terça-feira, 26 de maio de 2015

Jorge Ferreira de Vasconcelos. Colóquio... Ensinamentos extraídos da "Aulegrafia"



Ensinamentos de Jorge Ferreira de Vasconcelos, extraídos da sua comédia Aulegrafia. Utilizamos a reimpressão de 1968, feita sobre a reimpressão lisboeta, e única conhecida, de 1619, por António A. Machado de Vilhena.

Introdutórias - "Já entendeis quão preciosa, digna de grande estima, e necessária para o uso da vida, e a recriação da alma, é a amizade em que se conserva toda a máquina do mundo"
Comentário: Do amor como a essência da alma do todo...

"O animal mais inimigo do homem é o mesmo outro homem, por o desconhecimento que tem da pureza de seus corações: ca [porque] o bem e o mal conhecesse nas coisas, em que consiste, e o verdadeiro e o falso na alma, em que se encobre."

"Nenhuma coisa destrói o mundo, como quererem muitos viver pelas leis do estado alheio, e fugir as do próprio..." 
Comentário: Sê tu próprio...


 "Muito devedor é a seus fados quem emprega bem os pensamentos..."
Com. Vigia e pensa tu mesmo os teus pensamentos luminosamente, e a vida segui-los-á...


 "E portanto forrai-vos para contraminar matantes roncadores, que andam feitos relógios..."
Comentário: Lutar contra os inquisidores e repressivos...

    "Tenho que o interesse o tem feito covarde, e esses sizos dos bons dá ousadia a ruins para tomarem liberdade em seus excessos, e cairem com eles. Eu não vos louvo ser soberbo, nem vos gabo ser sofrido, por não dar licença a cobardes. Entendo que o muito sofrimento acanha espíritos nobres, e dá fôlego aos fracos..."
              Com. Da necessidade de reagir ao mal

"De animoso espírito é seguir coisas altas, e desejar o dificultoso."
           Com. Da alma espiritual em aspiração e luta...

 "Enxergo-vos sensual, e pesa-me: porque é uma seita de amor muito baixa, e pobre de gostos. Põem todo o seu no efeito breve e para brutos. E chegar ver o fim de nada, é triste sorte: pois é claro que no infinito está o mel, empresas atermadas não podem ser gostosas."      

                      Com. Das seitas do Amor e dos seus níveis...


 "Contemplando recebem os Espíritos contínuo contentamente contentando os desejos no que cuidão. E como as coisas segundo mais, ou menos estão juntas da alma, assim lhe imprimem os seus bons ou maus efeitos. O pensamento que reside nela faz ver muito melhor com os olhos do entendimento a quem ama. (…) Mas a contemplação forra destes desares em ausência, vos faz vente (ver) o que imaginais: o como, entende-o quem o sente. São segredos do amor, que se alcançam por graus de afeição..." 
                   Com. Da alma e do espírito na contemplação amorosa e da iniciação por graus          de afeição...

   "Hisopo preguntado que fazia Jupiter, respondeu: abaixa altos, e levanta baixos."
               Com. Do espírito divino da justiça e dos cavaleiros andantes...
  
 "Poucas vezes se vio mal, que não seja aviso de maior bem. … Nada deve esperar-se ou desesperar-se, sem experimentar ventura. Não vos deis ao sofrimento, que vos tolha buscar remédio: Nas coisas duvidosas vale muito o bom conselho, e ousadia, nada vola faço perder: que do mal que homem teme, desse morre. Sem perigo não se faz façanha."
                    Com. Aborrecer o mal, suportando-o, ultrapasando-o, transmutando-o...

 "Formosura é pedra de cevar corações humanos: e amor um desejo do que bem parece, daqui se move nossa razão, vista e ouvidos, e se deleita: deleitando rouba, e roubando inflama: e quanto mais claro juizo, tanto mais se afeiçoa ao que lhe parece bem."
                            Com. Elogio do amor que rapta ou extasia... 

"O tempo, porém, por mais tirano que ande de verdade, nunca pode tirar o preço ao bom: e sabei que contentamentos proprios, quando forem justificados, são gostos que regem a alma, e segurão o porto; triunfos injustos, e de má prumagem, por mais que reluzem, lá têm sempre o seu bicho que desassosega altamente o espírito."

 "Bem se mostra nisto como todas nossas diligências e imaginações são vento se lhe Deus não assopra. Donde tinha razão Sócrates, dizendo que não se devia pedir a Deus, salvo simplesmente bem, zombando dos votos humanos, que mostram querer ensinar a Deus o que nos cumpre, sendo só ele o sabedor do bom, e repartidor do melhor: por o que, quando do Céu está ordenado, na mente Divina, o contrário do nosso desejo; por demais é pretendê-lo. Por isso sizo, e regra infalível é entregar à vontade de Deus. Ter o cuidado de cipilhar a alma, conforme ao que manda a Lei que professamos. Tomar o leme do honesto trabalho, e deixar o cuidado da viagem a quem tem a cargo, e manda a nau."
                        Com.: Jorge Ferreira de Vasconcelos cavaleiro doAmor, amigo espiritual de Erasmo, ressonâncias das mesmas verdades que circulavam na república das Letras...


  "Na boca do cavaleiro não deve haver vituperar seu inimigo, e deve sempre defender o nome das mulheres, como faziam os da Tavola Redonda, antes louvá-las, e tratar do próprio e não desfazer do alheio. E, então, como dizia o outro, chame-se Alexandre deus: quero dizer, tenha-se cada um na conta em que quiser e lá se avenha com sua vaidade, que se não é prejudicial, pode ser proveitosa...
                      Com. Dos esforçados cavaleiros andantes...

"Como se converte a necessidade em razão. Assim nas adversidades é mais eficaz remédio a necessidade que a razão. A discrição consiste em saber sofrer com animo, o que nos sucede contra nossa esperança, e gosto, esperando sempre socorro Divino, que nunca faltou aos bons, e que o bem pedem, e aplicar nosso espírito ao sofrimento, e remédio, pois Deus nos deu razão, e virtude, e juntamente ânimo, para podermos desviar, e vencer todo o movimento, e tempestade adversa, e senhorear nossos sentidos, e apetitos: e portanto ganhai-vos a vós: Cá não é bom, nem cumpre ser sempre um em todo o tempo, a idade, o lugar, ocasião e sucesso requerem sua vez. Perdoa-se o passar pelos vícios, mas querer estar neles, é torpíssimo: os homens hão-de viver da razão pois por ela se diferenciam das bestas, que vão após seu apetite.

                  Com. Da prudência e da resistência face às adversidades.

 "O estado acanhado abate o saber"

 "A grandeza do ânimo faz possível impossibilidades"
                                            
                                           ******************************

Colóquio Internacional "Jorge Ferreira de Vasconcelos: Um homem do Renascimento", Fundação Calouste Gulbenkian, 28 e 29 de Maio de 2015. Entrada livre, prévia inscrição. Participarei. 



Sem comentários: