sexta-feira, 29 de julho de 2016

Antero de Quental e nós na mão de Deus


Antero de Quental e nós na mão de Deus.



Na mão de Deus 
À Exm.ª  Sr.ª  D. Vitória de O. M.

«Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita. 

Como as flores mortais, com que se   enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita. 

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente, 

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!»



A escolha arbitrária de Oliveira Martins de finalizar os Sonetos com um que não é dos finais, antes escrito bastante antes, teve um intuito provavelmente moralizador e talvez mesmo catolicizante, fazendo terminar, aparentemente, a bem ou na entrega a Deus o percurso filosófico, poético e anímico de Antero, uns anos antes de morrer, e que o livro dos Sonetos manifesta, o qual foi mesmo dividido e ordenado cronologicamente.
Com efeito neste poema, profundo e complexo, certamente algo autobiogáfico, vemos o autor a depor os seus movimentos anímicos antigos, considerados agora como infantis, ilusivos, passionais e a entregar-se definitivamente a Deus, sob a forma do coração a quem "ordena" ou sugere que vádormir na mão direita, a benéfica ou misericordiosa, de Deus, numa simbologia tradicional associada a uma visão humana ou antropomórfica da Divindade.
Há contudo no soneto algumas vozes que parecem algo passivas e derrotistas. Por exemplo, essa recomendação para a alma adormecer e dormir não parece muito de Antero, um ser com uma aspiração enorme muito forte da Verdade e do seu dinamismo perene e que o marcou sempre, provavelmente mesmo ou muito na hora insatisfeita em que se suicidou.
Talvez a possamos compreender melhor o soneto se virmos Antero a dizer: «eu não sou este coração nem o ser que se iludiu com ele mas sou o ser espeiritual que diz ao coração, algo desiludido dos palácios da ilusão algo cansado ou trôpego da caminhada agreste à mera luz da fé e da razão: «dorme em Deus, descansa», e certamente apenas por algum tempos, a fim de se recompor, e não numa ideia de descanso eterno a que este poema remete pela associação da terminologia e visão católica: «Descansa em paz, adormecei no Senhor».
Talvez de realçarmos ainda no começo, a expressão de passado empregada: "descansou". Se no fim do Soneto está mais um presente imperativo, "dorme" é dito ao coração, no princípio há um passado, que nos abre para a ideia da vivência ardua da vida interior que Antero fez e que o obrigou a descer das grandes esperanças ou ilusões do que ele nomeia Ideal e Paixão.
Se a palavra ideal está perfeitamente de acordo com toda a filosofia e o ambiente cultural e revolucionário da época, e nela ressoam muitos escritores e filósofos com os quem dialogou nas suas leituras e conversas com os amigos (embora se tenha encontrado anonima e humildemente com Michelet), já a Paixão é menos esperada. Eu pensaria na palavra e conceito, sentimento e realidade do Amor, mas Antero preferiu por certas razões escolher a Paixão e não vamos pensar que as escolhas foram apenas por questões de rimas, ainda que possam em certos casos terem sido os sinónimos encontrados mais próximos. O Amor intenso, talvez absolutizante, divinizante, qual Beatriz de Dante e então Antero se inseriria nos Fiéis do Amor. Mas das paixões, sobretudo amorosas, de Antero ficaram muitas zonas esbatidas, íntimas, angélicas...
Neste soneto posto no fim da obra prima de Antero, escolha do seu grande amigo Oliveira Martins, e a que Antero aquiesceu, e seria bem interessante sabermos melhor de todo o diálogo parturiense, eis-nos com as duas colunas do Palácio da Ilusão, que na tradição Indiana se chama Maya, e que é também o poder dinâmico da criação de formas e da manifestação da Divindade, mais tarde cultuada como a Shakti, e que é também a energia interna de cada um de nós, pelos shaktas e tântricos, e que também poderia ser chamado segundo a tradição Ocidental o Templo da Divindade, com as suas duas colunas, a do Ideal da mente e a da paixão ou amor do coração, o masculino e feminino que temos de equilibrar ou complementar dentro e fora de nós para se realizar o milagre da Unidade.
Antero desceu dos grandes sonhos juvenis revolucionários filosóficos e passionais afectivos, e reconhece que deve libertar-se do que são aindas conceptualizações e formas transitórias e almejar o Divino, ao qual acaba por se entregar numa fé de criança que vai levada pela mão da mãe na jornada tão misteriosa ou complexa da vida cósmica.
É numa posição de humildade, de ser como humus da terra, que Antero se confessa perante o mistério do Universo, entregando o seu coração nas mãos da Divindade para que nela repouse.
Diria que a minha discordância maior quanto às palavras e estados psíquicos que se evolam deste soneto, como já assinalei de certo modo, está no "dormir" e sobretudo no final "eternamente", que sabe um pouco a campa romântica do séc. XIX mas que pode ser redimida se consideramos que o dormir tem a sua utilização figurada ou simbólica no sentido de se estar em íntima e confiante paz, repouso e entrega, algo que certamente desejaremos tanto para Antero como para todos nós, e não só para depois da morte mas no aqui e agora, de ser a Hora, de nos ligarmos mais confiantemente à Divindade.
Ou seja, que o nosso coração se entregue ou abra a Deus e que as suas agitações e ilusões estejam como suspensas ou adormecidas e que nele vibre apenas mais a Luz e o Amor do Espírito e da Divindade, mistério dos misterios, que as crianças por vezes têm bem vivo e às mães transmitindo no aperto de mão confiante que as impulsiona reciprocamente no Caminho.
Estamos ainda na mão de Deus, ou de mão dada com Ele, quando vivemos bem, bela e verdadeiramente e confiamos na Providência divina e nos seus mensageiros e guias para avançarmos no verdadeiro caminho da Vida. Com Antero...





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