sábado, 31 de dezembro de 2016

Do último pôr-do-Sol de 2016 e seus augúrios para 2017

                 
Saber descer com humildade e subir na aspiração ensina-nos o Sol diariamente!
The movement of the Sun appears to us like a teaching of a balanced or harmonious mind and so life...

Que perseverança a do Sol, que gratidão a Ele e à Divindade por tanta vida e beleza...
Religions and sacred monuments were projections of the human soul full of awe, wonder and gratitude to the Divine...

As nuvens, por vezes modeladas pelos espíritos da natureza e os Anjos, fazem a sua última pintura  da comunhão solar derradeira de 2016. Quantas vezes soubemos comungar das suas cores, energias e mensagens ao longo do ano e que frutos germinam na nossa aura e inconsciente?

My heart is bowing and aflame with the Divine Love
Que estejamos mais conscientes do nosso coração espiritual irradiante...

Entrar no coração do Sol só muito poucos conseguem mas expandir-nos aos céus e a ele já é bom...

Os momentos do nascer e do pôr-do-Sol são verdadeiramente espirituais, mágicos, alquímicos e harmonizam a alma e intensificam as ligações superiores (espirituais e divinas), tão necessárias nos nossos dias de tanta dispersão e manipulação, crises e sofrimento...

Varandas sobre o Infinito e seus planos coloridos... 
Balcony over the vast expanse of the Sunset energies and colors...

As reverberações dos actos, das palavras, das meditações elevam-se através dos planos e mundos e ligam a  terra aos planos mais subtis e espirituais.
Aos antepassados, aos grandes seres, à Tradição Espiritual Portuguesa (ou a de cada país), aos Anjos e espíritos celestiais, aos Deuses ou faces da Divindade a nossa profunda gratidão e saudação e pedidos e votos de um novo ano 2017 de muita paz e harmonia, amor e sabedoria...
Para a contemplação, de Bô Yin Râ

                             Contribuamos bem para um 2017 de mais paz e Pdialogo fraterno e iluminante entre os seres e os povos, em harmonia com a Natureza
              Let us work with Love and Wisdom for a better state of Mankind and                                                             Nature in 2017


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Leonardo Coimbra. Camões e a Fisionomia Espiritual de Portugal.


Presente-homenagem a Leonardo no seu dia de anos...

Em 1920, no emblemático dia 10 de Junho e a fechar um recheado programa abaixo reproduzido, que empalidece o civismo e patriotismo das comemorações de fachada dos últimos anos, Leonardo Coimbra (30-XII-1883/2-I-1936) discursava, no seu modo eloquente e ardente, sobre Camões e a Fisionomia Espiritual de Portugal
A revista Águia, da qual era fundador já voava alto e douradamente com nove anos de publicação da 2ª série (1912),  e estava muita gente no teatro Águia de Ouro para ouvir a sua palavra flamejante e sugestiva. Quais dos seus discípulos estariam presentes (nomeadamente Sant'Anna Dionísio, com quem tanto dialoguei), que  efeitos mais poderosos foram sentidos pelas pessoas e que consequências tiveram só aquele Livro dos Livros Divino nos poderá dizer mas são raros os que conseguem soletrar, intuir ou sonhar algumas linhas e imagens do passado nele registado...






Leonardo Coimbra, com 37 anos mas já ciente da nossa incapacidade actual de revertermos o curso do Tempo no Espaço Infinito,  escreveu então um texto que cremos que, mais do que a base arquitectónica da sua conferência, foi uma escultura na lava arrefecida do seu discurso.
Como quer que tenha sido a génese do texto, Leonardo Coimbra e os tipógrafos deram à luz uma bela publicação, de que houve duas edições com pequenas diferenças, num folheto de 18 ou 14 páginas, bem impressas, com o corpo do texto enquadrado em três belas tarjas avermelhadas com motivos florais,  escudo de Portugal e cruz da Ordem de Cristo, e que fotografámos e partilhamos na versão da Separata de Camões

Este exemplar consultado e reproduzido tem a assinatura manuscrita: "A Afonso Guimarães oferece Leonardo Coimbra" e assim a mão quente dele pousou na folha e deixou na sua aura de memória alguns fótões de luz impressionada e registante...

