quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Com os Anjos e Arcanjos, sempre!

                                   
Ao começar o novo ano, ou em cada ano ou mesmo estação, "não a nós, não a nós" mas aos Anjos e à Divindade devemos consagrar as nossas primícias e graças, sentindo-os e invocando-os no nosso coração...
Entre as questões que o amor e o interesse pelos Anjos nos suscita estão as que se prendem com o seu estado normal, ou seja, quando de facto não lhes prestamos atenção nem nada lhes pedimos, onde se encontram, o que estão a fazer ou a ver ?
Se aceitarmos que eles estão acima de tudo ligados à Divindade, e que a sentem e amam a todo momento, então não haverá grandes dúvidas: estarão satisfeitos na comunhão-adoração-irradiação divina e que nunca saberemos bem se mais individualizada se também colectiva, ainda que seja natural haver ondulações ou momentos mais colectivos ou mesmo de Unidade e que nos transcendem completamente. E quando realmente o seu protegido se abre a eles então ainda mais felizes ficam porque a energia divina pode descer através deles para as pessoas e ambientes, sendo esta uma realidade que deveríamos visualizar e sentir mais já que é bastante operativa ou frutuosa.
Uma questão conexa seria a das relações entre eles e qual a frequência de falarem com outros anjos, ou comunicarem telepaticamente, diremos nós para usar uma expressão aproximativa da comunicação dos conteúdos anímicos directamente, e que nos parece muito racional e evidente. Na Bíblia, uma obra a ser lida sempre com muita cautela tal a complexidade das fontes originais e mistificações e os vários níveis em que poderá ser lida correctamente, fala-se de conversas ou mesmo lutas entre Arcanjos ou Anjos de cada país ou povo, tendo sido registadas ou pelo menos escritas por dois seres algo belicosos e não plenamente fiáveis, Daniel e S. Paulo, este na seminal carta aos Efésios, 6:10-12:«Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder./ Vistam toda a armadura de Deus para resistirem às ciladas do Diabo./ A nossa luta não é contra os seres humanos, mas contra poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais» Eis uma das principais fontes não só do dualismo angélico e que iria ter tanta fortuna até aos nossos dias, mas até da classificação hierárquica dos Anjos,  que o pseudo-Dionísio Aeropagita, também pseudamente discípulo de S. Paulo, mas que sabemos hoje ser do IV século, descreve nas suas obras,  desde então a grande autoridade em matéria de anjos, ainda que seja notório que o autor não tinha qualquer vivência angélica e especulou conciliando as emanações do neo-platonismo com a reduzida informação angélica proveniente do cristianismo.
Um Arcanjo de Guarda à espera de ...
  Sendo seres superiores ao ser humano na sua capacidade de percepção, actuação e conhecimento não faria sentido que estivessem isolados a sós com Deus e com os seus protegidos, tanto mais que nesta acção devem entender-se ou intercomunicar frequentemente com os Anjos da Guarda de outras pessoas. E também pela visão anímico-espiritual que estão dotadas plenamente, certamente que ao contemplarem os arquétipos divinos para a Terra, ou o plano para o Sistema Solar, certamente que desejam que tais visões e energias fecundem, inspirem e dinamizem tanto o Cosmos como os seres humanos que se abram a eles.
Talvez não seja por acaso que antigamente se recomendava começar qualquer obra com uma dedicação e invocação ao Anjo ou santo protector, à fada madrinha e à musa, pois ao fazer-se tal, como quando oramos ou meditamos, criamos um canal ascendente por onde se eleva a nossa aspiração e pode descer a informação, a energia ou a presença que receberemos como reminiscência ou memória, como sensação ou toque, audição ou som, intuição ou ideia, visão ou símbolo, força ou apoio, desvendação do guardião ou da Presença.
Duas são as asas com que o Anjo nos surge habitualmente, qualquer que seja a dimensão em que o vejamos e, embora elas sejam a imagem que captamos nos planos psico-espirituais e provenham das energias de ligação com a Divindade, pela sua dualidade podemos explicá-las como uma mais passiva e outra mais activa, e assim também nós as devemos desenvolver: a contemplativa, que adora, medita e recebe, e a activa que pensa, ama e se esforça. 
É por esta movimentação ascendente e descendente, vertical e horizontal que nos harmonizamos ou elevamos a merecer a Graça ou Luz Divina e que é então mediatizada pelo Anjo que se revela a nós ou que simplesmente infunde energias, compreensões, ensinamentos, impulsões....
Saibamos então meditar com o Anjo e os Arcanjos, com os antepassados e os Mestres e, nesse esforço, abrir-nos às melhores energias espirituais e bênçãos Divinas... 
Tenha na sua vida mais Paz e Justiça, Discernimento e Verdade, e maior reconhecimento e diálogo amoroso com os Anjos e Arcanjos... 
Que constantemente nos lembremos deles e assim atraiamos as suas bênçãos, em especial as curativas e pacificadoras....
                               

