domingo, 19 de outubro de 2014

19 de Outubro, faz hoje anos Marsilio Ficino.....

19 de Outubro, faz hoje anos Marsilio Ficino, nascido em 1433 mas sempre vivo nos corações dos seus amigos e admiradores...



Horóscopo de Marsilio Ficino, muito dado às correspondências do Macrocosmo e do Micrcosmos.


 
 
Foi neste dia de 19 de Outubro que nasceu na Itália, no vale do Arno, em 1433 Marsilio Ficino, filho do médico de Cosimo de Medici, primeiro tradutor das obras completas de Platão, Plotino e do Corpus Hermeticum do grego para o latim, então a lingua culta da Europa, líder do Humanismo mais espiritual e abrangente do Renascimento, animador da celebrada Academia Platónica de Florença.


 
Foi inspirador de artistas como Botticeli, Ghirlandaio, Fillipini Luppi e Miguel Angelo, e autor, como Pico della Mirandola, Erasmo, Thomas More, John Colet, Lefèvre d’Étaples, Leão Hebreu e Agostino Steuco, das obras mais sábias da Renascença, entre elas se destacando, além da "Theologia Platonica", o  "De Sole" e o "De Triplice Vita," que incluií três tratados: A Vida Longa, Da Manutenção da Saúde nos Estudiosos, e Da obtenção da Vida dos Céus.,

Médico como o pai, mas clérigo em santa Maria Magiore e mais ainda filósofo e espiritualista, desenvolveu a ideia de uma continuidade da revelação divina, a chamada Prisca Teologia, desde os tempos primordiais, enunciando Hermes Trimegistos, Zoroastro e Pitágoras, entre outros, o que na altura de uma certo zelo Católico de exclusividade era muito pioneiro, embora se apoiasse padres da Ireja como Lactâncio. Provou a imortalidade da alma, se é que assim se pode dizer, na sua famosa “Teologia Platonica da imortalidade da alma”, e o seu comentário sobre o “Banquete” de Platão granjeou-lhe admiração ao longo dos séculos pela sublimidade da sua mente e alma....

Aí afirma sobre a Divindade: "é denominada Boa porque é o acto (e autor) e fortificador de tudo, Bela porque vivifica, alegra, adoça e excita. Verdade, porque alicia para os objectos que devem ser conhecidos as três forças da alma, a mente, a vista e o ouvido  [...]

Não sem causa os antigo Teólogos puseram a Bondade no centro, e a Beleza na circunferência. A Bondade num centro único e a beleza em quatro círculos. O centro uno de tudo é Deus, e os quatro círculos que o rodeiam são o espírito, a alma a natureza a matéria. O espírito ou mente angélica é o círculo estável. A alma move-se por si. A Natureza move-se a partir do outro e no outro.”

A sua correspondência é vasta e riquíssima. E certamente merece que a leiamos com amor e discernimento. Oiçamo-lo numa carta a um professor: «Mostra-te um exemplo de boa conduta. Pureza de vida engendra reverência para com o ensinamento. Os jovens seguem facilmente o exemplo dos mais velhos. Os que corrompem um jovem, ou de facto a mente de alguém, quer por palavras ou por conduta, devem ser considerados culpados de sacrilégio. Finalmente, age de acordo com Pitágoras e Apolónio de Alabanda que, na tradição dos filósofos Indianos, não admitiam à sua disciplina nenhum jovem que não fosse de nascimento luminoso e de educação boa. Pois não está certo que as Musas se tornem ministras ou instrumentos de iniquidade».



Ou noutra carta, tâo lúcida quanto profundamente sábia:

"Ouviste, meu amigo Nicolau, aquele provérbio, nada mais doce que o lucro. Mas quem lucra? Aquele que compreendeu o que é seu no futuro, pois nosso é aquilo que sabemos, tudo o mais é verdadeiramente da fortuna. Invejam os homunculos os ricos, dos quais é a arca e não a alma a riqueza [cuja riqueza está na arca e não na alma]. Tu emula os homens doutos e bons, cuja mente é semelhante a Deus. Admoesta os teus condiscípulos a terem cuidado de Cila e Caribide, isto é, da volúpia encantadora e da inflamação pestífera da mente, antes opinando que sabendo. Que eles se lembrem que um dia, a suma volupia haverá de estar na parte suprema da alma, naquele tesouro da verdade suprema, quando as sombras inânimes da volupia eles desprezarem pela graça do conhecimento.

A árvore do conhecimento, mesmo se vimos que tem raízes amargas, todavia produz frutos suavíssimos. Que eles se lembrem além disso que nunca superfluamente, em excesso se torna o que nunca se torna suficiente

Que eles se lembrem além disso que nunca se torna bastante o que nunca se tornar em excesso. Ainda não aprendeu suficiente quem ainda duvida de qualquer coisa porém duvidamos enquanto vivemos. Assim é de nós aprender por tanto tempo quanto formos vivendo, imitando aquele sábio Sólon que, estando a morrer, brilhava aprendendo algo, visto que se alimentava pelo sustento da verdade e para quem a morte não era senão revivescer.

Não pode morrer quem vive [respira] de alimento imortal. Além disso, Sócrates foi o primeiro a ser chamado do mais sábio de todos por Apolo, porque foi o primeiro a pregar publicamente que nada sabia. Mandava Pitágoras os seus discípulos verem-se ao espelho não à luz de uma lucerna, mas à luz do sol. O que é porém a luz da lucerna senão uma alma até aqui pouco erudita? O que é a luz do sol senão a mente que é muito erudita?

Portanto quem lhe apeteça especular acerca da figura da sua alma não a compare com indoutos, mas pelo contrário com doutíssimos. Assim discernirá claro quanto foi o lucro, quanto falta. Ao sustentar a mente devemos imitar os gulosos e os avaros, que sempre tem a mente intenta no que ainda resta. O que há mais? O Mestre da Vida diz: «Não é digno de prémio aquele que mete a mão ao arado e olha para trás». Ouviste aquela que de ser vivente em estátua foi transformada. Ouviste ainda como Orfeu perdeu nessa ocasião, em que olhou para trás, Eurídice, isto é, a profundidade do seu juízo. Cobarde e vão é o investigador que regride e não progride. Guarda-te em Deus  [Vale]...

Tocando harpa, Marsilio Ficino reconheceu, tal como a tradição Indiana, Persa e Grega, o Verbo ou Shabda interno: «A alma recebe as mais doces harmonias e números através dos ouvidos, e por estes ecos é lembrada e desperta para a música divina que pode ser ouvida pelo sentido mais subtil e pela mais penetrante mente».

E por isso está representado no seu busto mortuário (desencarnou em 1499) , dentro da igreja florentina de Santa Maria Maior, na parede meridional, tocando harpa, afinando as frequências das almas e intensificando-as para os níveis mais elevados delas próprias e da Anima Mundi, ou mesmo para a Divindade...



sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Desenhos de Luz Miguel Guarani Kaiowá, da sua fabulosa exposição inaugurada a 17/10/2014, na Galeria Espaço Exibicionista, à Rua da Estefânia

 
 

 Desenhos de Luz Miguel Guarani Kaiowá, da sua fabulosa exposição inaugurada a 17/10/2014, na Galeria Espaço Exibicionista, à Rua da Estefânia nº 157, Lisboa....
Aspectos da inauguração e videos....
 


Entremos e voemos livre e criativamente no mundo mágico da Luz...

Um mundo intemporal, descoberto no quotidiano simples de quem ama profundamente a Natureza e os animais
e os celebra com as potencialidades divinas que eles contêm, mais visíveis ao olhar imaginal, ao coração unitivo, ao artista dotado, paciente, amoroso...


Embora já conheça há muitos anos a Luz, da Antroposofia, da pedagogia Waldorf, da nossa comum amiga Lídia, e do activismo pela Natureza e os animais, nomeadamente nas marchas anuais contra a Monsanto, e sempre a sua sensibilidade, delicadeza e face me impressionavam bem luminosamente, só agora vendo os seus desenhos é que pude compreender melhor e ter mais acesso à riqueza dos mundos subtis a que ela está ligada criativamente pelo seu amor aos animais e aos espíritos da Natureza e, claro, à Humanidade....

Embora não vejamos anões nem fadas, ou mesmo Anjos, todos os seres desenhados e criados e recriados pela Luz são animais do nosso ambiente quotidiano e que são por ela revelados nas suas potencialidades e subtilezas e por isso elevados no seu e nosso processo evolutivo, que passa muito pelo amor com que vivemos os outros e a Natureza, nossa Gaia e Dona...





Os livros são oceanos ou lagos por onde os barquinhos da imaginação circulam ou fundeiam, atraindo muitos seres, com mais ou menos asas...

Sailing in the great boat of culture and imaginations is a rewarding discovery. Any way is better to have some provisions for the quest

As crianças devem receber os contos tradicionais ainda que possam ser renovados sensitiva e criativamente, para acompanhar as novas energias e estados de consciências, delas e de Gaia, a Mãe Terra....

As crianças corriam, criavam asas, impulsionadas pelas imagens de sonho da Luz

A escola, o magistério, o ensino é uma das actividades mais fundas e fecundas do Amor-Sabedoria, essência da Divindade Primordial....

Abre as caixas da tua imaginação e dos livros e parte, navega ao vento e ao sonho...

Na travessia do Oceano Cósmico as almas devem levar consigo algumas almas amigas e livros, e as taças vivas, aladínicas...


Os cenários e as personagens, à dimensão da Polegarzinha, convidam-nos a descermos das nossas alturas e superioridades e a convivermos mais fraternamente com a pequenada e os animais e insectos....





Os belos cenários da Luz convidam-nos a entrar num mundo tanto infantil e tradicional como mágico e espiritual

 
Um vídeo em que a Luz dialoga sobre as suas personagens e mundos...
 
Saber jogar, criar, dialogar, voar, amar..... 
 
