sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Fernando Pessoa, "Un soir à Lima". Celebração no Martinho da Arcada, 29/11/2014

                   CELEBRAÇÃO DOS 79 ANOS DA PARTIDA PARA OS MUNDOS ESPIRITUAIS DE FERNANDO PESSOA, no Café Martinho da Arcada, ao Terreiro do Paço, no dia 29 de Novembro de 2014.
              Participam Arianna Luci, com violino, Inês Cruz Reis, com leitura encenada de excertos iniciais do "Livro do Desassossego", a Susana Borges, que lerá "Dois Excertos de Odes", e Pedro Teixeira da Mota que falará sobre o caminho da morte para a imortalidade em Fernando Pessoa...

                                          Un Soir à Lima....

Foi a 17 de Setembro de 1935, a dois meses de meio da sua partida para os mundos espirituais, que Fernando Pessoa foi surpreendido pela audição radiofónica de uma serenata opus 99 de Dieudonné-Félix Godefroi, "Un Soir à Lima", que a sua mãe costumava tocar, quando a família estava na África do Sul, num ambiente encantador e com Fernando Pessoa a contemplar à janela a grande ou infinita noite de luar africana.  A sua emoção foi grande, dado o amor que tinha pela mãe (morrera a 17/3/1925), e um poema longo, dos mais longos dos últimos anos, surgiu, provavelmente regado com algumas lágrimas provenientes das múltiplas memórias queridas e saudosas que lhe brotavam da alma algo dilacerada por toda uma vida de genial raciocinador e explorador de sensações mas muito pouco amante e amado, talvez o dela ainda o maior...
Os poemas dos últimos anos da vida estão tingidos de desilusão e tristeza mas a lucidez, o sentido crítico, a imaginação e alguma aspiração brilharão até ao fim...
Destaquemos, por entre as lágrimas das saudades, o veio da eterna melodia ou da voz subtil que Pessoa invocará e evocará sempre, a noção culposa de se ter traído ao abusar do raciocínio que lhes destruiu a alma em mil bocados, alguma diluição que consegue entre o que foi e o que era num fluxo único suspensivo e suavizante e, na parte final, o grande apelo de esperança de Deus e da vida eterna...
Que já se tenha encontrado com a sua mãe, que irradiante na mónada esteja, são os nossos desejos...

Transcrevemos o poema com as quatorze variantes de palavras, sobrepostas  no manuscrito, no seu devido lugar e omitindo-se as das anteriores...

Este poema é acompanhado por imagens da Mãe e dele, e da música "Un Soir à Lima", retirada do Youtube, e é publicado nas vésperas dos 79 anos da sua morte, que será celebrada no café Martinho da Arcada, no dia 29 de Novembro pelas 16:00, numa iniciativa do grupo do Facebook "Amigas e Amigos do Martinho da Arcada" e para a qual está convidada ou convidado...








                            UN SOIR À LIMA

"Vem a voz da radiofonia e dá
A notícia num arrastamento vão:
«A seguir
Un soir à Lima»...
Cesso de sorrir...

Pára-me o coração...
E, de repente,
Essa querida e maldita melodia
Rompe do aparelho inconsciente...
Numa memória súbita e presente
Minha alma se extravia....
O grande luar da África fazia
A encosta arborizada reluzente.

A sala em nossa casa era ampla, e estava
Posta onde, até ao mar, tudo se dava
À clara escuridão do luar ingente...
Mas só eu, à janela.
Minha mãe estava ao piano
E tocava.
Exactamente
«Un Soir à Lima».

Meu Deus, que longe, que perdido, que isso está!
Que é do seu alto porte?
Da sua voz continuamente acolhedora?
Do seu sorriso carinhoso e forte?
O que hoje há
Que mo recorda é isto que oiço agora
      Un Soir à Lima.
Prossegue na radiofonia
A mesma, a mesma melodia
O mesmo «Un Soir à Lima».

Seu cabelo grisalho era tão lindo
Sob a luz
E eu que nunca pensei que ela morresse
E me deixasse entregue a quem eu sou!
Morreu, mas eu sou sempre o seu menino.
Ninguém é homem ante a sua mãe!

E inda através de lágrimas não falha
À memória que tenho
O recorte perfeito da medalha
Daquele perfeitíssimo perfil.
Chora, ao lembrar-te, mãe, romana e já grisalha,
Meu coração teu e sempre infantil.
Vejo teus dedos no teclado e há
Luar lá fora eternamente em mim.
Tocas em meu coração, sem fim,
Un Soir à Lima.



Fernando Pessoa, com a mãe de cabelo grisalho, o padrasto, as meias irmãs e irmão. África do Sul, provavelmente 1904-05,


O silêncio fatal das coisas findas
As tuas mãos pequenas e tão lindas
Com escrúpulo risonho e familiar
Com um sorriso em que não há
Nada senão o eternamente humano
Tiravas da quietude o piano
Un Soir à Lima.

Tinhas, perfil, um rosto de medalha
Eras de frente, e olhando, a minha mãe
Como hoje o teu olhar me falha
E o teu perfil me lembra bem.

«Os pequenos dormiram logo?»
«Ora, dormiram logo».
«Esta está quasi a dormir»
E tu, sorrindo e ao responder continuavas
O que tocavas -
Atentamente tocavas - 
Un Soir à Lima.

Tudo que fui quando não era nada,
Tudo que amei e sei só eu verdade
Que o amei por não ter hoje estrada,
Que tenha qualquer realidade.
Por não ter dele mais que a saudade -
Tudo isso vive em mim
Por luzes, música e a visão
Que não tem fim
Dessa hora eterna no meu coração,
Em que voltavas
A folha irreal da música a tocar
E eu te ouvia e via
Continuar
A eterna melodia
Que está
No fundo eterno desta nostalgia
De quando, mãe, tocavas
Un Soir à Lima.

