sábado, 14 de maio de 2016

Antero, visto por Rebelo de Bettencourt, colaborador do "Portugal Futurista"

                                                

Natural de Ponta Delgada, José Rebelo de Bettencourt (30-VIII-1894 a 4-IX-1969) abandonou os seus estudos universitários em Lisboa (onde se tornara amigo do seu professor e também micaelense Teófilo de Braga, como narra nestas crónicas) para se dedicar à literatura, à poesia, à tradução e revisão e ao jornalismo, tendo trabalhado em vários periódicos, tanto no Continente como nos Açores, sendo estas Crónicas, além da sua obra poética, a sua mais significativa obra, ao testemunhar o início do Modernismo em Portugal. 
                                   
Destaque para os textos sobre os açorianos Antero de Quental, aqui bastante incompreendido na sua realização espiritual, e Teófilo Braga, muito valorizado pela sua bondade e lirismo. E, certamente, para os testemunhos sobre a Geração de Orfeu, ou os Rapazes do Martinho, com textos quase nunca lidos e citados mas com indicações valiosas sobretudo acerca de Santa Rita Pintor, Almada Negreiros e Pessoa. O capítulo acerca de Fernando Pessoa é muito profético pois patenteia algumas intuições certeiras e em 1924 já escreve assim: «Esparsa e fragmentária é a sua obra, quase esquecida no Orfeu, no Portugal Futurista, no Centauro e na Atena, mas o seu espírito original e criador, a subtileza do seu pensamento, não hão-de morrer tão cedo, antes estarão sempre, como amparo e guia, ao lado de todos quantos, sentindo na sua inteligência a necessidade quase física de ser uma outra coisa, mais completa e perfeita, nele hão-de sentir o precursor dum grande movimento e a origem de uma nova vida.» 
                                    
Uma imagem de José Rebelo de Bettencourt (1894-1969) já no fim da sua vida terrena, ele que fora um jovem açoreano admirador e discípulo do Futurismo e do Modernismo, amigo de Santa Rita Pintor, de Almada Negreiros e Fernando Pessoa, colaborador na revista famosa e revolucionária Portugal Futurista. 
                              
                       Carimbo de mais uma livraria, a Livraria Almeida, à calçada da Estrela, que deixou de                     existir no plano físico e da qual eu muito jovem, quando ela fechou, comprei muitos                              livros, entre os quais o do Rebelo de Bettencourt, graças ao seu antig   o dono... Lux... 
                                                    
O texto sobre Antero tem algumas limitações, pois Rebelo Bettencourt era muito jovem e estava incapaz de compreender (também por insuficientes leituras) a profundidade da demanda e das realizações psico-espirituais de Antero, mesmo tendo este cometido (samuraicamente) suicídio. Por exemplo, Antero não teria sabido «encontrar na vida o seu rumo próprio». Não, ele soube fazer o seu difícil caminho, com o seu rumo próprio de busca da Verdade, da coerência e da dignidade...
Onde diz bem, embora ainda semi-conscientemente é: «interpretou também o drama de todas conciências em crise», pois toda a gente tem sempre a sua consciência numa certa crise, de escolhas, de decisões, de aspirações e não apenas os que não encontraram na vida o seu rumo próprio, como ele acrescenta... Por isso, Eduardo Lourenço me dizia há tempos, em diálogo anteriano, que o seu suicídio era também, ou sobretudo, o de uma geração no que ela não se conseguira realizar plenamente, ou pelas contradições que não tinha conseguido fazer desaparecer ou esbater. 
                               
O texto está comentado nas margens e quem tiver dúvidas, por favor, pergunte-me... Aqui, por exemplo, erra ao dizer que Antero buscava e desejava só a felicidade terrena. Ou que Deus é o repouso e refúgio das almas intranquilas como ele. Antero alcançou uma compreensão do Espírito muito valiosa e apenas falhou porque na altura não conseguiu, apesar de se ter desprendido das concepções religiosas de Deus judaico-cristãs (a que Bettencourt parece quer agarrá-lo...), alcançar interior e subtilmente ligações com a Divindade e o Espírito mais fortes e harmonizadoras... 
                                
