sábado, 17 de janeiro de 2015

Portal de Simetria. Symmetry's Portal. Margarida Sardinha. Centro Ismaili. Janeiro 2015


               No Centro Ismaili, de Lisboa, centro de confluência das melhores tradições de cultura e arte sagrada, religião e espiritualidade, quer nos materiais, formas e simetrias, quer nas intenções e realizações, símbolos e orientações, ecumenismo e adoração, encontra-se agora presente a exposição "Portal de Simetria", "Symmetry's Portal", de Margarida Sardinha, contendo um filme de geometrias animadas e 19 trabalhos fotográficos, a partir de fotografias digitais das riquezas estéticas e sacralizantes do palácio e jardins de Alhambra, ponto máximo da arquitectura islâmica na Península Ibérica, no Al Andaluz medieval ecuménico.
Convergem então para esta exposição reforçadamente vários filões entretecidos no tempo e que são ampliados e cristalizados em mil fulgurâncias de simetrias regulares e poliédricas, em cuja compreensão e manejo Margarida Sardinha é uma mestra, lídima sucessora de toda a tradição dos artesões e mestres de oficinas que, ao longo dos séculos, mantiveram com uma continuidade notável a arte geométrica, simples e perfeita, do Islão.

De 15 de Janeiro a 15 de Fevereiro poderá desfrutar desta valiosa exposição, que apela à nossa contemplação sentida e demorada, para que os arquétipos e poliedros geométricos, reagindo com os conteúdos psíquicos ou anímicos nossos, accionem as compreensões e sentimentos,  intuições e clarificações que nos impulsionarão mais luminosamente no Caminho e nos abrirão mais ao espírito e ao Divino.
Como já escrevera um texto para a exposição anterior (noutro post do blogue) e que foi publicado também na brochura desta exposição no Centro Ismaili (grato...), eis uma breve e poetico-espiritual revisitação de alguns dos excelentes trabalhos da Margarida Sardinha, a quem fazemos votos para que continue na senda da Beleza e da Verdade do Cosmos e dos Atributos Divinos...

Alida Akbarali, curadora do centro Ismaili,  e Margarida Sardinha... 

Parte da assistência
Margarida Sardinha justifica a sua exposição como artista, estudiosa das religiões comparadas e amante maravilhada da Alhambra, em cujos mosaicos, tal como nos templos Egípcios, e apenas neles, se encontram  os 17  modos ou formas possíveis de talhar a simetria no plano...
Trabalhos assentes em formas geométricas especiais, feitas meticulosamente pela Margarida Sardinha, a partir das fotografias de Alhambra, transportam-nos para os mundos da geometria sagrada subjacentes ao ordenamento do Cosmos pela sabedoria Divina, e impulsionam-nos na demanda da face luminosa,  que é testemunha de Deus, Shahadi, tão desenvolvida pelos filósofos místicos e sufis Persas e Islâmicos...
Caminharmos ao longo da vida cada vez mais para o centro divino, para a libertação da ignorância e do sofrimento, sempre foi a meta convergente, a qiblah, dos peregrinos e peregrinas, ou amantes, da Divindade, seja para Meca e a Ka'ba na peregrinação, seja para a gruta e pedra filosofal do coração (del) na oração-meditação...
Fazer do coração (del) templo, polir as arestas da personalidade, sempre tão oscilantes ou enovoadas, para que elas acolham e reflictam a Luz, o Amor e a Benção Divina, é certamente o alvo ou direcção, qiblah, da arte, da religião, da espiritualidade...
"O que está em cima é como o que está baixo, para se fazer o milagre da Unidade", afirmaram os herméticos de Alexandria, então cadinho de todas as civilizações... Feliz daquele que está  consciente da beleza e profundidade tanto do mundo físico como do espiritual e os une no seu olho e coração subtil e luminoso e os vive na grande alma do mundo entretecida por infinitas ondas e partículas, cordas e arcadas, nós e almas, graça e plenitude...