E o aparelho indiferente
Traz da emissora inconsciente
Un Soir à Lima.

Eu não sabia então que era feliz.
Hoje, que o já não sou, sei bem que o era.

«Esta também está a dormir.
«Não está».
Ficámos todos a sorrir
E eu distraidamente vou
Continuando a ouvir,
Longe do luar que há
E que lá fora existe duro e só,
O que me faz sonhar sem o sentir,
O que hoje faz que tenha de mim dó
Esse canto sem voz, teclado e brando
Que minha mãe estava tocando -
Un Soir à Lima.

Não ter aqui numa gaveta,
Não ter aqui numa algibeira,
Fechada, haurida, completa,
Essa cena inteira!
Não poder arrancar
Do espaço, do tempo, da vida
E isolar
Num lugar
Da alma onde ficasse possuída
Eternamente
Viva, quente,
Essa sala, essa hora,
Toda a família e a paz e a música que há
Mas real como ali está
Ainda, agora,
Quando, mãe, mãe, tocavas
Un Soir à Lima.





Mãe, mãe, fui teu menino
Tão bem dobrado
Na sua educação
E hoje sou o trapo que o Destino
Fez enrolado e atirado
Para um canto do chão.

Jazo, mesquinho,
Mas ao meu coração
Sobe, num torvelinho
A memória de quanto ouvi do que há
No que há de carícia, de lar, de ninho,
Ao relembrar o ouvi, hoje, meu Deus, sozinho,
Un Soir à Lima.

Onde é que a hora, e o lar e o amar está
Quando, mãe, mãe, tocavas
Un Soir à Lima?

E num recanto de cadeira grande
Minha irmã,
Pequena e encolhidinha
Não sabe se dorme se não.

Eu tenho sido tanta coisa vil!
Tenho traído tanto do que sou!
Meu espírito sedento
De raciocinador subtil
Quantas vezes prolixamente errou!
Quantas vezes até o sentimento
Inanimadamente me enganou!

Já que não tenho lar,
Deixa-me estar
Nesta visão
No lar de então,
Deixa-me ouvir, ouvir, ouvir -
Eu à janela
Do nunca mais deixar de sentir,
Nessa sala, a nossa sala, quente
Da África ampla onde o luar está
Lá fora vasto e indiferente
Nem mal nem bem
E onde, no meu coração
Mãe, mãe
Tocas visivelmente,
Tocas eternamente
Un Soir à Lima.

A minha raiva de animal humano
A quem tiraram a mãe,
E não tem
Para o menino que lhe na alma há,
Para lhe encher o coração,
Mais que esta visão -
As tuas mãos pequenas pelo piano
Quando, oh meu Deus, tocavas
Un Soir à Lima.

Ai, mas é engano.
Aqui sou velho
Não há sala nem há piano
Nem tu existes a tocar.
Há um aparelho mudo
De onde um som vem de longe, e dói.
Como é que eu te darei um beijo agora?

Eu poderia, vindo da janela,
Como tantas vezes fiz
[...]
O raciocinador exacto 
Cuja alma está em mil pedaços,
Em mil pedaços que nem há...
Deixa-me dormir
E sonhar de estar vendo, a ouvir,
Un Soir à Lima. 
E era nesta calma,
Nesta felicidade
Em que existia uma alma
(Meu Deus, que saudade!),
Que, sob a luz que dourava,
(Hoje onde é que isso está?)
Longe de onde o luar prateava,
Minha mãe tocava
Medalha atenta e humana ao piano,
Un Soir à Lima.

Desde então
Tenho atravessado
Muitas vidas.
As mais das vezes tenho errado
Meu coração
Pesa de coisas esquecidas.
Desde quando
Nesse brando
Conforto do meu lar extinto
Eu, à janela, ouvia, hirto e sonhando,
Ermo e indistinto,
O que há
Em toda a música de intuição e instinto,
Quanto tenho deixado morrer
Dentro do que quis ser,
Quanto tenho deixado
Só pensado,
Quanto, quanto,
Tem sido para mim somente sonho,
Somente o encanto,
Tristemente risonho
De o ter sonhado,
Quem sabe se a saudade
Transmutada num devaneio meio humano
De quanto nessa noite está,
Longínqua, em que, mamã, ao piano
Tocavas, sob a crua claridade,
Un Soir à Lima.

Pesa-me o coração. Um torpor denso
Ocupa-me a consciência de [...]
E um frio informe, desolado e denso
Não me deixa pensar.

Num baloiçar-me, num embalar
Relembro tudo, relembro em vão.
Meu Deus, isso tudo onde está?
Un Soir à Lima...
Quebra-te coração!...

Meu padrasto
(Que homem! que alma! que coração!)
Reclinava o seu corpo basto
De atleta sossegado e são
Na poltrona maior
E ouvia, fumando e cismando,
E o seu olhar azul não tinha cor.
E minha mãe, criança,
No recanto da sua poltrona
Enrolada, ouvia a dormir
E a sorrir
Que estava alguém tocando
Se calhar uma dança.

E eu, de pé, ante a janela
Via todo o luar de toda a África inundar
A paisagem e o meu sonhar.

Onde tudo isso está!
Un Soir à Lima,
Quebra-te, coração!

Essa mão pequenina e branca,
Que nunca mais me afagará,
[...]
Sorrias, rindo, para mim
Esse sorrir que já teve fim,
E continuavas tocando
Un Soir à Líma.