Shinto, o caminho do Espírito. Suas festas e evocações...

Recinto sagrado delimitado pelos bambus e o fio Kamimitchi, na subida ao monte sagrado de Omiwa. 2012. 
            Shinto, o caminho do Espírito.
 A concepção mais generalizada de Deus no Japão é bastante diferente da Ocidental pois ao contrário da ideia do Deus único, que as religiões do dito Livro revelado, o Judaísmo, Cristianismo e Islão, propagaram com maior ou menor proselitismo ou mesmo violência, o Shintoísmo aceita e pode chamar às suas cerimónias e cultos muitos ou todos os espíritos ou Kami do Universo e se por vezes realçam ou se consagram a um só ou a poucos, na religião popular, em grande parte consagrada ou efectivada em festividades sazonais ou cíclicas da Natureza, procura-se o maior número de seres divinos ou semideuses para que mais bênçãos ou energias acorram ou aconteçam no local e possam tanto beneficiar o alto como o baixo, os convidados como os que os celebram, além da região, campos e pessoas onde tal se efectua.
É certo que no Cristianismo e no Islão se desenvolveu um culto grande pelos santos ou mestres e que estes no fundo agem como semi-deuses para os seus discípulos ou para os que crêem neles, nisto se assemelhando ao Shintoismo que por sua vez torna ou consagra ao fim de algum tempo os que morreram já espíritos  divinos embora certamente que a diferença entre os Kami-pessoas e os grandes Kami divinos cosmológicos, mitológicos e naturais seja notória havendo uma hierarquia que se reflecte também na classificação dos próprios santuários em que em geral se veneram ou cultuam um ou mais Kamis. Mas há vários casos de pessoas importantes na história que passaram a ser Kamis, cultuados em santuários.
Amaterasu omi-kami, a divindade principal ou a mais bela face divina, deusa do Sol...
Uma das caracterizações ou definições mais citadas sobre os Kamis é a que os caracteriza como tudo o que pelas suas qualidades de excelência ou de extraordinário nos impressiona, e que portanto são míriades, infinitos...
Para vermos e compreendermos melhor a concretização de tal caracterização dos Kami ou Deuses Japoneses como miríades oiçamos então uma oração pronunciada nas festas cíclicas, neste caso na província de Mikawa, conforme N. Matsudaira as registou:
«A guardiã do Sol, o guardião da lua, no céu, o deus Bontentaishakou, em baixo os quatro grandes reis e a princesa Goro, os 84 deuses das tempestades, os 84 guardiões muito respeitáveis; que eles venham todos sem excepção.
Quando eles desçam e se banham, apareçam como neblina que ascende para a fonte das águas quentes.
Nós convidamos o grande deus do Oriente, Tarô. Convidamos o grande deus do Sul, Jiro. Convidamos o grande deus do Ocidente, Sabouro. Convidamos o grande deus do Norte, Shiro. Convidamos a grande deusa princesa do Centro, Gorô.
Nós convidamos os deuses da chuva, os deuses do vento, o deus Dainitchi, grande sol da gruta do céu.
Nós convidamos o deus do Caldeirão, Sabouro, a jovem deusa da paz, Miroumé; os deuses dos anos.
Nós convidamos das montanhas altas os viajantes dos cimos, os deuses viajantes das folhas e o grande deus do Dragão.
Fudo-Myo-o, divindade da sabedoria ardente, protectora das montanhas, quedas de água e seus amantes, proveniente do Budismo, Shintoismo e Taoísmo. Cultuado sobertudo pelos ascetas e peregrinos das montanhas,  Myo-o. Na imagem no monte sagrado de Omiwa, Agosto de 2012
Nós convidamos pelas árvores, o deus do espírito das árvores, pelas pedras, o deus Hakoujakoushin, o deus das trepadeiras, o deus das ervas, os deuses que de uma só vez deitam abaixo muitas folhas. O macaco que é chamado o deus Kongodoji. Os trinta deuses dos países do Ocidente para onde se dirigem os peregrinos, e convidamos os 10 mil deuses das montanhas. Para os rios, os oito deuses da água, para os caminho, o deus viajante, que venham todos sem excepção.
No céu, a luz do Sol e a luz da Lua, na Terra os deuses violentos da terra, o grande deus da Terra de altura de 240 metros, o deus médio da Terra de altura de 107 metros, Ebisou, Daikokou, os sete deuses da felicidade, que eles venham sem excepção.
Nós convidamos os 155.500 Kami dos templos das redondezas(...) Convidamos os espíritos que se aproximam daqui, os espíritos dos sacerdotes negui (os chefes), dos haori, das miodo (dançarinas), hakase, chishiki, ajari, os primeiros e os segundos sacerdotes, hastes que sobem do melão e regatos da vida.
Convidamos os kami que estão ligados pelo sangue bem como os que não estão mas que habitam o mundo do Espírito, que eles venham todos sem excepção"