 
A Luz e a Zizi, o cantor Nicholas Robertson e o escultor e antropósofo Romeu Costa


A Romana, filha da Luz, também uma artista, o Moisés, marido e escultor. e um amigo trouxeram as vestes de cerimónia antigas para o teatrinho da Polegarzinha, de H. C. Andersen, numa versão muito bela e tocante da Luz, e para ligar ainda mais à Terra pura, as duas cabrinhas que vivem com eles fizeram as delícias da petizada..


"Cabraninhas" muito educadas e evoluídas...
 



 
 
 
Um video em que as personagens da Luz Miguel dos seus desenhos e do seu teatro são apresentadas
pelo seu marido, o notável escultor Moisés Paulo Preto..
 
 

A Romana, nascida de pais tão artistas, tinha que trazer os dotes da Beleza no corpo e na alma, e tem desenvolvido formas artísticas em desenho, design e em bolos...


A arte de pastelaria (os bombons) da Romana foi muito elogiada por toda a gente pelo seu sabor e design mas a sua beleza é tanta que houve quem pensasse em conservá-la platonicamente...
Para pedidos de bolos e doces personalizados, www.cocoalisboa.com


O fotógrafo oficial, a dama de honor Romaninha, mais o garboso pai e a sua desperta "cabraninha" ;)

Lochan, um devoto sábio e dinâmico de Sri Krishna e do sevaashram, que é o seu restaurante fabuloso indiano-vegetariano Govinda, em Oeiras, face à sua mulher e inspiradora Nina...


Missão cumprida e com gente amiga....


Luz Miguel Guarani Kaiowá, um ser entre o humano e o angélico, com muito dos espíritos da Natureza...




Como o girasol que nunca perde o sol de vista, assim possa  a tua consciência inspirar-se nestes desenhos e estar sempre orientada a partir da tua essência e para os objectivos mais luminosos... Vai, voa então, sê tu mesmo em amor criativo e unitivo...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Fernando Leal, poeta, peregrino de terras desconhecidas, cientista e oficial (1846-1910).


Fernando Leal, poeta,  explorador e cientista na Índia e na África, amigo de Antero de Quental. (Últimos acrescentos a 5-II-2017)