E eu que nunca julguei que tu morresses
E me deixasses só com o que eu sou...

E é uma emissora indiferente
Que por um aparelho inconsciente
Em música, só, música me dá
A angústia viva que me vem
De te ver, por me lembrar,

Minha mãe, minha mãe,
Tão tranquila, tocar
Un Soir à Lima.

Mas entorpeço.
Não sei se vejo, se adormeço,
Se sou quem fui,
Nem sei se lembro, nem se esqueço.
Há qualquer coisa que indistinta flui
Entre quem sou e o que eu era
E é como um rio, ou uma brisa, ou um sonhar,
Qualquer coisa que não se espera,
Que se suspende de repente
E, do fundo aonde ir acabar,
Surge, cada vez mais distintamente,
Num halo de suavidade
E nostalgia,
Onde o meu coração ainda está,
Um piano, uma figura, uma saudade...
Durmo encostado a essa melodia -
E oiço que minha Mãe toca,
Oiço, já com o sal das lágrimas na boca,
Un Soir à Lima.

O véu das lágrimas não cega.
Vejo, a chorar,
O que essa música me entrega -
A mãe que eu tinha, o antigo lar,
A criança que fui,
O horror do tempo porque flui,
O horror da vida, porque é só matar.
Vejo, e adormeço
E no torpor em que me esqueço
Que existo ainda neste mundo que há
Estou vendo minha mãe tocar.
E essas mãos brancas e pequenas,
Cuja carícia nunca mais me afagará,
Tocam ao piano, cuidadosas e serenas,
Un Soir à Lima.

Ah, vejo tudo claro!
Estou outra vez ali.
Afasto do luar externo e raro
Os olhos com que o vi.

Mas quê? Divago, e a música acabou..
Divago como sempre divaguei
Sem ter na alma certeza de quem sou,
Nem verdadeira fé ou firme lei.

Divago, crio eternidades minhas
Num ópio de memória e de abandono.
Entronizo fantásticas rainhas
Sem para elas ter o trono.

Sonho porque me banho
No rio irreal da música evocada.
Minha alma é uma criança esfarrapada
Que dorme num recanto obscuro.
De meu só tenho,
Na realidade certa e acordada,
Os trapos da minha alma abandonada
E a cabeça que sonha contra  um muro.






Mas, mãe, não haverá
Um Deus que me não torne tudo vão,
Ou outro mundo em que isso agora está?

Divago ainda: tudo é ilusão.
Un soir à Lima...


Quebra-te, coração..."



Para terminar, acrescentemos um poema bem optimista de 23/5/1932:


A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.


A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.”


Pintura de Bô Yin Râ,        Pax Profunda.

                                                                         

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Bô Yin Râ, breve homenagem nos seus 138 anos de nascimento...



                          Homenagem ao mestre Bô Yin Rô, no seu dia de aniversário, 25/11.




  

Bô Yin Râ, aliás Joseph Anton Schneiderfranken, nasceu na Baviera em 25 de Novembro de 1876, numa família de agricultores e artesões e, depois de ter trabalhado manualmente, conseguiu inscrever-se e estudar alguns semestres sucessivos no Instituto de Artes Esataduais em Frankfurt, tendo ainda sido apoiado por notáveis pintores, tal como Hans Thoma e Max Klinger, formando-se finalmente. Estudou pintura ainda Viena, Berlim e em Paris. A sua 1ª exposição é de gravuras em 1906 em Leipzig e de 1909 a 1912 vive e pinta em Munique.
 
 
Em 1912 e 1913 está na Grécia e é lá que recebe o contacto com um mestre oriental que o inicia com o nome de Bô Yin Râ, começando então a publicar as suas obras espirituais. Regressa a Munique onde vive até ao começo da I Guerra Mundial sendo então colocado na Silésia, onde foi intérprete e viverá na terra de Jakob Boehme até 1923, retirando-se depois para Horgen, junto ao lago de Zurique e depois para Svizzera, na margem do lago Lugano, na Suíça, onde residiu, com a sua família, duas filhas, até abandonar a cena terrestre em 14 de Fevereiro de 1943.
 
Foi pois na Grécia que se encontrou com o mestre oriental que o iniciou espiritualmente (que aliás já o visitara em criança), e é só após este acontecimento e vivência que as suas pinturas passam a revelar extraordinária profundidade de visão e que a sua experiência espiritual começa a ser transmitida em livros, surgindo o primeiro em 1919 e o trigésimo segundo em 1939, havendo ainda oito sobre arte e cultura...
 
 
O ensinamento de Bô Yin Râ é inegavelmente de primeira qualidade, a mesma que sentimos nos grandes Mestres da humanidade, que ele próprio afirma serem seus irmãos na mesma Fraternidade de Radiantes da Arqui-Luz e que considera essencias no caminho espiritual de todos os seres humanos, enquanto pontes e pontífices para o mundo espiritual e divino.
 
 
 
A certeza que as obras e pinturas transmitem, a claridade que trazem, a harmonia poética e mágica com que as palavras ressoam, as impulsões que lançam, tudo contribui para considerarmos a sua obra como das mais valiosas sobre os mistérios da vida, e confesso que encontrei nela das melhores descrição do caminho espiritual e da ligação a Deus, certamente difícil de ser realizada, mas verdadeira e prática...