Os Kami ou deuses chegam nesta cerimónia ao quadrado evocador, no exterior ou numa sala, delimitado por cinco bambus unidos pelo fio de palha por onde a energia circula proveniente das cinco direcções, e que tem um bambu e o caldeirão com água a ferver ao centro e por cima o quadrado de bambu e papel biyakke, simbolizando o céu e onde termina atado o fio de palha, denominado kamimitchi, caminho dos Kami,  assinalando a fonte celestial das energias.
As danças, as orações, as aspersões de água com os ramos da sakaki, a clyera, a árvore considerada mais sagrada ou mais condutora dos Kami, a participação preparada ascetica e intensamente, as oferendas, a aspiração e entusiasmo da comunidade fortemente unida, tudo conflui para uma intensificação e acumulação de energia divina nos seres que participam e é sobretudo pelo seu ritmo harmonioso que os Kami ou deuses estão mais presentes, irresistivelmente quase e derramam o seu imenso reiken, a graça divina, ou seja a energia que é a correcta e adequada à circunstância...
Saibamos nós nas nossas orações e evocações merecer as melhores graças do alto e das suas míriades de seres luminosos....

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Bô Yin Râ, by Rom Landau, em 1935

                                     
                    Rom Landau, um ser em busca do Ser Divino.... 

Num capítulo do livro Deus é a minha aventura, no qual R. Landau descreve os seu encontros com alguns mestres ou sábios, de Gurdjieff a Rudolf Steiner passando por Keyserling e Krishamurti, e publicado em 1935, encontramos uma apreciação e biografia de Bô Yin Râ que vamos publicar aqui da versão inglesa, havendo ainda tradução francesa.

From the book God is my Adventure (1935) by Rom Landau, (Romauld (Rom) (1899–1974), we can read as presentation that «He was born in Poland, but later became a British citizen whilst serving as a volunteer in the Royal Air Force during the Second World War. He was a sculptor, author, educator, Foreign Service officer, and a specialist on Arab and Islamic culture. His particular area of interest was Morocco. He was also an art critic and book reviewer for several newspapers and periodicals».