Foi em Margão, Índia, a 15 de Outubro de 1846 que nasceu aquele que viria a ser o poeta, cientista e oficial Fernando Leal. Os seus antepassados eram originários de Caminha, no Minho, tendo sido o seu avô Fernando da Costa Leal um dos heróis da Guerra Peninsular e um dos Liberais que desembarcou na praia do Mindelo, junto ao Porto, com o objectivo de derrubar o regime absolutista. Em 1842 partira para Goa, já como Brigadeiro, a acompanhar o Tenente-General Conde das Antas, que fora nomeado Governador Geral da Índia, seguindo com os seus dois filhos, Sebastião e Fernando.
Sebastião, alferes, chega com 20 anos e ao fim de três anos  casar-se-á com D. Mariana Adelaide de Melo Xavier, deles nascendo o nosso poeta Fernando Xavier da Costa Leal e as suas irmãs Leopoldina e Alba. Em 1855 seria nomeado administrador rural das aldeias de Assolnã, Velim e Ambelim (condado de Concolim), trabalho que o Intendente geral da Agricultura e autor de um dos mais belos livros sobre a Índia Portuguesa, Lopes-Mendes, reconhecerá nos «esforços do inteligente, incansável e probo administrador, sr. Sebastião Augusto da Costa Leal». Já o seu irmão Fernando (e tio de Fernando Leal) partia para ser Governador do distrito de Moçâmedes, em 1853, transitando depois para Governador Geral de Moçambique,  onde faleceria precocemente aos 44 anos.
Fernando Leal, criado com seus pais em Assolnã, estuda particularmente línguas, filosofia e matemática, alista-se  como cadete no regimento de Artilharia de Nova Goa e inscreve-se na  Escola Matemática Militar,  tendo recebido sempre o primeiro prémio nos seis anos do curso.  Ofereceu-se como voluntário e foi despachado como Segundo-Tenente na expedição enviada pelo Governo de Goa contra o Bonga da Zambézia.
É em Fevereiro de 1869 que chega a Lourenço Marques como ajudante de campo do seu tio, na época o  Governador Geral da Província de Moçambique.
Anos mais tarde dedicar-lhe-á a sua primeira obra poética, os  Reflexos e Penumbras: «À memória do meu tio, o coronel Fernando da Costa Leal, que determinou a foz do rio dos Elefantes, explorou os sertões de Huíla, Quipungo, Gambos e outros; que construiu, com Sá-da-Bandeira, a carta de Angola; enérgico promotor da prosperidade de Moçâmedes, repressor do gentio de Mandombe e Nano, soldado valente em Torres-Vedras, em Ourém, nas linhas do Porto, em África; cidadão benemérito e imaculado, que morreu pobre depois de três governos no Ultramar - saudosamente consagro este livro».
É então que as suas qualidades de investigador, explorador e cientista vêm ao de cima e assim, ao fim de alguns meses com o tio, parte de Lourenço Marques para o Transval como secretário da missão diplomática de delimitação e acordo dos limites territoriais e amizade com os Boers,  por caminhos duros e complexos até chegar em Dezembro de 1869. Já o regresso fá-lo, não no percurso normal com os outros colegas da missão, mas com o naturalista alemão Carl Mauch (o redescobridor das ruínas de Zimbaué), numa longa peregrinação do Transval às águas suaves da baía de Lourenço Marques por caminhos até então não percorridos pelos europeus, onde chegam em 8/12/1870 (Cândido Figueiredo fala a 8-8).  As suas viagens contribuem não só para a confirmação da presença e soberania portuguesa em Moçambique, na arbitragem internacional de Mac-Mahon, de 1875, como também para descobertas científicas nas áreas da Geologia e Botânica, tendo identificado uma nova planta, a qual recebeu o seu nome, a Arbol Botella, denominada Pachypodium Lealli. A viagem foi publicada no Boletim Oficial de Moçambique de 1870-1871 e pouco depois no da Índia.
Voltou à Índia em 1871 e partiu para a capital do Reino em 1872 (passando  em Dezembro pela 1ª vez no Egipto, em Porto Said), por causa da extinção do Exército da Índia, que foi muito polémica, "por um decreto ditatorial do ministro Jaime Moniz",  que de certo modo acabou com a profissão dos principais luso-descendentes, mas escolheu transitar para a arma de Infantaria do Exército Português, passando em 1874 para o Exército Português e sendo graduado no posto de tenente em 1881.
Permaneceu então alguns anos em Portugal, como oficial do Exército provavelmente com serviço em algum quartel, publicando os seus escritos,  traducões e poesias, e convivendo com notáveis escritores como Antero de Quental, Cândido Figueiredo e Gomes Leal.
Em 1876 publicara o livro Elefantes e Monstros, episódio da insurreição Indiana de 1857, por Merry. Versão e notas por um Índio.
A. A. Teixeira de Vasconcelos, no Jornal da Noite, de 17-IV, escreverá sobre esta obra:«as notas são importantes, sensatas e eruditas. Vê-se por elas que o tradutor é do Oriente, e está bem informado acerca da história e circunstâncias daquelas regiões...»
Em Dezembro de 1876, publica um opúsculo Lettre à mademoiselle Marie Denis sur l' immoralité parisienne por Rouget de la Presqu'ile (seu pseudónimo), sobre aspectos do Teatro, onde analisa a metodologia crítica: «Mas para ferir alguém ou alguma coisa, é indispensável ter essa coisa ou esse alguém, ali, muito perto de nós, ao alcance do braço ou do tiro. Aí está a razão porque a própria imoralidade deve aparecer no teatro (ou no romance ou no poema): apenas para ser pateada, escarnecida, sovada».
Em fins de 1879 sai o seu primeiro livro, Reflexos e Penumbras, de composições originais e sobretudo traduções de poesia. 
Em relação a Fernando Leal e a estas traduções, sobretudo de Victor Hugo, escreve Silva Pinto, na Voz do Povo, 5-I-1880:  «É um Índio. Foi da Ásia aos sertões africanos, veio da África Austral, soldado e explorador, do convívio das feras e da imensidade, cheio do largo estoicismo duplo da alma honesta, avigorada ao calor da Natureza livre. Veio dos montanheses Zulus «muito bravios, mas muito leais e amigos dos  seus amigos,» ao meio dos cafres da sociedade enferma contemporânea e achou-se deslocado. Procurou um refúgio, um amigo: encontrou o Jupiter tonante da poesia moderna: o velho Hugo, poderoso e solitário, como o Moisés de A. de Vigny, e abraçou-se nele. Traduzamo-lo: - traduziu-o...». 
E também o elogiam Alberto Pimentel, Camilo Castelo Branco (in Eccos Humorísticos do Minho, nº 3, 1880), Luís Botelho, Fernandes Costa, Gomes Leal e Cândido de Figueiredo, este explicando mesmo que fora a ele quem, divulgando as suas traduções de Victor Hugo no Diário de Notícias, revelara os seus dotes poéticos...
 Em 1882, a propósito do bombardeamento de Alexandria pela esquadra do Almirante inglês Seymor, erguera a voz em fortes quadras:
"Calaram-se os canhões de Alexandria;
Teve o marujo inglês fácil vitória.
Mas não pode fazer calar a História,
Amordaçar a boca da ironia".

