segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Bô Yin Râ, biografia, ensinamentos e homenagem nos seus 138 anos de nascimento.

                               Homenagem ao mestre Bô Yin Râ

                                

Bô Yin Râ, aliás Joseph Anton Schneiderfranken, nasceu em Aschaffenburg, perto de Frankfurt am Main, em 25 de Novembro de 1876, às 2:00 da manhã,  numa família de agricultores e artesões tendo sido obrigado a terminar os estudos secundários e a trabalhar como torneiro mecânico por dificuldades familiares durante dois anos. Mas conseguiu inscrever-se e estudar três semestres  de 1892 a 1895 no Instituto de Artes Estaduais em Frankfurt, sendo  apoiado por dois notáveis pintores,  Hans Thoma (1839-1904), que o tomou por discípulo durante ano e meio gratuitamente, e Max Klinger (1857-1920), que apreciou muito a sua visão espiritual pictográfica. 


Formou-se finalmente em 1899. Estudou depois pintura em Viena de 1900 a 1901, em Berlim, de 1904 a 1908, sendo em Leipzig a sua 1ª exposição de gravuras e desenhos a lápis em 1906. De 1909 a 1912 vive e pinta em Munique. 
Em 1903 casara-se com Irma Schönfeld (nascida em 1876) de Viena, mas que, de saúde frágil, diabética, morreu cedo, em 1915 e sem descendência.

                                      

Em 1912 e 1913 está na Grécia, pintando uma série naturalista, e é então que recebe o contacto com um mestre oriental que o inicia com o nome de Bô Yin Râ, começando então  a enviar para Leipzig os seus primeiros livros espirituais, o primeiro intitulado Luz de Himavat, e serão quatro publicados por Hugo Vollrat. Regressa a Munique onde vive até ao começo da I Grande Guerra, com uma ida pelo menos a Paris onde foi apresentado a René Guénon por Hiran Sing (ou Swami Narad Mani, um indiano muito crítico da Teosofia e de Blavatsky) como sendo o único representante na Europa de uma importante fraternidade espiritual oriental.
Alistado no Exército serve na Prússia e depois é colocado em 1917 na Silésia, em Görlitz, servindo de intérprete dos presos gregos e  casando-se em 1918 com Helene Hoffmann (1887-1978), de Görlitz, cujo marido morrera na guerra e que já tinha duas filhas Ria  (1909) e Ilse (1912), nascendo do casal, em 1919, Devadatti (que ainda visitei na casa de seu pai, nos anos 90).

 Em 1919 publica através de Kurt Wolff em Leipzig, na sua Verlag der Weissen Bücher, o seu 1º grande livro Das Buch vom Leben Gott, da série que intitulará Jardim Fechado, Hortus Conclusus,  com prefácio de Gustave Meyrink (1868-1932). Posteriormente o prefácio será retirado. Funda em 1920 uma Sociedade Jakob Böhme (1575-1624), onde expõe em 1921 vinte e duas pinturas de vistas ou perspectivas dos mundos espirituais, a que ele chamou "quadros metafísicos", fundados numa experiência espiritual, e que virão a ser incluídas no livro Welten.
Em 1923 retira-se para Horgen, junto ao lago de Zurique, com a família, mudando-se em 1925 para Svizzera, na margem do lago Lugano, na Suíça, onde residiu, com Helene e as três filhas, publicando as suas numerosas obras com bastante sucesso e atraindo até si pessoas como o compositor Robert Winspeare and Rudolf Schot, que serão dois dos seus biógrafos, além do seu fiel amigo Alfred Kober (1885-1963) e editor de Basileia, autor de Meine Stellung zu Bô Yin Râ, em 1930, e Weshalb Bô Yin Râ? em 1931, o músicos e compositores Eugen d’Albert (1864-1932), Egon Wellesz (1885-1974) e Felix Weingartner (1863-1942), entre outros, tais como Otto Hellmut Lienert (1897-1965), autor também de curta biografia.
Mas como o sucesso tinha levado algumas pessoas a deixarem as igrejas, atraídas pelo seu misticismo e liberdade, isso incomodou a Igreja Protestante e há documentos internos da Apologetishe Centrale com referências aos aspectos que não gostavam do seu ensinamento, já que  provinha  de um falso guru ou profeta que ao igualar Jesus a um mestre, e ao considerar-se um seu mensageiro, negando a visão tradicional do  pecado original e da redenção realizada por Jesus Cristo estaria a perverter o Cristianismo. Há contudo também cartas de crentes comunicando que tinham tido uma experiência viva de Deus graças a ele. 
Era uma época complexa para o ocultismo e a espiritualidade, bem retratada numa obra recente de Corinna Treitel, A Science for the Soul: Occultism and the Genesis of the German Modern, havendo muita desconfiança e repressão que se acentuará com o erguer do nacional socialismo, levando à perseguição de grupos ou pessoas, entre os quais alguns ligados  a Bô Yin Râ, que contudo permanecerá a salvo na Suíça até abandonar a cena terrestre em 14 de Fevereiro de 1943, deixando como seu legado gravuras, desenhos, duzentas pinturas, quarenta livros e algumas cartas.