CHAPTER II 
EPISODES IN MODERN LIFE 
Stefan George and Bô Yin Râ 
(...)
«The editor of a newspaper to which I was a contributor one day handed me a slender volume, bound in red paper, and asked me whether I would care to write a review of it. He thought that I might be interested in 'that sort of thing* (Esoteric, having a secret meaning. Esoteric teaching is only given to initiates or specially prepared disciples). One or two other people in the editorial office had refused to write the review, and the editor himself felt that he could not deal with it. The book had been sent personally to the editor by its author, Felix Weingartner, the celebrated composer and conductor. The editor had a greater admiration for Herr Weingartner's musical gifts than for his spiritual and literary activities, which left him slightly bewildered. The book was called Bô Yin Râ, and I took it home to read.
The three syllables Bô Yin Râ meant nothing to me at the time, but Herr Weingartner's name was a guarantee that some quality might be expected. The book contained the story of the conversion to a new creed of one of the most distinguished musicians of the day, together with an enthusiastic account of that creed and of its founder, hidden behind the exotic name Bô Yin Râ. Even before I had finished the book I knew that I should not forget it easily, and I bought several of Bô Yin Râ's own books. Instead of writing the usual notice I asked the editor if I might write a review of four columns, though even that length I thought at the time inadequate, and I was therefore not surprised when within a year after I had first come across the name of Bo Yin Ra I learned that his books had become best sellers. 
Most people were intrigued by the exotic name, while others were puzzled by the semi-mystical and very modern pictures with which some of the books were illustrated. It was plain from these pictures that the author was also a painter of some distinction. It was impossible to verify who he was, and though Herr Weingartner wrote to me at great length he would not disclose anything about the identity of his hero. 
There was no school, Church or movement that bore the name of Bô Yin Râ. His message was contained in his little books, read with eagerness by thousands of Germans. The Book of the Living God, The Secret, The Book of Man all of them were variations on a theme. They were meeting more than halfway the spiritual needs of a disillusioned nation, eager to forget the misery of daily life. 
Bô Yin Râ's gospel might not have been accepted so willingly had it not contained various statements that suggested in his case the posession of esoteric knowledge. The promise or even the possibility of such knowledge never fails to interest people. The more serious student hopes to find in it the core of certain teachings, hidden from the layman but apparently in existence since time immemorial; in the masses it evokes visions of supernatural power. 
Bô Yin Râ claimed that his store of knowledge came from the same source as did some of the most ancient wisdoms. In several publications he was referred to as a 'Master', and he was supposed to be in constant spiritual communication with certain other 'Masters' who transmitted their secret knowledge to him. These 'Masters' were referred to as 'Sages of the East' or the 'Inner Helpers'. Though it was impossible at the time to understand fully what all such claims entailed, Bô Yin Râ at least seemed an honest man who believed in the truth of his statements.
His teaching was neither new nor startling, but it was sound, and it contained certain fundamental truths. Its main thesis was that we can find true and lasting happiness only within ourselves, and that we must abandon the search for it in the world without. The moment we begin to listen with greater attention to ourselves we uncover those spiritual powers that create happiness. Although happiness was a definite command in Bô Yin Râ's doctrine, he did not base it on any asceticism or self-denial, but on a sensible and deliberate acceptance of life, on honest and decent living and on the absolute elimination of fear. 
Bô Yin Râ did not consider himself a new prophet or messiah, but the 'mediator' between higher powers and man, who cannot find happiness in life. His object was not to persuade people but merely to stimulate those faculties in them that are needed for the establishment of an inner harmony. 
Bo Yin Ra's success was not surprising. In an existence with little material security and with just as little hope for immediate improvement, his gospel was bound to find many adherents. Most of the other new gods Freud with his sublimations and complexes, Keyserling with his 'sense of life' and 'replacement of accents', Einstein with his incomprehensible relativity, Spengler with his intellectual pessimism, George with his poetic visions, Steiner with his startling scientific perceptions could not be enjoyed without intellectual preparation. Bô Yin Râ was easy to understand. The style of his books was almost that of books for children; no religious or intellectual conversion was required; his kind of happiness could be achieved by the rich and by the poor. Above all, he appealed to the emotions. In a way Bô Yin Râ did for many Germans what Dr. Frank Buchman tried to do ten years later for certain sections of the British public.
It did not come as a surprise to me when I found out later that Bo Yin Ra was a Bavarian painter with the prosaic name of Herr Joseph Schneiderfranken. 
                               
