nossa experiência exterior e a arte de conseguirmos unir harmoniosamente o céu e a terra, o universal e o particular, os princípios e os factos, a teoria e a prática, o idealismo e o pragmatismo, o espírito e o corpo, o múltiplo e o essencial, nós e os outros, o eu e o tu, o anjo ou o mestre e cada um de nós.
A Verdade Absoluta está, subjaz ou paira em toda a parte e sobretudo está mais manifesta psíquica e humanamente em cada ser que a admite e se abre a ela, e acende no seu coração a chama da aspiração-realização-irradiação dela, tentando interrelacionar-se correctamente com as ideias, as energias, os seres, o sagrado. Os mestres serão os seres que mais plenamente a realizaram e vivem...
Tal vivência da Verdade manifesta-se num estado de amor e alegria interno e no aprofundamento da luz do discernimento, tentando-se alcançar a visão espiritual dissipadora das ilusões e desenvolvendo-se uma vida ecológica, ética e aprofundante das relações justas e até amorosas entre as partes no Todo, na Unidade, no Infinito Divino.
Mas como poderemos aprofundar a consciência da Unidade, que é a Verdade, se não expandindo e subtilizando a consciência, fazendo-a sair de uma dependência corporal e personalística distorcedora e permitindo-lhe ser banhada pelas águas da inspiração e da intuição da Unidade e da Divindade, através da meditação e contemplação, visão e sonho,  paz e  amor,  força e doçura?
A Verdade, o Bem e o Belo foi e é uma trindade famosa filosófica, e nela somos chamados a cultivar o conhecimento, a ética e a estética ou beleza. E inegavelmente a Verdade está intimamente dependente de uma vivência ética e estética, se queremos vivenciar a sua plenitude libertadora. 
Maat, a palavra justa e verdadeira no Egipto marcava esse coincidência entre o que se pensava e conhecia, sentia e se amava e, finalmente, o que se fazia, dizia e se vivenciava...
A busca da Verdade, e sobretudo do que deve ser o nosso agir, ou o que vai acontecer, leva muitas pessoas a entrarem em técnicas, saberes e mistagogias de adivinhação, em geral deixando-se explorar por intermediários semi-ignorantes, mas sem dúvida a melhor forma de nos alinharmos mais com a Verdade será sempre o silêncio meditativo e o alinhamento ou sintonização receptiva com o subcampo unificado de energia-informação- consciência, ou corpo místico da Humanidade, que diz respeito a nós e ao nosso papel funcional e criativo nele. E eventualmente o diálogo com as pessoas afins e sábias, algo muito desenvolvido no Oriente com a ideia de sangha, comunidade, e satsanga, companhia da Verdade.
Sermos verdadeiros é então o caminho estreito ou árduo de não nos deixarmos submeter ou influenciar demasiado pela sociedade e os outros, a violência, a falsidade e não trocarmos demasiado a Verdade e a comunhão com ela pela dispersão consumista ou alienante. E antes, frequentemente, sintonizarmos com o que do mundo subtil, espiritual e ético do Cosmos, do Bem e da Divindade (adorada e acolhida seja) se quer afirmar e podemos irradiar criativa e corajosa, sábia e amorosamente..

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Deus, Al-Wadud, Aquele que ama primordialmente

O Amor de Deus, de Al-Wadud, O que ama originalmente e por excelência, é a flor primordial ou arquétipo, a fonte da Beleza eterna. Poucos são porém os que conseguem aproximar-se e aspirar o seu perfume, libertá-lo nos seus actos e pensamentos...
         A Divindade como a geradora amorosa dos mundos e de seres, Al-Wadud, para uns mesmo maternal e envolvente, para outros um sol ardente e arrebatante, uma seta, uma chama transfigurante...

O Amor do Ser Divino amante, Al-Wadud, é o centro e mandala do Cosmos, do Campo Unificado de energia e Consciência, do Espírito,  e do corpo Místico dos que o invocam e meditam, adoram e amam...

Al-Wadud, o Ser Divino Amoroso, é tão belo que atrai a si as almas mais sensíveis e origina um Cosmos, um todo ordenado e belo, constituído nos círculos mais próximos pelos que mais o amam e conhecem...


