quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"A Expressão da Liberdade em Antero e os «Vencidos da Vida", de Feliciano Ramos, e a demanda de Antero.

                                                
A Expressão da Liberdade em Antero e os «Vencidos da Vida», um ensaio de Feliciano Ramos, publicado na editorial Império em 1942, é ainda hoje bastante actual pois as inquietações e interrogações anterianas e a demanda intensa do sentido e realização da vida que o ensaio tenta cingir a todos interpelam.
Nele Feliciano Ramos começa por valorizar a força tremenda libertadora e revolucionária de Antero, expressa nas Odes Modernas, em 1865, mas já circulando desde 1863, quebrando com os ultra-românticos e a escola de Castilho, e cita Alberto Sampaio, grande amigo de Antero: «A lembrança da tempestade, que o livro provocou, conserva-se ainda geralmente viva; ele era de facto como uma planta de flora desconhecida; rebentava sem se saber que ventos lhe trouxeram as sementes, e abria as flores estranhas num ambiente inadequado».
                                  
A célebre Questão Coimbrã ou a polémica do Bom Senso e Bom Gosto, na qual participarão tantos escritores e que terá o mesmo um duelo, é o campo da batalha com António Feliciano de Castilho e a escola Romântica (entre nós pouco mágica ou gnósica, algo que Bocage de algum modo e como vate "orfizara") e a entrada da Literatura Moderna, mais realista e naturalista, iniciada por Antero, Teófilo Braga, Guilherme de Azevedo, Vieira de Castro e a que se juntam em breve Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro e outros.
Feliciano Ramos refere então o famoso Cenáculo, a casa de encontro no Bairro Alto, escrevendo mesmo que «Eça compara a chegada de Antero ao quarto de Batalha Reis com a vinda do rei Arthur à confusa terra de Galles», logo os iniciando no socialismo de Proudhon mas, embora todos avancem no naturalismo estético e realista e numa posição lúcida e crítica das causas da lentidão do progresso em Portugal, Antero não encontrará os companheiros para os voos mais metafísicos e espirituais.
Estarão juntos sim nas famosas Conferências democráticas do Casino, mesmo na Baixa lisboeta, onde está agora a livraria Sá da Costa, as quais de tal modo agitam as ideias ou revolucionam a pacatez e conservadorismo do meio que acabam por ser proibidas.
                                   
A dinâmica metafisica e espiritual de Antero está em geral bem vista neste ensaio por Feliciano Ramos e vale a pena ouvi-lo mais detalhadamente no seu 2º capítulo, O Supra-sensível e a inquietação metafísica n'«Os Sonetos»:
«A sua altíssima sensibilidade metafísica não só o tornou um precursor do espiritualismo do séc. XX, como o levou a escrever Os Sonetos, cuja perenidade especulativa e sentimental será indestrutível (...) Antero foi sempre agitado pelas maiores inquietações supra-sensíveis e por uma ansiedade transcendental que o transfigurava por completo. Ele notou bem a presença dessa idealidade que lhe tomava o espírito, e muito lucidamente, se julgava místico e sonhador. Vinca-se já esta compleição visionária nas Odes Modernas e nas Primaveras Romanticas, mas é particularmente em os Sonetos que ela adquire maior expansabilidade. Vê-se nessa obra que a miragem vastamente o estonteia. Os Sonetos lançam-nos num mundo novo e são a criação portentosa duma alma sedenta de infinito e mistério. Nunca na literatura portuguesa a imaginação de um poeta se revelou mais criadora e activa»...
Deste passo de Feliciano Ramos uma frase devemos reflectir mais: «Vê-se que a miragem vastamente o estonteia...»
Foi Antero vítima de miragens? De ilusões? De uma nevrose hiperactiva e depressiva? De projecções excessivas de ideias e noções filosóficas, ou mesmo de personificações fantasiosas de figuras clássicas ou míticas de valores ou entidades em si neutras, tais como a Morte, a Razão, a Verdade, e que assim vestidas ou cultivadas por Antero em diálogos subjectivos o enfraqueceram ou iludiram? 
Ou foi mais a imensidade do infinito e dos seus mistérios do amor, do sofrimento e da morte que fatalmente realçaram, em quem tanto tentou adentrar-se nele, certas incapacidades de ânimo, desde 1874 desencadeadas e que correspondiam a fragilidades já herdadas do seu sistema nervoso e temperamento? 
                                