Joseph Schneiderfranken was born in 1876 at Aschaffenburg in Bavaria. After various manual occupations he found the means to study painting in Munich and in Paris. He lived for a while in Greece, married, became the head of a large family, and settled down in Switzerland. He did not begin writing till he was forty, and he based his whole teaching solely on personal experience without any relation to existing doctrines or religions. He claimed that his name was not arbitrary, but that it was given to him by his ' Masters' for reasons connected with its esoteric meaning. 
Though the majority of his admirers suspected behind his name a rather picturesque mystic, they responded in the first instance to that honest and unsophisticated ring in his words that never fails to appeal to the expectations common in all men. Even in his appearance Bô Yin Râ inspired confidence. He was big and heavy, rather rough cut, of peasant features and yet of gentle expression. One easily believed that he loved few things better than climbing high mountains, planting trees in his garden, or performing manual work. 
In the artificial, hectic life of post-war Germany the simple message of Bô Yin Râ was like a refreshing breeze. It satisfied certain emotions that had not found realization in any of the other creeds. We all have a first awakening in life when we turn away from our youthful egotism and feel the desire to be decent and unselfish, to help others and to create harmony within. Bô Yin Râ appealed to those instincts. 
But such instincts soon lose their power if the foundations of the message that satisfies them are solely emotional. After a period of enthusiasm I felt, like many others, that Bo Yin Ra's doctrine was of too general a kind and that it did not satisfy the intellectual thirst. An inner transformation that touches the emotions without affecting the intellect cannot last. Nevertheless I was grateful for the laziness of my colleagues which brought me into touch with the Bavarian peasant painter Bô Yin Râ.»

Shall we agree with Rom Landau when he says that Bô Yin Râ teaching appealed just to the instints of to be decent and unselfishness, with such a deep and difficult spiritual realization much beyond merely ethic values? Surely not. Rom Landau was to much far away from the inner path...
Shall we agree with Rom Landau when he says that the foundations of Bò Yn Rã teachings are only emotional? Surely not. We can not confound a strong affirmation that awakens emotions in the ones who read it, with the inner spiritual teaching that is shared. 
Rom Landau also has not seen that the intelectual thirst and the spiritual thirst are not satisfied by the same ways and pratices or lectures. The spiritual path is to be done by hands and feets and discovered by the spiritual senses, not by the intelect and readings.
"The bavarian peasant painter" seems to come from a bit superior social position, not to be expected at this level of spiritual realization...
Open you spiritual eye, and see...
                         

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Fernando Pessoa e o Natal.

                                                                           
Em Fernando Pessoa as múltiplas fases de estudo, polémica e compreensão de quem fora Jesus e o que era a religião Católica estão assinaladas em centenas de páginas de textos e de poemas, alguns  deles quanto às suas festividades, tais as dos Santos populares ou a do Natal.
Oiçamo-lo  então neste texto mais acerca da Natividade:

«Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.»

Saiu na revista Contemporânea, nº 6. Lisboa, Dezembro de 1922.
Comentário:
Revela certa descrença na dita evolução religiosa da Humanidade, apenas nomes e fés que mudam. E descrença ainda que pela Ciência se possa chegar a Deus. Assim o que se pensa e se nomeia fica apenas como palavras, pois tudo é oculto, tudo tem tantos níveis que chegar Deus dificílimo é apenas alguns o tentam com as qualificações necessárias. 
Quanto ao conseguirem-no, embora Fernando Pessoa tenha afirmado que os místicos tentam passar o abismo que nos separa da Divindade, descrê dessa possibilidade. Contudo, em alguns textos Fernando Pessoa afirma que a Humanidade apenas pode contactar com os Espíritos celestiais e eventualmente chegar o conhecimento e união com o Cristo, segunda Pessoa ou aspecto da Divindade. E num ou outro, ainda mais raro, admite a união do espírito ou mónada humana com a Divindade, em nós...
                                       

«Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!»

Saíu no Notícias Ilustrado, nº 29. 30/12/1928.

Comentário: Neste poema Fernando Pessoa deixa falar a sua alma saudosa da sensação de família pois a sua mãe morrera em 1925 e a partir daí mais só se sentiu... 
O lar que nunca terei tem também um sabor patético ou semi-trágico, embora desde 1920, quando a mãe regressara da Africa de Sul, vivesse num andar alugado, com ela, na que de certo modo foi a sua casa na rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique (hoje casa-museu Fernando Pessoa) até ao fim da vida. Mas com o lar certamente se refere à mulher, à família, que poderia ter tido com Ofélia Queiroz. Todavia o seu destino de escritor solitário repudiaria tal hipótese, duas vezes, até por cartas que sinalizaram o fim dos namoros.
De realçar os sentimentos passados, os entes queridos e que são lembrados no calor do lar face à neve exterior.
O lar e os lares, a pedra da fogueira e os espíritos ancestrais da família. Um psicomorfismo muito sentido pelos portugueses, de comunhão para além da morte até.
                                  
25/12/1930
«Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.»

