quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Tarot VI. O Amor, os Amantes, os Enamorados, imagens arquétipas, símbolos energéticos, iniciações conscienciais, para o dia 6 de cada mês...


                          

O arcano VI do Amante, do Enamorado, ou dos Namorados, vem no seguimento das cinco cartas cardeais ou fundadoras e mostra-nos o desabrochamento do amor e do livre arbítrio. 

Um jovem está junto a duas mulheres e está a fazer ou já fez uma escolha afectiva mas também intelectual, moral e espiritual, pois todos estes níveis estão presentes em nós e nos outros, em especial no estabelecimento de uma relação amorosa. 

Uma das muheres tem a cabeça  cingida por uma coroa de louro, simbolizando a realização intelectual, tal como outrora os melhores poetas recebiam uma coroa. A outra tem os cabelos com outro tipo de decoração. A opção ou escolha que fazemos, sejamos homem ou mulher,  em que  baseará ou motivará?

Sobre o jovem, partindo do globo solar, desce ou paira um Anjo Cupido que desfere de olhos vendados a flecha do Amor, assinalando-se ou espelhando-se o famoso dito: "O Amor é cego, mas recomenda-se".


Nesta imagem antiga do Tarot estilo Marselha, tal como a anterior, e provavelmente dos sécs. XVI-XVII, o jovem está de novo entre duas jovens e parece que confrontado com a opção que deve fazer, os cabelos só de uma é que estão cingidos por uma coroa estando os outros soltos, sendo esta a versão a que triunfará posteriormente. 

Um aspecto valioso de discernirmos na possível evolução (algo aleatória pois cada artista ia fazendo os seus Tarots frequentemente sem  ter a noção de anterioridades e continuidades) nos ensinamentos deste arcano respeitante ao Amor e às suas escolhas é o facto do Cupido, como génio do Amor que desfere a seta da atração, se encontrar ainda representado com a venda, mas com ela levantada. É um elo muito significativo na evolução deste arcano e dos seus significados e pode querer simbolizar que o amor deixa de estar cego, o amor sábio do espírito desperto desfere a sua seta certeiramente, a escolha é perfeita. 


Na versão que triunfa ou que se torna mais corrente, embora as duas pernas e pés nuas do jovem como forças polares  se encontrem realçadas  entre as duas correntezas femininas que o rodeiam e o convidam e querem enlaçar, e poder-se-ia pensar numa escolha entre o Amor Venusiano e o Amor Minerviano, talvez se possa interpretar tal num sentido diferente do que é habitualmente tomado. E será o de que os dois jovens de cabelos dourados estão a ser abençoados por um psicomorfismo das Mães da Terra, do Princípio feminino sábio e amoroso que inspira e guia a continuidade da Humanidade.

O Cupido e génio ou anjo do Sol finalmente apresenta-se já sem venda e a seta que desfere parece que, mais do que acertar num só ser, atravessa e une dois, tingidos no mesmo sangue amoroso, lembrando-nos que o Amor é um campo especialmente unificado de dois seres no grande Campo cósmico psico-energético que também no Amor se fundamenta ou entretece.
São muitos, mesmo muitos, os sentidos interpretativos que o arcano VI, dos Namorados ou Amantes, pode receber e despertar, e  afloraremos alguns, com esta imagem-versão  bem rica de sugestões,  talvez dando para aludir ao mito platónico, bem expresso no discurso de Aristófanes no Convívio, das almas gémeas que viviam unas antes da queda no mundo da manifestação e que na Terra e no corpo físico humano procuram encontrar-se e reintegrar-se na unidade amorosa andrógina ou celestial. Algo disto perpassa pelas cartas do arcano VI e do seu complementar que é o XX.   
Na versão já do séc. XX do Tarot A. E. Waite, o Anjo que paira sobre o par de seres escolhidos para representar o arquétipo do Amor e que fazem lembrar Adão e Eva, tanto pode ser visto como abençoando como desabrochando dentro deles e acima deles, seja como andrógino, seja como Espírito da Unidade de dois seres plenamente harmonizados e complementados... 