em 1884 dá à luz as Palmadas na pança do John Bull, reagindo fortemente contra o imperialismo inglês, numa forte e irónica crítica à falta de princípios do Governo Britânico, que tanto explorava e oprimia por toda a parte. No começo da obra a propósito do tratado de Metwen, escreve: Dicionário politico internacional. 
Metwen (tratado de) - Nome que soa: mete o n. e que os portugueses traduzem: mete a unha; porque, se o trocadilho, é de mau gosto, como todos os trocadilhos, o tratado desse nome é, para os portugueses, de muito pior gosto ainda. A Inglaterra, com esse tratado, meteu a unha e, atrás da unha, a mão e o braço todo até ao sovaco - na algibeira de Portugal. Deste e outros factos se depreende, que a respeitável associação dos honrados ratoneiros de Londres, os senhores pick-pockets, a qual tem aulas e cursos perfeitamente organizados, onde se ensina a nobre arte de furtar com destreza e perfeição, pode gabar-se de ter no Foreign-Office a sua escola superior, a sua academia suprema». 
Colabora no Tesouro Artístico, de Cândido Magalhães, com o "Rei de Benares", e explicar-nos-á: «Este conto, versão parafrástica de um episódio do Mahabharata, foi escrito em 1884 para uma publicação lisbonense destinada às crianças, chamada o Thesouro artístico e da qual os outros colaboradores eram Júlio César Machado, Guiomar Torrezão, Fialho de Almeida, Carlos de Moura Cabral e poucos mais...»




Em 1888 traduz, prefacia e anota os Soldados da Revolução, do historiador idealista francês Michelet, tão apreciado também por Antero. Sobre esta obra escreverá um longo e valioso artigo, no Jornal do Comércio, de 27-IV-4-1889, a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho: «vertido para português por um poeta de muito talento - o snr. Fernando Leal, - é originalmente firmado pelo nome quase divino de Michelet, o santo, o sonhador, o entusiasta, o crente, que viveu na conveniência estreita dos heróis e dos mártires, sem que a derrota de uns ou o suplício dos outros apagasse na sua alma a fé e o ardor dos prosélitos...»





