sexta-feira, 29 de julho de 2016

Antero de Quental e nós na mão de Deus


Antero de Quental e nós na mão de Deus.



Na mão de Deus 
À Exm.ª  Sr.ª  D. Vitória de O. M.

«Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita. 

Como as flores mortais, com que se   enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita. 

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente, 

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!»



A escolha arbitrária de Oliveira Martins de finalizar os Sonetos com um que não é dos finais, antes escrito bastante antes, teve um intuito provavelmente moralizador e talvez mesmo catolicizante, fazendo terminar, aparentemente, a bem ou na entrega a Deus o percurso filosófico, poético e anímico de Antero, uns anos antes de morrer, e que o livro dos Sonetos manifesta, o qual foi mesmo dividido e ordenado cronologicamente.
Com efeito neste poema, profundo e complexo, certamente algo autobiogáfico, vemos o autor a depor os seus movimentos anímicos antigos, considerados agora como infantis, ilusivos, passionais e a entregar-se definitivamente a Deus, sob a forma do coração a quem "ordena" ou sugere que vádormir na mão direita, a benéfica ou misericordiosa, de Deus, numa simbologia tradicional associada a uma visão humana ou antropomórfica da Divindade.
Há contudo no soneto algumas vozes que parecem algo passivas e derrotistas. Por exemplo, essa recomendação para a alma adormecer e dormir não parece muito de Antero, um ser com uma aspiração enorme muito forte da Verdade e do seu dinamismo perene e que o marcou sempre, provavelmente mesmo ou muito na hora insatisfeita em que se suicidou.
Talvez a possamos compreender melhor o soneto se virmos Antero a dizer: «eu não sou este coração nem o ser que se iludiu com ele mas sou o ser espeiritual que diz ao coração, algo desiludido dos palácios da ilusão algo cansado ou trôpego da caminhada agreste à mera luz da fé e da razão: «dorme em Deus, descansa», e certamente apenas por algum tempos, a fim de se recompor, e não numa ideia de descanso eterno a que este poema remete pela associação da terminologia e visão católica: «Descansa em paz, adormecei no Senhor».
Talvez de realçarmos ainda no começo, a expressão de passado empregada: "descansou". Se no fim do Soneto está mais um presente imperativo, "dorme" é dito ao coração, no princípio há um passado, que nos abre para a ideia da vivência ardua da vida interior que Antero fez e que o obrigou a descer das grandes esperanças ou ilusões do que ele nomeia Ideal e Paixão.
Se a palavra ideal está perfeitamente de acordo com toda a filosofia e o ambiente cultural e revolucionário da época, e nela ressoam muitos escritores e filósofos com os quem dialogou nas suas leituras e conversas com os amigos (embora se tenha encontrado anonima e humildemente com Michelet), já a Paixão é menos esperada. Eu pensaria na palavra e conceito, sentimento e realidade do Amor, mas Antero preferiu por certas razões escolher a Paixão e não vamos pensar que as escolhas foram apenas por questões de rimas, ainda que possam em certos casos terem sido os sinónimos encontrados mais próximos. O Amor intenso, talvez absolutizante, divinizante, qual Beatriz de Dante e então Antero se inseriria nos Fiéis do Amor. Mas das paixões, sobretudo amorosas, de Antero ficaram muitas zonas esbatidas, íntimas, angélicas...
Neste soneto posto no fim da obra prima de Antero, escolha do seu grande amigo Oliveira Martins, e a que Antero aquiesceu, e seria bem interessante sabermos melhor de todo o diálogo parturiense, eis-nos com as duas colunas do Palácio da Ilusão, que na tradição Indiana se chama Maya, e que é também o poder dinâmico da criação de formas e da manifestação da Divindade, mais tarde cultuada como a Shakti, e que é também a energia interna de cada um de nós, pelos shaktas e tântricos, e que também poderia ser chamado segundo a tradição Ocidental o Templo da Divindade, com as suas duas colunas, a do Ideal da mente e a da paixão ou amor do coração, o masculino e feminino que temos de equilibrar ou complementar dentro e fora de nós para se realizar o milagre da Unidade.
Antero desceu dos grandes sonhos juvenis revolucionários filosóficos e passionais afectivos, e reconhece que deve libertar-se do que são aindas conceptualizações e formas transitórias e almejar o Divino, ao qual acaba por se entregar numa fé de criança que vai levada pela mão da mãe na jornada tão misteriosa ou complexa da vida cósmica.
É numa posição de humildade, de ser como humus da terra, que Antero se confessa perante o mistério do Universo, entregando o seu coração nas mãos da Divindade para que nela repouse.
Diria que a minha discordância maior quanto às palavras e estados psíquicos que se evolam deste soneto, como já assinalei de certo modo, está no "dormir" e sobretudo no final "eternamente", que sabe um pouco a campa romântica do séc. XIX mas que pode ser redimida se consideramos que o dormir tem a sua utilização figurada ou simbólica no sentido de se estar em íntima e confiante paz, repouso e entrega, algo que certamente desejaremos tanto para Antero como para todos nós, e não só para depois da morte mas no aqui e agora, de ser a Hora, de nos ligarmos mais confiantemente à Divindade.
Ou seja, que o nosso coração se entregue ou abra a Deus e que as suas agitações e ilusões estejam como suspensas ou adormecidas e que nele vibre apenas mais a Luz e o Amor do Espírito e da Divindade, mistério dos misterios, que as crianças por vezes têm bem vivo e às mães transmitindo no aperto de mão confiante que as impulsiona reciprocamente no Caminho.
Estamos ainda na mão de Deus, ou de mão dada com Ele, quando vivemos bem, bela e verdadeiramente e confiamos na Providência divina e nos seus mensageiros e guias para avançarmos no verdadeiro caminho da Vida. Com Antero...