Comentários: De realçar a pobreza, ou austeridade, ou sobriedade ou o gelo, de estar com frio gélido nos pés, algo que os que escrevem no Inverno e não usam aquecedores bem conhecem...
                                           
E terminemos com um texto não datado mas provavelmente dos anos 30 e do Livro do Desassossego:
«Mais «pensamentos».
Dia de Natal (Humanismo. A «realidade» do Natal é subjectiva. Sim, no meu ser, a emoção, como veio, passou. Mas um momento convivi com as esperanças e as emoções de gerações inúmeras, com as imaginações mortas de toda uma linhagem morta de místicos. Natal em mim!)»
Comentário:
Um texto algo desiludido de Fernando Pessoa em relação ao Natal, que mesmo assim consegue sentir emotivamente na esperança que rodeia as horas anteriores e nas emoções no momento das celebrações ou festas e misticamente nessa comunhão dos mortos, no corpo místico da humanidade, linhagem de místicos mortos, mas vivos ainda, diremos.
Sente tal como um convívio com a tradição mística cristã mas que contudo considera como imaginações mortas e de uma linhagem morta de místicos, seja nele próprio seja à sua volta. 
E é provável que ele estava a pensar que mesmo na Humanidade tal linhagem de místicos cristãos estava morta. Embora certamente sempre houve e haverá místicos do Cristianismo como das outras religiões, cujas forças ou espíritos continuam a inspirar pessoas.
Vibre então nestes dias mais plena ou misticamente na sua aspiração à luz e ao amor, e a uma maior comunhão com os espíritos celestiais, os anjos e arcanjos, e com a Divindade, sem esquecer aqueles que já partiram, tal como Fernando Pessoa, ou que estão distantes mas que afluem à ara quente do Lar ou dela recebem energias luminosas quando todos se reúnem fraterna e sabiamente...
                             

Natal de 2015 e alguns dos seus sentidos. 24/12/2015


Pintura de Bô Yin Râ...
O nascimento simbólico de Jesus, ou de um mais pleno filho de Deus,  tornou-se no Ocidente desde há muito uma tripla animação: a consumista, a amorosa, em geral familiar mas também em abnegada solidariedade, e a espiritual, variando na proporção da constituição anímica das pessoas a percentagem do envolvimento que cada ser dispensa e atrai e consequentemente a coloração aurica e a emergência do seu ser e corpo espiritual...
Nestes tempos de tanta crise e sofrimento mundial, por culpa de certos sectores bem evidentes, é de certo modo de se admirar aqueles que continuam a erguer árvores de Natal ou iluminações ou a comprar e a trocar presentes ou boas-festas, pois ou vivem num mundo bastante alienado do que se está a passar na realidade ou então, estando bem conscientes das forças negativas que se derramam sobre a Humanidade, resolvem mesmo assim celebrar os rituais que unem pessoas, familias, religiões e até nesses momentos trocar ideias, discernir melhor ou até juntar forças e clarificar...



Mother Russia and the Holy Father bless you on your striving for peace, freedom and justice, love, knowledge and harmony...
A Santa Rússia e o Santo Papa desejam que os cidadãos Ocidentais abram os olhos e não se deixem manipular tanto pelos seus dirigentes, seja para pagar as dívidas fraudulentas dos bancos seja para sustentar o imperialismo Norte-americano, da Nato, e turco, arabico-saudita e outros....
Pax...Lux...Amor...
E que o Natal e o Ano Novo, além do convívio humano e da meditação e comunhão divina, sejam então de despertar histórico, político, social e ecológico para o bem da Terra e dos seus seres...



"Lucerna corporis est oculus: si igitur oculus tuus simplex fuerit, totum corpus tuum lucidum erit"

"A lâmpada ou lucerna do teu corpo é o olho: portanto se o teu olho for simples, concentrado ou uno então todo o teu corpo psico-somático será luminoso, brilhante, claro ou lúcido..."

Evangelho segundo S. Mateus, cap. VII, v. 22. (Utilizei a versão de Erasmo de Roterdão, na linha de Pico della Mirandola, Ficino, Erasmo, Góis e Pina Martins

Evangelho de S. Tomé: Disse Jesus: «Se vos disserem, aqueles que atraem o vosso coração: eis, o Reino está no céu, então as aves antecederam-vos no céu; se vos disserem: ele está no mar, então os peixes antecederam-vos. Mas o Reino está (é o vosso) no vosso interior e ele está (é) no vosso exterior. Quando vos reconhecerdes, então sereis conhecidos, e sabereis (realizareis) que vós sois os filhos do Pai Vivo.  Mas se não vos reconhecerdes, então estareis numa pobreza, e sereis vós próprios a pobreza.»