O valioso prólogo, de XXXIII páginas, termina assim:«Bendito seja o venerando historiador, um dos maiores do mundo! 
Ele bem sabia, o santo, o humano, o consolador Michelet, ele bem sabia que, apesar de Bonaparte, como apesar de Bismarck e de Moltke, apesar de Iena como de Sedan, apesar da violência, apesar do êxito, apesar das traições, das cobardias do destino, apesar de tudo, há sempre, no firmamento moral, alguma coisa que fulgura, que se não deixa empanar por toda a glória das batalhas, por todo o esplendor das vitórias. Essa coisa, que tem longos eclipses para a multidão idólatra dos triunfadores do momento, mas sempre e bem visível para alguns, através do fumo da pólvora, da poeira dos triunfos, das nuvens do incenso, através das brumas da história, essa coisa terrível, ineluctável, imanente, chama-se a Justiça», nestas últimas linhas tanto lembrando o seu amigo Antero de Quental.
É também nos princípios de 1888 que dá à luz o seu segundo livro,  Relâmpagos, onde o seu estro tanto revolucionário e patriótico como lírico se afirma. As pessoas a quem são dedicados os poemas mostram algumas das suas amizades. E como a primeira poesia é dedicada a uma G. (...) poderemos estar certos que já então namoraria com a sua futura mulher, Guiomar. Nas outras dedicatórias salientemos Gomes Leal, António Bettencourt Rodrigues, Cândido Figueiredo, Antero de Quental, Bulhão Pato, Teófilo Braga, Jaime de Séguier, António Ennes, João de Deus, Lopes Mendonça, Luís Botelho, Viscondesa de Bucelas, José de Vasconcelos e Sá, Bordalo Pinheiro, Frederico Ayala, Auguste Vacquerie...
Dos que o elogiam na Imprensa nomeemos Luiz Botelho, Rodrigues Velloso, Teófilo Braga, Maria Amália Vaz de Carvalho, Reis Damaso, Cândido Figueiredo e Guiomar Torrezão, de quem transcreveremos parte do seu artigo, brevemente:(....)
 Decide regressar em 1889 à terra natal, a Índia, provavelmente no Outono, já que no Verão passara alguns dias com Antero, certamente seguindo o conselho que ele lhe dera: «regresse à Índia e case-se com a mulher que o ama...»
 Fernando Leal veio em verdade a casar com Maria Guiomar Correia da Silva e Gama de Noronha (nascida em 10/3/1874 e portanto bastante mais nova do que ele), uma das seis filhas do conde de Mahém, D. José de Noronha (1847-1929), participando então em muitos serões literários que, com as récitas juvenis organizadas por Higino da Costa Paulino (casado com outra das irmãs, a Maria Helena, sendo esta "artista consumada, tocando piano como uma virtuose"), eram momentos intensificadores no final do séc. XIX e princípios do séc. XX do convívio cultural em Pangim, a capital de Goa. Ao seu pendor artístico, ao ambiente tropical e espiritual indiano juntava-se uma bela época convivial, fazendo desabrochar ainda mais o pendor poético, no qual se notabilizava, unindo assim, tal como Camões,  o culto das Musas e o exercício das armas e das ciências...
O jornal Heraldo, de Goa noticiava algo desse ambiente quando em 1926 morria Higino da Costa Paulino (n. 27/10/1868): "Homem aprimorado, artista de raça, foi entre nós sempre valioso o seu concurso em todas as festas de arte. Poeta e comediógrafo, era um ensaiador admirável...
"Que encantadoras noites se passavam em casa de Costa Paulino, onde a poetisa Florência de Morais, Visconde de Castelões e Fernando Leal se juntavam a "virtuoses" como a snra. D. Helena da Cunha Pereira e outras damas e cavalheiros, pondo em tudo uma tal nota de arte que eram noites de sublime prazer intelectual!
"A notícia da morte de Costa Paulino traz-nos à memória aqueles tempos distantes, cuja simples recordação faz bem ao espírito torturado pelas misérias dos tempos presentes"....
Um dos filhos de Higino e de Maria Helena, e sobrinho de Fernando Leal, o António, testemunha : "Morávamos então numa velha e grande casa apalaçada do engenheiro Assa Castelo Branco, que foi casa solarenga, nos antigos tempos, dos Távoras, e onde hoje, dizem, foi construído o belo Hotel Mandóvi. Deram-se lá belas festas, «serões» e bailes que marcaram na sociedade de Goa desse tempo. Recitava-se, cantava-se, tocava-se e bailava-se também animadamente. Recitavam-se versos dos poetas Osório de Castro, Álvaro de Castelões, Fernando Leal e da poetisa Florência de Morais. E também do meu pai, que «dizia» maravilhosamente». 
Quando Fernando Leal regressou à Índia foi, a exemplo do seu tio,  Administrador do distrito de Assolnã e de cuja tarefa publicará um relatório em 1897.  Disto dá testemunho o seu sobrinho e futuro 2º conde Mahém quando escreve no seu livro Goa Nossa Terra: "Por motivo da minha doença - febres intermitentes - encontrávamos-nos minha mãe, meus irmãos e eu no concelho de Assolnã, que um tio meu, o poeta Fernando Leal, administrava. Assim que soubemos da atitude dos Ranes, procurámos juntarmo-nos a meu pai, que residia na capital, uns 40 quilómetros distante de nós..."
O outro dos seus sobrinhos que nos dá indicações sobre Fernando Leal é o já mencionado capitão António de Noronha Paulino, fomentador da Educação Física em Goa, que no seu livro Relembrando Goa (Lisboa, 1963) refere a amizade do tio com João de Deus, Gomes Leal e D. João da Câmara, e conta algumas histórias que passou com ele: «A grande casa da Administração, onde moravam, ficava debruçada sobre o romântico rio-Sal, todo bordejado de frondosos salgueiros. Que lindos passeios nós dávamos, aos domingos, em cómoda jangada, pelo rio abaixo, até à foz, à calma e poética Betul!»
Caetano Gonçalves, no seu opúsculo Fernando Leal poeta e soldado (estudo bio-bibliográfico), impresso em Famalicão, em 1942, é,  além dos seus sobrinhos e descendentes já mencionados, uma das poucas fontes biográficas e bibliográficas sobre Fernando Leal, auxiliando-nos neste artigo e elogiando-o também diante do Betul: «Esta devoção do português pela terra que ele adopta (como na Índia o fez em sucessivas gerações, mais especialmente a partir do século XVII) como sua segunda pátria, é uma das características do singular poder de atração e adaptação do génio lusitano, que faz simultaneamente a glória da Nação em séculos de História e a honra e a fortuna dos países cujo destino passa desde então a estar ligado ao seu. Esse é o segredo da expansão dum pequeno povo de navegadores, do seu espírito de continuidade, da sua vocação de eternidade, pelas mais recônditas e remotas regiões do globo! Com Fernando Leal, durante semanas - há bons 50 anos - senti o contacto e a vibração desta verdade num velho reduto, que na costa portuguesa do Malabar, em pleno Oceano Índico, assinala o limite sul da nossa província de Salcete e a encantadora paisagem do porto de Betul, tão tranquilo nas suas águas como no movimento da sua alfândega. Uma inscrição gravada num dos muros do forte diz-nos que a construção foi ordenada pelo governador Lopes de Lima...»
