quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Marsilio Ficino e o "De Vita"...


Marsílio Ficino (1433-1499), no livro Da Vida dirigido ao magnânimo Lourenço de Medicis, conservador da Pátria. 
Pequeno esboço de tradução (a partir do texto latino e confrontando com a tradução inglesa) de algumas partes do proémio e do livro, uma das primeiras obras de medicina e psicologia esotérica, em especial para os melancólicos e intelectuais, gerada no ambiente aberto do Humanismo florentino, tendo sido finalizado em 1480 e tido a primeira impressão ou editio princeps em Florença, em 1489.
A obra Da Tríplice Vida contêm três tratados, e o proémio vem antes do primeiro, intitulado Da Vida (De Vita). o 2ª é o Da Vida Longa (De Vita Longa) e o 3º Da Vida dos Céus captada (De Vita Coelitus Comparanda), o que se pode traduzir também por Da Obtenção da vida dos Céus). Este terceiro, composto quando traduzia a obra completa de Plotino pela primeira vez do grego para latim,  é o mais valioso e substancial em termos psico-espirituais, com muitas páginas consagradas aos planetas, esferas e seres celestiais, e aos seus influxos transformadores em nós, na natureza e nas imagens e objectos.  
Embora muitas páginas se possam considerar imaginativas, e outras dependerem muito da aceitação dos pressupostos astrológicos, há contudo bastante informação merecedora de leitura e meditação, sendo tanto prática (destacando-se os conselhos com ervas medicinais) como sobretudo simbólica e espiritual, pois Ficino era um notável conhecedor da sabedoria perene antiga, e traduzira e comentara as obras completas de Platão, Plotino e do pseudo Dionísio Areopagita, tendo ainda publicado a famosa Teologia Platónica da Imortalidade das Almas, onde prova que não há só um intelecto para todos os seres e que a imortalidade é individualizada.
Frontispício da editio princeps do De triplici vita 1489, um incunábulo portanto.
 Proémio: «Os poetas cantam que Baco, o sumo mestre e sacerdote, nasceu duas vezes. Provavelmente querem significar que de facto o futuro sacerdote, ao ser iniciado, deve renascer. Ou que ele mais tarde se vê  renascido quando a sua mente se tiver inebriado completamente em Deus. Ou talvez eles queiram dizer, num sentido menos exaltante, que o vinho, a semente de Baco, nasce na vinha, Semele [sua mãe], quando os seus galhos amadurecem sob Phoebo (o sol), e regenera-se depois da vindima pelo raio fermentante como o puro vinho no seu vaso, tal como na coxa de Jupíter [seu pai, onde passou a gravidez]. Mas dos Mistérios sagrados não devemos agora falar quando temos a intenção de fortificar, por meios físicos, os que estão debilitados.
Isto não deve ser feito de uma modo pesado e sério mas livre e alegre, uma vez que de um modo ou outro começamos pelo pai Liber (Baco). E verdadeiramente falei "de um modo ou outro", pois para alguns talvez a medicina seja realizada mais prudentemente sob Apolo, o primeiro dos médicos, mais do que através de Baco. Mas o que podemos fazer se ocorre na nossa boca agora um sinal auspicioso de proferir [o nome de] Baco?
De facto Baco cura talvez mais saudavelmente com algum vinho de qualidade e alegria do que Febo (Apolo) consegue com as suas ervas e litânias.
Mas qualquer que seja o verdadeiro sentido ou aquele que aceites diz-se que aquele líder dos sacerdotes, Baco, teve de certo modo duas mães. Já Melkitsedek, aquele sumo sacerdote, teve com dificuldade uma só mãe ou relutantemente um só pai. Eu, o menor dos sacerdotes, tive dois pais: o médico Ficino e Cosme de Medicis. Daquele nasci e deste renasci. Aquele recomendou-me a Galeno como médico e como platónico. Este consagrou-me ao divino Platão.»
No capítulo XVIII, por exemplo, intitulado "Que figuras dos céus os antigos imprimiam em imagens, e do uso das imagens" às habituais imagens atribuídas às constelações, acrescenta não só o círculo ou a cruz, esta intensificada na sua eficácia energético-espiritual ao ser usada com o nome de Jesus, mas também as figuras dos planetas, tal como para Saturno, um homem idoso sentado vestido de escuro sobre um trono alto, ou um dragão. Ou para Júpiter um homem coroado, com vestido amarelado sobre o trono alto ou o dragão. Para o Sol, o ser coroado no trono deveria ter o corvo e a face do sol, para Marte, já seria um ser armado. 