Logo de início do discurso ou texto Leonardo enaltece e caracteriza os poetas, sábios e santos que são os descobridores desse continente semi-desconhecido que vindo do Coração Divino é conhecimento e memória e do qual nós só temos vislumbres fugazes na apressada existência tão coberta de névoa e mistério, mas que eles trazem mais à manifestação ou fixam na consciência.







Há algumas frases bem profundas e belas:«O Santo é o homem do plano superior voluntariamente dado em sacrifício para que a luz divina, que o consome, guie e exalte os homens à transcendência de uma vida superior. 
O Santo vive, na labareda do momento, o incêndio da eternidade».


Numa visão órfica ou valorizadora da capacidade reintegradora da Palavra e do som, na linha que Bocage tanto sentiu e transmitiu na sua poesia, escreve:«O Santo é o Poeta praticante, as suas canções penetram-lhe e modelam os lábios, são seres vivos caminhando, humildes e amorosos, a cuidar das chagas que, em nós, fizeram as mordeduras da Morte.»
Como o tema é Camões e Portugal poderíamos admitir que Leonardo realçaria a capacidade de Camões sentir a terra portuguesa e o mar, tal como a universalidade do conhecimento e, na sua intensidade de Fiel do Amor, o seu ir além do lírico e entrar no sublime e no místico unitivo, seja o da tão iniciática ilha dos Amores seja a dos  dos santos e santas, para depois voltar à terra ou a Portugal na justiça e na coragem que melhoram a marcha evolutiva da humanidade, mas não, Leonardo vai-se deixar empolgar pelas obras cuja riqueza é inesgotável nas leituras que se façam e criacionista no aumento ou crescimento e que «são fios subtis que prendem o homem aos planos espirituais superiores, são as flechas dardejantes do mistério apontado ao próprio coração humano. 
É neste sentido que há livros revelados e só legíveis na iluminação da própria luz espiritual que os embebe. 
É, neste sentido, que existem bíblias: vivas línguas de fogo, acrisolando o pensamento humano.
Divina Comédia, D. Quixote, os Evangelhos: outras tantas línguas de fogo ligando a terra com o firmamento».



Leonardo intui e descreve aqui bem a aura, possível até divina, dos livros em geral e não só os religiosos: pode ter havido uma grande descida de Luz no seu autor a qual foi passada pelas palavras. 
Luz Divina ou da Musa inspiradora, dir-se-á muitas vezes mas também do Anjo, que subitamente Leonardo traz à liça desta batalha pela recuperação do conhecimento da vera fisionomia humana e divina: «O homem que se eleva, só sustenta a sua fisionomia angélica ajudando a evolução, porque as forças de Morte ainda o hão de perseguir e, se não continua subindo, há de degradar-se em caricatura animal». Acrescentando logo em seguida, talvez numa linha de saudosismo da nossa inconsciência da omnisciência do Seio Divino: «No rio do tempo vão fugindo as cousas, os seres, os mundos e o homem.// O Poeta é o seu redentor.// A única redenção é o grande baptismo no divino Oceano da Memória». 
Teremos ainda de passar por uma página consagrada a Cervantes e ao D. Quixote, altamente apreciado como «a Bíblia do Ideal», e onde escreve muito bem:«sob esse ponto de vista, todo o esforço para a consciência, que é a própria linha de evolução dos mundos, da vida e do homem, a ciência, a arte e a moral, é uma sedução quixotesca, é o influxo superior que uniu a alma de Cervantes às realidades espirituais transcendentes», antes de entrarmos nas referências invocantes do génio de Camões e dos Lusíadas.... 



Talvez as ideias e imagens mais interessantes sejam estas: «Portugal encapela-se em ondas, a sua vida comunica-se e de praia a praia é um abraço cingindo o planeta.// A vida do planeta é convivência no infinito, a alma de Camões ligou, pelos fios invisíveis da memória, o Mar, a Pátria à vida espiritual do Universo.// As oitavas dos Lusíadas são eternos estremecimentos de Memória esculpindo no Infinito a fisionomia espiritual da Pátria.// O Homem pertence a vários planos de vida espiritual: é cidadão da sua pátria, membro da sua religião, parcela consciente no Universo.// E cada plano é atravessado pelo esforço do homem-consciência para a conservação e para a memória.»



