sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Tarot VII, o Carro, o Conquistador. Imagens arquétipas, símbolos energéticos, iniciações conscienciais

Dia e Arcano 7, o Carro, o Conquistador.
Esta é uma das lâminas que, denominada o Conquistador, o Condutor do carro, o carro de Osíris (do Potente), aponta para uma época recuada da História e para algumas tradições nas quais o ser humano tem sido visto e representado dinamicamente como um conjunto energético-consciencial de cavalos, carro e cocheiro-guerreiro.

A imagem surje bem desenvolvida na Índia numa das mais antigas Upanishads (traduzidas para o persa pelo príncipe mogol sufi Dara Shikoh e depois para o latim e línguas ocidentais), a Kata (1.III-3, 4): "Sabe que o espírito (atman) é o mestre do carro e o corpo é o carro. Conhece o intelecto (budhi) como o condutor, e a mente (manas) como as rédeas. Os sentidos são os cavalos, e os objectos à sua vista são o caminho. Quando o espírito (atman) está unificado com a mente e os sentidos, o sábio chama-lhe o desfrutador" 
E também na bela e valiosa Bhagavad Gita, na qual Sri Krishna aconselha o guerreiro e cocheiro Arjuna a saber dirigir o seu ser destemidamente no campo da batalha de Kurukshetra contra as forças adversas, onde estão muitos dos seus familiares, que são também partes de si. Neste sentido correu mais modernamente Agostinho da Silva quando afirmava que a verdadeira guerra santa era contra o infiel em nós e contra o que impede os outros de serem fiéis à sua essência e missão.
Krishna transmite a Arjuna o seu maravilhoso ensinamento antes da batalha
Platão no Fedon compara a alma a um cocheiro de uma quadriga com o cavalo negro dos apetites (eros e epithumia) e o cavalo branco do coração (tymus) e da coragem, apresentando o cocheiro como o nous, o intelecto, razão, Logos, e Espírito e, de facto, é bem possível ter sido esta fonte platónica a que mais fundamenta a gestação deste arcano e arquétipo nas representações primordiais da Renascença italiana e vê-se por vezes bem realçada a dualidade dos dois cavalos, um branco, obediente e direito, o outro negro, divergindo ou mesmo torcido na posição do pescoço e dos olhos.
                            
Representa-se então neste arcano o ser que pelo discernimento e a vontade bem consciente orienta, harmoniza e rege os elementos e as polaridades em si, as duas subtis e desafiantes esfinges, que podem ser vistas no sol e lua (que o cavaleiro leva nos ombros) emissão e recepção, pensamento e sentimento, alegria e tristeza, dia e noite, ida e pingala, quente e frio, Marte e Vénus, palavra e silêncio, alimento e jejum, prazer e dor, etc., as quais são no fundo os cavalos ou rodas do carro da nossa alma que, se controlados e unificados pelo nous ou a mente ligada ao espírito, e inspirados pela ligação axial e cardíaca à Divindade, tornam os seus movimentos harmoniosos ou conquistadores das dificuldades ou das oposições por vezes mais duras...
Somos convidados a tornar-nos assim seres condutores e transmissores da correnteza poderosa do Amor Sabedoria, Inteligência Divina ou Logos cósmico, que é o Campo unificado de energia informação que origina e apoia as energias psico-magnéticas harmonizadas e espiritualizadas que vamos desenvolvendo na vida, as quais podem tanto manifestar-se na nossa aparência e resistência, na voz e presença, como comunicarem e irradiarem para os planos invisíveis e assim clarificar o ambiente e eventualmente ajudar e impulsionar os outros para as suas melhores realizações...
                                        
O arcano 7 do Carro ou Quadriga, ou ainda do Conquistador, no qual ao quadrado ou cubo da matéria é adicionado o triângulo do mundo espiritual, que o coroa, deve inspirar-nos a meditarmos com regularidade as nossas aspirações e ambições, intenções e desejos e assim fundamentarmos ou darmos coerência ao projecto de vida ou progressão no carro deste conjunto psico-somático, para que não haja partes que querem ir para um lado e outras para outro, ou que não tenhamos forças para realizar tal percurso ou feito, ou que percamos o Norte ou a orientação superior.