A grande maioria dos fiéis das religiões adoram a Deus quase que só corporalmente ou quando estão  aflitos ou de acordo com hábitos, leis e ritos. Poucos são os que se conhecem a si próprios e conseguem chegar ao seu corpo espiritual e aí se abrirem ao Ser que Ama e nos ama primordialmente, Al-Wadud, transformando-se e deixando para trás a violência, a mentira, a intolerância. 
Poucos são os amigos e amigas da Divindade e dos seus nomes, atributos e faces, que se constituem como colunas do templo divino que liga a Terra e o Céu...
Saudemos esta irmandade de amantes de Al-Wadud e abramos-lhe o coração e o olho espiritual, no Amor Divino...

domingo, 24 de dezembro de 2017

Amor, o que é, donde vem e para onde vai. Aproximações.


      Amor, o que é, donde vem e para onde vai...
Duas aproximações, uma escrita no Outono-Inverno de 2017 e a outra improvisada, inspirada,  satsanguizada, na manhã de 24-XII-2017.
O que é o Amor?
É a irradiação mais íntima e profunda, elevada e abrangente de cada ser?
Brota naturalmente ou nasce sobretudo da reciprocidade e da gratidão?
É a vibração-som-força primordial, substancial e unitiva de toda vida?
É nos seres uma atracção e apreciação geradora e afectiva, futurante ou frutificante?
É a capacidade, a faculdade mais característica e determinante na evolução do ser humano?
Tentemos sondar, aproximar, aprofundar esta qualidade ou força, ainda tão limitada e sequestrada neste planeta...
Embora ultrapassando as capacidades da mente limitada humana, podemos ousar dizer que a nascente, fonte e origem do Amor é a Divindade, o seu Espírito...
É do Seu seio ardente abismal e inconceptualizável que a Divindade como Amor emanou a imensidade infinita dos seres e mundos e os une. 
 A Divindade é então Amor, beatitude, felicidade, em si e em nós...
E, certamente, sentirmos e intuirmos,  vermos e partilharmos algo Dela é já uma graça Divina e uma boa manifestação do Amor em nós, levando-nos a dar graças à Divindade e partilhar as graças recebidas, através da escrita, da arte, da música, do canto, da acção...
Daí as três Graças da Antiguidade: recebemos a graça, partilhamos a graça, damos graças pela graça, e nesta dança da roda dialéctica, artística e amorosa o Amor circula e fortalece as essências e as uniões dos seres e coisas, das ideias e movimentos, ultrapassando distâncias e diferenças, obstáculos e conflitos...

A gratidão é então um sentimento amoroso e unitivo que se deve cultivar, já que por ele comungamos com as Graças do mundo espiritual, intensificamo-las, alinhamo-nos e reentramos na corrente ascendente e interiorizante que nos religa à Divindade, à fonte do Amor.
A oração incessante, muito valorizada por alguns místicos e mestres, pode ser entendida como a simples mas íntima consciencialização da presença da graça vibratória divina e a sustentação da correnteza do amor grato e benfazejo no nosso ser,
interior e coração.
                   
Coração não só carnal mas sobretudo psíquico e
espiritual, na zona do peito subtil filigrana de irradiações douradas e rosadas, coração do nosso coração, alma da nossa alma...
E pode-se, para quem gosta de exercícios ou práticas de aprofundamento, por exemplo, fechar os olhos, juntar as mãos diante do centro subtil da garganta ou do coração e afirmar, meditando: «Eu invoco mais a graça do Amor Divino, partilho esta corrente de luz amorosa e calorosa», ou até envia-la, direcioná-la para esta ou aquela pessoa ou local.
Mas será mesmo o Amor a força substancial e unitiva de toda a vida, o substracto subtil omnipenetrante e supracoroante?
Embora tal nível escape à mente limitada e à ciência moderna, é natural que a emanação subtil criadora da Divindade, que se torna a sua túnica e tessitura de intencionalidade unitiva amorosa, seja o fundamento da manifestação e o catalizador da dança da atracção e interacção dos seres nas polaridades complementares,  e seja vera providência divina com os seus agentes próprios, tais os Anjos e demais espíritos subtis e celestiais... 
O amor é então uma força impessoal, cósmica, uma energia inteligente e previdente que prossegue os seus fins, mas também uma actualização pessoal, uma vibração psíquica irradiada por certos seres mais conscientemente e consubstanciada em partículas, raios que se transmitem e irradiam pelas intenções, pensamentos e actos.
Podemos dizer que a unidade da vida, a intercomunicação actualizante entre todos os seres e partículas se apoia num espaço vibratório acolhedor do seu movimento, numa inteligência das partículas e dos seres para se associarem correctamente, amorosamente, com frutificações energéticas derivadas das afinidades conjuntas e intensificadoras delas próprias e das suas expansões, destinadas a despertarem espiritualmente e a sentirem mais o amor e a unidade, co-gerando a frutificação das potencialidades infinitas deste Cosmos Divino...
E como há muitas tonalidades e graus da energia do Amor, ou seja, de querer fazer Bem, harmonizar e unificar, tal é estimulado pela afinidade e complementaridade entre os seres, com tantos sub-campos ou níveis da vida na seara da Terra tão necessitados que o Amor os atinja e harmonize, ilumine e plenifique.
O Amor é também o nome que damos à mais forte ou poderosa ligação e união entre dois seres, a que convoca a energia mais profunda, unitiva e divina do Universo.
                           