 A sua extensa obra de 32 livros de profundos ensinamentos sobre a Realidade última e os caminhos para lá se chegar, assenta no que ele nos diz no seu folheto “Sobre os meus Escritos”: «Eu comunico o meu conhecimento experimental das raízes do homem terrestre numa esfera de forças “espirituais” substanciais, que é inacessível aos sentidos físicos, sendo contudo alcançável duma maneira “sensível”, esfera na qual a consciência individual do homem pode já despertar nesta vida corporal terrestre, mas na qual ela despertará inevitavelmente logo que a sua existência terrena termine.
Comunico o meu conhecimento experimental da hierarquia de ajudas espirituais individuais, que parte do Arqui-centro mesmo da esfera das forças espirituais, que desce até à humanidade deste planeta e que se manifesta por certos homens preparados para esta missão já antes do seu nascimento terrestre.
Comunico o meu conhecimento experimental relativo à possibilidade de entrar em ligação espiritual com esta hierarquia, e mostro o caminho a seguir para se chegar aí.
Comunico finalmente de que maneira adquiri a experiência que me era acessível e porque é que eu devia chegar a ela»....

Numa época em que são tantos os cegos guias de cegos, ou os fiéis estagnados nas suas religiões, e em que é tão grande o carnaval ocultista, a manipulação das seitas, a imaginação das canalizações, as superficialidades nas auto-ajudas, este verdadeiro ensinamento certamente será muito útil, ajudando as pessoas tanto a aprofundarem as suas religiões como a discernirem melhor o caminho real que as conduz à sua realização própria e à união com Deus.


 
 
Seguem-se alguns ensinamentos segundo o que Bô Yin Râ escreveu e eu assimilei...
O caminho espiritual é basicamente o do auto-conhecimento, o do controle e unificação das forças anímicas sob a vontade única de nós mesmos.
Para isto é preciso uma longa e perseverante escuta de nós próprios até que as flores de lótus da nossa alma se abram à luz do alto e particularmente ao nosso anjo da Guarda ou Mestre.
Uma vida justa, de trabalho consciente, de afectividade e humanidade devem ser acompanhadas de uma prática diária de meditação, de escuta interior, de aspiração a Deus para que possamos ir avançando na ligação e união primeiro ao espírito e depois a Ele.
Não é pela alimentação, a respiração, a sexualidade, as drogas, os mantras, a especulação filosófica, a carga erudita cerebral que tal se consegue mas sim por uma vida dinâmica e despreendidada, e uma unificação anímica que nos dê o domínio harmonioso dos desejos e pensamentos e logo o silêncio acolhedor do sentir e do viver o espírito, ou seja, a revelação espiritual...
O caminho espiritual é portanto uma vida consciente, um alargamento da dimensão dos nossos sentidos psico-espirituais, e que se abrem então para os mundos espirituais, e uma inserção criativa na fraternidade da humanidade e dos Mestres, uma vivência do espírito eterno nas nossas profundezas...
 
 
 
 
 
Não é pela abertura a espíritos desencarnados ou a extraterrestres mas por um silencio e uma escuta interior que os pensamentos e sentimentos subtis dos mundos espirituais nos chegam e inspiram.
É o culto da voz da consciência, do Génio ou Daimon de Socrates e que entre nós Antero de Quental recomendava por exemplo numa das suas mais belas cartas escritas ao poeta e viajante Fernando Leal, e que é no fundo a sintonização e audição da Palavra, do Verbo que se pronuncia em nós intimamente. " Lá no fundo do seu coração há uma voz humilde, mas que nada faz calar, a protestar, a dizer-lhe que há alguma coisa porque se existe e porque vale a pena existir. Escute essa voz: provoque-a, familiarize-se com ela, e verá como cada vez mais se lhe torna perceptível, cada vez fala mais alto, ao ponto de não a ouvir senão a ela e de o rumor do mundo, por ela abafado, não lhe chegar já senão como um zumbido, um murmúrio, de que até se duvida se terá verdadeira realidade. Essa, meu amigo, é  a verdadeira revelação, é o Evangelho eterno, porque é a expressão da essência pura e última do homem, e até de todas as coisas mas só no homem tornado consciente e dotada de voz. Ouça essa voz e não se entristeça»....
 
 Ainda que, certamente, certas frases ou sons, alguns consagrados milenariamente, sejam eficazes auxiliares na modelação harmonizada das nossas forças anímicas para nos interiorizarmos e silenciarmos e para que o Espírito divino possa ser sentido, visto ou acolhido.
 
É o caso por exemplo dos mantras indianos mais sagrados como o Tat Twam Asi, Tu és esse Espírito, que o mestre indiano diz ao discípulo, ou o Om Mani Padme Hum, a jóia da tua própria consciência espiritual está na flor de lotus suprema em ti... Palavras e ensinamentos que apelam a libertar-nos seja de intelectualismos seja de saberes livrescos e sectários e para auto-conhecer-nos libertadoramente...