quarta-feira, 20 de julho de 2016

Antero de Quental e a Amada, num jardim de Lisboa.




Antero do Quental, imortal poeta-filósofo ou talvez mesmo filosófico-espiritual, foi também imortalizado em alguns jardins lisboetas, tais como o da Estrela e o das Amoreiras. 


Se no primeiro jardim houve cerimónias públicas muito concorridas e das quais há registos (por mais de uma vez, pois houve uma estátua antes da actual), numa discursando até o grande pensador português Leonardo Coimbra (que aliás consagrou ao pensamento filosófico de Antero um livrinho da aprazível e mimosa colecção Lilás, portuense, dos anos 20), no segundo jardim, o das Amoreiras, provavelmente nada ficou registado nos jornais; porém chega-nos o poema bem diáfano, que se dá muito bem com as árvores floridas ao sol ou com as folhas caídas aos ventos outonais...


Talvez seja então oportuno comentarmos os seis versos, algo que os poemas (e os poetas...) lidos em geral à pressa agradecem, tanto mais que a vida amorosa ou mais sentimental do poeta, e que pode ser sempre interpretada na linha dos Fiéis do Amor, amantes da Nossa Dona Santa Sophia e Alma Gémea, continua sempre fugidia, íntima, como que na sombra:
1º verso: «Quantas vezes, de súbito, emudeces!»
Antero introduz-nos numa relação já prolongada ou duradoura, que é entrecortada por momentos repentinos de silêncio, de rapto, de emudecimento, provavelmente provenientes da alma sentir fortemente o amor ou então presentir algo de misterioso ou impressionante. A escolha do emudecer pode não ter sido por mera rimas e remete para um ambiente misterioso, talvez com leve apreensão.
2º:«Não sei que luz em teu olhar flutua.»
Antero alerta-nos para a dimensão luminosa do olhar, como cada olhar irradia uma certa luz conforme o estado anímico e mental da pessoa. Não nos diz que a luz sai dos olhos, ao modo dos raios que outrora se consideravam tanto bençãos como maus olhados, mas mais modesta e candidamente confessa a sua dúvida quanto à linguagem ou mensagem que os olhos exprimem nesses momentos: Como se pensasse: «Além das várias luzes em que eu consigo ver ou adivinhar o sentido, pensamento ou intencionalidade nelas, outras há que me escapam e é o caso desta que flutua no teu olhar, e que nos faz flutuar ou pairar nela».
Há aqui uma atmosfera de subtil levitação por uma intuição misteriosa, muda, indefinível, indizível oumística.
3º:«Sinto-te tremer a mão e empalideces.»
Talvez na linha de Edgar Allan Poe, Antero parece afunilar o estado psíquico dos dois, ainda em suspense, para uma entrada maior do inconsciente em acção, involuntáriamente, ao registar a tremura corporal e o embranquecimento da face da amada.
Certamente que este tremer da mão tanto pode ser um frémito de desejo, como uma maior corrente vibratória passando pelas mãos dos dois, algo que ainda não se nos tinha desvendado neste momento de maior intimidade e unidade entre os dois amantes ou namorados. Mas também pode ser de receio, já que a ele se junta o fenómeno do empalidecer e não tanto o amoroso ruborescer, embora a brancura pela sacralidade do sentimento vivido poder acontecer.
Ora num poeta que sondou tanto a Morte, que a considerou tantas vezes a sua amiga libertadora, estas linhas podem levar-nos a pensar que o poeta já sentia a figura da Morte, que tantas vezes imaginou e poetisou, como que sobre o par, sobre a amada, influenciando até esta, como que querendo roubar Antero à simples relação humana, mesmo que a Amada, pois estaria mais reservado para o Divino, as Ideias e Ideais, e no caso particularmente, a Morte libertadora mas do Amor terreno ceifadora
Este estremecer e empalidecer é certamente o momento determinante do 1º acto do poema: um sentimento ou intuição subtil, misterioso, insondável somatiza-se, causa um estremecimento, em si mesmo ambivalente (tanto mais que até desejado, como sinal de sensibilidade amorosa em alguns contos tradicionais), e um fragilizante ou mesmo dramático empalidecer. Como será que Antero vai avançar, que linhas subtis moverão a sua pena (e assim era na altura...) de escritor, de inspirado, de filósofo, de vate?


