sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Leonardo Coimbra. Camões e a Fisionomia Espiritual de Portugal.

Homenagem a Leonardo Coimbra no seu dia de anos... 

Em 1920, no emblemático dia 10 de Junho e a fechar um recheado programa abaixo reproduzido, que empalidece o civismo e patriotismo das comemorações de fachada dos últimos anos, Leonardo Coimbra (30-XII-1883 a 2-I-1936) discursou, no seu modo eloquente e ardente, sobre Camões e a Fisionomia Espiritual de Portugal. 
A revista Águia, da qual era fundador, já voava alto e douradamente, com nove anos de publicação da 2ª série (1912), e estava muita gente no teatro Águia de Ouro para ouvir a sua palavra flamejante e sugestiva. Quais dos seus discípulos estariam presentes (nomeadamente Sant'Anna Dionísio, com quem tanto dialoguei), que efeitos mais poderosos foram sentidos pelas pessoas e que consequências tiveram só aquele Livro dos Livros Divino nos poderá dizer mas são raros os que conseguem soletrar, intuir ou sonhar algumas linhas e imagens do que nele está registado...
Leonardo Coimbra,  contava então com 37 anos mas estava já ciente da nossa incapacidade actual de revertermos o curso do Tempo no Espaço Infinito, e escreveu então um texto que cremos que, mais do que a base arquitectónica da sua conferência, foi uma escultura na lava arrefecida do seu discurso.
Como quer que tenha sido a génese do texto, Leonardo Coimbra e os tipógrafos deram à luz uma bela publicação, de que houve duas edições com pequenas diferenças, num folheto de 18 ou 14 páginas, bem impressas, com o corpo do texto enquadrado em três belas tarjas avermelhadas com motivos florais, escudo de Portugal e cruz da Ordem de Cristo, e que fotografámos e partilhamos na versão da Separata de Camões. 
Este exemplar consultado e reproduzido tem a assinatura manuscrita: "A Afonso Guimarães oferece Leonardo Coimbra" e assim a mão quente dele pousou na folha e deixou na sua aura de memória alguns fótões de luz impressionada e registante...
Logo de início do discurso ou texto Leonardo enaltece e caracteriza os poetas, sábios e santos que são os descobridores desse continente semi-desconhecido que vindo do Coração Divino é conhecimento e memória e do qual nós só temos vislumbres fugazes na apressada existência tão coberta de névoa e mistério, mas que eles trazem mais à manifestação ou fixam na consciência.
Há algumas frases bem profundas e belas:«O Santo é o homem do plano superior voluntariamente dado em sacrifício para que a luz divina, que o consome, guie e exalte os homens à transcendência de uma vida superior. 
O Santo vive, na labareda do momento, o incêndio da eternidade».
Numa visão órfica ou valorizadora da capacidade reintegradora e psicomórfica da Palavra e do som, na linha que Bocage tanto sentiu e transmitiu na sua poesia, escreve:«O Santo é o Poeta praticante, as suas canções penetram-lhe e modelam os lábios, são seres vivos caminhando, humildes e amorosos, a cuidar das chagas que, em nós, fizeram as mordeduras da Morte.»
Como o tema é Camões e Portugal, poderíamos admitir que Leonardo realçaria a capacidade de Camões sentir a ligação da da terra portuguesa com planetário mar, numa ânsia de universalidade do conhecimento e, na sua intensidade de Fiel do Amor, o seu ir além do lírico e entrar no sublime e no místico unitivo, seja o da tão iniciática ilha dos Amores seja a  dos heróis, manes e santos  para depois voltar à terra ou a Portugal na justiça e na coragem que melhoram a marcha evolutiva da humanidade. Mas não, Leonardo vai-se deixar empolgar pelas obras cuja riqueza é inesgotável nas leituras que se façam e e criacionista no aumento ou crescimento gerado no leitor e que «são fios subtis que prendem o homem aos planos espirituais superiores, são as flechas dardejantes do mistério apontado ao próprio coração humano. 
É neste sentido que há livros revelados e só legíveis na iluminação da própria luz espiritual que os embebe. 
É, neste sentido, que existem bíblias: vivas línguas de fogo, acrisolando o pensamento humano.
A Divina Comédia, D. Quixote, os Evangelhos: outras tantas línguas de fogo ligando a terra com o firmamento».