Esta noite de Natal tem pois a vertente não só de religação convivial familiar mas também espiritual, sendo esta de invocação de mais consciência e Luz do Espírito, a qual pode ser vista no olho espiritual, referido no texto evangélico Simultaneamente há a nossa abertura e aspiração amorosa à Divindade em nós, à nossa volta (ou exterior, no texto) e na Divindade em si mesma...
Não se deixe assim ficar só nos diálogos do banquete mas acenda algumas velas e suba a escadaria da aspiração e de irradiação na sua árvore vertebral  pela respiração e a meditação de auto-conhecimento e de harmonização ambiental e espiritual...
Bom convívio então também na palavra e leitura, oração e meditação, o canto e comunhão (ardente ou amorosa) com os antepassados de sangue e de alma, a Humanidade, o Anjo da Guarda, o Arcanjo nacional, e a Divindade e as suas Faces e Amigos...


Pintura de Zurbaran, 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Solstício do Inverno de 2015. Nuvens e Espíritos em acção na transição


Epifanias luminosas
Em frente à casa onde nasceu Fernando Pessoa, sobre o São Carlos, encontros de nuvens poderosas. 15/12

As nuvens e os espíritos da Natureza e Celestiais já começaram a fazer a transição para a nova estação: o próximo Solstício de Inverno, o de 2015 será Terça, 22 de Dezembro, às 4:48 m. 
Esteja atento, e poderá ver belos nascer e pôr do sol, ou mesmo algumas nuvens mais intervencionadas pelo alto, por ventos e por luzes subtis. E, claro, jejue um pouco e medite mais nessa noite e madrugada, morrendo e renascendo alinhada e inspiradamente...


Convergências para o espaço central onde afluem as energias do céu atraídas: casa do nascimento do Fernando Pessoa e teatro e ópera São Carlos, palco de tantos momentos vibrantes. Resta saber quais serão eles (os mais intensificados, ou carregados, ou alados) em Lisboa 
Arcadas do S. Carlos, lampiões e nesgas para o infinito
O largo da aldeia ( e casa) onde nasceu Fernando Pessoa ouvindo os sinos da igreja a tocar. Com uma escultura moderna que poderia ser mellhor. Era o dia 15/12/2015
Quantas pessoas sabem recarregar-se de energias com as nuvens electrizadas e luminosas?
Aqui pelo menos a Ana Luzia e eu trabalhamos um pouco tal sintonização...
Muitos riscos de aviões a jacto, algo suspeitos por serem fora das rotas usuais, já no dia 17/12
Céu do Largo Camões riscado, expandido e ondulado 
Novas carreiras de aviões oferecem cruzamentos em x sobre o coração de Lisboa e dos alfacinhas distraídos...
8:30 da manhã, já de 19/12. Muito belas e variadas as nuvens. Nascente.
Sul, sobre o Tejo.... Tantas sugestões de expansões ou de identificações...
Ocidente ou poente, suave...
Sueste, com três tipos de nuvens
Abertura para o azul celestial por entre texturas tão variadas de nuvens e pensamentos
Respirar fundo e entrar, expandir e ser...
Curvas para o infinito, expandir a alma, nadar no Oceano Cósmico, recuperar a identidade perdida...
9:40, ruas da Madragoa e suas nuvens em encontros
Bairo Alto: alinhamentos verticais, ao fundo gaivotas
Gaivotas em terra e de vigia, estarmos atentos aos ventos, correntes astrais e acontecimentos
11:00 Rua do Alecrim e o Tejo com as invisíveis Tágides, no longe perto...
Céu aberto na Terra...
Epifanias luminosas
Parqueamentos na orla do Tejo, condenados um dia a serem ocupados com que tipo de construções e para quem e o quê?
Tantos planos, cores e seres que se interseccionam, no amplo céu e nas projecções das mentes humanas
Derramamentos da resplandescente Luz.... Divina...
As pessoas caminham envoltas em reacções horizontais e esquecem-se da sua natureza espiritual e cósmica...
Desperta mais: és um espírito...