4º: «O vento e o mar murmuram orações».
Subitamente Antero cosmiciza o ambiente e a relação e embora muito subtilmente, pois apenas murmuram, o vento e o mar tornam-se presentes e fazem com que pensemos ou imaginemos como e onde estarão Antero e a Amada. Muito provavelemnte junto ao mar. A andar ou sentados, de pé e, parados, contemplando as longuras e horizontes, ou mesmo recostados a algum penedo das costas de Vila do Conde, ou quem sabe mesmo deitados?
Impossível sabermos mas o que se torna evidente é a qualidade profunda e amorosa que sentem intensificada por essa subtil capacidade tão querida de Antero e que é a Voz da Consciência, cuja audição ele tanto praticava e recomendava aos seus amigos.
Aqui ela surge na sua contraparte da Voz do Silêncio da Natureza, que murmura no vento e no mar. Terá o açoriano Antero do Quental em jovem alguma vez pegado numa concha e tentado ouvir nas reverberações tão geometricamente perfeitas do enrolamento em espiral, segundo o número de ouro e a progressão de Fibonaci, o som do Mar? E que orações se lhe afeiçoaram nas hélices da sua alma e nos tímpanos da sua memória que agora, de mão dada com a amada, ao de cima vieram? Que campo psico-morfico poderoso criavam os dois que trazia até si ou dialogava mesmo com as falas secretas dos elementos da Natureza?
Que orações, que vozes, que clamores, intuía Antero, com a amada, ou graças a ela, ou impulsionando tal nela, no vento e no mar?
Diriam baixinho que o amor deles seria feliz, ou apenas exprimiam o drama do amor e da separação, vozes impessoais mas fecundantes das grandes correntes cósmicas que atravessam o planeta e a Humanidade, ou ainda seriam louvores gratos dos espíritos da Natureza nos cinco elementos presentes à Divindade pelo Amor infinito?
Que orações seriam essas, perguntaremos nós, a Antero? Que orações acompanhavam o seu empalidecer, Amada? Seriam apenas sons de vogais, realçadas com o h da aspiração ou prolongadas com a nasalização? Seriam mantras orientais que a uma ocidental pátria lusitana chegavam como que vindos do longínquo Ganges e do Oceano Índico onde, como cantara o outro grande vate nacional Luís de Camões, os Portugueses teriam ido «abrindo o mar profundo, em busca da grã-corrente»? Ou seria a fala amorosa das brisas perfumadas, tão cantadas na literatura Persa, e que Antero conhecera, e em especial pelos poetas místicos Rumi, Hafiz, Saadi, Attar?
A este fundo cosmicizante, Antero acrescenta no verso seguinte a humildade da terra, o conúbio do céu e da terra, e a capacidade de eles dois estarem abertos às imagens e mensagens das coisas, como nos diz a palavra poesia, poesis em grego, que significa ver, contemplar, ou a palavra sanscrita rishi, poeta vidente:
5º: «E a poesia das coisas se insinua»
Poesia que é assim voz, palavra, verbo, pensamento, essência e que as almas mais sensíveis ou mais em amor conseguem receber, acolher, sentir.