                                  

Foi pois na Grécia que se encontrou com o mestre oriental que o iniciou espiritualmente (que aliás já o teria visitado em criança), e é  após este acontecimento e vivência que as suas pinturas passam a revelar uma especial profundidade de visão e que a sua experiência espiritual começa a ser transmitida em livros, surgindo o primeiro em 1919 e o trigésimo segundo em 1936, o qual fecha o seu Hortus Conclusus, havendo ainda oito sobre arte e cultura, perfazendo os quarenta publicados.
Num dos últimos livros que publicou Briefen an Einen und viele, Cartas a um e a muitos, explica como a correspondência que mantinha com os seus leitores o absorveu muito e, com o trabalho de escrever os livros e o pintar, o foi desgastando, nomeadamente na mão, vendo-se forçado a terminar tal e preferindo com tal livro transcrever as principais cartas e acrescentar alguns ensinamentos.

                                       

O ensinamento de Bô Yin Râ é inegavelmente de primeira qualidade, a mesma que sentimos nos grandes Mestres da Humanidade, que ele  afirma serem seus irmãos na  Fraternidade de Radiantes da Arqui-Luz, considerando-os necessários ou essenciais no caminho espiritual de todos os seres humanos, pois eles são pontes ou pontífices, ajudantes ou guias para o mundo espiritual e divino. 

                           

A certeza que as obras e pinturas transmitem, a claridade que trazem, a harmonia poética e mágica com que as suas palavras ressoam, as impulsões que lançam, tudo contribui para considerarmos a sua obra como das mais valiosas sobre os mistérios da vida, e encontramos nela uma valiosa descrição do caminho espiritual e da ligação a Deus, certamente difícil de ser realizada, mas verdadeira e prática... 

                           

A sua extensa obra de trinta e dois livros, o  Hortus Conclusus, de profundos mas simples e claros ensinamentos sobre a Realidade Última e Primordial e os caminhos para lá se chegar, para nela se estar mais, assenta no que ele nos diz no seu folheto Sobre os meus Escritos: «Eu comunico o meu conhecimento experimental das raízes do homem terrestre numa esfera de forças “espirituais” substanciais,  inacessível aos sentidos físicos mas alcançável duma maneira “sensível”, esfera na qual a consciência individual do ser humano pode já despertar nesta vida corporal terrestre, mas na qual despertará inevitavelmente assim que a sua existência terrena termine.

Comunico o meu conhecimento experimental da hierarquia de ajudas espirituais individuais, que parte do Arqui-centro mesmo da esfera das forças espirituais, que desce até à humanidade deste planeta e que se manifesta por certos homens preparados para esta missão já antes do seu nascimento terrestre. 

Comunico o meu conhecimento experimental relativo à possibilidade de entrar em ligação espiritual com esta hierarquia, e mostro o caminho a seguir para se chegar aí. 

Comunico finalmente de que maneira adquiri a experiência que me era acessível e porque é que eu devia chegar a ela».... 