 
Para Bô Yin Râ, em contraste com a maior parte dos Budistas, não há um mundo sem forma nem símbolos, mas pelo contrário mesmo os mundos espirituais mais elevados tem formas e também não há que extinguir o eu pois os espíritos individuais estão destinados a evoluir e a irradiar eternamente, aperfeiçoando a sua vontade e criatividade própria e singular, harmoniosamente (sem se deixar limitar pela personalidade ignorante) no seio do Todo e maximamente em união com Deus...
Considera também que muitas das visões de videntes e pseudo-mestres não passam de aberturas reduzidas das janelas sobre mundos realtivamente inferiores (e há-os verdadeiramente negativos) e em muitos casos altamente modelados pelas próprios observadores..
A interacção entre estes mundos súbtis e os humanos é grande, daí muitas das lutas e fanatismos que tanto criam consequências no além como são alimentadas por esse aléem e as suas egrégoras grupais e seres negativos...
Bô Yin Râ, como outros mestres, defende que o ser humano é uma centelha espiritual do Sol Espiritual eterno e não um deus ou Deus. E que pela queda ou união ao corpo fisico animal terrestre ela perdeu a consciência do mundo de onde vem e da sua identidade.
Já mais polémica será para alguns a afirmaçao de que só em casos excepcionais é que a as almas por falhanços são obrigadas a viver duas vezes na Terra, e que as lembranças regressivas, hipnóticas ou de dejá vus correspondem apenas a algumas das milhares de milhares de forças animicas que nos constituem e que já passaram por outros seres, locais e tempos...
Daqui resulta a recomendação de não desejarmos mais do que podemos realizar nesta vida pois senão ficamos algo encadeados a essas energias que não cumprimos e que terão que aguardar que haja outros que as cumpram...
Alguns pensamentos finais:
Tens de desenvolver uma certa prática ou treino de concentração para que não te disperses numa frustrada busca de constantes excitações e distrações e deixes atrofiar a faculdade de fazeres experiências interiores nas quais tomes consciência de ti mesmo, e que te revelem o mundo do espírito substancial. 
A experiência interior não tem qualquer relação com o pensamento, e o mundo do espírito real e autêntico situa-se infinitamente para além dos meandros ou prodígios do mundo cerebral...
 
 
Sobre a Arte de Ler dirá:
Entramos em comunhão com a alma do escritor e só devemos ler se temos a certeza que as ideias engendradas pela leitura favorecerão o desenvolvimento supremo da nossa alma.
Também o cómico e o satírico despertarão em ti as forças divinas necessárias, ou mesmo livros cujo poder cativante reside na tensão que criam em nós.”
 
Sobre os objectivos da vida:
O teu objectivo supremo é a realização de ti mesmo na tua forma de manifestação engendrada pelo Espírito, na tua forma espiritual.
Tu mesmo, unido a Deus.
 
De toda a eternidade transportas em ti a a forma engendrada uma só vez pelo Espírito, forma que é tua e que só tu, para toda a eternidade, tem as possibilidade de atingir, mesmo que tal tenha que tornar-se acessível a ti somente após uma infinidade de séculos....””
 
E fica por aqui a nossa homenagem, neste dia de 25 de Novembro do ano da graça de 2014, a um dos grandes mestres e pintores espirituais da Humanidade, pouco conhecido entre os Portugueses, embora tenha traduzido colectivamente e publicado o “Livro do Deus Vivo”, e haja, além dos publicados em alemão, muitos em francês e agora galopante e pragmáticamente em ingês...
E se houver almas luminosas que saibam alemão e que queiram traduzir obras de Bô Yin Râ para Português entro no projecto sorridentemente..
 

 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Pico della Mirandola. Comemora-se hoje 17 de Novembro a sua libertação terrena em 1494...



É em Novembro, hoje, 17, que se comemora merecidamente o fim da meteórica passagem terrena de Giovani Pico della Mirandola (ou João Pico de Mirandula) pois, tendo nascido numa manhã de Fevereiro de 1463, no condado de Concórdia, entre Ferrara e Mântua, e morrido uns escassos 31 anos depois em 1494 em Florença, deixou contudo um tal rasto luminoso que ainda hoje quem entra em contacto com a sua obra,  vida e espírito não pode deixar de entusiasmar-se com o seu ardor e sabedoria, bem como amá-lo pelo Amor em que se consumiu...

Nomeado protonotário apostólico aos 10 anos, a pedido de sua mãe aprendeu Direito Canónico desde os 14 anos na Universidade de Bolonha mas depois, com a morte dela em 1478, resolveu estudar o que gostava, em Ferrara, Retórica e Poesia. Em 1480 está em Pádua não só recebendo o magistério aristotélico e averroísta do sábio Ermolau Barbaro, como o cabalístico de Elia del Medigo.

Em 1484, a convite de Marsílio Ficino e de Lourenço de Medicis, o governante de Florença, Pico chega a esta urbe, então um centro de grande vitalidade artística e com desígnios de renovadora universal, na base duma simbiose entre a investigação (arqueológica, científica), a filosofia (sobretudo a neo-platónica) e a arte, onde se destacam o Studio, onde Policiano brilhava com a sua sensibilidade e alegria, e a Academia Platónica, da vila de Careggi, idealizada pelos Medici e por Marsilio Ficino, e os artistas Botticeli, Verrochio, Ghirlandaio, Leonardo da Vinci, Lippi, Fancelli, Fillipino e Alberti.


Fresco pintado em 1488, com Pico ainda vivo, por Cosimo Roselli e ainda hoje contemplável na igreja de Sant'Ambrogio, Florença...

Escreve então duas cartas que o tornam famoso, uma comentando a poesia de Lourenço, o Magnífico, outra a Ermolau Bárbaro, acerca do equilíbrio entre a essência e a forma, entre as Belas Letras e a Filosofia, manifestando com clareza a correcção dos extremos mas valorizando ainda assim a substância acima da forma. Erasmo, anos mais tarde e na sua linha, ironizará os Ciceronianos (nomeadamente Longueil), os que levam um mês para escrever umas linhas...

Sempre na busca do conhecimento mais elevado parte para a Sorbonne, a Universidade de Paris, onde assiste ao fervilhar de ideias e intensas discussões que caracterizavam o funcionamento daquele grande centro cultural europeu. Em 1486 regressa a Itália e tem a sua aventura amorosa com uma bela dama casada, Margarida, que lhe pediu para a raptar. “Volúpia breve e exígua”, pois é alcançado no mesmo dia e, depois duma renhida batalha contra um número superior nas hostes adversárias, tem de a entregar.