Leonardo tem uma visão do amor da Pátria muito creativa ou criacionista, divinizante mesmo e vai expô-la ou partilhá-la em frases sem dúvida ainda hoje fazendo muito sentido na luta pela diminuição do egoísmo e a melhoria do mundo: «Se o Universo desde o Sábio ao Poeta (e sem que prejulgue o problema do Mal) é convívio, a consciência do homem há-de procurar as relações cósmicas na companhia das consciências mais próximas.
Eis porque o homem, consciência no Infinito, é cidadão na sua Pátria e une a sua voz à voz de seus irmãos para erguer em coro a própria voz da Pátria. E como as almas só crescem pelo sacrifício dos desejos de separatividade que as forças da Morte nelas insinuaram, o amor da Pátria é a primeira e a mais concreta experiência religiosa das almas».
Talvez nos nossos dias este amor da Pátria como experiência religiosa ainda consiga brotar dos manuais escolares ou do conteúdo dos computadores para algumas almas infantes, mas receamos que tal tenha diminuído bastante e a Pátria seja mais sentida nos campos e jogadores de futebol ou desportistas... 
Para Leonardo era diferente:«O Amor da Pátria será o amor dos homens e das coisas [provavelmente as pedras, as árvores (tão destruídas na actualidade camarária) e os monumentos], encerrando-se em eterno e renovado amor de Deus». 
E passa então a expor a qualidade dos Lusíadas, começando com uma tirada bem forte a um lugar- comum dos comentadores da obra:  «A crítica mais ou menos boticária entreviu nos Lusíadas uma mistura de maravilhoso pagão e do maravilhoso cristão.// É tempo de acabar com tanta incompreensão da obra, de dizer bem  alto que uma obra de arte é um ser vivo, uma viva consciência salvando para a Memória o fluxo que transita. Jamais será a mistura de morte e quimeras»...
Destaquemos este grito de Leonardo: «uma obra de arte é um ser vivo» e deixemo-lo ecoar e brotar mais em nós, sentindo tal tanto num cristal de quartzo ou num carvalho do Gerez, ou nos Painéis de Nuno Gonçalves e no pórtico sul dos Jerónimos.
Passando depois a valorizar as religiões antigas,  a harmonia da vida e da clarividência de então com  a Natureza e com os seus seres subtis, dirá: «o simbolismo pagão é a grande concepção  estética  da Natureza e  da Vida.  As contradições entre o homem  e a natureza resumem-se ainda às relações de silêncio e convívio, que o homem encontra e harmoniza na quase tangibilidade dos deuses mal escondidos ainda no seio de uma natureza amiga».
E prossegue com uma descrição repleta de belas expressões (tão sentimentais no seu poema de amor Adoração), hoje bem invulgares: «O murmúrio da floresta é quase o sopro, repousado e possante, duma respiração imensa; a tremulina de luz, que percorre o ribeiro quando um ruído se ergue do estremecimento do canavial é o próprio corpo da frescura a caminhar; o bulício das selvas multiplicando e fecundando a vida é a própria Vida espalhada e vagabunda juntando-se para crescer; o silêncio pontiluzente, meditativo e severo, da Noite estrelada é a própria serenidade da distância a olhar: sátiros, ninfas, hamadríadas, nereidas, faunos e deuses passeiam por entre os homens...». 
Realcemos esta, tão necessária nos nossos dias, «serenidade da distância a olhar» e a presença dos subtis espíritos da natureza, que ao olho espiritual por vezes se desvendam e que tanto fazem, com os Anjos, parte das lendas e da Tradição Espiritual Portuguesa...