Talvez Feliciano Ramos exagere ao considerar que Antero perdeu, e diremos nós, um certo horizonte e foco firme, ou a visão clara e precisa pois, mesmo na sua menos clara ou menor orientação face à contingência e fragilidade da vida, a melancolia ou o pessimismo que sentiu foi assumido como ponte de passagem e via crítica para se chegar ao transcendentalismo positivo, à crença na espiritualidade substancial do ser humano e do Universo, ao espiritualismo completo e pampsiquismo, como ele foi realizando cada vez mais e que transmitirá em 14-XI-1886 a Jaime Magalhães de Lima: «...é muito certo que não são os sistemas que nos salvam e nos põem no bom caminho. O que nos salva é a obediência cada vez maior às sugestões daquele demónio interior, é a união cada vez maior do nosso ser natural com o seu princípio não natural, é o alargamento crescente da nossa vida moral nas outras vidas não morais, é a fé na espiritualidade latente mas fundamental do universo, é o amor e a prática do bem, para tudo dizer numa palavra. É por isso que a melhor filosofia será sempre aquela que melhor auxiliar a compreensão e a prática da virtude»...
                              
Afirma também que Antero fora «um espírito absolutamente fora da órbita positivista,» e ao confirmar a sua predilecção pela conversa, pelo diálogo mais do que pela escrita, observa como Antero colheu da natureza muitas das imagens e metáforas que utiliza na sua demanda da Esfinge do Universo mas que «da interrogação nenhuma resposta positiva advém», resultando o seu tormento metafísico não só dessa oscilação de dúvidas mas também das antíteses ou oposições que o dilaceravam, e que os Sonetos tanto revelam.
Embora já na época da preparação da publicação definitiva (1886) dos Sonetos, em Vila do Conde, Antero tivesse alcançado uma visão espiritual e transcendental elevada, mas que ele diz estar reflectida apenas em alguns dos seus últimos sonetos, será de facto só pelo pensamento filosófico e sobretudo no ensaio publicado em 1890, as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX, que tal será finalmente passado à posterioridade, talvez como o fruto mais sazonado da sua aventura poética, terminada uns anos antes, e da sua demanda metafisica, esta infindável e que ele desejaria mais completa mas para a qual já não tinha forças. Mas claro que na sua correspondência também estão transmitidas com grande beleza e elevação centelhas das suas questões, doutrinas e realizações.
Como sabemos a interpretação e valorização deste seminal ensaio tem sido muito diversa (sendo a de Leonardo Coimbra das melhores) e atentemos então no que sentiu por vezes com bastante claridade Feliciano Ramos, e transcreveremos até o início do seu terceiro capítulo intitulado A Liberdade Suprema nas Tendências Gerais da Filosofia: «À medida que os paladinos da ciência experimental e os apaixonados do Positivismo viam crescer a sua descrença na metafísica, Antero, com indomável coragem intelectual, ficava esperançosamente à margem da disputa e abria os seus artigos sobre as Tendências gerais da Filosofia, publicados na revista Portugal (1890), por um acto de confiança espiritualista, afirmando logo de entrada: a filosofia é eterna como o pensamento humano».
                                 
Feliciano Ramos expõe depois a dialéctica anteriana de critica à relatividade do conhecimento científico «que carecia simplesmente de ser completado pelo que Antero chama a penetrante luz transcendental, que permitiria atingir o ser íntimo e a realidade substancial das coisas. E como penetrar nessa zona obscura? O instrumento da exploração agora será a consciência, a qual goza não só do privilégio de ter em si a noção do que não é sensível, mas também do poder da percepção imediata desse extracto mais fundo de ser inacessível da região superficial da pura sensibilidade»
Detenhamo-nos um pouco, pois por vezes as enunciações filosóficas e metafísicas ainda que correctas em termos de princípios e de discursividade lógica não são tão facilmente actualizadas ou realizadas no quotidiano. Esta penetrante luz transcendental consegue assim tanto atingir o ser íntimo humano ou das coisas? Ou brota ela mesmo desse íntimo oi imo espíritual do ser?
Se alguns místicos e filósofos atingiram tal, como Antero também confessa referindo por exemplo que conseguiu «chegar teoricamente até aquela profundidade de compreensão do «homem interior», como eles diziam, a que os místicos chegaram», isso não impede que seja uma tarefa bem difícil, em geral muito oscilada ou ondulada pela personalidade e a mente e que ele próprio provavelmente sentiu e confessa frequentemente, dada a nevrose que desde 1874 o atacou.
 Será pois sempre um mistério discernir se tal presença do homem interior, ou como se denomina na tradição persa o Homem Universal, se tenha feito sentir nele mais na interioridade, ou na eticidade, ou na serenidade, esta bem visível a partir de 1880, ou ainda como aspiração ou mesmo compreensão gnóstica...
                                     
