sábado, 1 de agosto de 2015

Tarot I, o Mago. Imagens arquétipas, símbolos energéticos, iniciações conscienciais

Em cada mês podemos  sintonizar os  22 dias iniciais com os 22 arcanos maiores do livro de imagens arquétipas e sábias que é o Tarot, de origem italiana, começo do Humanismo e do Renascimento, e com fontes antigas, muito provavelmente greco-romanas, educativas, mitológicas e iniciáticas, e fontes mais recentes, tais como os Trionfi de Petrarca (1304-1374), os Triunfos, livro em que as imagens e os sentidos pedagógicos, éticos e espirituais, vindos da Antiguidade clássica e do Cristianismo, estavam bem unidos e que deu o nome às cartas  durante o séc. XV, só surgindo a expressão Tarochi, documentalmente em relação a elas,  em 1505. Ainda hoje não se sabe bem como era jogado, mas poderia ser em disputas ao desafio, a partir da rapidez de associações, e com apostas, pois desde cedo foi condenado pela Igreja como jogo de azar.
Nesta imagem próxima da primordialidade do Tarot, a versão de Visconti-Sforza, da segunda metade do séc. XV, havendo porém registo já em 1415 de uma encomenda de Fillipo Maria Visconti (o pai de Bianca Visconti, casada com Francesco Sforza, de Milão) para um maço com figuras de Deuses e seus símbolos, o Mago surge como uma pessoa algo aristocratizada e hierática, afim das cortes italianas (Ferrara, Bolonha e Milão) onde foram desenhados os primeiros, sentada à mesa com objectos simbólicos dos cinco elementos ou quem sabe de ritos iniciáticos, vestida ricamente com predominância de vermelho (em si algo ambíguo, tanto mais que a palavra taroch podia referir uma pessoa amalucada ou embriagada) e com um chapéu de ondulação em espiral ou lemniscata.  A sua mão direita está sobre um objecto ou recipiente coberto por um pano. Alguns destes aspectos iconográficos manter-se-ão na evolução das versões do Tarot,  outros transformar-se-ão, serão manipulados ou desaparecerão.  
Que ensinamentos e mensagens se procuraram transmitir, quem é o ser representado ou que polisemia (pluralidade de sentidos) ele encerra? 
Era o Mago, que é cada ser em potencial, diante da tábua ou mesa da manifestação e suas potencialidades? Era o Mago dos truques, o Bagatto, de onde tiramos nós a palavra bagatela, sem valor?  Era um louco, tolo ou ignorante, caído na Terra e necessitando de toda uma aprendizagem que as outras cartas transmitem? Era já o Mago que pretensamente revelaria o futuro, através das cartas, função que está historicamente assinalada muito mais tarde, só no final do séc. XVIII, sendo antes as cartas um programa humanista ético, instrutivo?
Era o alquimista? O iniciado?  A imagem humana do demiurgo, do Deus criador, provinda dos Mistérios antigos?
Nesta imagem da versão que se tornou a mais clássica do Tarot, de Marselha, o Mago ou Maga, tem a posição das mãos bem diferentes da versão anterior mais antiga e assim pode simbolizar mais claramente o ideal da vontade activa e luminosa que une criativa e habilidosamente o Céu e a Terra, os mundos espirituais e divinos e os humanos e terrestres, e que invoca e tenta atrair do alto seja as forças subtis vitais e genésicas seja as bênçãos divinas, dos astros,  angélicas, dos mestres, dos antepassados. E, conseguindo-o, comunga com elas, infunde-as na Terra, nos seres e coisas.  Podemos admitir que esta representação assume já a magia hermética, caracterizada por Marsilio Ficino e Pico della Mirandola pela harmonização, manuseio e união das forças e virtudes naturais que ligam simpateticamente a Terra e o Céu. 
Não limitada ao cérebro e à cabeça está a Consciência, seja no seu alargamento ou expansão, seja na sua essência espiritual, de origem divina, simbolizada pela lemniscata da comunhão  com o Campo unificado de energia-informação infinito e com o Espírito Divino, sintonização que ocorre mais quando há coloração e tensão afim, e logo contacto e harmonização das polaridades, níveis, hemisférios, o que se realiza mais na meditação, nos estados de amor, descontracção, criatividade artística mas também na atenção, acção e pensamento bem consciente e ardente. É a partir desta auto-consciencialização espiritual que a nossa vida mais criativa se deve manifestar mais perene.
Diante de  nós estão na mesa da vida seja as energias dos quatro ou cinco elementos para as conseguirmos trabalhar, desenvolver e partilhar criativa e harmoniosamente, com os desejos-aspirações adequados e a mais elevada vontade possível, harmonizadora, determinada e persistente, e os objectos podem provir dos rituais iniciáticos dos mistérios dionísiacos ou báquicos e depois órficos e que eram mostrados aos misté, os iniciandos.
                                                      