E depois desta revisitação da Grécia, ainda naturalmente algo clarividente e que Fernando Pessoa ecoará na mesma época quando escreveu "Os deuses não se foram, nós é que os deixámos de ver", Leonardo concluiu, de novo na linha Órfica, ou do poder mágico da Palavra proferida harmoniosa e conscientemente, falando do nível ou plano etérico por onde ela se propaga, algo bem estudado pelos Pitagóricos e a Antroposofia, da qual Leonardo, Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa tiveram algum conhecimento: «Eis porque não há maravilhoso nem misturas de maravilhoso, há sim uma voz humana que é contemporaneamente estremecimento da alma e do ar, que fulgura, no éter interior e no éter envolvente, a mesma luminosa geometria». Certamente que teria sido bem que Leonardo tivesse desenvolvido mais o que ele via como a "luminosa geometria", a que psicomorfismos, a que formas geométricas e ideias-imagens-forças se queria referir mais especificamente. E que seria bom que nós estivéssemos mais conscientes deste nível subtil referido e demandado por Antero de Quental no magnetismo e panpsiquismo, ou por Fernando Pessoa no lado etérico e divino das coisas.
E prossegue logo referindo o grande amor e drama de Inês de Castro e de Pedro, o qual tão "assumido" foi pela Natureza e por Camões e que ainda hoje perdura vivo na arte (a Maria De Fátima Silva prepara uma bela exposição) e nas almas:
«Nos Lusíadas há alegria campesina, boninas, prados e jardins, uma natureza inocente e sem máculas; mas há também águas que são já lágrimas de amor saudoso, há montes e ervinhas que andam a aprender no peito de Inês.// E a paisagem de Coimbra ainda vive hoje a repetir essas lições; na Quinta das Lágrimas ainda hoje, da fonte correm sem descanso, ressoando em eco, os versos desta oitava:
«As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram;
E por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas em fonte transformaram:
O nome lhe puseram, que inda dura
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fonte fresca rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome amores».

Em seguida entra na missão do poeta, de cada país, mormente de Portugal, e sem dúvida  poderemos lembrar-nos de novo de Fernando Pessoa que inciou a sua actividade literária pública na revista Águia, de Teixeira Pascoaes, Jaime Cortesão e Leonardo Coimbra, já que na Mensagem esculpe ou talha também a fisionomia espiritual da Pátria, que muito amou, por diversos modos, por vezes ainda pouco reconhecidos. Fernando Pessoa, cinco anos mais novo que Leonardo e a quem escreveu um dia o seguinte passo: «eu conhecia já de sua obra-base, as grandes qualidades e os (a meu ver) alguns defeitos do seu espírito, o mais alto, porventura, porque plenamente lúcido e intelectual, que a nossa Raça hoje reveladamente possui».

O discurso ou texto concentra-se depois na viagem de Vasco da Gama e os seus nautas (já que «Viajar é compreender: por ignotos rumos procurar e levar companhia aos seres e às coisas da distância, alargar, dilatar a alma para além dos horizontes, ampliando o convívio, contactando por maior superfície a grande zona do Mistério»  de descobrimento do caminho marítimo paraaa Índia, com bastante originalidade até na interpretação do Adamastor como um Prometeu, amado e sublimado pelas ondas do mar e nos seus desejos sempre se renovando.


E termina assim o seu certamente flamejante e levitante discurso, como  me contaram ainda alguns familiares e amigos que o ouviram num ou noutro improviso relampejante: 
«É a grande Viagem: o Gama ao leme, o Poeta fazendo do seu canto o próprio Oceano em que vogamos, e nós, reconciliados com Ele, em extâse, cantando a beleza profunda e eterna das almas...
Faça cada português as suas pazes [e através também das suas Rimas] com Camões e, de novo, no Infinito, radiosa e feliz, a Pátria há de sorrir...// Disse». 

Pátria, Fisionomia anímica e espiritual dela, Tradição Espiritual Portuguesa, Arcanjo de Portugal, diremos no eco subtil a que todos somos chamados a cooperar...

Lisboa, 30 de dezembro de 2016, dia do 173 aniversário de Leonardo Coimbra.
Que a Luz, o Amor e a bênção Angélica, Arcangélica e Divina estejam nele e em nós!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Invocação do Anjo da Guarda...