Estamos numa teofania amorosa, em que a própria voz do universo, das infinitas coisas nascidas e criadas vem participar na comunhão de duas almas que se tornam um cálice para a Unidade.
Antero então dá o mote final, como que a tenção deste belo poema emblemático:
6º: «Lenta e amorosa nas nossas almas.»
Orfeu, os vates da Grécia e os rishis da Índia antiga, tão panteístas, estão presentes, pois é uma combinação da luz flutuante, do vento e do mar murmurante e das coisas falantes que banhadas no Amor Divino, lenta e amorosamente vão penetrando na alma, no par, numa Unidade.
Poderíamos pensar até que é o vento do espírito e o mar da alma que fecundam as coisas, seja do reino mineral seja da arte e indústria humana, que são essas cintilações da luz unificadora dos campos das palavras e ideias arquétipas que estão por dentro e por detrás de tudo que, vibrando mais pela convergência de dois seres no nome de Deus ou Amor e que o tornam presente, fazem manifestar-se a Omnipresença do Logos ou Sabedoria-Amor divinos.
Antero e a Amada, neste momento único, icchi go icchi e, como diz a Tradição Espiritual Japonesa, provavelmente fundiram-se num abraço ou num beijo, ou no que seja, cosmica e amorosamente, divinamente.
Restará dizer, para assentarmos os corpo e almas que este poema de Antero do Quental está inscrito num banco de pedra, que não o de madeira da Mors, vencendo o Amor da vida, de S. Miguel, onde por vezes alguns namorados (anterianos ou não...) querendo sentir e acolher mais a graça do inflúvio da Alma do Mundo e do Amor, que não ainda da Morte, se sentam, dialogam, meditam e depois de mãos dados, em abraço ou beijo, lenta e amorosamente comungam com o Amor Divino, de tais actos se evolando belas energias e imagens para Antero e para a Alma de Portugal e do Mundo...

Sentemo-nos, assentemos, amemos na Poesis...


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Raul Proença e Antero, a Liberdade e a Verdade...




«Se esta espada que empunho é coruscante,
É porque ela é a espada da verdade».
Raul Proença e Antero de Quental. E com um acrescento pessoano...
Quem se assumiu como amigo de Antero do Quental, valorizando a sua obra e pensamento, foi um pensador e doutrinador político, um dos fundadores (com Jaime Cortesão e Luís da Câmara Reys) em 1921 do movimento cívico e democrático da revista Seara Nova, Raúl Proença (Caldas da Rainha, 1884-1941), que dirigiu ainda a Biblioteca Nacional, e escreveu e coordenou o pioneiro Guia de Portugal, em 16 volumes, na parte final já por Sant' Anna Dionísio, que ainda conheci bem.
Os fundadores e colaboradores da Seara Nova. a partir da esquerda,  em  pé: Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reys; sentados: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão.