Se cada pessoa tivesse em si mesma um barómetro ou termómetro do Amor seria muito bom, pois certamente evitaria muitas doenças ou dificuldades e estaria mais consciente do seu coração e irradiação, e não deixaria que tantas nuvens ou esmorecimentos a diminuíssem e a impedissem de realizar a sua missão, a sua realização espiritual, a sua ardência amorosa, qual um Sol...
 Sol que pode por vezes ser visto e sentido como a fonte donde vem o Amor para a Terra e daí a importância das adorações e comunhões solares, nem que seja ao nascer ou pôr do sol, ou quando subitamente os seus raios brilham por entre as "nuvens e céus de Portugal"...

 Se cada ser conseguisse medir a emanação do seu coração e do seu ser mais íntimo para a Divindade, para outra pessoa, um livro,  uma causa, um animal, um objecto, uma leira de terra, uma árvores, esse poderia discernir melhor quem ama e de que profundidade tal vem, com que força e talvez até com que durabilidade.
Mas sabe-se ainda pouco do que do amor sentido, enviado ou partilhado, se conserva ou acumula mesmo, subtilmente mas valiosamente e até quantificável, pois pouca gente ainda aprofunda a memória do amor e o descubra imperecível no santo graal do nosso coração...
O Amor,  sendo irradiação divina natural e suprapessoal, assume contudo em geral no relacionamento humano duas faces ou fontes: o amante e o amado ou amada, e portanto a reciprocidade e eco ou não do amor. 
Quando há a reciprocidade podemos dizer que o Amor se espelha e se intensifica mais plenamente. Se não, embora haja amor de um, o facto do outro não gostar ou amar tanto, faz com que esse Amor como Unidade e circulação das três Graças não exista plenamente, havendo mais desejo e atracção, aspiração e dedicação, ou mesmo Amor, de um, mas sem a correspondência plenificante do outro...
Mas temos de admitir que amor em que está em alguém, que é um estado de ser e irradiação, ainda que não correspondido, pode ser muito intenso e persistente e ser ainda intensificado pela corrente divina do Amor que passa por tal alma, aproximando-a assim do Amor de dádiva incondicional, o tal invencível e imperecível...
Saibamos pois então mais fluir no Amor divino, no amor angélico, no amor humano, no amor da terra e seus seres subtis, animais e ecosistemas, numa só corrente ígnea... 
Quanto ao amor ser ou não uma capacidade especial do ser humano, ainda que já embrionária  na sensibilidade da vida vegetal, pois podemos observar reacções de medo ou de amor nas plantas, bem como de preferências de proximidades, e mais desenvolvida no reino animal, onde se observam tantos comportamentos afectivos ou  casos de grande carinho ou afinidade, mostrando bem que os afectos também existem neles, é uma questão que podemos pôr, e até se a tal devemos chamar Amor.
A luta pela ajuda do outro, o amor que leva alguns a sacrificar-se por outrem, não são comuns no reino animal e assinalam de facto uma capacidade humana mais desenvolvida, a de sentirmos o outro e valorizá-lo mais que nós, seja por noções morais ou éticas aprendidas, e com sacrifício assumidas, seja por natural espontaneidade comungativa-compassiva-sacrificial amorosa, seja pela existência de um espírito mais (do que nos animais) plenamente individualizado.
Contudo se admitirmos que a Divindade é a fonte do Amor e que a sua inteligência e vida permeiam todo o Universo, não poderemos recusar aos animais sentirem e manifestarem o Amor, certamente com as suas limitações, comparados aos humanos...
O Amor incondicional, sobretudo presente nas mães para os filhos, é também bastante evidente na história humana. Mas poderemos falar de uma capacidade de Amor mais desenvolvida por elas? Parece bem que sim, seja pela capacidade geradora ou maternal, e logo educativa, seja pela sua misteriosa constituição anímico-espiritual, tão receptiva quão intuitiva e logo unitiva, amorosa.
 E no caso do amor espiritual, do amor devocional a Deus, que alguns seres desenvolvem mais, deveremos considerar tal também uma capacidade apurada da psique humana, a partir de uma relação do ser humano com o espírito, com os mestres, os anjos, os deuses, a Divindade?
Em ambos os casos, maternais e devocionais, há como que uma intensificação energética do coração, e da energia nervosa, ou um alargamento e expansão da consciência, que deixa de se limitar apenas a si e se entrega, sacrifica, alonga, entusiasma no outro ou outros e são certamente fulgurações valiosas do amor por entre tanto egoísmo e materialismo...
Também se pode cogitar que o Amor se desenvolve pela relação da mente e alma humana com a bênção ou graça Divina, que a inicia e reveste então de Amor, o fogo invencível da Unidade e da Verdade e que portanto incessantemente devemos meditar e orar para estarmos mais em Amor.
Mas será que tem de ser outra pessoa, mãe, mestre, amada-amado, anjo a despertar mais, ou a fazer sentir mais o Amor em nós, considerando-se que nós estamos num certo grau dele e que precisamos da relação para que outras pessoas intensifiquem tal chama e luz?
Ou podemos nós acender mais a chama do amor em si mesma, pelos nossos actos e meditações, transmitindo-a ou ainda dirigindo-a para certos seres e fins, humanos e divinos?
Ambos os casos convergem para o aumento da irradiação do coração espiritual. E se é no amor aos seres e pessoas que sentimos mais o Amor, também ele pode ser sentido com os animais ou mesmo com certas actividades, e por todos estes modos  aproximando-nos de um estado de amor mais permanente, incessante...
                      