A invocação do santo Anjo da Guarda e da ligação com a Divindade é útil e louvável pois cria campos de força mais subtis na atmosfera terrena e abre janelas e canais para que o mundo angélico e arcangélico nos possa harmonizar e inspirar mais.
No final do ano é bom dar-lhes mais graças, em especial no meu caso ao Anjo da Guarda e ao Arcanjo de Portugal, pelas suas bênçãos e desvendações subtis, raras, valiosas, maravilhosas.
Possamos nós ter de cór tais momentos e ensinamentos, possa o pecúlio do nosso coração ser, para além de um poço (ou oceano) de gratidão e devoção, um tesouro de pedras semi-preciosas e preciosas bem trabalhadas e facetadas pelas nossas meditações, esforços e reminiscências, para que, como sementes, cresçam e dêem frutos de vida inteira, isto é, perene, ou seja, que se conservem e nos abram mesmo a sobrevivência consciente e luminosa no além, no post-mortem fisico...
Que o nosso amor aos Anjos e Arcanjos e à Divindade aumente sempre, em ambos os sentidos, e melhore a nossa relação com a Humanidade, a Terra e o Cosmos e nos torne mais plenos e serenos, libertos e corajosos, compassivos e alegres...

Na página que fundei "Anjos e Arcanjos de Portugal e de Deus", no facebook, pode encontrar bastantes aproximações a eles...
Lux...
                                         

sábado, 24 de dezembro de 2016

Antero de Quental e o seu ensinamento espiritual. Vídeo, 1ª parte


Antero de Quental e o seu ensinamento espiritual. 1ª parte, gravada em vídeo.





A demanda filosófica e espiritual de Antero é neste vídeo aprofundada a partir do seu último texto, ensaio ou testamento, publicado nos primeiros meses de 1891: "Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX", através da leitura de algumas partes e dos comentários por Pedro Teixeira da Mota, na manhã de 24 de Dezembro de 2016, na Madragoa lisboeta...
Seguiram-se mais três gravações, tendo sido percorrido esse notável texto filosófico e espiritual, não só perene como actual, desafiante, o que realcei em alguns dos comentários..


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Antero de Quental, visto por Manuel Bandeira, no centenário do seu nascimento, 1942.



Antero de Quental teve em 1942 as merecidas comemorações do centenário do seu nascimento em algumas partes do mundo, tal como no Brasil, onde uma sessão com Manuel Bandeira (1886-1968) e Jaime Cortesão aconteceu no Rio de Janeiro, no palácio da Associação Brasileira de Imprensa, tendo ainda sido lidos poemas por Margarida Lopes de Almeida. Um ano depois Jaime Cortesão fez publicar os textos das duas conferências numa pequena brochura de 47 páginas, nos Cadernos da Seara Nova, Lisboa. 
Ao lermos a conferência de Manuel Bandeira, poeta modernista e cronista, tradutor, jornalista, e já então laureado com o ingresso na Academia Brasileira de Letras (desde 1940), 

