segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tarot, X, a Roda da Fortuna. Imagens arquétipas, símbolos energéticos, iniciações conscienciais. Texto melhorado

A Roda da Fortuna é um dos arcanos do Tarot que mais geometricamente se desenhou tentando transmitir-se a imagem-força de centro e de periferia, de alto e de baixo  e do desabrochamento, rotação e ciclicidade das estações e estados de vida, para aprendermos a fluir com os seres e as ondas e correntes Cósmicas e Divinas e com os mais altos e libertadores propósitos deles. 
Nesta imagem de um Tarocchi renascentista italiano, e um dos primordiais, uma das mensagens será a de que devemos estar maduros para suportar os altos e os baixos que a vida invariavelmente traz, sintonizando-nos no alto com a Criança eterna (puer eternus), o espírito puro observador, ou mesmo, na Tradição Espiritual Portuguesa, o Imperador ou  Rei-Rainha do Mundo, criança ou estado puro, no qual se pode ainda ver o Espírito Santo activo. Quando a Roda nos leva embaixo e nas dificuldades há que ser o Atlas que carrega ou suporta o mundo, seja calado e dolorosamente seja irradiando...


A Roda da Fortuna diz-nos assim que temos de estar preparados para as mudanças constantes e que as leis do Karma ou da causalidade, e Dharma ou ordem Divina, qual interrogante e sagrada esfinge coroada e de manto, regem a manifestação pelo que de acordo com as nossas intencionalidades e com o que semeamos assim colheremos, e dentro do vasto campo unificado que emaranha todas as mentes por vezes em interacções bem subtis e inesperadas. 
E se caírmos, errarmos ou adoecermos várias vezes outras tantas deveremos curtir tal estado e esforçar-nos por nos erguer e de novo alinhar-nos, purificar-nos, harmonizarmo-nos, orar e meditar, avançar, sorrir, dar graças e atrair a renovada vida e as Graças.
Por este trisquel Celta escolhida para representar o arcano X  numa versão moderna do Tarot mostra-se que a harmonia dos três mundos e níveis (fisico, psíquico e espiritual) está em interacção criativa constante, com as espirais coloridas das partículas e ondas estruturando-se coerente e ordenamente, especilamente quando a auto-consciência intensificada singra harmoniosamente nas proporções e ritmos que nos constituem e nutrem, e consegue transformar os opostos em complementares, gerando sínteses das teses e das antíteses, numa movimentação ou dança que apela tanto à nossa disciplina e exercício terapêuticos, como à nossa criatividade amorosa e sábia como ainda à invocação da Divindade e dos seus agentes. 
No Tarot de Arthur Edward Waite (1857-1942), um ocultista que Fernando Pessoa muito leu e prezou, vemos a serpente do desejo incarnativo que nos traz à Terra e o deus Anubis egípcio a impulsionar para o alto a nossa estação momentânea na Roda da Vida. Anubis é a consciência que julga as almas à entrada do além,  e está sob a esfinge da Lei, Justiça ou Ordem Cósmica, enquadrada pelos quatro Evangelistas, os quais são por sua vez símbolos dos quatro elementos (terra, água, ar e e fogo) que enquadram a nossa posição ou estação na roda e rota da vida, conforme os harmonizamos mais ou menos em nós, nos nossos actos, sentimentos, pensamentos e aspirações, e alcançamos um pouco mais o centro, a paz, o silêncio, a imobilidade e logo o Espírito e a  bênção reintegradora Divina.                       

Nesta versão a Anima Mundi brota da cornucópia Divina e manifesta-se bela e ordenadamente, em Kosmos, em grego significando um todo ordenado e belo, para o qual somos chamados a contribuir generosamente e a comungar profundamente e nesse sentido Pitágoras falou da música das esferas que ressoa nos discípulos e discípulas mais harmonizados pela vida e trabalho são, os alimentos biológicos, as virtudes das plantas, as formas geométricas, os ritmos numéricos, as virtudes éticas, as artes expressivas e as práticas orativas e meditativas, contemplativas e anamésicas, que nos fazem sair em parte da vida superficial e tão alienada e vivenciarmos mais a comunhão celestial e a Fonte Divina.
Neste moderno e original Whispering Tarot, três meigas ou sábias-bruxas-fadas da Natureza, quais três Parcas ou três Graças, presidem à manifestação octogonal do Sol e dos 7 astros e, axializadas pela sua vivência da Natureza profunda e fecunda, ígnea e amorosa, convidam os seres a descer às suas profundezas e raízes para depois poderem subir aos cimos e altos, numa dança harmoniosa e convivial, por vezes mesmo de roda florestal familiar ou comunitária, em especial as celebradas nas épocas solsticiais e equinociais.                            