Recolhe-se então em Perugia, aprofunda os estudos filosóficos, teológicos e até esotéricos  e inicia-se no Caldaico, com Mítriades, fazendo rápidos progressos devido à sua excepcional inteligência e capacidade de memorização. Com a sua exuberância juvenil, aliada à sua sede inexaurível de sabedoria, desembocava nas nascentes fabulosas da sageza antiga e o desejo de não só aprofundar e esclarecer essa Filosofia Perene, como o de estabelecer a concórdia entre todos os diferentes filões duma mesma Tradição, emergem poderosos na sua alma.

Nasce então, da sua alta visão interior e concepção do ser humano e do seu ardor optimista de elevação à verdade e à Divinadad, uma das mais belas obras do Renascimento:  A Oração da Dignidade do Homem, uma apologia breve, em que a posição ímpar do ser humano no universo, capaz de união com o Pai ou de degradar-se ao nível animal, é transmitida com bastante intensidade e mística qualidade, apoiada nas diversas tradições e metodologias espirituais e certamente nas suas intuições. Começa assim:
“Li, Padres muito veneráveis, nos textos Árabes, que interrogado o sarraceno Abdallah [pensa-se que fosse um tradutor árabe de obras persas] sobre o que lhe parecia de admirar mais neste quase palco do mundo, respondeu que nada lhe parecia mais admirável do que o homem, sentença esta de acordo com o que exclamou Mercúrio: Magno, ò Asclépio, milagre é o homem.”

Comenta na mesma época, com grande entusiasmo e profundo conhecimento, uma Canção de Amor que o seu amigo Girolamo Benivieni compusera, resumindo a filosofia de amor de Platão e de Ficino, diferenciando-se em certos aspectos das posições do seu grande amigo e inspirador da famosa Academia Platónica florentina, Marsilio Ficino.

A obra de Girolamo Benivieni comentada por Pico...
 
Acerca do Amor Celeste e Divino escreve então:
“A beleza corporal exterior encoraja sobretudo a contemplar-se a da alma, donde nasce e provém a do corpo. Ora a beleza da alma é uma participação na beleza angélica que se eleva cada vez mais à medida que se atinge um grau mais sublime de contemplação, de tal modo que se chega à fonte primeira de toda a beleza, a Divindade...”

Dirá ainda nesse seu magistral trabalho: “já explicamos que o Amor Celeste é um apetite intelectual e como em toda a alma bem constituída, todos os os outros apetites devem ser governados por esse; ora este governo, como se se diz no Fedro [e na canção de Benivieni “Amor que nas suas mãos/segura alto o freio do meu coracão"], é representado pelo freio. Diz então que o seu coração é freado ou jungido pelo Amor; noutras palavras, cada um dos seus desejos depende do Amor; onde ele diz “coração” entenda-se, conforme está nos Livros Sagrados, que se atribui as operações das potências cognitivas da alma à cabeça e as apetitivas ao coração.”

Nesta valiosa aproximação de Pico à harmonia das capacidades e níveis do ser humano, e ao desabrochar do Amor Celestial, anote-se o valor que ele dá à invocação do Amor ou chama amorosa inspiradora do poeta e de quem aspira ao Bem, a Deus ou à Verdade, e que quando ela se acende mais em nós, ou desce sobre nós, ao nosso ser, peito e coração espiritual, é para nos envolver, fazer arder e elevar-nos à Unidade e à Divindade.

Mas onde trabalha mais é num conjunto de 900 conclusões, ou teses, resumindo as principais doutrinas de todos os tempos, dos egípcios e gregos aos persas, hebreus, latinos e árabes, provando o seu valor intrínseco, concordância e catolicidade (ou universalidade).

Uma edição quinhentista das 900 Conclusões ou Teses....

Traduzamos as seis primeiras das "dez conclusões segundo a prisca (ou vetusta) doutrina do egípcio Hermes Trismegisto":

1- Onde haja vida, aí está alma; onde haja a alma, aí está a mente.
2 - Tudo o que é movido é corporal, tudo o que move é incorporal.
3 - A alma no corpo, a mente na alma, o verbo na mente e o pai destes, Deus.
4 - Deus está cerca de tudo e por entre tudo; a mente cerca da alma, a alma cerca (ou à volta, em latim circa) do ar, o ar cerca da material.
5 - Nada há no mundo sem vida.
6 - Nada no universo é passível de morte ou de corrupção.  - Corolário: ubíqua é a vida, ubíqua é a providência, ubíqua a imortalidade.
7 - De seis modos Deus denuncia ao homem o futuro: por sonhos, portentos, aves [voo], as estranhas [examinadas], espírito e a Sibila: “


Viajar ou comunicar sob as bênçãos ou inspirações de Pico...
Tencionava convidar (com as despesas pagas de viagem... ) quem quisesse vir discutir as Conclusões a Roma. A Cúria romana assustou-se e o papa Inocêncio VIII, depois de consultar uma comissão que considerou treze das teses heréticas e insuficientes as explicações de Pico, proibiu em Agosto de 1487 a obra de circular, devendo-se queimar as cópias já impressas e excomungando-se Pico della Mirandula. A desilusão deste foi grande e abandonou Roma. Uma Apologia, que escrevera em sua defesa, ainda suscitara mais a ira dos seus opositores e inimigos, e acaba por ser detido já em França. Preso no castelo de Vincennes, foi contudo libertado rapidamente graças à acção de Lourenço de Médici e de Clara Gonzaga e à adesão protectora do rei de França Carlos VIII.