Manuel Bandeira discursando na Academia Brasileira de Letras em 1940.
observamos como ele tendeu a ver Antero sobretudo como um poeta e se por vezes vê bem o seu interior anímico, tal como quando refere a tal voz da consciência que Antero muitas vezes referiu, escrevendo: 
«Na crise de consciência, em que, diante de um mundo deserto de deuses, só via a ilusão e o vazio universais, aquela pequenina voz que protestava e afirmava o Bem, inclinou-o, cada vez mais de modo aborvente, a meditar sobre o destino do homem e o fim do Universo», noutras vezes perde-se, e assim, logo em seguida, quase escarnece de Antero:
«Esse poeta, que confessou por escrito nunca ter pretendido ser poeta; que nos últimos anos da existência, verdadeiramente só prezava meia dúzia de sonetos, dos últimos, os únicos que lhe pareciam ter "a nota exacta e sã", esse poeta, esse imenso poeta julgava-se, candidamente porque era um puro, julgava-se um filósofo, e que filósofo! o que teria divisado "a direcção definitiva do pensamento europeu, o Norte para onde se inclina a divina bussola do espírito humano"». 
Destacaremos que essa nota exacta e sã da meia dúzia de sonetos será sempre algo subjectiva, nomeadamente para nós hoje no séc. XXI. E se em relação Antero é difícil ou impossível saber quais ele pensou que eram os mais perfeitos espiritualmente, alguns pensadores apresentaram as suas escolhas, tal como Jaime Cortesão (mais belos: O Convertido, Espiritualismo, Quia Aeternus, Homo, Logos, À Virgem Santíssima) na conferência acima mencionada e sobre a qual escreveremos brevemente. 
Se Antero de Quental realmente divisou a direcção definitiva do pensamento moderno ou europeu, o Norte para onde se inclina a bussola do Espírito humano ou não, é uma questão importante de se pôr e mau grado a tendência para se desvalorizar as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX intuímos que tanto Leonardo Coimbra como Fernando Pessoa tiveram bastante em conta tal obra. Ora esse "Norte" em parte era o panpsiquismo, a ligação íntima entre a matéria-energia e a consciência e informação, a omnipresença da energia psíquica e a comunhão crescente dos seres nessa noosesfera da Verdade, com o concomitante desenvolvimento de capacidades psico-espirituais, ou mesmo de religação ao Bem moral e à fonte Divina. 
Manuel Bandeira já vê bem que em Antero se encontrava no mais alto grau essa característica dos poetas «que é pensar por imagens» e que na sua «imaginação soberanamente plastica as ideias mais abstractas se transmudavam, como por encanto, ao toque da emoção, em radiosas visões arquitecturais e esculturais; plasmavam-se subitamente os fantasmas em matéria palpitante».
 Mas já vê menos bem quando pensa que Antero queria «na sua razão filosófica aniquilar o mundo natural, ou pela negação pura e simples, na fase pessimista, ou na fase final de serenidade, pelo que ele mesmo chamou de panpsiquismo, processo de evolução, segundo o qual o Universo gravitaria obscuramente, inconscientemente, para um estado psicológico puro». 
Este panspsiquismo de Antero é certamente dos campos mais profundos e menos discernidos pelos comentadores anterianos e que tanto corresponde à alma do mundo, ou à noosfera como ao campo unificado de energia informação consciência e que de um ponto de vista científico e de dinamismo energético consciencial está a ser mais cada vez mais sondado, consciencializado e explorado pelos seres humanos e do qual o magnetismo e a telepatia eram já sinais para Antero, como ele refere algumas vezes... 
Erra ainda, ou dá uma interpretação algo valorizadora demais da poesia quando se interroga: «Donde partiu Quental para chegar à solução que o deixou liberto e adormecido na mão de Deus, - na sua mão direita? Não foi da razão de filósofo; foi sim, daquela voz interior - " não sei que voz que eu mesmo desconheço" assim se exprimiu em verso, e em carta a seu amigo Fernando Leal: «No fundo do coração há uma voz humildade mas que nada faz calar, a protestar, a dizer-lhe que há alguma coisa por que se existe e por que vale a pena viver". Voz do subconsciente, voz da poesia nesse homem...» 
Erra neste ponto (parece-me...) porque não chegou Antero a essa solução que o deixou liberto e como que adormecido na mão direita de Deus, uma imagem algo passiva que tanto foi do agrado de Oliveira Martins, que a pôs mesmo no fim da edição final e completa dos Sonetos, nem foi pela poesia ou voz interior. Foi tal imagem uma forma apenas sensível e religiosa de terminar um dos seus sonetos de modo suavizante trabalhando a sua tendência fantástica pessimista, como por alguns se costuma caracterizar. 



Como poeta e cultor do ser poeta, um Fiel da Poesia, diremos nós, Manuel Bandeira dirá talvez com razão que «das suas cartas aos amigo se percebe como a sua alma atormentada se dilatava com serenidade toda vez que o espírito conseguia formular em verso as soluções intelectuais morais e sentimentais a que ia chegando». E de facto todos os que escrevem sentem a expansão de consciência, de alegria ou gratidão que ocorre quando escrevemos ou finalizamos uma poema ou um texto bom. 
Também é valiosa e discutível a visão final que dá de Antero: «Formulado em imagens nos sonetos da última fase o seu panpsiquismo, o seu misticismo, o seu budismo, a sua chamada teoria da santidade, o poeta calou-se. Calou-se porque compreendeu que já dera a expressão exacta do seu íntimo e definito sentir. A poesia já se podia retirar daquele ser doente, e de facto se retirou. O filósofo ainda pensou em pôr por escrito o seu sistema. Muitas vezes falou em tal, mas no íntimo sentindo a impossibilidade de se exprimir por outras vozes que não fossem as da poesia. Lamentando-se disso, é certo, mas sem grande convicção».