Daí em algumas pessoas aflorar algum tipo de mantra ou oração, que é o próprio coração a irradiar o amor em sentimento e palavra dinâmica, fazendo eco em almas afins e não só...
Sendo então o Amor uma energia omnipresente potencialmente e que une os seres, ou os seres e as coisas, devemos intensificá-lo querendo o bem com persistência às pessoas, seres, coisas, causas, e logo pondo o amor em acção no que fazemos, pensamos e sentimos, deste modo irradiando mais o Amor e dinamizando assim a corrente amorosa da vida...
Resulta tal de uma decisão, de uma determinação de nos mantermos elevados e unificados mas trata-se também de uma sensibilidade unitiva consigo próprio e com o outro, certamente difícil de ser desenvolvida e que exige certa disciplina, atenção e trabalho purificador, que cerceie a nossa superficialidade consciencial egoísta e até violenta e que acolha antes a voz da consciência que parte do coração e que nos segreda ou impulsiona ao bem, tal como entre nós Antero de Quental tanto
valorizou, nomeadamente nas cartas a Fernando Leal.
                            
Em verdade, o Amor, ainda que provindo do interior e do cosmos solar e divino, é intensificado pela actividade, pela movimentação para algo ou alguém e é portanto um querer e um acreditar futurante benéfico aos dois ou mais seres envolvidos no amor, projecto, causa e acção...
Não falarei agora do amor familiar, sanguíneo, que é natural, "sangue do meu sangue", dirão os
pais dos filhos, para não se dizer "almas da minha alma", família onde a genética unidade original faz brotar o amor mais natural e instintivamente do que por determinação e esforço, pois há essa unidade de origens e afinidades e que se pode considerar tanto mais amorosa quanto mais na origem o amor esteve presente, amor como acolhimento e entrega recíproca frutífera plena e futurante, o mistério do acto da união ou da geração como a correspondência amorosa humana do acto da fundação-emanação-criação Divina.
Interroguemos ainda o amor que as pessoas são, têm, ou podem desenvolver, mais ou menos, em si, sozinhas, na sua vida interior e anímica, tentando até compreendermos ou intuirmos que o amor se torna o criador e preservador do nosso corpo luminoso e perene
«Amo a Divindade, amo os Anjos, amo os Mestres, amo a Humanidade, amo a Natureza e as árvores, o Cosmos e as estrelas». 
 Será então possível que o amor em nós seja uma soma de todos estes valores-amores, e de renúncias dos "desamores",  mas em que eles são  o resultado da intensidade do nosso Amor, sem que contudo se trate de quantidades mas antes de uma qualidade direccionada, de uma irradiação seja do coração seja dum corpo espiritual desperto, luminoso, benfazejo...
Será então que a intensidade do nosso amor depende muito da consciência de que somos Amor, e que a nossa essência é uma centelha do Amor divino, e que estamos a criar um corpo de luz e de amor e que é pela meditação e contemplação, oração e adoração, sintonização e união amorosa, acção e irradiação abnegada que o Amor mais desperta, se afirma e cresce em nós?
Aproveitemos então o nosso escasso tempo para tentar diminuir o sofrimento, a ignorância e a alienação e tentemos vivenciar mais o Amor, em nós e com os outros, na Natureza e no Cosmos com seus espíritos luminosos, e na Divindade. 