Esta página tem ideias bem interessantes de se desenvolverem criticamente em várias páginas, das quais destacarei «o crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra conhecida», autobiográfico de Antero, mas que nos parece reflectir um idealismo infantil, fatalmente estilhaçável com o seu crescimento psíquico, como sucedeu, mas não para que a tranquilidade do coração rolasse para um abismo, como Bettencourt imagina...
Certamente seria um bom discernimento compararmos a geografia dos abismos das fés e das religiões nas mentes das almas portuguesas, e não só, e naqueles tempos, nos de Bettencourt e nos nossos...
Esta geografia interna das profundidades, muito trabalhada prometaica e fausticamente por Antero e seu discípulo (e depois mestre...) Fernando Pessoa tem sempre bastante de mistério para nos impulsionar às altitudes que as complementam, e que ambos não conseguiram tanto como desejariam.
Quanto a chamar de superstições à Liberdade, Igualdade, Razão e Justiça nem vale a pena comentar pois é mais que evidente que se tratam de atributos Divinos, ideias forças, psico-morfismos e que são personificados poética, revolucionária e arquetipicamente... 
                                
Fazer a analogia dos poemas com factos autobiográficos íntimos é um exercício de interpretação simbólica muito exigente e José Rebelo de Bettencourt talvez não estivesse tão preparado. Por exemplo, pensar que uma hora houve em que ele viu serem loucos os seus ideais e que mais valia ter caminhado com ódio, raiva e dor do que os ter sonhado. Ou que Antero era escravo de si mesmo e só raramente se interrogava intimamente e analisava, ele um dos mais exigentes pesquisadores da Voz da Consciência e da qual dá tantas vezes testemunho na sua correspondência, nomeadamente nas cartas a Fernando Leal, tal como já escrevi num texto dedicado a este. 
                                  
Seria Deus o remédio de todos os seus males, ou a Divindade foi antes bastante intuída por Antero e a sua morte tem a ver bastante mais com o desgaste do seu corpo, do seu cérebro e da sua inserção social e auto-imagem? 
                                   
As conclusões de José Rebelo de Bettencourt, que transparecem o seu catolicismo normal, não parecem muito acertadas: «Alma religiosa, afastou-se da fé - e foi a sua dúvida que lhe deu aquela dolorosa inquietação de alma e o levou à morte»... Antero, mais que um homem de fé, foi um gnóstico e a inquietação, o dessassosego depois muito desenvolvido por Pessoa, não a levou à morte por razões de falta de fé. Antes pelo contrário, talvez até porque a tivesse demais, ou não fosse ele suicidar-se num banco provavelmente pintado de verde debaixo de uma âncora com a palavra Esperança..
                           
Já a citação de Eça de Queirós, o qual, tal como Oliveira Martins, não estava de modo algum à altura espiritual de Antero, corresponde a uma ideia feita simpática, ou seja, a um branqueamento excessivo do acto, pois que à hora da desencarnação a cor da alma de Antero não seria a mesma com que começara a sua vida em S. Miguel... 
Como se não tivesse havido todo um talhar de um corpo psico-espiritual, com claridades e sombras, certamente estas de algum modo contribuindo para a decisão, venha ela de que níveis ou plenitude de si mesmo, que o fez partir voluntariamente para as dimensões mais subtis da existência onde continua a sua peregrinação...
Muita luz e amor para Antero de Quental e para José Rebelo de Bettencourt. 
                                     
Em 1942, Rebelo de Bettencourt participa nas homenagens do centenário do nascimento de Antero (18/4/1842) publicando este livrinho de 78 páginas intitulado O Verdadeiro Antero no qual já consegue compreender melhor a sua vida e evolução (sobretudo porque tanto amadureceu como leu e aduz a importantíssima correspondência) considerando-o não um ateu, pessimista ou panteísta mas um espiritualista. Noutro artigo neste blogue faremos uma aproximação histórico-espiritual a esta obra de José Rebelo de Bettencourt.
(Nota final: A imagem incluída neste texto do banco e âncora da Esperança, na ilha de S. Miguel, de onde Antero partiu em 1891, chegou-me com a adesão da Olga Silva ao grupo Antero de Quental, escritor, e à qual agradeço. 

2 comentários:

Ana Lopes disse...

que posso dizer ... foi com agrado que li e fiquei maravilhada.

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças, Ana, por tão bela apreciação. E peço muitas desculpas de só agora ter começado a conseguir responder aos comentários... Votos de muitas inspirações e criativas realizações!