Refugiado no ambiente liberal da Florença de Lorenzo de Medici, o Magnífico, Pico continua os seus estudos espirituais explicando simbólicamente os sete dias da Criação do Génesis, numa obra, o Heptaplus, que obtém grande sucesso. Numa carta da época descreve, possivelmente já a trabalhar na sua próxima obra, o seu dia a dia: «de manhã aplico-me assiduamente na concordância de Platão e Aristóteles, as horas da tarde são para os amigos, e a recreação do espírito através da leitura de obras literárias, e as horas da noite reparto-as entre o estudo dos textos sagrados e um breve sono».

Em 1491, depois de vender grande parte dos seus bens ao sobrinho João Francisco Pico (que escreverá uma piedosa biografia do tio, traduzida para inglês por Thomas More), viaja com Policiano e Critino visitando várias bibliotecas, então verdadeiros e plenos templos da Sabedoria e da Divindade. Em 1492 publica o De Ente et de Uno, no qual desenvolve a identidade entre o Ser e o Uno e como ambos estão na Divindade, dedicado ao seu grande amigo, o retórico e poeta. Angelo Policiano (que teve alguns alunos portugueses e que escreveu uma longa e entusiástica carta ao D. João II), que lhe responderá: «A posterioridade narrará um dia que houve um certo Policiano, o qual foi tão estimado que mereceu que o Pico, luz de todo o saber, falasse dele num belíssimo livro, que trata das coisas sublimes. Rendo-te pois, pela imortalidade, graças imortais».


Ficino, Pico e Policiano
 Entretanto morre prematuramente Lourenço, o Magnífico, e em Ferrara recebe a notícia da eleição do novo papa, Rodrigo Bórgia, um humanista e esteta, o que pressagia a sua absolvição. Ermolau Bárbaro, grande retórico e sábio, morre também e Pico sente-se mais isolado, aumentando a sua convivência com o austero reformador Savonarola, o qual se torna quase o mentor e líder de Florença, impulsionando Pico no misticismo cristão... 

É só em Agosto de 1493 que sai o breve de Alexandre VII absolvendo Pico o qual, feliz, e pouco se sabe do desgaste que a excomunhão lhe provocara, passa logo a escrito as suas últimas vontades, nomeando testamenteiros Policiano e Savonarola, e entrega-se a uma vida cada vez mais retirada do mundo. Resolve então, sob a inspiração ou instigação de Savonarola, que censurava e atacava fortemente tudo o que lhe parecesse paganismo, escrever um tratado contra a vaidade e a superstição dos astrólogos, as Disputationes adversus astrologiam divinatricem, os quais se gabavam de poder conhecer os destinos do ser humano, e põe  em causa na obra não as influências dos Astros mas a capacidade de com elas se determinar o curso dos acontecimentos das vidas humanas. Esta polémica chegará até Portugal, com a obra de Frei António Beja,  Contra os Juizos dos Astrologos, impressa por Germão Galhardo em 1525, em Lisboa, e que nos nossos dias J. Vitorino de Pina Martins bem estudou.
Uns meses depois, em 1494, uma febre prostrava-o no leito da morte, e será certamente numa ardência amorosa de aspiração à Divindade e ao Uno que atravessou a porta do umbral neste dia de 17 de Novembro...
Que muita luz e amor circulem entre nós e ele, agora e sempre, Amen...

A porta celestial, obra bela de hoje de Patrizia Giovanna Corttezi
O seu valor como pioneiro da Filosofia Perene e da unidade das Religiões e Tradições, bem como a sua doutrina do Amor, da Beleza, da Liberdade e da Verdade são perenes....

Opera Omnia, Obra Completa, de Pico, numa edição veneziana de 1556
Para Pico, o Amor é a inclinação para o objecto do seu desejo, que é o Bem ou o Belo. A Beleza é a proporção justa, o brilho, a harmonia que resultam da combinação ou mistura de diferentes elementos. Por causa disto, diz-nos, o grande contemplativo Plotino pensava que a palavra Eros, Amor, derivava de “orasis”, que significa visão.

Dois tipos de visão se distinguem, a do mundo visível e a do mundo invisível ou inteligível, o qual abrange as ideias, os seres angélicos, a Divindade, e é visto pela inteligência ou visão espiritual. Há portanto dois amores para Pico, o engendrado pela Vénus ou Beleza terrestre, e o da Vénus Celestial, o desejo por parte da inteligência da Beleza ideal. Será da Divindade que o ser humano pode receber a perfeição da Beleza máxima.


Medalha de Pico, com as três Graças: Pulcritude, Amor e Volúpia
 Para Pico as Três Graças eram consideradas as servas do Amor e representavam a juventude, o esplendor e a alegria... Ou seja, a capacidade de permanência e duração duma coisa ou ser na sua integralidade. A iluminação da inteligência e a movimentação da vontade para alcançar essa beleza, e a resultante felicidade, ou alegria, ao ser atingida.

Três graus principais podemos ainda distinguir no amor humano: o amor da beleza exterior e corporal. Em seguida, o da imagem dessa pessoa ou coisa que amamos em nós sempre que a queremos pela imaginação e, finalmente, a visão da Luz divina, através do nosso amor universalizado, no coração, e que nos eleva, ora subita ora gradualmente para a sua Origem ou Fonte Divina 

Pico realçava assim que a grandeza do ser Humano estava no objecto do seu livre arbítrio ou desejo, que criativamente o pode degradar em formas inferiores brutas, ou o pode regenerar em formas superiores, divinas, nomeadamente até «unus cum Deo spiritus factus», feito um espírito com Deus, como culmina a ascensão humana no início da Oração da Dignidade Humana…

Eis um brevíssimo resumo daquele que veio a ser chamado «a mais pura figura do humanismo cristão», e que, ao que consta, transparecia a beleza angélica, como podemos ver na relativamente abundante iconografia, nomeadamente, na famosa pintura de Cosimo Rosseli, na igreja de S. Ambrósio, em Florença, pintada ainda em vida de Pico, e numa pintura do século XVI (provavelmente inspirada num fresco em Veneza, hoje perdido, de Bellini ou de Carpaccio, seus contemporâneos), que foi estudada por um dos melhores conhecedores de Pico, o prof. José Vitorino de Pina Martins, encontrando-se hoje na posse da sua filha Eva Maria, em Portugal, onde aliás já desde o século XVI há sinais da influência de Pico, nomeadamente nas obras de Aires Barbosa, Frei António Beja, Garcia da Orta, Sebastião Toscano, Coelho Amaral, Frei Luís de Granada, etc.


