segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Comemoração dos 80 anos da partida de Fernando Pessoa, 30/11/2015



Parede norte do café Martinho da Arcada...


Em 6/7/1934 termina o poema iniciado pelo «Já me não pesa tanto o vir da morte», com os seguintes versos: «Sei que a morte, que é tudo, não é nada, / E que, de morte em morte, a alma que há/ Não cai num poço: vai por uma estrada. / Em Sua hora, e a nossa, Deus dirá»
Comemoramos hoje, 30/11/2015, cerca das 8 da noite, os 80 anos da desincarnação em Lisboa de Fernando Pessoa, ou seja, 8 vezes ou 8 lemniscatas girou a roda da Fortuna, a década Pitagórica, duas vezes o quadrado ou quaternário que desdobrando-se é uma cruz e é o octógono nas rotundas e céus beatíficos da tradição Templária, tão cultuada por ele, e valorizaremos então a busca, o aprofundamento e a transmissão dos símbolos e compreensões mais conseguidos e luminosos que Fernando Pessoa nos deixou na sua vasta floresta, ora de alheamento e desassossego, ora de procura e de realização ou, como ele escreveu em inglês, "quest and attainment", os dois estágios de um certo progresso no caminho iniciático que ele trilhou, ora movido por uma genialidade inata ora por estudos perseverantes (certamente com meditações, intuições e iluminações) das ciências ocultas, os quais incluiram os mistérios antigos, a poesia sagrada, a astrologia, o espiritismo, a teosofia, a alquimia, o hermetismo, a gnose, a cabala, os mistérios, o tarot, a magia e as vias esotéricas e simbólicas das religiões e dos mitos.
Se isto foi sendo desenvolvido ao longo da sua vida, resta-nos saber, ou fica em aberto, o que poderá ter sido mais útil à sua realização gnóstica, iniciática ou interna e o que foi busca e trabalho não tão directamente produtivo ou perene, sem grande valor, seja para nós seja para ele quando entrou no além, há 80 anos, momento este tão importante pois, tal como Antero de Quental, também ele afirmara e intuíra, segundo a Tradição Grega: "Morrer é ser iniciado".
A par (ou mesmo acima, e este é outro factor ou ideia-força importante a pesarmos) desta busca espiritual esteve sempre a escrita, a poesia, a obra genial na Literatura e na qual se empenhou de tantos e diversos modos que se tornou um mestre mundial dela e da heteronímia, não só com os três mais perfeitos e ele próprio mas com dezenas de heterónimos, ou pelo menos cerca de 120 semi-heterónimos, figuras menores de um quase infinito dramaturgo em si próprio, ou talvez mesmo, como ele apontou em alguns textos, de um demiurgo, fazendo na sua obra criativa o que a Divindade fez com a manifestação ou fundação do Cosmos.
Contextualizemos ainda que, no embate de Mercúrio e de Vénus, ou da mente e comunicação com o amor e a comunhão, Fernando Pessoa, na sua única mais significativa e afectiva relação, aquela com a jovem e tão gentil lisboeta Ofélia Queirós, justificou as duas separações com estas razões precisas: em 29/11/1920, algum tempo depois já do seu despertar teosófico e espiritual de 1915, o que pode indicar que durante esses anos ainda estava com grande força e fé no seu caminho iluminativo, tendo passado pela aventura da revista Orpheu e a da criação e doutrinação complexa dos heterónimos, por vezes desgastantes nas suas divergências complementares, sem esquecer o desassossego de Bernardo Soares, mais precisamente após oito meses de namoro reconhecido pela correspondência, escreve à amada Ofélia:«O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca — nunca, creia — nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil. Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam».
Já em 1929, após um relacionamento de quatro meses (Setembro 1928 a Janeiro de 1929, no qual a presença algo disturbante ou violenta de Álvaro de Campos surge mais fortemente), justificará a sua recusa em continuar a namorá-la apenas (e já não com a via dos Mestres) com o facto de ter uma obra literária por cumprir.
A par destes dois aspectos fundamentrais da sua vida um outro se ergue e é o da sua inserção na contemporaneidade, na sociedade, em Portugal e na Europa, com uma consciência e amor tão argutos que devemos a eles a existência de centenas de páginas de análise sociológica, histórica, cultural e política, muitas consagradas a Portugal, neste caso culminando mesmo com algumas publicações em vida muito significativas, entre as entrevistas, revistas e jornais, nas quais certamente se destaca a Mensagem, onde verte muito do seu conhecimento tanto esotérico como mítico, a fim de iluminar e evocar, de acordo com a sua visão, sensibilidade e interpretação, os seres ou figuras, as forças ou momentos históricos tutelares de Portugal e que ele, cultor da Tradição espiritual de Portugal, queria que não fossem só passado mas mesmo no presente tão enovoado podessem surgir ou impulsionar o  "É a hora" que erguesse de novo na grande alma Portuguesa alguns dos seus mais conscientes ou despertos espíritos Fiéis do Amor.
Por motivos vários sabemos como Portugal foi entrando em sucessivas crises e num afastamento dessa plenitude cultural que Fernando Pessoa tanto sonhara, ou mesmo se embriagara ou deixara entranhar, na visão de um Portugal líder do V Império, com os poucos dialogantes, leitores ou continuadores com insuficiente genialidade, profundidade e força para conseguirem movimentar ou intensificar o querer ser mais profundo dos portugueses, a que alude tanto na Mensagem...
Muitos dos seus estudos astrológicos, das profecias, do sebastianismo e dos mitos acabaram por soçobrar ou configurarem-se hoje por vezes como mitificações ora incorrectas ora exageradas, incapazes de produzirem o levantamento moral e ético, cultural e espiritual dos Portugueses e logo de Portugal, cada vez mais pressionado pelas crises que uma classe política e financeira completamente avessa a tais valores originou.
Contudo há que não perder a esperança e, no vasto oceano de pensamentos e compreensões, símbolos e intuições que ele nos deixou nos seus escritos, alguns ainda hoje inéditos, compreender que muitos continuam activos ou operativos e que até ele próprio estava consciente ou desejava que tais grandes realizações se concretizassem num futuro, apontando, por exemplo na carta ao Conde Keyserling, a data de 2130 para Portugal entrar numa sua terceira fase ou movimento de sua grande alma espiritual profunda, pouco importando a fiabilidade da profecia...
A nossa missão, como elos da Tradição Espiritual Portuguesa que o inspirou e protegeu no que pode, será então discernir quais são para nós os ensinamentos mais valiosos e perenes dele e dos seus pares nessa tradição e tanto como cidadãos luminosos do século XXI como seres portugueses no caminho iniciático ou espiritual, meditarmos e vivenciarmo-los no que podermos.
No último ano da sua vida as cartas e notas autobiográficas escritas, na linha do que fizera Antero de Quental, que foi ao longo dos anos uma referência muito importante, ajudam  a compreender-se certos aspectos do seu interior espiritual, seja pelo que ele publica, e logo exotericamente pode afirmar na altura, e o que mais interno ou íntimo reservava, bem expresso no facto de não  ter respondido plenamente ao pedido de Casais Monteiro na carta de 13-I-1935 e que depois, devido à polémica com o projecto de lei de proibição das Associações Secretas, já revela e amplia mesmo, mais concretamente na nota biográfica de 30-III-1935.
Será então nos textos e poemas mais espirituais ou mesmo esotéricos, muitos deles só publicados postumamente, que encontraremos as mais duradouras sementes ou pérolas que depositou ou germinaram no seu oceano anímico tão criativo quão complexo, e que urge portanto estudar, meditar e aprofundar e nós neste dia comemorativo iremos agora transcrever apenas duas ou três, para que possamos de quando em quando provar, rectificar ou aprofundar os sentidos ocultos, internos ou luminosos delas, tal como recomenda o anagrama hermético por ele conhecido e referido VITRIOL (Visita o interior da terra e rectificando descobrirás a pedra oculta) e que será complementado por outro muito importante da tradição tanto ocidental como perene, e que ele muito estudou ou glossou, e que tendo escrito as letras "INRI", diz-nos também, entre outros sentidos que referiu mais de uma vez,  In nobis regnat Ignis, ou seja, Em nós reina o fogo do conhecimento e do amor, a luz ardente do espírito e da Divindade.
E finalizemos com outro mantra da Tradição Espiritual Portuguesa, por ele, como temos mostrado, muito valorizada, o Talant de bien faire, o lema tanto do Infante D. Henrique, Talante de fazer o Bem, ou Vontade de fazer o Bem, como da Ordem Espiritual de Portugal, de Cristo ou Templária, que ele queria e tentou recriar...
Saibamos nós no nosso dia a dia agirmos orientados por este desígnio solar que desagua no criar a vinda do Bem...