Numa época em que são tantos os cegos guias de cegos, ou os fiéis estagnados nas suas religiões, e em que é tão grande o carnaval ocultista, a manipulação das seitas, a imaginação das canalizações, as superficialidades nas auto-ajudas, este ensinamento certamente será muito útil, ajudando as pessoas tanto a aprofundarem as suas religiões como a discernirem melhor o caminho real que as conduz à sua realização própria e à união com Deus.
Se houve muita gente valiosa a crer em Bô Yin Râ, como alguns dos seus ensinamentos eram difíceis, nomeadamente o ataque forte que fez contra a Teosofia e os seus princípios do Karma e da reincarnação e contra a fundadora Helena Petrovna Blavastky considerando-a mais uma sonâmbula de que em contacto verdadeiro com os mestres, surgiram oposições. Também a sua afirmação de que a mulher em si não está capacitada intrinsecamente para atingir a mais alta realização na Terra, suscitou reacções. Dos esoteristas devemos destacar as críticas de René Guénon que considerava o seu ensinamento fraco e que não levaria a um nível elevado, algo que Julio Evola também afirmaria. Contudo, os três estavam de acordo nas críticas à Teosofia e aos seus dirigentes, algo que Gustave Meyrink também subscrevia.

                              

Seguem-se alguns ensinamentos segundo o que Bô Yin Râ escreveu e eu compreendi ou assimilei:
O caminho espiritual é basicamente o do auto-conhecimento, o do controle e unificação dos atómos e forças anímicas sob a vontade única de nós mesmos, a que se abre ou cumpre a Divina,
Para isto é preciso uma longa e perseverante escuta de nós próprios até que as flores de lótus da nossa alma se abram à luz do alto e particularmente ao nosso Anjo da Guarda ou Mestre. 
Uma vida justa, de trabalho consciente, de afectividade e humanidade devem ser acompanhadas de uma prática diária de meditação, de escuta interior, de aspiração a Deus para que possamos ir avançando na ligação e união primeiro ao espírito e depois a Ele, e vamos assim reforçando a nossa sintonização com a realidade espiritual em nós e no Universo.
Não é pela alimentação, a respiração, a sexualidade, as drogas, os mantras, a especulação filosófica, a carga erudita cerebral, o fanatismo, a auto-sugestão que tal se consegue mas sim por uma vida dinâmica e desprendida, uma unificação anímica que nos dê o domínio harmonioso dos desejos e pensamentos, uma vida sob a orientação ou aspiração da ligação a Deus, e com  o silêncio ou auto-consciência proporcionadora do sentir interior do espírito, ou seja, de uma perseverante maior revelação espiritual... 
O caminho espiritual é portanto uma vida harmoniosa realizada com mais consciência do ser espiritual em nós, um alargamento da dimensão dos nossos sentidos psico-espirituais - que se abrem então para os mundos espirituais - e uma inserção criativa na fraternidade da humanidade e dos Mestres, uma vivência do Espírito Eterno nas nossa  interioridade, no coração e em interação não egoísta com os outros.
                                