Um poema de Manuel Bandeira que Antero não assinaria, pela sua grande abertura à fraternidade das almas...
 Discordamos que Antero, quando pôs fim à sua actividade de poeta já tivesse chegado à formulação por imagens do seu panpsiquismo e misticismo, e que já dera portanto expressão exacta do seu íntimo e definitivo sentir, pois então teria de viver cerca de 15 anos em estado fossilizado ou estagnado psiquicamente. Ora ele conseguiu pôr o seu sistema em grande parte por escrito nas Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, texto dado á luz na Revista Portugal em artigos datados de 1890 e trabalhados mais intensivamente nos últimos anos da sua vida. 
Aliás a referência que Manuel Bandeira faz inicialmente, e já transcrita, algo escarnecendo das Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, e a que faz a meio do livro, não nos parecem correctas: «Ainda quando tentou esboçar em prosa o sistema das suas ideias, como em Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX ou em cartas a amigos, fê-lo por meio de comovidas afirmações de poeta, por meio de imagens do poeta. Já o notara Adolfo Coelho ao escrever que «a exposição do escritor não seguia de modo nenhum o teor da demonstração: é um credo que se enuncia, e esse credo tem em parte o aspecto de poesia em linguagem de prosa". A filosofia de Antero é a de um ser moral por excelência, muito bem definido por Oliveira Martins como 2um poeta arrebatado pela visão inextinguivel do bem".» 
Discordamos nesta parte pois são muitas as perfeitas expressões em prosa de aspectos importantes do seu sistema, ou diremos melhor visão do mundo, e que não se tratam de comovidas afirmações de poeta, mas antes escritas na característica até da tradição espiritual portuguesa que é a do sentir e pensar unidos, a união da cabeça e do coração. 
Também não são nada indicados para apreciar de modo "definitivo" Antero, seja Oliveira Martins, que nunca compreendeu bem os aspectos mais profundos da espiritualidade de Antero e menos ainda o positivista Adolfo Coelho, que anos mais tarde atacou fortemente os modernistas de Orpheu, certamente por não seguirem de modo nenhum o teor da demonstração racional que ele Adolfo Coelho quereria na poesia... 