Leonardo intui e descreve aqui bem a essência e aura, possível até divina, dos livros em geral e não só os religiosos: pode ter havido uma grande descida de Luz no seu autor a qual foi passada pelas palavras. Ou pode apenas desencadeá-la pela sublimidade do tema e da expressão.
Luz Divina ou da Musa inspiradora dir-se-á muitas vezes mas também do Anjo, que subitamente Leonardo traz à liça desta batalha pela recuperação do conhecimento da vera fisionomia humana e divina: «O homem que se eleva, só sustenta a sua fisionomia angélica ajudando a evolução, porque as forças de Morte ainda o hão de perseguir e, se não continua subindo, há de degradar-se em caricatura animal». Acrescentando logo em seguida, talvez numa linha de saudade ou desejo de recuperação da omnisciência do Ser e Seio Divino: «No rio do tempo vão fugindo as cousas, os seres, os mundos e o homem.// O Poeta é o seu redentor.// A única redenção é o grande baptismo no divino Oceano da Memória». 
Teremos ainda de passar por uma página consagrada a Cervantes e ao D. Quixote, altamente apreciado como a Bíblia do Ideal, e onde escreve muito bem:«sob esse ponto de vista, todo o esforço para a consciência, que é a própria linha de evolução dos mundos, da vida e do homem, a ciência, a arte e a moral, é uma sedução quixotesca, é o influxo superior que uniu a alma de Cervantes às realidades espirituais transcendentes», antes de entrarmos nas referências invocadoras do génio de Camões e dos Lusíadas.... 


Talvez as ideias e imagens mais interessantes sejam estas: «Portugal encapela-se em ondas, a sua vida comunica-se e de praia a praia é um abraço cingindo o planeta.// A vida do planeta é convivência no infinito, a alma de Camões ligou, pelos fios invisíveis da memória, o Mar, a Pátria à vida espiritual do Universo.// As oitavas dos Lusíadas são eternos estremecimentos de Memória esculpindo no Infinito a fisionomia espiritual da Pátria.// O Homem pertence a vários planos de vida espiritual: é cidadão da sua pátria, membro da sua religião, parcela consciente no Universo.// E cada plano é atravessado pelo esforço do homem-consciência para a conservação e para a memória.»
Leonardo tem uma visão do amor da Pátria muito criativa ou criacionista, divinizante mesmo e vai expô-la ou partilhá-la em frases sem dúvida ainda hoje fazendo muito sentido na luta pela diminuição do egoísmo e a melhoria do mundo: «Se o Universo desde o Sábio ao Poeta (e sem que prejulgue o problema do Mal) é convívio, a consciência do homem há-de procurar as relações cósmicas na companhia das consciências mais próximas.
Eis porque o homem, consciência no Infinito, é cidadão na sua Pátria e une a sua voz à voz de seus irmãos para erguer em coro a própria voz da Pátria. E como as almas só crescem pelo sacrifício dos desejos de separatividade que as forças da Morte nelas insinuaram, o amor da Pátria é a primeira e a mais concreta experiência religiosa das almas».
Talvez nos nossos dias este amor da Pátria como experiência religiosa ainda consiga brotar dos manuais escolares ou do conteúdo dos computadores para algumas almas infantes, mas receamos que tal tenha diminuído bastante e a Pátria seja mais sentida à volta do futebol ou de competições internacionais.. 
Para Leonardo Coimbra era diferente:«O Amor da Pátria será o amor dos homens e das coisas [provavelmente as pedras, as árvores (tão destruídas na actualidade camarária) e os monumentos], encerrando-se em eterno e renovado amor de Deus». 
E passa então a expor a qualidade e a unidade viva dos Lusíadas, começando com uma tirada bem forte a um lugar- comum dos comentadores da obra: «A crítica mais ou menos boticária entreviu nos Lusíadas uma mistura de maravilhoso pagão e do maravilhoso cristão.// É tempo de acabar com tanta incompreensão da obra, de dizer bem alto que uma obra de arte é um ser vivo, uma viva consciência salvando para a Memória o fluxo que transita. Jamais será a mistura de morte e quimeras»...
Destaquemos este grito de Leonardo: «uma obra de arte é um ser vivo» e deixemo-lo ecoar e brotar mais em nós, sentindo tal tanto num cristal de quartzo e num carvalho do Gerez, ou nos Painéis de Nuno Gonçalves e no pórtico sul dos Jerónimos, como no ser com quem trabalhamos ou convivemos fazendo da sua vida a sua obra de arte ou de religação ao Todo.
Passando depois a valorizar as religiões antigas, a harmonia da vida e da clarividência de então com a Natureza e com os seus seres subtis, dirá: «o simbolismo pagão é a grande concepção estética da Natureza e da Vida. As contradições entre o homem e a natureza resumem-se ainda às relações de silêncio e convívio, que o homem encontra e harmoniza na quase tangibilidade dos deuses mal escondidos ainda no seio de uma natureza amiga».
E prossegue com uma descrição repleta de belas expressões (tão sentimentais no seu poema de amor Adoração), hoje bem invulgares: «O murmúrio da floresta é quase o sopro, repousado e possante, duma respiração imensa; a tremulina de luz, que percorre o ribeiro quando um ruído se ergue do estremecimento do canavial é o próprio corpo da frescura a caminhar; o bulício das selvas multiplicando e fecundando a vida é a própria Vida espalhada e vagabunda juntando-se para crescer; o silêncio pontiluzente, meditativo e severo, da Noite estrelada é a própria serenidade da distância a olhar: sátiros, ninfas, hamadríadas, nereidas, faunos e deuses passeiam por entre os homens...». 
Realcemos esta, tão necessária nos nossos dias, «serenidade da distância a olhar» e a presença dos subtis espíritos da natureza, bem nomeados por Leonardo Coimbra,  que ao olho espiritual por vezes se desvendam e que tanto participam, com os Anjos, nas lendas e na Tradição Cultural e Espiritual Portuguesa...
E depois desta revisitação da Grécia, ainda naturalmente algo clarividente e que Fernando Pessoa ecoará na mesma época quando escreveu "Os deuses não se foram, nós é que os deixámos de ver", Leonardo concluiu, de novo na linha Órfica, ou do poder mágico da Palavra proferida harmoniosa e conscientemente, falando do nível ou plano etérico por onde ela se propaga, algo bem estudado pelos Pitagóricos e a Antroposofia, da qual Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa tiveram algum conhecimento: «Eis porque não há maravilhoso nem misturas de maravilhoso, há sim uma voz humana que é contemporaneamente estremecimento da alma e do ar, que fulgura, no éter interior e no éter envolvente, a mesma luminosa geometria». 
Certamente que teria sido bem que Leonardo tivesse desenvolvido mais o que ele via como a "luminosa geometria", a que psicomorfismos, a que formas geométricas e ideias-imagens-forças se queria referir mais especificamente. 
E que seria bom que nós estivéssemos mais conscientes deste nível subtil referido e demandado por Antero de Quental quando fala do magnetismo e panpsiquismo, ou por Fernando Pessoa escrevendo como um dos graus da iniciação o conhecimento do lado etérico e divino das coisas.
E prossegue, referindo o grande amor e drama de Inês de Castro e de Pedro, o qual tão "assumido" foi pela Natureza e por Camões e que ainda hoje perdura vivo na arte (e a ilustre pintora Maria De Fátima Silva prepara uma bela exposição sobre o tema para 2018) e nas almas:
«Nos Lusíadas há alegria campesina, boninas, prados e jardins, uma natureza inocente e sem máculas; mas há também águas que são já lágrimas de amor saudoso, há montes e ervinhas que andam a aprender no peito de Inês.// E a paisagem de Coimbra ainda vive hoje a repetir essas lições; na Quinta das Lágrimas ainda hoje, da fonte correm sem descanso, ressoando em eco, os versos desta oitava:
«As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram;
E por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas em fonte transformaram:
O nome lhe puseram, que inda dura
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fonte fresca rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome amores».