José V. de Pina Martins com o retrato de Pico, deveras estudada na sua tese de doutoramento na Sorbonne, nas  vestes do doutoramento sorbónico, na sua  luminosa biblioteca... Muita luz e amor estejam na sua alma spiritual....


A pintura seiscentista de Pico della Mirandola, adquirida em Paris pelo prof. Pina Martins, devotamente contemplada por ele e os seus amigos, aqui eu...

De facto, entre nós, dos amigos de Pico della Mirandola, cabe destacar inegávelmente o investigador  e professor, e durante muitos anos Presidente da Academia das Ciências de Portugal, José Vitorino de Pina Martins, que foi um grande amante de Pico, Erasmo, Thomas More, Sá de Miranda, Camões, Pascal, Antero e com quem convivi bastante e que me confessou mais de uma vez a fortíssima impressão sentida (talvez de já ter  estado noutra vida em Florença....) quando entrou pela primeira vez na basílica principal de Santa Maria Maior, onde se encontram os restos mortais de Marsilio Ficino...


Marsilio Ficino, o seu busto na parede da basílica, em Florença
 O inglês Jesup, na sua obra “The Lives of Picus and Pascal”, 1723, Londres, impresso por W. Burton, explica-nos que Pico, na linha pitagórica e que ele tanto apreciava, “nunca estimou os ricos e os poderosos por o serem assim, mas as marcas de Honra, Piedade e Virtude sempre prenderam a sua afeição às pessoas em que apareciam”. E que costumava dizer «que a liberdade de acção e da mente devia ser estimada acima de todas as coisas, e que para a gozar, nunca residia muito tempo no mesmo lugar». E que “A mais pequena propensão para a devoção amorosa era preferível a tudo o que o homem pudesse conhecer”.
Ou ainda: “Nunca conheceremos a Divindade, nem as obras da sua creação, enquanto não A amarmos”
.

A Oração, [apologia ou discurso] da  Dignidade Humana é uma obra magnífica e nela encontramos várias descrições ascensionais do ser humano. Oiçamos  algumas para finalizar, com a promessa de acrescentarmos este texto ou de publicarmos uma antologia sua num outro artigo.....

"E se não ficar contente com a sorte de qualquer criatura, se recolher ao centro da sua unidade, feito um espírito com Deus, à sombra do Pai, que está acima de todas as coisas, a todas antecederá....

"Quem portanto não admirará o nossa camaleão? Ou de outro modo quem poderá admirar mais outrem? Asclépio ateniense não errou ao dizer que nos Mistérios, devido à sua natureza mutável e susceptível de se transformar, se designa este ser por Proteu. Daí as metamorfoses célebres dos hebreus e pitagóricos. Por um lado, a mais secreta teologia dos hebreus transforma tanto Henoch num santo anjo da Divindade, chamada Malak háshekinah, tanto outras personagens noutras divindades. E os pitagóricos, os celerados em brutos. E, se acreditarmos em Empedocles, em plantas..."

"Se vires um filósofo discernir todas as coisas segundo a correcta razão, venerai-o: é um ser celeste e não terreno; se virdes um contemplador puro, liberto da preocupação corporal, retirado no santuário do espírito, já não se trata dum animal terreno ou celestial, mas de uma divindade muito augusta circumvestida de carne.»


Em 1998, em homenagem aos 500 anos da viagem de Vasco da Gama e aos principais artífices da ligação do Oriente e do Ocidente, publiquei o:


nele inserindo esta notícia, entre outras efemérides do dia 17 de Novembro:
 "Em Florença, a bela, assistido pelo austero Savonarola, em 1494, Pico della Mirandola, o príncipe dos humanistas, abandona o corpo rumo aos planos elevados da Divindade. Na lápide da sua sepultura ressoa inscrito: «Aqui jaz Pico della Mirandola. O Tejo e o Ganges conhecem-no, e porventura os antípodas». O historiador das Décadas da Ásia, João de Barros terá talvez pensado nisto quando diz que os portugueses ultrapassaram tanto «as próprias fábulas da gentilidade grega e romana, que vêm a ser antípodas da própria pátria, e se Deus tivera criado outros mundos, já lá tiveram metido outros padrões de vitória; contendendo os perigos do mar, trabalhos de fome e de sede, dores de novas enfermidades, e finalmente com as malícias, traições e enganos dos homens, que é mais duro de sofrer». Embora tendo uma vida muito activa inicialmente e depois a sujeição alguns anos à tenebrosa excomunhão, a odisseia de Pico foi mais no mundo das ideias, das religiões e do espírito, tentando descobrir e provar a unidade do Aristóteles ocidental com o Platão oriental, e a Filosofia Perene que caldaicos e persas, gregos, árabes, judeus, cristãos e de outras religiões tinham e têm em comum."
          
Om, Lux, Amor, Pico della Mirandola