quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Da morte e da amizade e espiritualidade imortalizadoras...

Ommm

A morte de uma pessoa amiga é sempre um momento especial na vida dela e, logo, quando podemos acompnahá-la, também na nossa. Assim partimos para o cemitério dos Olivais, uma parte de Lisboa ainda com oliveiras e um monte donde as almas se transformam ou se reconhecem (mais ou menos...) em fogo e luz da vida...
As nuvens são sempre anunciadoras, mensageiras, nem que seja da existência do firmamento, Aditi, na tradição védica a mãe de todos os deuses, os Adityas, tais como Surya, o Sol, e Varuna, a água..., e é uma das melhores realidades e imagem da Divindade, imensa e matriz de tudo...
Os cedros apontam ao céu e são árvores sagradas consagradas à imortalidade, porque estão sempre verdes e se dispõem em forma cónica e piramidal, manifestando a sua natureza poderosamente ígnea. As nuvens, essas, em cima de um cemitério e crematório, certamente que assumem formas  por vários motivos, ou conforme as subjectividades observadores e modeladoras...
Um pequeno dragão (ryu, na tradição nipónica bem referida pelo nosso Wenceslau de Moraes) lança uma labareda, ou não estivesse um corpo a ser queimado e as suas energias a alimentarem os mundo subtis e a consciência a encaminhar-se para o mundo espiritual...

Nos muros que rodeiam os jardins, também chamados "cercas" à volta dos conventos, quem se avista com frequência são as aves  (aqui dois melros) saltitantes e livres, para as quais não há fonteiras e lembrando-nos que também nós somos cidadãos dos dois mundos e em nenhum deles nos devemos fechar ou limitar mas na Unidade Divina (Tawid, na mística Islâmica) nos assumir...
Poucos mas bons: a Suzana, o António e o Xucha, mais invisíveis Carlota e eu, debruçados sobre a sebe separadora, ainda banhada pelo sol, após a curta celebração e oração pela partida luminosa da alma amiga desfalecida corporalmente, renascida espiritualmente...
Os augúrios ou auspícios tirados pela direcção para onde corre o fumo do corpo a arder, sobretudo se há orações ou mantras a elevarem-se para os céus, muito provavelmente aconteceram nas margens do Ganges como aqui nas do Tejo ("o Ganges também passa pela rua dos Douradores", Fernando Pessoa, Livro do Desassossego), quando o vimos subitamente, no meio do nosso diálogo sobre a convergência das religiões, a erguer-se direito, atraído para o alto...
A Brihadaranyaka Upanishad, que o António Barahona acabara de traduzir ou transcriar, para as Publicações Maitreya, e que eu levara para eventuais leituras-orações, na longa espera até nos entregarem as cinzas, passou de mãos em mãos até o António a dedicar...
Uma bela imagem deste poeta e espiritual, com o lenço da causa Palestiniana, após um longo e variado percurso espiritual,  hoje sendo um islâmico, sufi com o seu Pir ou Sheikh, e pai de nove filhos e dezenas de livros, poemas e traduções...
Imagens de horizontes simples mas muito cósmicos e imortalizantes...
Umas pequenas flores coloridas e odoríferas, brotando da relva verde e humilde da esperança, os muros e fronteiras entre os mundos e as árvores, que ligam a terra e o céu e são eixos do mundo, tal como nós nas nossas colunas vertebrais e aspirações espirituais...
Já de novo no centro de Lisboa, a grata sensação de levar uma alma em cima da aura, sobre o vaso com as cinzas que levo na mochila às costas e, subitamente, uma nuvem bela a aparecer sobre um vaso-urna, e o fogo da aspiração a religar os mundos, qual raio celestial bem flamejante...
Assim, que a alma que partiu esteja luminosa, desperta e a avançar para os melhores estados possíveis nos mundos espirituais, com as bênçãos dos Mestres e Anjos...

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