O final da conferência de Manuel Bandeira, foi belo embora possamos questioná-lo: «O corpo doente ainda sofreu muito, e tanto que procurou remédio na morte voluntária. Mas alma, essa estava apaziguada, porque já havia cumprido o destino com que viera marcado de berço - destino de grande poeta, intérpre dos anseio humanos mais fundos e mais puros». 
Questionamos esta conclusão pois ela aponta para uma falha no estoicismo de Antero: este ter-se-ia matado porque sofria muito no corpo doente, já que a sua alma estava apaziguada, pois cumprira o seu destino de grande poeta, e assim subtende-se que poderia descansar, ele ou o coração, na mão direita de Deus, que não à esquerda... 
Pensamos que embora houvesse sofrimentos da dispepsia e dos nervos tudo se passou mais no campo psíquico e aí Antero não estava apaziguado plenamente, nem pela poesia que escrvera nem pela filosofia que alcançara, faltando-lhe provavelmente um ambiente familiar ou humano amoroso que o apoiasse e sobretudo uma relação amorosa mais forte, um misticismo mais de coração concretizado na relação pessoal com a Divindade, ou com o Anjo da Guarda ou com o Mestre... 
Mas já é possível que Manuel Bandeira tenha razão no aspecto de Antero ter entendido que já dera o que podia dar e que preferia abreviar a existência do que continuar em certo sofrimento, desilusão e frustração, pois em verdade já tinha uma certa idade, a vida não lhe estava muito agradável em vários aspectos, e sentindo que já cumprira parte da sua missão nos aspectos principais e porque não entrar voluntariamente no reino da morte, ele que tanto fora atraído por ela chamando-a de irmã e equiparando-a ao amor, Mors-Amor
A morte de Antero, ainda que possa ter sido causada por certo desequilíbrio momenâaneo nervoso decorrente do que se estava a passar nos Açores, ainda assim deve ter sido serena. E estaria ele acompanhado invisivelmente nessa sua cruz final, que ele já em carta uma vez dissera que não largaria? 
Quanto ao que ele não conseguiu desenvolver, outros vieram e virão para o cumprir e assim ele se insere numa Tradição Espiritual Portuguesa, tal como nós hoje no séc. XXI o meditamos. Nesse sentido escrevera até Fernando Pessoa, altamente devedor de Antero, em especial nos seus primeiros tempos da revista da Águia:«Por que característicos, por assim dizer, exteriores se pode conhecer o sentimento transcendentalista? Nas duas formas menos complexas do transcendentalismo, o materialista e o espiritualista, o indivíduo sente-se, como o panteísta, parte de um Todo, mas com a diferença que, para ele, esse Todo é sentido como irreal, como ilusório. Decorre daqui que o poeta transcendentalista (materialista ou espiritualista) fatalmente será um poeta pessimista. Mesmo que, transcendentalista espiritualista, conceba como vagamente espiritual o Transcendente, esse Transcendente, por sua própria, concebida, natureza, é sentido como Mistério, e mesmo onde levanta abate. — Percorrendo todo o Romantismo não encontramos este sentimento; apenas, em Alfred de Vigny, e nos seus descendentes, já pós-românticos, há um vago arremedo dele. Mas, ao atentar bem nos característicos que deduzimos como devendo ser os da poesia transcendentalista, revela-se-nos imediatamente que estamos em Portugal e em plena descrição da poesia de Antero. Concluímos, pois, que especiais condições de raça fazem do sentimento transcendentalista apanágio de Portugal. Se o transcendentalismo sob forma de emoção começou entre nós, entre nós deve continuar. Vejamos, pois, se a sua forma mais alta e complexa, o transcendentalismo panteísta, foi, acaso, atingida já.» 
E será esse transcendentalismo panteísta que Fernando Pessoa, neste ensaio escrito para a revista Águia em 1912 esboça e demonstra (e tendo bastante na mente Antero poeta e filósofo), e que desenvolverá com os heterónimos, para depois os deixar e, como ele próprio, chegar aos poemas mágicos e iniciáticos, os quais em vários aspectos poderemos considerar na filiação espiritual aprofundante do panpsiquismo e da bússola divina entrevista por Antero. 

Visão da Montanha espiritual da realização, em pintura de Bô Yin Râ. 
Que se tenha substituída à do Palácio Encantado da Ilusão...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Leituras das nuvens lisboetas de 15-XII-2016

     As nuvens da aurora dão-nos os bons dias e as do pôr-do-Sol as  boas noites. Sabermos acolher e assimilar tais energias e cores em estados de consciência luminosos e frutíferos, eis uma  prática espiritual valiosa...

Tornar mais o cimo da aura uma clarabóia: bóia de vidro claro que discerne e atrai as bênçãos do Oceano Celestial

Tal como as árvores, as nuvens estabelecem a ligação entre a terra e o céu, o solo e o Sol, e tocam-se e amam-se por vezes

O Tejo e as Tágides nossas, de Camões e Bocage até aos nossos dias, amam imitar as reverberações solares que os Zéfiros e Anjos desenham e afeiçoam nas ondulações nebulosas...

Stupas e espirais subtis e ascensionais

Voo rápido na aurora que tinge as nossas almas...

Sobre as altas pirâmides e torres as nuvens desafiam-nos esfingicamente ao auto-conhecimento 

Focar o fugaz voo introduz-nos na transitoriedade e na aspiração do mais perene....

Voos ascensionais na aspiração da Luz do Sol Divino, peito e asas bem abertos... 

Danças e grinaldas, sereias e mensageiros rodeiam a cabine do navio

Terra, água, ar, fogo, éter, mente, espírito

A Grande Deusa, em serpentina espiral

Deusas, génios, dragões...

Simorg, a ave mística dos Persas e de Attar, sobrevoa Lisboa


Birds of Fire, Agni...


Encontros de Hermes 

Segunda série: Riscos e frontes alongadas...






Última série: Os grandes Deuses gregos e romanos ainda se vêm nas nuvens 



Aprofundar a entrada na alma espiritual