Dos mais esclarecidos pensadores republicanos Raul Proença escreve talvez a primeira e mais ardente defesa da Liberdade, que face ao golpe militar de 1926 se encontrava ameaçada, situação que viria a durar de um modo ou doutro até 1974.
A capa ilustrada da obra Panfletos I A Ditadura Militar que apresentamos está subordinada ou inspirada (por vezes dois sinónimos...), a uma frase transcrita de Antero:
                "Se esta espada que empunho é coruscante,
                 É porque ela é a espada da verdade»

Corajosamente escrita no calor do rescaldo da revolução do 28 de Maio de 1926, ela denuncia o que se está a passar e desfere ataques muito clarividentes à ditadura militar instaurada, considerando-a um crime ("um verdadeiro acto de alta traição") e denunciando a caterva de corruptos que abancava já mediocremente com o general Carmona, asperamente acusado fustigado com os ministros Sinel de Cordes, João de Almeida, João Belo, Manuel Rodrigues Júnior, Felisberto Alves Pedrosa, Jaime Afreixo, Ribeiro Castanho, Betencort Rodrigues, Ricardo Jorge, Abílio Valdez de Paços e Sousa, e fora destes Cunha Leal.
A obra é ainda hoje actual, com todo o seu sabor panfletário, tanto porque os grupos de pressão financeiros continuam a influenciar senão mesmo a corromper os políticos e seus partidos em Portugal como pelo facto de Raul Proença escrever numa linguagem poderosa, ousada, ardente na demanda de liberdade e de verdade. Não admira que edição de autor, feita sem a aprovação da recém-nascida Censura, tenha sido rapidamente proscrita e Raul Proença perseguido.
Instaurada a censura, sente ao escrever este panfleto que será certamente o último e, após ter elogiado o estilo panfletário, exara este comentário a tal medida: «Dir-se ia antes um acto praticado com longínqua e consciente premeditação, pelo ministro da Injustiça e dos Incultos. Nos tratados de história literário do futuro vai dizer-se: " O Panfleto durou até o ano de 1926, em que o extinguiu o ministro da Justiça Manuel Rodrigues Junior, indivíduo profundamente bacharel que de Coimbra tinha trazido o ódio a toda a frescura da vida e a toda a afirmação duma personalidade vigorosa...»
Passando em revisão os outros ministérios anota quanto ao de Educação, onde assistimos ainda neste século XXI a algumas ministras e ministros que foram destruindo as condições necessárias a uma boa qualidade do ensino público «que o ministro da Instrução fez uma reforma inverosimil de tacanhez, de preconceitos intelectuais, de teorismos esquemáticos, de fumisteries livrescas, como uma pessoa que nunca teve o menor contacto com as realidades e cujo cérebro vive de ecos, sombras, reflexos, fogos fátuos, incapaz de pareender alguma coisa nitidamente e com largueza. António Sérgio, com razão, chamou-lhe um bárbaro retrocesso.»
Passando a Sinel Cordes, escreve desassombradamente Raul Proença: «O ministro das Finanças, tantas vezes citado anteriormente como o homem mais inteligente de todo o Exército, não revelou ainda em matéria financeira uma orientação precisa. Vagueia, flutua como uma bóia no encapelar das ondas...
Mais à frente, e de novo criticando o que ainda hoje se tem feito tantas vezes
diz: «Sob o ponto de vista dos contratos e dos auxílios financeiros, pode-se dizer que a acção do Governo tem consistido em uma política de ruína do Estado em benefício exclusivo das empresas particulares, e como que numa criminosa transferência de fundos. À Companhia Nacional de Navegação, por exemplo, venderam-se os navios alemães [não foram submarinos...], como se poderiam ter vendido a mim ou ao leitor; é certo que é a Companhia quem paga, mas é o Estado quem adianta o dinheiro»...