A Esfinge ou Roda da Fortuna, vista nesta imagem da Tradição Tibetana, diz-nos ainda que constantemente teremos que saber meditar, intuir e escolher entre o que nos pode levar para cima ou para baixo, e que a regra oculta do saber, querer, ousar e calar, vivida harmoniosamente pela lei do Karma (o que fazes, colhes) e iniciaticamente (conhece-te na Luz divina como luz), pode fazer-nos passar para além das dualidades e dos mundos infernais, purgatoriais ou paradisíacos e vivenciar o Espírito e a Unidade.
A Fortuna, Sorte e Providência Divina diz-nos ainda que devemos ter fé ou sermos fiéis na Ordem do Universo, na sua Sabedoria e Amor,  a Haghia Sophia, a Santa Sabedoria, e abrir-nos criativa e bondosamente ao trabalho pelo Bem comum, ritmizado pelas estações, luas, signos e ciclos diários, de modo a não cairmos em artificialismo, desvios e abismos mas, ajudados pela contemplação dos arquétipos ou psicomorfismos, na comunhão fecunda das ondas e informações, despertarmos cada vez a mais a nossa plenitude de Homem ou Mulher Universal...
As cartas ou lâminas do Tarot são símbolos e mandalas para serem contemplados e depois vividos e re-intuídos, são arcanos geradores de subtis impulsos, metamorfoses e coerências na nossa interioridade. 
As palavras são apenas flechas menos ou mais ígneas destinadas a iluminar aspectos deles, potencialidades nossas, intensificadas  pela junção do observador e da coisa ou símbolo observado num subcampo do infinito Campo unificado energético consciencial a que temos mais acesso ou ressonância pela nossa especificidade constitutiva e também pela frequência vibratória determinada pela nossa procura da verdade e de comunhão com o Logos, o Sol do Amor-Sabedoria divinos, em si, em nós e nos seres...
Este arquétipo e arcano lembra-nos ainda da importância de estarmos centralizados, de nos alinharmos com o eixo do mundo, com o Sol do sistema solar e assim há um constante sintonizar do e caminhar para o centro e, logo,  um caminhar mais centrado e, finalmente, o agir e falar a partir do centro, nas espirais irradiativas apropriadas. 

O saber estar no centro da Roda da Vida, não nos identificando demasiado com o que acontece ou vemos ou nos dizem, nos altos e baixos da vida, ou seja, sabermos recolher-nos ao ponto zero de observação pura no centro infinito da Roda, é um dos ensinamentos mais importantes desta Roda da Vida e da Fortuna, Esfinge desafiante, que é também símbolo do encontro entre as energias em triângulo da Terra e do Céu, e do fluir confiante e em diálogo com todos os seres (com as suas diversas polarizações, vestes e filtros...), dos espíritos da natureza aos Anjos e Arcanjos, na comunhão bela, geométrica e musical da Tradição ou circulação perene do Espírito e do Amor-Sabedoria, isto é, o Logos Divino manifestado...                                       

Sendo este arcano X um dos mais geométricos e mandálicos, isto é, com círculos concêntricos que nos encaminham para um estado centralizado ou mesmo unificado (e daí a Arteterapia que ele proporciona, tal como, por exemplo, a amiga Celeste Carneiro, elo actual duma tradição milenária, tem aprofundado no Brasil), podemos escolher das imagens apresentadas ou de outras a que mais sentir e contemplá-la um pouco mais, assimilando os efeitos benéficos e fazendo até por vezes ressonância orativa ou irradiativa em alguns seres, situações ou locais mais afins das orações mandálicas da nossa alma espiritual... 
E se pudermos de quando em quando desenhar atenta e magicamente o nosso próprio mandala e Roda da Vida e da Fortuna, num esforço de catarse e de individuação, ou alinhamento com a nossa individualidade, melhor ainda...
Fiquemos com um mandala e uma citação de Carl Gustav Jung (que bem trabalhou nestas direcções) clarificadora da peregrinação na Roda da Vida e da invocação do centro, do espírito e da comunhão mística no Todo e no Divino. 

                                       Lux Dei...

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