A carta e arcano do Amor, dos Enamorados ou Amantes pode indicar-nos portanto tanto a mítica existência de um estado espiritual antes da separação em duas almas gémeas como também que a Manifestação cósmica baseia-se na dualidade, na existência de polos opostos de partículas negativas e positivas e que, da interacção das infinitas dualidades complementares (e seja por uma imediata e simples atração seja por uma laboriosa demanda ou paciente sintonização),  podem resultar  sínteses e uniões muito criativas e unificadoras, o encontro dos verdadeiros amantes ou namorados plenamente complementares.
Nesta versão de A. E. Waite a simbologia aponta para que os Amantes podem-se complementar-se plenamente e na sua união poderem reverdecer a Terra, ascenderem as montanhas ou a Montanha primordial e tornarem o Anjo presente.


A dualidade está dentro de nós e fora de nós. Cada um é homem e mulher e  sente e manifesta a razão e o sentimento, o sol e a lua, o dia e a noite,  o yin e o yang, a actividade e passividade, a força e a doçura, a acção e a contemplação. Conseguirmos o equilíbrio proporcionado e dinâmico entre estas polaridades, ou ainda entre o interior e o exterior, o hemisfério esquerdo e o direito, entre o que devemos acolher e o que devemos rejeitar, é a base da grande Obra que liga espiralmente o alto e o baixo, o céu e a terra.  
                            
Neste Tarot da Renascença italiana o Cupido está sem asas e mesmo na linha axial que passa por meio dos dois, e parece mostrar o Amor como algo sacrificial ou como uma batalha Mikaelica. 
Num dos seus sentidos este arcano VI mostra que a dualidade e  multiplicidade infinita da manifestação nos obriga a escolhas e, embora a certos níveis possamos amar todos os seres, noutros não, que teremos que afastar, pelo que há que sentir, meditar e intuir qual o caminho mais luminoso ou evolutivo a cada momento para cada um de nós, ou para os dois ou mais e, logo, para o Campo unificado de energia consciência informação que constitui o Universo e no qual todos participamos mais ou menos conscientemente...


No Tarot de Marselha podemos observar ainda que o Amor vem do Sol, desfere a sua seta como Cupido e tendo-o de trás de si, indica-nos que a fonte do Amor é o Sol Divino e que é dele que se derrama o Amor por todo o sistema solar até chegar à Terra e aos seus seres. 
E que para conhecer este Sol do Amor Divino deveremos descobrir  a alma-gémea nossa, ou então realizar o arquétipo ou psicomorfismo da alma gémea com a alma afim com quem namoramos, amamos, vivemos ou mesmo casamos.


Nos Tarots mais antigos da Renascença italiana, do séc. XV, o Anjo ou Cupido como temos visto está em geral de olhos vendados e simboliza bem o famoso dito o Amor é cego, tão glosado em todos os tempos e, entre nós lisboetas, ainda há poucos anos (2012) numa excelente exposição na galeria Novo Século, do Carlos Barroco e da Nadia Baggioli, na qual participei com uma série de pequenos livros de artista com aforismos e desenhos alusivos a tão entusiasmante tema. 

O Amor em nós é cego, e portanto desfere a sua seta e  a alma lá vai nela atrás da  ave ou eva, ou do amado, que a atrai. Contudo a cegueira do amor, ou seja, a sua inocência e espontaneidade, que a leva por vezes a enganar-se, tem vários níveis de causalidades e tanto pode provir da sua natureza simples de se querer entregar ou comungar, como ao contrário da acentuação dos instintos e ego, o que pode levar certamente a erros ou mesmo a infidelidades ao seu próprio ser de Amor. Ou pode provir da sua intuição, e o nível é o do ser espiritual, pois a venda  simboliza que a escolha ou o amor  é suprasensorial, supramental. provindo de um acto intuitivo clarividente, do espírito ou ainda do Anjo em nós, do Amor que pode e deve manifestar-se...
Esta cegueira para o que não é essencial, para o que está fora da tenda ou parasol do Amor, pode ser vista positiva ou luminosamente e nesse sentido os Namorados ou Amantes, no Elogio da Loucura de Erasmo, têm os seus mais luminosos representantes nos que amando a Deus ficam como que cegos para o resto. A cegueira é então apenas para o que não se deve ver, brotando mesmo em contrapartida a clarividência e a intuição, com as quais, mesmo de olhos vendados, conseguimos ver, sentir, discernir, acertar e amar.
A Arte Real que nos coroa, a Grande Obra que pereniza, é conseguirmos a visão, alinhamento e vivência com o Anjo, o Espírito Celestial, a Divindade e, em especial com a outra alma, dita afim, complementar, gémea, Dona e Amada...
Pela meditação e por outras formas de harmonização conseguimos aprofundar-nos, estabilizarmos e assim discernir melhore e equilibrar a polaridade do interior e do exterior, do ser amante e ser amado, da atracção e repulsão, do apoiar e do abster-se, e logo não caímos em ilusões e descaminhos, já que ao meditarmos, ao orarmos, ao cantarmos, ao dançarmos estamos a alinharmo-nos e recebemos as energias e mesmo as orientações e respostas para os labirintos e provações que temos constantemente de atravessar, o que foi tipificado nos 12 trabalhos de Hércules...