Vemos então tanto em Feliciano Ramos como em Antero de Quental como que uma exagerada confiança no nosso acesso ao Espírito, sendo este visto como uma energia, como «uma força autónoma, que se conhece na sua íntima natureza, que é causa dos seus próprios factos e só às suas próprias leis obedece, e consequentemente, existe em si e em si encontra a plenitude. Pender para essa plenitude é elevar-se à realização de um ideal que Antero designa por Deus». 
A pouca consciência e identificação com o espírito que as pessoas têm na sua consciência normal, o envolvimento com tudo o que o nos rodeia e o embaraça e o difícil discernimento do que é o Espírito universal e divino e o espírito humano são factores de peso na dificuldade da realização espiritual e que não são bem tomados em conta provavelmente por Antero e assim a entrada no mundo espiritual, além do acolhimento nobre e idealista dos valores e ideias, não se realiza tanto e na sua ânsia de Absoluto vai admitir talvez demasiado rapidamente um saber total, ou como refere mais de uma vez, a coincidência entre o ser e o saber, algo que dificilmente se pode realizar mais do que parcelarmente, momentaneamente ou então apenas numa iluminação tipo búdica sempre tão subtil quão rara....
Ora se sabemos que Antero cogitou, e em especial através da filosofia de Proudhon, Leibnitz, Hegel, Kant, Hartmann, Schopenhauer e Fitche, noções e níveis do ser como inconsciência, espírito, razão, mónada, absoluto e que fez leituras acerca das religiões antigas, Budismo e Nirvana, misticismo cristão medieval, restaria saber que intuições e visões ele alcançou e que consubstanciaram os aspectos mais próprios ou originais da sua síntese do idealismo e do espiritualismo, vasada como substância no próprio átomo-força, tal como refere na sua obra e epistolografia, chamando-lhe um «misticismo moderno, uma misticismo científico e positivo». 
Talvez assim pudéssemos compreender melhor até as razões filosóficas que poderão ter visto como autorizável eticamente o seu suicídio pessoal ou fim corporal fisico, que não animico-espiritual, e neste aspecto anímico o mistério permanecerá sempre quanto ao que pensaria ou anteveria Antero no post-mortem, e seja nos últimos tempos seja nos últimos minutos?

                             
Para Antero o dinamismo psíquico do espírito em nós visa a liberdade e a ligação com a Verdade e o Divino, e realiza-se pela ética e a vida moral que vamos desentranhando de nós pelos nossos actos, pensamentos e sentimentos a qual que faz diminuir o ego, expandir o espírito e abrir-nos aos níveis mais profundos e impessoais onde a Justiça e o Bem, a Compaixão e a Pureza brilham.
Talvez tenha falhado um pouco a Antero a experiência do Espírito individual, a visão e ligação com a centelha espiritual dentro de si mesmo. Talvez também tenha faltado a ligação aos mestres e ao Anjo. 
Mesmo assim quanto não conseguiu ele, sobretudo pela sua ardente aspiração, pela sua lúcida razão e pelo intenso sentimento, pelas suas constantes reflexões e meditações, e pela poesia e as cartas aos amigos nas quais nos transmite tantas profundas e belas impulsões de bem, de verdade, de justiça, de liberdade?
Se voltarmos ao valioso ensaio de Feliciano Ramos, entraríamos no seu quarto e último capítulo, intitulado O Grupo dos Cinco e a decadência do Naturalismo, e onde passa em revista a evolução do naturalismo para o culto de valores espirituais nos quatro escritores amigos de Antero que constituíram com ele o chamado Grupo dos Cinco: Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro e Oliveira Martins, questionando se eles teriam mudado de rumo, ou seja se fora a influência de Antero que os levara a saírem do fenomenalismo e naturalismo algo materialista e a abrirem-se mais a certo idealismo, simbolismo e espiritualismo. E conclui que sim, mostrando em todos eles as obras ou os traços que rescendem tal subtil magistério, influxo ou comunhão anteriana.
                                  
Neste sentido podemos nós ainda acrescentar que a vida e morte de Antero de Quental foi crística, isto é, ungidora,  sacrificial, pois ao morrer tão só e e algo desamparado isso terá suscitado nos seus amigos uma certa reconversão para uma maior intuição da alma, até por não terem conseguido intuir a crise amarga de Antero e de o impedirem de se ter adentrado pelos portais da morte radicalmente.
Quanto ao ter sido precocemente ou não é difícil sabermos se Antero esgotara a sua força de vida e paciência, ou ainda se já cumprira a sua missão. 
Terminemos este pequeno escrito com uma última citação de Antero, escolhida pelas mãos e coração de Feliciano Ramos, de uma carta dirigida em 1886 a Jaime Magalhães de Lima, certamente um dos grandes amigos e discípulos de Antero: «o que mais me alegrou na sua carta foi o dizer-me que começava a sentir, nestes últimos tempos, um renascimento dos antigos sentimentos religiosos, embora transformados, e uma invencível necessidade de idealismo. Alegrou-me isto e queria simplemente dizer-lhe que cultivasse e cuidasse com amor esse novo rebento da profunda raiz, que cuidava morto, porque essa será a árvore da bênção, que lhe há-de dar sombra para o resto da vida».
Saibamos nós trabalhar e cultivar a árvore da Tradição Espiritual Portuguesa onde Antero tanto se notabilizou...
                         
                           Um cedro, axis mundi lisboeta, ao Príncipe real







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