A vida é como um jogo da glória, um labirinto ou uma circunvalação (tawaf) e deves conservar um fio de prata que te oriente e axialize, ou que ligue com os que já chegaram ou estão no Centro, e então atravessarás mesmo as falésias e fracturas mais difíceis, ondulando  nas vibrações rítmicas e purificadoras e chegarás ou sentirás mesmo o centro, pilar ou eixo (Qutb) de ti mesmo e logo do mundo Angélico e Divino...

A contemplação das formas e essências perfeitas nos seres e nos mundos subtis e arquétipos exige uma vida ordenada, ou seja, que tu Microcomos estejas em harmonia como o Macrocosmos. Então acederás à taça do Graal (jam-e-jam) ou comunhão do Centro, do Coração, Del...
Do  centro e do Espírito, Ruh, e das mil refrações dos Atributos Divinos nas arcadas da manifestação e nos seres... Participa criativamente e harmoniosamente...
"Multiuniverso da mente", ou seja, embora coexistindo multiplos universos paralelos ou emaranhados um nos outros, tudo o que é visto depende da nossa perspectiva, pois o observador, ainda que limitado, influencia  o que é observado. E podes ainda estares consciente de estares a ser observado, visto ou mesmo amado de cima ou de dentro...
A nossa maneira e capacidade de ver é muito limitada e portanto ir levantando os véus da natureza, discriminando a essência da mutabilidade, abrindo o olho espiritual, intensificando a universalidade e a divindade no coração é essencial...
Rasga as tuas limitações e dependências, serena a mente.... Sê...
"A escuridão dos nós", ou como são muito subtis os laços que vamos tecendo e em que estamos entretecidos, uma verdadeira teia de interconectividades que ora se revela ora se oculta em múltiplas formas e sentimentos, planos e estados de ser, deixando vir ao de cima a Luz e a Presença da Unidade Divina (Tawid)...
Escolhe então bem os teus nós, com quem te ligas e ao que aspiras e o Divino brilhará mais em ti...
Qual Ka'ba, o cubo milenário, contendo o meteorito negro do céu, cada cubo, como forma perfeita do quaternário, contém todas as cores e planos e pode desdobrá-los e fazer-nos entrar ora em ondas ora  em coalescências particulares, eus, momentos, padrões... E é a mente e alma que se apreendem fluindo em diversos planos e estações (makamat), apelando e tendendo ao Divino de onde vieram...

"A relatividade da Luz"...  A Graça divina ou espiritual para brilhar em nós tem de encontrar uma face limpa, que espelhe a Luz (Nur) , na cor, iridiscência e frequência individual e que a cada um compete cultivar, com Sabedoria (Hikma) e Amor (Ishq)...
Seres de múltiplas facetas, milhões de átomos anímicos, sombras e luzes, linhas e formas, um emaranhamento belo e imenso na Unidade Divina, Wahdat al-Wajud...
Cada espírito (ruh) é lançado na roda da vida e em ziz-zague ou esforço da demanda aproxima-se mais ou menos do centro dela e de si mesmo, entrando em dimensões superiores, em estados ou estações (makamat) mais luminosos, no espaço infinito e perfeito da Seidade Divina...
"Ponto de Origem": procurar de onde vieste e para onde vais, é uma pergunta ou enigma que a todo o momento nos interpela e impulsiona para sabermos manter seja as melhores formas e faces, seja as mais clarificadoras ondulações, intenções e ligações, seja finalmente o Islão, que é fidelidade, abandono, submissão, união com o Ser Divino...
"A Progressão do Amor", ou no emaranhamento da vida, a estrela que inspira os caminhantes e que de quando em quando se revela na interioridade profunda, ou na mais elevada abóbada, alegrando-nos, iluminando-nos...
A estrela do Espírito, Ruh, é verdadeiramente a fonte do Amor (Ishq) em nós, a centelha espiritual de origem Divina, mas poucos a conseguem ver e ser, ainda que semi-conscientemente a sintam reverberar, mesmo que apenas nos padrões repetitivos da arte, e a sigam ou levem por um fio ou corda fractal...
Tu no teu coração.... Thou in thy heart, sir-e-sir, the secret of the secret, to be the star of the Spirit (ruh), in communion with the One in all, Wahdat al-Wajud...