  Gravação, de 14 minutos...

                                 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Antero de Quental, as Fadas e o Tesouro Poético da Infância.


                              
Quando Antero de Quental publica no Porto em 1883 o seu contributo tão belo para a literatura infantil, o Tesouro Poético da Infância, ainda hoje tão recomendável, fá-lo pelas razões que explica muito bem nas dez páginas da advertência inicial, onde nos transmite a sua visão da educação infantil,  concluída assim: «Cuido ter proporcionado à infância uma leitura, que, sendo simples, não é fútil. Aqui encontrarão os tenros espíritos razão e belos sentimentos, sob uma forma dúctil e fácil, que lhos torne compreensíveis. A criança como o adulto precisa de ideal. Somente a criança sente-o e percebe-o por um modo seu - mas nem por isso o reclamam menos imperiosamente os seus instintos espirituais. Se as mães de família e os mestres inteligentes acolherem com favor este livrinho, aplaudir-me-ei por este pequeno serviço prestado à causa da educação.»
                           
A escolha muito sensível dos poemas abrange uma parte muito significativa da literatura portuguesa, desde os romances medievais e populares quinhentistas (e excluindo os poetas clássicos dos sécs. XVI ao XVIII) até à poesia do séc. XIX, dos seus amigos João de Deus, António de Azevedo Castelo Branco e Bulhão Pato, e que inclui ainda muitos outros autores, tais como Luís Palmeirim, Soares dos Passos, António F. Castilho, João de Lemos, Júlio Dinis, etc.
No meio dos poemas um porém se destaca, As Fadas, escrito por ele em Junho de 1880, provavelmente a partir da sua vivência de adopção  de duas crianças de tenra idade no final de 1879, filhas do seu grande amigo Germano Meireles, que partira para o outro mundo em 1877.
Serão assim a Beatriz e a Albertina quem Antero provavelmente quer iniciar como amiguinhas das fadas e podemos imaginá-lo a contar-lhes seja em Lisboa onde ainda residiu com elas dois anos, seja em Vila do Conde o poema, explicando-o nas respostas às perguntas que as duas pequenas lançariam, quem sabe com as suas mãos, carentes de contactos mais amorosos, acariciando as suas cabeças e entrançados cabelos.
Podem associar-se certos poemas a actos e momentos especiais, e há até muitos casos disso célebres, tal a mítica emergência de Alberto Caeiro na mente de Fernando de Pessoa, escrevendo dum jacto, de pé, os vários poemas do Guardador de Rebanhos.
Talvez este poema consagrado às Fadas provenha então de ambientes nocturnos e memórias insulares, ensaiado e gerado em algumas narrações de histórias de fadas que Antero terá lido ou mesmo inventado para adormecer as suas crianças.
Dizemos lido ou inventado pois, como bem contextualiza Ana Maria de Almeida Martins na sua recente reedição na editora Tinta da China do poema As Fadas (acompanhada de um audio de João Grosso), Antero tinha na sua biblioteca uma mão cheia de livros de contos tradicionais e de fadas que lhe permitiram por vezes manusear um desses tesouros da primordialidade humana e ler umas páginas, uma história ou poema, às duas filhas adoptivas, quem sabe se encantadas também com a capa e as ilustrações do livro. 