Os Anjos irradiam o Divino 

Quando o Céu nos beija, ou quando nós irradiamos mais amor do coração e pela boca e voz...
Graças às  Três Graças e não só...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Luísa Ferreira, Sónia Serrano e Luís Brito, Conversa na CAL, casa da América Latina.

A Casa da América Latina apresentou, de 7 de Outubro a 18 de Dezembro, a exposição fotográfica “Increíble”, da fotógrafa portuguesa Luísa Ferreira. E a 17 aconteceu um diálogo.


No cartaz, duas fotografias bem caracterizadoras da especialidade do olhar enquadrante e fotográfico da Luísa: a arquitectura, com as  suas linhas de força e luz, expansão e convergência, e as pessoas na sua intensidade  anímica e facial do momento único, que é frequentemente a fotografia, bem na linha do ichi go, ichi-e, o encontro único,  do Japão, onde a Luísa certamente se sentiria às mil maravilhas e donde enriqueceria muito a Fotografia Portuguesa do Oriente...

      A exposição reuniu várias fotografias registadas pela fotojornalista numa viagem de quatro dias e meio à Cidade do México. A Inauguração foi no dia 7 de Outubro e a 17 de Dezembro ocorreu um animado diálogo sobre viagem e fotografia.

Uma assistência atenta e, no fim, dialogante ouviu, vizualizou e assimilou o que se foi debatendo sobre o que leva as pessoas a viajarem, se a insatisfação se a mera necessidade de viajar, com preparação ou sem preparação, e a fotografarem e como o fazem...

O anúncio da Casa da América Latina dizia assim:
«Esta sessão pretende reflectir sobre os desafios do fotógrafo hoje. As inovações tecnológicas do mundo em que vivemos se reflectem na vida quotidiana das pessoas. Para muitas delas, fotografar passa a ser um gesto automático e as imagens uma forma de expressão, se pensarmos na adesão crescente a redes sociais criadas com esse propósito.  
Ao longo de duas horas, vamos conversar com Luísa Ferreira sobre cultura visual e fotografia de viagem, um género ameaçado (ou não) pela banalização da imagem, e o que distingue a boa fotografia das demais. A conversa terá ainda a participação da investigadora Sónia Serrano e do escritor Luís Brito. Emília Tavares, curadora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, será a moderadora da conversa.»
Esta foi também uma oportunidade para visitar a exposição de Luísa na CAL, "Quatro días e meio - Increíble", que terminava no dia seguinte».

Sónia Serrano, investigadora das viagens pioneiras de mulheres, tendo recentemente publicado na Tinta da China "Mulheres Viajantes" e Luís Brito,  que publicou o Alcatrão, com reltaos de viagens pelos vários continetes, há pouco com 4 meses e tal da Índia, testemunharam bem as suas visões, conceitos e experiências. Ao centro, a tão sensivel quão experiente e amiga Luísa Ferreira, com quem já expuz  na Galeria Novo Século do Carlos Barroco e da Nadia, conta como por vezes consegue viajar sem fotografar ainda que esteja sempre a ver os enquadramentos do que a rodeia.

Emília Tavares, curadora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, foi uma calma e sábia moderadora da conversa.
Uma outra viajante e escritora, ou sobretudo boa desenhadora, Desenhos de Animais, na América do Sul, tendo o seu livro circulado por entre a assistência.
Ao lado da escritora, a ilustre amiga Eva Tuuhea, também boa viajante e dialogante.
A noite fendida pelas luzes no cais da Rocha de Óbidos, onde Fernando Pessoa e Álvaro de Campos gostavam de se inspirar ou entusiasmar em sensacionismos ou interseccionismos que ficaram em poemas famosos, tal a Chuva Obliqua, sem dúvida o mais conseguido dessa escola ou metodologia...


E como intervi bastante no diálogo final, narrando, a propósito da maior ou menor facilidade de viajar nos dias de hoje, ou se ainda há lugares desconhecidos, ou que tipo Absoluto nos atrai, alguns aspectos das peregrinações que fiz, eis uma fotografia minha em jovem, da segunda vez que fui por terra até à Índia e peregrinei à casa e ashram de Nicholas Roerich, mestre do Agni Yoga e notável pintor, em Kulu Valley, norte da Índia.