A lição de mestre que Raul Proença nos oferece neste panfleto é para durar sempre: «Mas há quem pense que não vale a pena combater este governo, por isso que ainda vivemos em República [hoje dir-se-ia Democracia...)
Que ironia! República! Que ironia, ou que imbecilidade!
Os que assim pensam ou julgam pensar têm mais amor às palavras do que aos factos, às cores da bandeira dum regimen que à sua própria essência (...)
Mas a República não é uma palavra. É um ideia, um conjunto de princípios, de aspirações e de realidades. Por uma palavra, pelas cores de uma bandeira, não valeria a pena combater e morrer. Só vale a pena combater e morrer por bens morais iniludíveis. Ora a República sem a liberdade é a casca seca sem o fruto suculento, a palavra sem o faco - e no fundo uma mentira (...)
A república do sr. Castanho, do sr. Carmona, do sr. Rodrigues, do sr. Sínel, do sr. Afreixo é infinitamente menos republicana que a monarquia do sr. D. Manuel. É-o na essência das coisas, que importa mais que as palavras...»
Diagnosticando os males essenciais dos portugueses Raul Proença, assinala alguns que permanecem, tais como «a incapacidade de todo o esforço seguido, de exercermos a atenção por muitas horas, de fazermos qualquer coisa com continuidade (...), o culto passivo do passado, tão inteiramente estéril, que nas nossas datas gloriosas buscamos apenas o pretexto dum feriado, e não achamos maneira de comemorar o trabalho alheio senão com a ociosidade própria (...), com a falta de energia e de resistência física, a incapacidade de protesto, que é uma das maiores calamidades e das mais anti-sociais, da nossa psicologia colectiva. Suportamos todos os abusos, todos os vexames, todas as violências, todas as extorsões com uma paciência, que não é a da resignação evangélica, mas a do burro lazarento a quem não importa já a morte, contanto que o não forcem a mexer-se e que não o massem. Este povo perdeu a energia, a responsabilidade, a decisão, o civismo do Coice. Não vale escoicear: é uma maçada, deixem-nos dormir...»
Será na apreciação literária que referirá mais Antero: «uma literatura caracterizada pela falta de virilidade no pensamento e na expressão, e pela ausência de verdadeira emoção intelectual, quando não às vezes por um perturbante psitacismo. Nos nossos romances não há conflitos nem personagens, nos nossos contos acção ou interesse dramático, nos nossos poemas um frémito sequer dos eternos problemas do Espírito ou a alegoria superior dum Símbolo. O único nome verdadeiramente grande que apontamos no romance é Eça de Queirós; e o único poeta-filósofo de que possamos jactar-nos Antero de Quental. A poesia de Junqueiro, longe de ser uma excepção, é uma confirmação à regra, porque a sua lira, monocórdica sob o ponto de vista conceptual, não encontrou outra fonte de emoção para além do estafado tema da eterna evolução dos seres. Nenhuma outro problema do Universo ou da Consciência preocupou o nosso poeta: comparem com Prudhome, com Vigny, com Antero... Além disso, Junqueiro nunca pensa intelectualmente, se assim nos podemos exprimir, sobrepondo-se nele a visualidade da Imagem às verdadeiras leis do pnesamento. O pensador que pretende ser é constantemente ludibriado pelo puro artista, pelo fazedor de imagens e de analogias e contrastes inteiramente superficiais, que de facto é; quando ao contrário, no pensador poeta, a Imagem não é a substituição do pensamento, mas o seu intérprete...», o caso de Antero de Quental, diremos ao finalizar...
Ressalve-se ainda que na pág. nº 79 e nas duas últimas linhas Raul Proença assinala corajosamente em letras maiores: «Este panfleto não foi visado pela Comissão de Censura».