Não é pela abertura a espíritos desencarnados ou a extraterrestres mas pelo silêncio e a escuta interior que os pensamentos e sentimentos subtis dos mundos espirituais nos podem chegar e inspirar. 
É o culto da voz da consciência, do Génio ou Daimon de Sócrates e que entre nós Antero de Quental recomendava, por exemplo, numa das suas mais belas cartas escrita ao poeta e viajante Fernando Leal, curiosamente casado com uma irmã da minha bisavó, e que é no fundo a sintonização e audição da Palavra, do Verbo que se pronuncia em nós intimamente: " Lá no fundo do seu coração há uma voz humilde, mas que nada faz calar, a protestar, a dizer-lhe que há alguma coisa porque se existe e porque vale a pena existir. Escute essa voz: provoque-a, familiarize-se com ela, e verá como cada vez mais se lhe torna perceptível, cada vez fala mais alto, ao ponto de não a ouvir senão a ela e de o rumor do mundo, por ela abafado, não lhe chegar já senão como um zumbido, um murmúrio, de que até se duvida se terá verdadeira realidade. Essa, meu amigo, é a verdadeira revelação, é o Evangelho eterno, porque é a expressão da essência pura e última do homem, e até de todas as coisas mas só no homem tornado consciente e dotada de voz. Ouça essa voz e não se entristeça».... 
Ainda que, certamente, certas frases ou sons, alguns consagrados milenariamente, sejam eficazes auxiliares na modelação harmonizada das nossas forças anímicas para nos interiorizarmos e silenciarmos e para que o Espírito divino possa ser sentido, visto ou acolhido. 
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É o caso por exemplo dos mantras indianos mais sagrados, tais como o Tat Twam Asi, Tu és esse Espírito, que o mestre indiano diz ao discípulo, ou o Om Mani Padme Hum, a jóia da consciência espiritual está na flor de lótus, em ti. E que Bô Yin Râ complementa com os escritos por ele em alemão...
Imagens, palavras e ensinamentos que apelam a libertar-nos seja de intelectualismos seja de saberes livrescos e sectários e a despertar-nos para o auto-conhecimento libertador... 
Para Bô Yin Râ, em contraste com a maior parte do que imaginam muitos Budistas ou cultores e propagandistas do vazio, não há um mundo sem forma nem símbolos, mas pelo contrário mesmo os mundos espirituais mais elevados tem formas e também não há que extinguir o eu pois os espíritos individuais estão destinados a evoluir e a irradiar eternamente, aperfeiçoando a sua vontade e criatividade própria e singular, harmoniosamente (sem se deixar limitar pela personalidade ignorante) no seio do Todo e maximamente em união com Deus... 
Considera também Bô Yin Râ que muitas das visões de videntes e pseudo-mestres não passam de aberturas reduzidas das janelas sobre mundos relativamente inferiores (e há-os verdadeiramente negativos) e em muitos casos altamente modeladas pelas próprios observadores e as suas idiosincracias, expectativas e preconceitos.
A interacção entre estes mundos subtis e os humanos é grande, daí muitas das lutas e fanatismos que tanto criam consequências no além como são alimentadas por esse além e tanto pelas suas egrégoras grupais como por seres, em geral não humanos, negativos... 
Bô Yin Râ, tal como outros mestres, defende que o ser humano é uma centelha espiritual do Sol Espiritual eterno e não um deus ou Deus. E que pela queda ou união ao corpo físico animal terrestre perdeu a consciência do mundo de onde vem e da sua identidade. 
Mais polémica será para alguns a afirmação de Bô Yin Râ de que só em casos excepcionais é que a as almas por falhanços são obrigadas a viver duas vezes na Terra. Ou ainda a de que as lembranças regressivas, hipnóticas ou de dejá vu correspondem apenas a algumas das milhares de milhares de forças anímicas que nos constituem e que já passaram por outros seres, locais e tempos... 
Daqui resulta a recomendação de não desejarmos mais do que podemos realizar nesta vida, pois senão ficamos algo encadeados a essas energias que não cumprimos e que terão que aguardar que haja outros que as cumpram... 
Alguns pensamentos finais: 
“Tens de desenvolver uma certa prática ou treino de concentração para que não te disperses numa frustrada busca de constantes excitações e distracções e deixes atrofiar a faculdade de fazeres experiências interiores nas quais tomes consciência de ti mesmo, e que te revelem o mundo do espírito substancial. 
A experiência interior não tem qualquer relação com o pensamento, e o mundo do espírito real e autêntico situa-se infinitamente para além dos meandros ou prodígios do mundo cerebral..."
                              
        Sobre a Arte de Ler dirá: 
“Entramos em comunhão com a alma do escritor e só devemos ler se temos a certeza que as ideias engendradas pela leitura favorecerão o desenvolvimento supremo da nossa alma. 
Também o cómico e o satírico despertarão em ti as forças divinas necessárias, ou mesmo livros cujo poder cativante reside na tensão que criam em nós.” 
Sobre os objectivos da vida: 
“ O teu objectivo supremo é a realização de ti mesmo na tua forma de manifestação engendrada pelo Espírito, na tua forma espiritual. 
Tu mesmo, unido a Deus. 
De toda a eternidade transportas em ti  a forma engendrada uma só vez pelo Espírito, forma que é tua e que só tu, para toda a eternidade, tem as possibilidade de atingir, mesmo que tal tenha que tornar-se acessível a ti somente após uma infinidade de séculos....” 
                                 
E fica por aqui a nossa homenagem, neste dia de 25 de Novembro do ano da graça de 2014, e ampliada depois algumas vezes, a um dos grandes mestres e pintores espirituais da Humanidade, pouco conhecido entre os Portugueses, embora eu tenha traduzido colectivamente e publicado o Livro do Deus Vivo, e haja, além dos originais em alemão, muitos já noutras línguas.
E se houver almas luminosas que saibam bem alemão e que queiram traduzir obras de Bô Yin Râ para português, entro no projecto sorridentemente.. 

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