Nas representações mais antigas o próprio condutor ou cocheiro do Arcano VII era representado pela Mulher, e os cavalos eram brancos pela sua ligação à nossa Dona Luna, pacificadora e dona Vénus conquistadora, solarizada pelo Amor, Sabedoria e Força que a Alma espiritual manifestava, exercia e convencia, sendo então Musa nossa...
Nesta representação do Tarot de Visconti-Sforza do arcano VII, o Carro ou mesma a Conquistadora, podemos ver a mulher ou a alma beatífica ou Vénus, conduzindo os cavalos dos sentidos e pensamentos num modo pacífico determinado e amoroso.
Podemos relacionar este arcano com os Triunfos celebrados na Renascença Italiana, e que a obra I Triomfi de Petrarca ou ainda o Sonho de Polifilo ( Hypnerotomachia Poliphili) atribuído a Francesco Colllona mostram em belíssimas imagens, nos quais em carros ou coches alegóricos Deus, personificações e virtudes,  sobretudo o Amor, eram conduzidos alegremente em procissões, quais matsuris shintoístas do Japão, ainda hoje realizados e de que o nosso Carnaval é uma imagem com pouca força espiritual e antes apenas, para alguns, catártica...
Certos limites nas rédeas dos nossos instintos e desejos, nas nossas compras e consumos, certas balizas ou metas no percurso, devem ser escolhidos e mantidos, sendo importante de se praticar a determinação de que assumiremos e cumpriremos as nossas promessas e decisões de sim e de não.
Este arcano valoriza o estado de decisão fundamentada e determinada e a capacidade de movimento vencedor, concretizador, real e por isso o ser está coroado, liga a terra e o céu e sobre o seu olho espiritual luze a estrela, podendo ser tal estrela ampliada ou corporizada em quase corpo de glória (Xvarnah, a luz teofânica na tradição Persa) em modernas recriações bem desenhadas do Tarot.
                                    
É bom estarmos fortes para o acto de conduzir e correr uma quadriga e dirigir invencivelmente a sua progressão e para tal é necessária uma vida natural e harmoniosa, mens san in corpore sano, com alimentação biológica e exercícios psico-físicos e, idealmente, estar-se mais mais ciente ou intuitivo do estado dos sete chakras e também (em certa e leve medida...) dos sete planos do Universo, como desde a Antiguidade se contaram, talvez de uma forma simplificadora e demasiado esquemática (como recentemente Ken Wilber desenvolveu com forçadas correspondências) realçando-se ainda os septenários que ao longo da vida se vão desenrolando, e que são anos importantes e de charneira na carreira ou biografia de cada um de nós, bem como o ciclo dos setes dias da semana.                                     
Quando contemplamos e assumimos este arcano conseguimos ver do alto do carro-corpo, como que despreendidos e não identificados com ele, e depois observamos que se está a fazer e a irradiar e o que se pode e deve cumprir.
Feito este autoconhecimento e auto-avaliação, seja de quando em quando, seja nos momentos de recolhimento e alinhamento diário, podemos melhor determinar-nos apropriada ou dharmicamente (de dharma, ordem-dever-missão) nas direcções ou sentidos certos do empenhamento e victória.                     


Assim, cada vez mais auto-conscientes e firmes, nomeadamente no equilíbrio dos cinco elementos que atravessamos e que temos em nós, mais abertos e irradiantes das energias do Espírito, as melhores asas brotarão dos nossos ombros, intenções e aura, e o Anjo ou o Espírito Divino em nós brilhará mais sensivel e eficazmente.                       
Lembre-se deste arcano durante o dia, escolha uma ou outra imagem das diferentes versões e volta e meia veja-a e sinta-a dentro de si e active-a no que está a consciencializar-se ou a fazer... 
Conquiste-se profundamente e depois realize bem o que deve conquistar, alcançar, transmitir, ser...

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