II-

Talvez valha ainda acrescentar a transcrição, desta obra de sempre últil leitura, de um dos parágrafos das Perspectivas Futuras onde apelará à revolução interior, depois de pedir «à Revolução que ela me reconheça, e reconheça a todos os Portugueses espiritualmente válidos, o direito de exercer uma influência inteiramente eficaz sobre a nossa própria terra - de espalhar pela vasta seara a nossa semente - de sermos os criadores dum novo estado de espírito e de uma nova alma colectiva. Para isto é-nos absolutamente necessária a liberdade, de que os Rodrigues [Manuel Rodrigues Juniortola e mussolinicamente chasqueiam nas suas notas oficiosas. É ela, verdadeiramente, a condição sine qua non do nosso ressurgimento ...» Raul Proença que «ao contrário dos que pedem o Homem forte na Política, eu peço o Homem forte, os Homens [e Mulheres] fortes na Acção espiritual. Porque o Homem forte na política impõe a sua vontade opressiva; e o Homem forte na acção espiritual convence da sua doutrina libertadora. O político, em boa verdade, - nunca vos disseram isto, mas é assim mesmo, - não deve ser um «criador», mas um «executor». São os intelectuais de «acção», de «acção forte», concebidos segundo o tipo de Mussolini, mas sem os seus erros, as suas loucuras, a sua falta de visão filosófica, a sua criminalidade, o seu ódio à Democracia, que darão a esta a sua expansão formidável, a sua profundidade, o seu desabrochamento apolíneo, a sua força e o seu explendor. Confio no belo dia de amanhã, tão cheio de promessas - no dia em que nós, os homens [e mulheres] de pensamento, tenhamos mais poder sobre as almas que os homens dos conchavos eleitorais e das tricas financeiras. Será esse o triunfo da Democracia, o triunfo que Mussolini queria impedir, o que ele só tornará mais esplenderoso e mais vivo».
E entra então na transmissão da sua visão original, na Tradição Espiritual Portuguesa, e bem intensa da revolução de consciência que se exige:
«Mas para isso é necessário fazermos também a nossa própria revolução interior. É preciso pôr a beleza ( a beleza da vida que se oferece, que se multiplica, que fecunda e realiza) não só fora do nosso ser, nas nossas estátuas, nas nossas sinfonias, nos nossos poemas, mas também dentro de nós mesmos. É preciso que concebamos a vida como um dom constante da nossa alma. Darmo-lo até em sangue, até ficar dilacerada e partida, no fundo sempre mais bela e maior. [Valiosa esta visão do crescimento-aperfeiçoamento-embelezamento da alma, pelas mortes sacrificiais e posteriores renascimentos, expandidos consciencialmente..]. Devemos ser excubitores, despertadores e animadores, dar Alegria à nossa terra [Leonardo Coimbra acabara de escrever na mesma linha, com o seu belo livro Da Alegria, do Amor e da Graça], matar o cepticismo, pôr termo a esta apagada e vil tristeza. Todas as revoluções com que nos temos "heroicizado" são feitas no Charco, na vasa do pântano que se agita e que, quanto muito, só liberta miasmas. Há que transformar o Charco, há que criar, antes de mais nada, como no Genesis, o Movimento e a Luz...»

As últimas linhas da obra Panfletos, I - A Ditadura Militar falam de novo da grande Alma Portuguesa ou da Tradição Espiritual Portuguesa e são algo visionárias, pois perante a ameaça da opressão visiona o desfile dos traídos, no qual vêm os que morreram para que a República e a Liberdade desabrochassem « e depois vem o imenso tropel dos Vivos - dos Vivos que verdadeiramente querem viver - vida humana, a vida nobre, a vida do espírito - todos esses fragmentos de Esperança disseminados pelo grande corpo de Portugal, que esperam o momento de se ligar, de se unir, de reconstituir o feixe partido.
Passam - e não sou eu, mas todos eles, que falam pela minha boca, que pedem o castigo deste enorme crime, o eclipse desta funda vergonha, o resgaste deste opróbio, a vitória da sua fé. Passam - e é o proprio futuro de Portugal que passa, com os olhos banhados já na claridade ténue da ante-manhã...»
A este desfile dos traidos se juntará Fernando Pessoa, que depois de em 1928 ter escrito um folheto o Interregno apoiando a Ditadura Militar foi abrindo os olhos do discernimento, e escrevendo desde 1932 um contra-folheto intitulado O Interregno e as suas Consequências (que permanceceu incompleto e na época inédito) e que culminou em 30 de Outubro de 1935, conforme a carta a Adolfo Casais Monteiro com essa data e na qual lhe anuncia a sua inibição «de dar colaboração para a Presença, ou para qualquer outra publicação aqui do país, ou de publicar qualquer livro», visto que «desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado da Propaganda Nacional [à qual Fernando Pessoa apesar de premiado com a Mensagem recusou-se a comparecer], ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, «não se pode dizer isto ou aquilo», pela regra soviética do Poder, «tem que se dizer isto ou aquilo». Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Esatdo Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado ás directrizes traçadas pelo orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer...»
Será dentro deste ambiente que a parte final da Mensagem será escrita e não podermos deixar de pensar que Fernando Pessoa tenha lido o folheto de Raul Proença e glosado as suas linhas finais da claridade do ante-manhã e da esperança nos irmãos ou fratres et sorores nos últimos dois poemas da Mensagem:

«ANTEMANHÃ

O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia,
Do novo dia sem acabar;
E disse, “Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo,
Nem o Terceiro quere desvendar?”
E o som na treva de elle rodar
Faz mau o somno, triste o sonhar,
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar –
Chamar Aquelle que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.