Tais objectos, ao serem considerados símbolos dos quatro elementos na mesa da manifestação, eles identificam-se com o cálice  do coração, a espada do discernimento, a vara da acção justa e a moeda da riqueza pentagonal, que constituem tanto os quatro naipes, como as funções e capacidades criativas, harmonizadora e potencializadoras que corresponderiam dos quatro elementos (fogo, ar, terra e água)  em nós e nos outros e que a cada momento e minuto estamos a trabalhar ou a utilizar.
No caso de aludirem ou representarem ritos iniciáticos, o simbolismo ficou mais secreto, por isso tanto a dificuldade de se os fazerem corresponder com os elementos ou ainda de se os identificar claramente. Algo que a passagem do tempo e mesmo o desgaste das matrizes da impressão das cartas tenha contribuído para a perda dos contornos precisos do que se representava.
O arcano mostra-nos assim a potencialidade infinita seja da Natureza nos seus quatro elementos, seja do Espírito que os manuseia criativamente, e os faz florescer pelas aspirações e realizações. Sermos seres mágicos, criativos, trabalhadores, de modo determinado, hábil, optimista, norteados pela espontaneidade interior, o Amor, o Bem e a Verdade, eis a dança, luta e Caminho.
Historicamente, o nome de Magos vem da Pérsia ou Irão, com a tradição dos seus sábios e sacerdotes, provindo a palavra do grego Magoi, a qual foi como que canonizada no Evangelho de S. Mateus, com a referência aos três Magos do Oriente (o que levou  a admitir que seriam não só da Pérsia mas eventualmente da Índia) que teriam vindo abençoar, ensinar ou, segundo a narrativa evangélica, adorar Jesus. 
Ao longo dos séculos podemos observar que  tal tradição ininterrupta de sábios, iniciados, órficos e gnósticos de realização interior e simultaneamente da magia da Palavra continua, e entre os seus elos  no séc. XIX e XX, por exemplo,  temos entre nós Bocage, Antero de Quental e Fernando Pessoa, um escritor e poeta estudioso da magia, ocultismo, esoterismo e até do Tarot, o qual chegou a escreve a dado momento, numa linha de ensinamentos de ordens secretas, que «a conversação com o santo Anjo da Guarda é a mais alta obra de Magia», o quese pode interpretar como obra de de conhecimento interno, de auto-conscenalização, e de saber operar-se no mundo subtil e espiritual pela Palavra. 
O desafio desta carta ou arcano é assim o de sermos almas criativas, mágicas, capazes  de interagirmos e irradiarmos luminosamente, pelos pensamentos, sentimentos, actos e palavras  nos seres e na Alma do Mundo ou Campo unificado de energia-inteligência que nos liga a todos, fazendo desabrochar mais a ligação com os mestres e santo(a)s,  Anjos e a Divindade, e com as energias e psicomorfismos ou arquétipos do Bem e da Verdade, da Justiça e da Beleza.

Se contemplarmos estas imagens de versões mais modernas do arcano I, o Mago, podemos ser estimulados a tornar-nos mais a individualidade criativa e corajosa que mantém a sua abertura ao Campo unificado de consciência-energia-informação simbolizado pela lemniscata e que é também símbolo  tanto do Espírito activo sábia e amorosamente, em nós como do Espírito e Vontade Divina...
Terminemos com esta imagem de três dos Tarots já não os primordiais mas os mais ricos de simbolismo tradicional, o de Marselha, o de Aleister Crowley e o de Arthur Edward Waite, relembrando-nos  da importância da magia da Palavra que todos podemos exercer para o bem da Humanidade e de nós próprios.
 Em verdade sabemos bem como as palavras curam ou fazem mal, são de mel ou de fel, e desde o tempo de Orpheu e dos órficos e pitagóricos, que tal magia está assinalada na história da humanidade, dela fazendo eco o Evangelho de S. João, por ser o mais helenista e gnóstico: «Ao princípio era a Palavra (Logos, em grego, ou Sermo, em latim) e a Palavra estava em Deus (Theos) e Deus era aquela Palavra .» Segui a tradução do Novo Testamento, de Erasmo, na edição de Lyon, 1705.
Saibamos pois nós despertar ou sintonizar ou orientar as energias de ligação entre a terra e o céu, entre nós e o mundo espiritula e sermos o Mago ou a Maga, ou seja, almas criativas, harmonizadores e unificadoras das energias e consciências para bem do mundo e da sociedade, os quais bem precisam que este arquétipo seja reactivado, não egoísta ou ilusoriamente, não com falsas promessas e adivinhações, mas exercido e assumido luminosamente, de modo a sairmos da ignorância e do sofrimento, das rotinas e limitações, semi-adormecimentos e alienações e assim aprofundar e expandir a potencialidade poderosa do Amor e do Ser Divino em nós.
Uma inspiradora contemplação deste arcano! E irradie a Luz do Espírito, ame, seja mais a Luz e o Amor Divinos. Aum, Logos...

2 comentários:

Maf disse...

Obrigada Pedro.

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Graças, Maf. Só agora consegui responder...