Escapam-nos, na evanescência dos acontecimentos não registados, as muitas vezes que Antero terá tentado adormecer as crianças com poemas ou histórias e com que receptividade fecunda, isto é, onírica, tais histórias terão moldado os sonhos ou mesmo viagens astrais das crianças e a sua lenta constituição anímica... 
 Com efeito, um traço que gostaríamos de realçar neste poema é a sua intencionalidade onírica, sonhadora, imaginativa, já que o poema introduz seres, paisagens ou ambientes, e em reacções que se prestam bem a ser imaginados ou mesmo sonhados e que vão fazendo caminhar a alma de quem o lê para um capacidade de entrar nesse mundo mágico e até assumir dessas entidades subtis, oníricas ou imaginadas os dons que queira ou mereça, entre os quais o último apresentado, como o melhor, o de adormecer, algo que o Antero pessoalmente frequentemente bem desejou e pediu... 
 É importante realçarmos este adormecimento natural (e de realçar numa época em que tanta gente tem de tomar comprimidos para dormir) como porta libertadora em relação ao corpo ou à realidade quotidiana e como entrada no mundo sagrado ou mágico dos contos, dos sonhos, das visões, dos seres indivisíveis e misteriosos, seres que sabem empunhar a varinha mágica, a vara de condão, por vezes bem iniciática, como ainda na pintura portuguesa mais enigmática de sempre a dos painéis de Nuno Gonçalves, o ser transfigurado, sagrado ou de outro mundo, empunha em ouro e partilha... 
 Perante o mistério da fadas, da sua existência ou não, Antero, ao começar o poema, confessa-nos: As Fadas? Eu creio nelas...
Poderia ter dito eu sei que há fadas, se as tivesse visto, mas tal não acontece porque provavelmente nunca as viu em sonhos ou em visões do seu olho espiritual.
E portanto o que vai fazer é invoca-las de dois modos, o primeiro mais natural e pessoal, descreve as fadas como as pressente ou, quem sabe, intui por entre a natureza, que Ana Almeida Martins vê até como a dos Açores e de Ponta Delgada.
O segundo, pelos moldes tradicionais, referindo os nomes das fadas mais famosas e aludindo a uma das fontes clássicas da literatura medieval mais luminosa, a dos contos ligados a Merlin, ao cancioneiro celta e britânico e passando assim para a memória das crianças uma figura mítica da Europa.
                  
Mas quem é esse Merlin, terão perguntado as crianças e Antero provavelmente ter-se-á submetido a tal exigência clarificadora, transmitindo-lhes algumas ideias ou imagens acerca de tal misteriosa personagem, curiosamente, por Antero transformada em rei, algo que nos pode levar a interrogar: 
 Porque chamou ao mago Merlin rei, já que o rei era Artur? Por descuido não foi certamente, e portanto temos provavelmente só três hipóteses: ou não quis empregar a palavra de mago, feiticeiro, druida, sacerdote pagão, ou valorizou e aproximou à designação de reis magos do Oriente, ou então terá querido dizer que o rei era ele, pois tinha verdadeiramente o poder, a vara mágica e de condão...
Talvez esta última hipótese, e ainda por cima para crianças de tenra idade, seria a melhor para passar pela 1ª vez a existência desse mago, druida ou feiticeiro ou rei de si mesmo que sabia empunhar bem a varinha mágica ou o bordão da sua vontade conseguindo ter muitos poderes, tais como ver ao longe ou o futuro, enviar forças, deslocar subtilmente, conversar com os animais e as árvores, etc., algo que as fadas também conseguem.
As cinco fadas nomeadas por Antero de Quental poderão ter sido também de algum modo explicadas ou contextualizadas às crianças, de modos simples mas que certamente lhes transmitiram alguns traços que Antero quis marcar, e que já no poema ele assinala de algum modo:

Viviane, a das águas, e talvez não seja por acaso ser ela a abrir a presença das fadas nomeadas, pois as crianças e Antero contemplarão o mar todos os dias desde que instaladas em Vila do Conde, assinalando até Antero por carta o gáudio delas quando viram o mar pela primeira vez, e podendo nós considerar esta evocação uma iniciação marítima, uma sacralização da paisagem marítima: "Viviana ama a espuma das ondas nos areais."
                           
Ora quem era Viviane, senão a senhora do Lago, uma sacerdotisa do mítica ilha de Avalon (desde o séc. XII), a que entregou a espada Excalibur ao rei Artur para o tornar invencível, e que terá educado o valeroso cavaleiro Lancelot do lago.

                             
E a seguir segue-se Morgana, a fada da manhã, no ciclo de Artur a sobrinha de Viviane, e por ela treinada para sacerdotisa de Avalon, e que teve um filho do rei Artur, sendo apresentada por Antero como muito enganosa, introduzindo assim nas crianças a necessidade de cautela e prudência, pois nem tudo o que luz é ouro.
                     