Primeira semente para bem se meditar: «À passagem da actividade inferior, para a superior, do espírito, dão os hindus o nome velador de O Caminho, ou A Senda. Não tem outro sentido este termo, tão vulgarmente empregado na literatura budística ou teosófica. Assim se explica a expressão atribuída a Krishna –“torna-te tu próprio o caminho” –, isto é, concentra a tua actividade na carreira ascensional dentro de ti próprio, torna-te todo a “direcção pura” de subires dentro de ti.»

Segunda semente para bem se meditar:«O conhecimento de Deus não depende do hebreu, nem de anagramas, nem de símbolos. Nem de língua alguma, falada ou figurada; faz-se pela ascensão univocal da alma, pelo encontro final da alma consigo mesma, do Deus em nós consigo mesmo».

Algo do trabalho acima referido foi desenvolvido na comemoração no Martinho da Arcada no dia 28/11 e servirá de frágil exemplo do muito que se pode trabalhar para singrarmos mais com Fernando Pessoa na Tradição Espiritual Portuguesa e no aprofundamento da realização espiritual e Divina...

              


«Não estás morto entre os ciprestes. Neófito, não há morte»

«Cego, nu e pobre entraste na vida. Cego, nu e pobre entrareis na morte. Não há, porém, vida nem morte: não há, Neófito, senão vida. O que vos sucedeu ao nascer, vos sucederá ao morrer: entrareis na vida. Isto é a verdade; o entendimento dela é convosco; assim como o regrar-vos por ela como deveis»

«(...) concentra a tua actividade na carreira ascensional dentro de ti próprio, torna-te todo a “direcção pura” de subires dentro de ti.»

1 comentário:

Fernanda Dias disse...

Excelente artigo. Muito bom,