Em seguida Leonardo entra na missão do poeta, de cada país, mormente de Portugal, e sem dúvida poderemos lembrar-nos de novo de Fernando Pessoa que iniciou a sua actividade literária pública na revista Águia, de Teixeira Pascoais, Jaime Cortesão e Leonardo Coimbra, já que na Mensagem esculpe ou talha também a fisionomia espiritual da Pátria, que muito amou, por diversos modos, por vezes ainda pouco reconhecidos. Fernando Pessoa, cinco anos mais novo que Leonardo e a quem escreveu um dia o seguinte passo: «eu conhecia já de sua obra-base, as grandes qualidades e os (a meu ver) alguns defeitos do seu espírito, o mais alto, porventura, porque plenamente lúcido e intelectual, que a nossa Raça hoje reveladamente possui».
O discurso ou texto concentra-se depois na viagem de Vasco da Gama e os seus nautas (já que «Viajar é compreender: por ignotos rumos procurar e levar companhia aos seres e às coisas da distância, alargar, dilatar a alma para além dos horizontes, ampliando o convívio, contactando por maior superfície a grande zona do Mistério») no descobrimento do caminho marítimo para a Índia, com bastante originalidade até na interpretação do Adamastor como um Prometeu, amado e sublimado pelas ondas do mar e nos seus desejos sempre se renovando.
E termina assim o seu certamente flamejante e levitante discurso, como me contaram ser habitual alguns familiares e amigos que ainda o ouviram num ou noutro improviso relampejante: 
«É a grande Viagem: o Gama ao leme, o Poeta fazendo do seu canto o próprio Oceano em que vogamos, e nós, reconciliados com Ele, em extâse, cantando a beleza profunda e eterna das almas...
Faça cada português as suas pazes [e através também das suas Rimas] com Camões e, de novo, no Infinito, radiosa e feliz, a Pátria há de sorrir...// Disse». 

Pátria, Fisionomia anímica e espiritual, Tradição Espiritual Portuguesa, Arcanjo de Portugal, diremos no eco subtil a que todos somos chamados a cooperar...

Lisboa, 30-XII-2016, dia do 133º aniversário do nascimento de Leonardo Coimbra.
Que a Luz, o Amor e as bênçãos dos Manes e Mestres, Anjos e Arcanjos e da Divindade estejam nele e em nós!

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