O arcano VI dos Amorosos representa  a responsabilidade das escolhas entre o que é melhor ou bem e o que é pior ou mal e, portanto, a formação de uma capacidade de gnose correcta que desencadeie o livre arbítrio clarificador e libertador, sabendo-se quão difícil é chegarmos e preservarmos na vera vontade e no puro amor, seja pela nossa interioridade frequentemente  agitada mental e egoicamente, seja pela nossa alteridade das múltiplas relações sociais e dispersivas acções, ou passivas absorções, tais como por exemplo no brainwashing televisivo que é certamente um foco anti-Amor, anti-Verdade, em geral.
O estado de alma transparente ao vero amor implica então uma certa disciplina diária do que nos afecta ou influência e desabrocha por fim no discernimento de quem devemos amar ou então como vivermos em plena e feliz comunhão do amor vinculante e elevante, por vezes mesmo transfigurante, de dois seres.
                           
A tradição amorosa Persa é muito rica tanto na poesia como na filosofia e na mística e nela se exalta quem sabe viver  em plena comunhão de coração com o outro ser ou quem  sabe discernir ou intuir bem em cada encruzilhada da vida e optar pela mais alta, virtuosa e plenificante evolução espiritual possível e, determinado e concentrado, avançar em plena comunhão com o seu espírito e com o outro ser ou Tradição, fiel do Amor à ideia sentida e tida e à palavra dada, tal como Fernando Pessoa escreveu na Mensagem para o infante D. Pedro das Sete Partidas. 

                                 
Feliz de quem encontra uma alma bem afim nos três corpo, planos ou mundos, ou quem descobre mesmo a sua alma-gémea, ou a que permite que se considerem como tal, sentindo-se cada um como o ser com quem a complementariedade recíproca se intensifica maravilhosamente e em cujo abraço, convívio e unidade amorosa há  criatividade e poesia, música e paz, beatitude e fecundidade.
Felizes os que na sua prática espiritual harmonizam em si as polaridades e vêm, ouvem ou sentem o Anjo da Guarda, o Espírito guia divino neles, e acolhem a Luz do alto e desabrocham o Amor grato em acção verdejante.
Felizes dos que conseguem, vencendo obstáculos e dores, arderem no fogo do espírito, a sós ou a dois, e avançarem criativa e alegremente na vida como portadores do Graal do Amor, que comungam e dão a beber, deste modo derramando tal vinho ou néctar dos seus corações e espíritos em resposta às necessidades anímicas dos seres e ambientes que os rodearem.
Felizes o que sabem estar em Amor ou Unidade com o Cosmos e os seres, com a amada ou o amado, o Anjo ou o Mestre e, na sua interioridade mais funda, com o Ser Primordial e Sol do Amor Original e assim avançam no dia a dia alegre e criativa, livre e irradiantemente, regenerando o ambiente da Terra, intensificando a evolução espiritual da Humanidade...

2 comentários:

M. Augusta Araújo disse...

Fabuloso!
Grata.
Maria de Cesarnac - MAA

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas Graças, Maria. Boas inspirações e realizações no Amor!