8-7-1933.

NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

10-12-1928.
Valete, Fratres.»


Meditemos e actuemos então amorosa e luminosamente em comunhão com a Tradição Espiritual Portuguesa, donde as almas de Antero do Quental, Raul Proença e Fernando Pessoa nos procuram inspirar e impulsionar para o Bem da Humanidade...






sábado, 2 de julho de 2016

O Espírito Santo na Arte, na Rainha Santa e em nós". Espaço Artes, Porto. 22-6-2016


                   Vera efígie da jovem rainha Isabel, qual ícone ou mandala, com uma auréola de irradiação espiritual muito bela e inspiradora...
Do Sol Divino brota o Espírito Santo do Amor
Imagens e o vídeo da primeira parte da palestra realizada no Espaço Artes, no Porto, a convite da sua fundadora e directora Madalena Leal, no dia 22 de Junho sob o tema "O "Espírito Santo na Arte, na Rainha e em nós". Aflorei o mistério do Espírito Santo na sua génese cristã, e como foi passando de energia ou força de Deus para uma Pessoa, com dificuldades na sua definição e dogmatização. Referi e apresentei algumas imagens da sua representação artística em determinados momentos chaves da vida de Jesus e dos seus discípulos. Passei depois para a Rainha Santa, e a sua família aragonesa, e D. Dinis, mostrando algumas imagens dela e das relíquias suas, recentemente expostas no Museu de Arte Antiga de Lisboa, e do culto que ela recebeu ao longo dos tempos,  culminado em 2016 nestes quinhentos anos da sua beatificação.

Da vera efígie da Rainha Santa Isabel no seu túmulo primitivo gótico em Santa Clara a Velha.

Do Anjo ou Arcanjo de Guarda ou Companhia da Rainha Santa,
levando-a lavada ou no regaço para os níveis espirituais

Em 1612 o bispo de Coimbra D. Afonso de Castelo Branco (grande devoto de Isabel) faz construir um túmulo relicário de vidro e de prata, para capela especial em Santa Clara a Velha, mas a morte dele em 1615 impede a sua utilização e será só com a translação em 1677 para o novo convento que passará a a albergar o corpo santo, onde ainda hoje se pode contemplar e cultuar no altar-mór da Igreja..
Falámos ainda das relações que houve com as ideias de Joaquim de Fiora e de Arnaldo de Vilanova, e como o culto do Espírito Santo se foi desenvolvendo em Portugal, até chegar aos nossos dias, bem vivo em especial nos Açores e bem teorizado por Agostinho da Silva, que bem conhecemos e a quem saudamos. Transmiti ainda alguns ensinamentos esotéricos da Tradição Espiritual Portuguesa ligados com a essência da conversa convergente, graalica.

"Onde dois ou três re reunem no meu nome, consciência ou vibração, Eu estou presente"
Ficaram alguns registos em vídeo do breve improviso, estando os três primeiros e principais já no youtube, canal Pedro Teixeira da Mota, partilhando-se no fim a ligação deles.

Estiveram presentes a antiga directora do liceu Rainha Santa, a prof. Aurora, que foi homenageada pela organizadora deste evento a prof. Madalena Leal, e outras  professoras do Rainha Santa.
A ilustre assistência, ainda antes de começar a comemoração e invocação do Espírito e de Isabel...

Brilha sempre em nós, Ó Espírito, Ó Amor....
https://youtu.be/U2IUIB8WiW0
https://youtu.be/2kZ8UPCL48Y
https://youtu.be/Lnhbnz-eirk
Uma pequena placa em bronze foi-me oferecida pela professor e pintora Madelena Leal, associada nesta imagem à Rainha Santa e à Ordem Espiritual de Portugal, aos cristais de Quartzo do Gerez e ao Alecrim aos molhos nosso.