Contempla-me,  medita, concentra-te bem fundo, ora e aspira, sê a estrela luminosa de cinco pontas. axializando-se no Divino...
"Coração desconhecido"... Sir-e-Sir é o nome dado pelos místicos Persas, Shias e Ismailis ao nível do coração (del) mais desconhecido, íntimo e Divino, o "Segredo do segredo"...

"Multiverso do som!... Wahi, a Divina revelação, a partir do "Kun", "Seja, faça-se", reverbera por todo o universo e chega-nos até aos ouvidos, olhos e corações nas ondas e partículas, sons e cantos,  inspirações e visões...
"Singularidade do espelho"...  Cada ser na sua singularidade é um espelho único da Divindade e nesta similitude vivida, em que O pode reflectir, testemunhar e manifestar, é verdadeiramente Divino... Daqui os cantos de amor que ecoam dos espíritos humanos pelo Amor e a Beleza da sua Fonte ou Origem...
Cada forma e ser abre-se sobre múltiplos planos.. Feliz  quem sabe penetrar harmoniosamente na interioridade deles e compreender a Inteligência ou Logos cósmico e sentir a beatitude da Unidade Divina, Wahdat...
No coração puro e transparente, nu e espelho sem poeiras nem véus, poderás ver reflectirem-se os mistérios dos mundo subtis e dos seres celestiais, e os atributos Divinos...
Toda a repetição dos padrões e dos sons ou orações visa harmonizar a tua dispersão mental e intensificar o teu olho espiritual, aquele que vê as formas sagradas e suas transmutações, ou a Luz divina...

"A órbita do Ovo cósmico"... Dos raios do teu coração e das bençãos dos guias, Imams e Profetas obterás a Luz (Nur) para te aventurares ou adentrares na compreensão das origens e destinos e logo na navegação rítmica e harmoniosa no Cosmos estelar do Ser Divino, que subjaz e plenifica a vida terrena, sombra da Sua Luz e Presença...
Como uma antena de radar aberta aos mundos distantes e ao Ser Divino (Allah), sabe alinhar-te com as correntes da terra e da humanidade, e sintonizar com o mais subtil e puro, e o teu coração (del) tornár-se-a um Jam-e-Jam, um cálice do mundo...
"Singularidade da lente" "Lens's singularity"....  Liberto das dispersões e imaginações, concentrado, torna-te mais consciente de que és um poliedro pentagonal, uma estrela (de cinco pontas) do céu na terra, ou um cristal florido da terra aspirando ao céu, e reflectirás serena e harmoniosamente o Divino, e serás um Seu amigo ou amiga, awliya...

Filme em três dimensões, e que graças as grelhas de fundo e aos sólidos em relevo, ou mesmo a uns óculos bipolares coloridos, e ao poema da Margarida, qual zikr ou mantra ecoando, permite uma entrada num mundo de profundidade e cosmicidade geométrica e numérica, rítmica e sagrada...

A fonte que jorra perenemente a água cristalina e fertilizante, no centro do centro Ismaili, transporta-nos para o jardim e  para o Paraíso, ergue-nos para a ligação com a Fonte Misericordiosa e Divina, refresca-nos a sede e aspiração de peregrinos e peregrinas e dá-nos a paz e as forças para avançarmos mais ligados à Divindade (Allah) e à Verdade (Al-Haq), fraternamente, na Beleza do Amor e Sabedoria, Poder e Misericórdia...




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