       Depois surge a Melusine e a Titânia, ligando-as apenas flores, deixando para mais tarde a Beatriz e a Albertina poderem decifrar melhor a história dessas duas nomeadas entre as muitas fadas conhecidas, Melusine representando o filão celta e francês das águas e das sereias, com tanto sucesso na história e nas artes, e Titânia, a rainha das fadas, mais ligada ao ar e às flores, e personagem de Shakespeare numa das peças mais conseguidas e iniciáticas dele, Sonho de uma Noite de Verão.
                                                   
Este poema As Fadas configura-se na verdade tanto iniciático, ao referir os seres subtis da natureza que só pela visão espiritual podem ser avistados, como ecológico, ao apelar ao contacto mais íntimo e amoroso com a natureza e com as suas fontes, pedras, mar, ambientes nocturnos e enluados.
A iniciação pelo contacto com a natureza e os seus pontos mais belos ou extraordinários faz parte da história da humanidade e ainda hoje em muitos povos se peregrina em certas ocasiões a tais locais, e temos algo disso em Portugal nas tradições populares sobretudo da noite de S. João.
O convite às crianças para procurarem, verem e encontrarem com respeito, isto é com receptividade, as Fadas está bem afirmado por Antero, e explicita-se mesmo que elas concedem vários bens, terminando com o de adormecer, tanto mais que Antero sofria de crónicas dificuldades de adormecimento, tal era a força da mente e da sua lucidez, ainda que certamente sobre uma situação de energia nervosa e também digestiva não equilibradas nem controladas.
Este convite às crianças de penetrarem mais na natureza e encontrarem as Fadas, e que Ana Maria Almeida Martins relaciona com a paisagem por ele tão conhecida e amada de Ponta Delgada com as  suas belas flores, tem contudo duas dimensões, para não dizermos quatro, que explicitaremos assim:
1ª, ao nível legendário e tradicional dos contos de Fadas, e que se lêem tal como estão nos seus ritmos encantatórios e que, entrando pelos ouvidos, operam o que for de harmonias na alma das crianças, inconscientemente.
2ª, os aspectos físicos da natureza que são apresentados e que passam então a ser considerados como mágicos, como capazes de produzirem o nosso contacto com as fadas, e que portanto nos podem levar a peregrinar até eles e sermos mais amantes da natureza e ecológicos.
3ª, há a imaginação que é estimulada a não ficar presa apenas pela realidade visual ocular mas a admitir a existência de seres subtis, as fadas e as dríades, os gnomos e os silfos e que portanto pode uma pessoa tanto imaginá-los como sobretudo sonhá-los e supremamemte vê-los com a visão espiritual.
                                                     
Será então que Antero queria que as crianças imaginassem ou sonhassem com as fadas, e logo pudessem dizer como ele: Eu creio nas fadas....
Será que Antero queria mesmo que as crianças vissem com o olho espiritual, acordadas, as fadas e pudessem dizer: Eu já vi as fadas ou os duendes?
                  
Talvez Antero, como pedagogo que sempre foi e que na altura por causa das crianças mais tal faceta assumira, e como Ana Almeida Martins explica o levara a ler e a apreciar a obra e os ensinamentos de Froebel, que realçam o valor da imaginação, da poesia, do conto tradicional na educação e primeira instrução das crianças, tivesse apenas esse desenvolvimento da imaginação como objectivo e não tanto a visão espiritual das fadas...
                       
Contudo, para alguém que afirmara com força o dito grego “morrer é ser iniciado” algo que passou para os seus amigos, discípulos ou continuadores, certamente que esse ver mais plenamente que a saída da alma do corpo físico permite na morte, pode também em vida ser conseguida, nomeadamente, morrendo-se para as limitações dos cinco sentidos e abrindo-se as portas da imaginação, no que pode ser uma verdadeira iniciação ao mundo espiritual e divino.
Algo mais corre no poema, além do Merlin como rei mago e iniciado e iniciadora, pois as próprias fadas são muitas delas iniciadoras, tal como se conta nas suas histórias e se tem confirmado nas análises antropológicas e esotéricas a tal filão imemorial da sabedoria humana.
E que a Antero segue esta linha iniciática, vemo-la não só no facto de enumerar alguns dos seus poderes psíquicos, como sobretudo ao afirmar que as fadas podem tornar-se madrinhas das crianças...
Terão a Beatriz e a Albertina por sua vez terem pedido a Antero que bem desejavam que a Morgana ou Titania fossem as madrinhas delas?
                       