Além das imagens, as horas e as posições astrológicas, nos graus e casas, contam muito na eficácia dos influxos celestiais, embora Ficino se mantenha sempre cauteloso e seguidor das decisões de S. Tomás Aquino e diga que são os astrólogos que afirmam a sua eficácia, citando Plotomeu mas também Al-Ṣābiʾ Thābit ibn Qurra al-Ḥarrānī ‎( 826-901), astrólogo e matemático de Bagdade, embora depois lembre que S. Alberto Magno e  Pedro Abiano confirmam tais influências nos seres e nos objectos.  Assim, sem dúvida, quem gostar de astrologia encontrará nesta obra muitas indicações que poderá ensaiar. 
Os últimos capítulos do tratado patenteiam uma constante admissão da existência de influxos energéticos que podem ser captados pelos materiais e imagens consagrados mas também e sobretudo pelo espírito do operador,  dependendo tal da sua fé e aspiração.
A hierarquia ou escada de ligação entre o alto e o baixo é assim descrita por Marsílio Ficino: em 1º lugar os metais e e pedras são o nível mais baixo e estão relacionados com a Lua. Em 2º lugar estão as coisas compostas de ervas, árvores de fruto, resinas e membros de animais os quais correspondem a Mercúrio. Em 3º lugar estão os odores ou aromas das ervas e flores e os unguentos feitos deles, correspondendo a Vénus. No 4º nível, as palavras, cantos e sons correspondem ao Sol, a Apolo. No 5º nível, os afectos, imaginações  e movimentos fortes, estão ligados a Marte. No 6º as deliberações e discursos ligados a Júpiter. As actividades mais simples e secretas da inteligência quase já sem movimento e unidas à Divindade, são as que pertencem à esfera e planeta de Saturno, a do repouso ou paz.
Valoriza ainda bastante as palavras pronunciadas com espírito e sentido, que tanto afectam quem as profere como, por efusão, ainda impressionam ou movem os que estão próximos, e que ao imitarem ou invocarem os seres ou energias supraterrenos, com palavras e cantos, podem tanto erguer-nos aos mundos celestiais como fazer descer as suas influências miríficas sobre o nosso espírito. 
Deste modo, quer pelo coração e a imaginação, quer pelos olhos e as palavras, a energia e a intenção musical podem tocar no subtil meio que une o corpo à alma e curar ou harmonizar a pessoa, tanto mais que, como os Pitagóricos e Platónicos defendem ou afirmam, o céu é um espírito dispondo tudo com os seus movimentos e tons. Estamos na famosa teoria da Música das Esferas, acrescentada com algumas advertências que à primeira vista não nos parecem talvez muito curiais, embora saibamos que Ficino tocava e cantava: a de que os planetas Saturno,  Marte e a Lua não estão ligados a música mas a vozes apenas, roucas, rápidas e temperadas, respectivamente.
Já o cap. XXII é dos melhores e aí defende o vegetarianismo da idade de Ouro«É por causa disto que essas pessoas Lunares que Sócrates descreve no Fedon, habitando a superfície da terra que é eminentíssima e mais elevada que as nuvens, vivendo sobriamente, e contentes por serem vegetarianos, dedicados ao estudo da mais secreta sapiência e religião, saboreiam a felicidade de Saturno; e levam uma vida tão próspera quão longa que são tidos não como mortais mas por daimons imortais e que muitos chamam heróis e a raça de Ouro gozando o reino e a idade de Saturno».
Quanto à conclusão do  capítulo XXII é bem valiosa e vale a pena traduzi-la e transcrevê-la: «Finalmente, onde dissemos que os dons dos céus descem a nós entenda-se que os dotes celestiais  vêm até ao nosso corpo pelo nosso espírito solene ou adequadamente preparado, que mesmo antes os seus raios influem no espírito de um modo natural ou por qualquer modo que ele lhes esteja exposto, que os bens dessas almas dos céus brotam  em parte no nosso espírito através de raios e daí derramam-se nos nossos ânimos e em parte vêm das almas deles ou de anjos e chegam às almas dos seres humanos que lhes estão expostos, e expostos não tanto naturalmente mas por certo pacto ou eleição por afecto ou livre arbítrio.
Resumindo, quem quer que por votos, estudo,  vida e hábitos imita as acções beneficientes e a ordem dos seres celestiais, recebe deles mais amplos dons pois eles são considerados quase semelhantes aos seres supernais (divinos). Pelo contrário as pessoas artificiais e dissemelhantes ou discordantes dos seres celestiais são encobertamente miseráveis e por fim não podem evadir-se de uma infelicidade pública». 
                                         Sintonizemos gratos com Marsílio Ficino

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