Escapam-nos esses belos e tocantes momentos da vida de Antero e das suas duas filhas adoptivas, mas o poder iniciático que o padrinho ou madrinha assume, frequentemente dando o nome a quem vai nascer, e na Índia sabemos que em certos casos tal nome era escolhido com certa clarividência energética, e depois apoiado com certos bens, materiais, psíquicos ou espirituais, é afirmado por Antero de modo a que se crie um relação subtil e de maior confiança com os seres do mundo espiritual que, quais Anjos, possam inspirar, apoiar e fortificara a jornada terrena das alminhas luminosas nascidas frequentemente no meio de trevas sociais grandes...
«Por isso quem por estradas for de noite e vir as fadas mirando o céu, deve com jeito falar-lhes...», diz Antero às crianças e a nós, e este "com jeito falar", é logo a seguir ainda mais explicitado: porque a fortuna da gente, está às vezes somente, numa palavra que diz. Por uma palavra engraça, uma fada com quem passa e torna-o logo feliz. 

O que temos aqui senão uma iniciação órfica, tão afim de Bocage, de Antero ou de Pessoa, ou seja, tal como Orfeu, que com o seu canto da lira e voz acalmava e deliciava os animais livres ou selvagens e fazia os próprios penedos e árvores sentirem e estremecerem, assim a pessoa que sabe pronunciar a palavra certa com amor, esse abre as portas do coração e da metamorfose benfazeja.
A criança que acredita ou vê as fadas, que as aceita e segue na vida como madrinhas, essa leva a varinha de condão na mão e pelo seu poder interior, palavra e voz certa é capaz de bafejar o mundo com o brilho divino da fraternidade amorosa entre todos os seres e coisas, algo que Antero sentia e desejava para a Humanidade, mais livre, justa e fraterna.
As Fadas é assim um poema iniciático para as crianças. Põe-nas em contacto com uma linha de força tradicional milenária e com a existência dos seres subtis da Terra. E sobretudo impele-as a assumirem a sua força de quererem o bem e agirem com imaginação e sabedoria para que tal se realize e implemente no mundo.

                         


                            



                          


                          


                          

                          

Por Heita Copony... Graças...


                                AS FADAS

As fadas… eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar…
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar…

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer…
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder…

O vestir… são tais riquezas,
Que rainhas, nem princesas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu…

Quando a noite é clara e amena
E a lua vai mais serena,
Qualquer as pode espreitar,
Fazendo roda, ocupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores
Ficam-se horas sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes de algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos baptizados reais.

Morgana é muito enganosa;
Às vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir…
Ora festiva, ora grave,
E voa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Titânia, por Johnn Simmons..


Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja glória
Enche as páginas da história
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas têm mando nos ares;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquela vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha de condão.

O que elas querem, num pronto,
Fez-se ali! parece um conto…
Mesmo de fadas… eu sei!
São condões, que dão à gente
Ou dinheiro reluzente
Ou jóias, que nem um rei!

A mais pobre criancinha
Se quis ser sua madrinha,
Uma fada… ai, que feliz!
São palácios, num momento…
Beleza, que é um portento…
Riqueza, que nem se diz…

Ou então, prendas, talento,
Ciência, discernimento,
Graças, chiste, discrição…
Vê-se o pobre inocentinho
Feito um sábio, um adivinho,
Que aos mais sábios vai à mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não há de rir,
Querem elas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes há de mentir.

Quem as ofende cautela!
A mais risonha, a mais bela,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga agressiva,
É serpente que ali está!

E têm vinganças terríveis!
Semeiam coisas horríveis,
Que nascem logo no chão…
Línguas de fogo, que estalam!
Sapos com asas, que falam!
Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente…
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer…
É-se morcego ou veado…
E anda-se assim encantado,
Enquanto a fada quiser!

Por isso quem por estradas
For, de noite, e vir as fadas
Nos altos, mirando o céu,
Deve com jeito falar-lhes,
Muito cortês e tirar-lhes
Até ao chão o chapéu.

Porque a fortuna da gente
Está às vezes somente
Numa palavra que diz.
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes já deitado,
Mas sem sono, ainda acordado
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um belo dia,
Me quisesse a mim fadar…

O que seria? Um tesoiro?
Um reino? Um vestido de oiro?
Ou um leito de marfim?
¿Ou um palácio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quisesse,
Pedir também que me desse
Um condão, para falar
A língua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos…
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Comigo (podia ser?)
Me tocasse co’a varinha
E fosse minha madrinha,
Mesmo a dormir, sem a ver…

E que amanhã acordasse
E me achasse… eu sei! me achasse
Feito um príncipe, um emir!…
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando…
Deixa-me já já dormir!
Comunguemos com a Natureza (não a deixemos arder, menosprezada e explorada apenas por tantos irresponsáveis) e amemos os seus espíritos subtis e alegres...
Vivam as Fadas, náiades, ondinas, gnomos, dríades e sílfides....