A este testemunho da convivência serena de semanas entre Caetano Gonçalves e Fernando Leal, acrescentemos de novo o do seu sobrinho António, sobre os seus últimos anos de vida :"Esse meu tio como poeta que era, tinha - além de um génio exaltado - as suas manias. E uma delas: o de estar sempre com um terrível calor e por via disso trazia, à sua ilharga, o criado mouro, o Soliman, com uma grande ventarola em punho para o abanar constantemente... Até quando de machila (meio de transporte), lá ia o pobre Soliman, correndo ao lado, a dar à ventarola. Depois do almoço e do jantar, meu Tio, sentava-se por momentos, pachorrentamente, num cadeirão de braços, junto à larga janela, que dava para o rio, procurando talvez inspiração para os seus versos, de olhos semi-cerrados... Quando não cantava, em voz submissa, qualquer cantiga brejeira - o que muito arreliava, minha Tia, toda beata... E lembro-me duma delas: "Tenho pena da menina/ Ser tão linda e dormir só/ Tenho pena, meu amor, tenho pena/Tenho pena, meu amor, tenho dó..."
Outras vezes eram lindos «mandós» em concanim, língua que ele dominava perfeitamente, gostando mais do concanim falado em Salcete, do que o de Bardês. Um desses mandós, com uma música lindíssima, dizia assim: "Sacani uttom combo, Mãi/Sad galita/ Toch combo, Mãi, toch combo, Mãi/ Pejek uttaita», repetindo-se estes dois últimos versos...
Quanto à "atitude dos Ranes" referida no início da transcrição, trata-se da chamada Revolta dos Ranes, a qual se originou na recusa dos soldados maratas do Exército se recusarem a partir para Moçambique, em 1895, sem as suas mulheres, e a consequente deserção ou saída dos quartéis que fizeram, obrigando a movimentações de tropas e negociações. Não chegou a haver mortes.
E neste caso Fernando Leal, esteve de sobreaviso ou a sua familariedade com os soldados terá mesmo contribuído para o diálogo que se estabeleceu e no qual o conde de Mahem e o visconde de Bardez acabaram por ser escolhidos pelo Governo para serem os diplomatas adequados às negociações que se fizeram junto a Sanquelim?
Pouco depois chegava ao rio Mandovi vindo de Portugal uma expedição comandada pelo infante D. Afonso que acabou por cancelar o despacho que punha em causa a vida familiar dos soldados maratas.  
   Relembremos a sua tríade literária principal: primeiro, os Reflexos e Penumbras de 1879, de composições originais, cheias  de idealismo e lirismo, e traduções, sobretudo francesas,  dedicado saudosamente "à memória de meu tio, o coronel Fernando da Costa Leal". Em segundo,  os  Relâmpagos, já de 1888,  impresso num in-8º de 268 págs.,  no Porto, na Livraria Civilização, e em terceiro, a sua última obra, o Livro da Fé, 1906, que inclui como foi habitual, poemas originais seus e traduções, e neste também teatro e textos
Todas estas obras receberam aplausos gerais e de figuras consagradas da nossa literatura, como podemos ver nas transcrições que deles fez no Livro da Fé, onde destacaremos  parte do testemunho de Teófilo Braga do jornal o Século de 25 de Agosto de 1884: «a feição oriental é representada nos Relampagos por algumas composições características, como a Serenata Indiana, a Queda do Homem, e o Rei de Benares, episódio encantador, liberriamente parafraseado do Mahabharata, em que o poeta atinge todas as delicadezas do sentimento indiano».
Poliglota notável, como o testemunho da escritora Guiomar Torresão realça, traduziu versos de Victor Hugo e de outros autores franceses e, na dedicatória que lhe endereça num dos livros, confessa ter aprendido francês "numa obscura aldeia perdida nas grandes florestas do Malabar": «O meu professor de francês era um pobre padre cristão, muito inteligente, mas brâmane pela sua casta e que nunca encontrara na sua vida um só francês. Esta circunstância, atenuante para mim, prova, penso eu, uma vez mais a irradiação imensa e maravilhosa do génio francês».
Regressado à Índia publica em 1897 o Relatório acerca da adminstração geral dos campos nacionaes de Assolnã, Velim, Ambelim, Talvordá, Nuém e Ragibaga, relativo a 1897 pelo administrador, o major Fernando Leal. (In-4º de 19 págs.) É um testemunho dos seus dotes de cientista e agricultor e nesse sentido Sérgio de Castro, in Homens de Letras e Flores, 1926, refere os seus conhecimentos de Botânica expressos por João de Deus, outro amante da jardinagem, numa carta.
Em 1898 sai a Homenagem ao Ex. e Rev. Sr. Dom Matheus de Oliveira Xavier, bispo de Cochim. Este texto mereceu do crítico Avelino de Almeida, sob o pseudónimo de Pedro Fabro, um grande elogio equiparando-o a uma conversão religiosa, um aspecto que Mayer Garção, nos seus Homens Esquecidos, realçará também, mas cujos contornos e causas verdadeiras ou precisas dificilmente poderemos dsicernir e afirmar...
Em 1899 em Margão, escreve Dieu garde le Tsar! a propos du Congrés de la Paix, que se celebrara em Haya, «uma franca homenagem (...) endereçada ao Imperador da Rússia em aplauso às suas nobres tentativas de paz universal» e uma forte crítica aos norte-americanos e ingleses.
Este opúsculo de 21-IV páginas, e que foi logo reeditado, é elogiado pr Rodrigues Veloso, n' A Aurora do Cávado, de 20-XII-1899: «Com que veemência íntima e sincera não aplaudo esse azorragar tão vigoroso e lategante quão merecido, do eminente poeta sobre os orgulhosos opressores de Cuba e das Filipinas, da Irlanda, da Ásia e do Traansval. Com o ouro e os couraçados que possuem em demasia, e com a nenhuma vergonha e brios que lhes restam, entendem que todo o mundo é seu  e que dele podem dispor a seu talante!...»
Também o escritor e juiz Alberto Osório de Castro lhe dirigiu uma bela carta em 1900: «Agradeço muitíssimo penhorado a oferta do seu cântico ao Tsar, à federação dos Povos, à solidariedade humana, ao ideal das raças superiores e das supremas civilizações. (...) O senhor Fernando Leal precisa de explicar ao mundo o segredo da eterna mocidade, que de certo descobriu. Que misteriosa alquimia é essa que o deixa em eternal adolesçência  da alma, eterno insurrecto e paladino do ideal inquebrantável de justiça e bondade entre os homens, desdenhoso do direito da Força, desprezador dos darwinismos terríveis do conflito das Raças! Eu admiro extraordinariamente tão grande primavera do coração...»
Destes tempos do findar da presença cultural e convivial portuguesa na Índia fala-nos o capitão António de Noronha, que os sentia em nostalgia, no seu Relembrando Goa: "E outros pensamentos surgiam agora como dobres a finados.... como aqueles queixumes, ditos em versos por homens bons e sábios da portuguesíssima têmpera que eu muito admirava e que se reuniam de quando em quando em casa de meus pais, em amenos serões, tais como o velho Barão de Combarjua, tão acertado no seu dizer, o literato Visconde de Bucelas, o escritor e historiador Frederico de Ayala, os poetas Fernando Leal e Alberto Osório de Castro, Dr. Fragoso, tão original na suas teorias e meu pai [Higino da Costa Paulino]... e mais tarde, o romântico e célebre Visconde de Castelões, Álvaro de Castelões, que provocou o falado «ultimato», a poetisa Florência de Morais...e neles, nesses versos, traduziram a mágoa que lhes ia na alma por todo aquele abandono para o qual não viam remédio, nem esperança...
Evoco alguns desses versos que eu jamais esqueci:
De Fernando Leal:

«Cai sobre ti chama como um pranto,
Sobre ti, Goa, um Sol sinistro cai.
Cidade que Albuquerque prezou tanto,
Seu grande sonho que em solidão se esvai.»

E ainda este do mesmo poeta:

Tange oh sino da Sé, oh sino doiro, tange!
Por a espada cristã partir o mouro alfange...
Mas Goa é morta já!
Não mais repicas, sino; agora oh sino, dobras....
Goa é negra mansão de feras e de cobras,
Deserta Goa está!»

Fernando Leal passou à reserva em 1904, como Coronel, quando tinha 58 anos, dois antes de publicar o já referido Livro da Fé, uma obra mais religiosa, onde inclui além dos poemas as críticas, apreciações e cartas de críticos e de escritores amigos,  onde se destacam as de Antero de Quental (uma delas , das quais reproduzimos algumas partes, e de uma delas (1-X-1889) transcrevemos o penúltimo paragráfo: «Diga-me como passa, física e moralmente. Oxalá que melhor. E que faz? Prosa ou verso? Lembro-me dos bons bocados de tardes, este Verão, em sua companhia...»






















                Algumas das cartas de Antero de Quental a Fernando Leal, bem substanciais...
                                                            
 





   
Desencarnou Fernando Leal em 1910, em Goa, com 64 anos mas a sua mulher Maria Guiomar então apenas com 38 amava-o tanto que manteve o seu caixão em casa e debaixo da cama bastante tempo... Não tiveram filhos, embora tivessem educado um rapaz, filho de um parente...
Na pagela que lhe foi dedicada transcrevia-se a tradução que ele fizera do poema de Victor Hugo, no Pedestal dum Crucifixo:

"Este Deus chora; ó vós que chorais, vinde aqui;
Vinde, vós que sofreis, pois cura a sua graça;
Vinde, vós que tremeis, a Ele que sorri;
Vinde, vós que passais, a Ele -  que não passa."

O poeta Gomes Leal, um grande amigo de Fernando Leal, que chegou a chorar mesmo ao ouvir ler a versão do Rei de Bénares, quando Fernando lha lia, a quem Fernando Pessoa dedicou um poema astrológico, e que foi também  atraído pela sabedoria tanto geral como cristã, indiana e teosófica, e de formas muito originais, revolucionárias ou mesmo heréticas, em 1884, nos nºs 10 e 11 do jornal O Século elogiava assim o poeta Fernando Leal no fim do seu extenso artigo biográfico de Fernando: «Para concluir diremos, como começamos, que Fernando Leal, pela sua organização típica e especial, é na nossa literatura, depois de João de Deus que representa o suave misticismo lírico, Teófilo Braga a revolução científica e a penetração da Análise, Antero de Quental a serena contemplação budística e a majestade transcendente da Síntese, é depois destes, repetimos, a entidade mais original, mais simpática, mais viva - porque representa os nervos, a inquietação, a jovialidade e a força. 
É na nossa literatura, quase apagada e triste, um raio de sol da resplandecente Índia, onde a bela Lakshmi nasceu radiante de um mar todo de leite no largo cálice de um lótus, a bela flor azul!...
Receba Fernando Leal estas linhas como um preito ao seu talento, ao seu carácter excepcional, à sua alma de ouro, - dado por um homem cujas mãos estão mais acostumadas a traçar frases amargas e penosas do que a mover o incensador ante o nariz das divindades»

Saudemo-lo também nós, e aos seus amigos e familiares, passados estes anos todos... 


Lakshmi, uma das faces femininas da Divindade mais cultivada na Índia, brotando do lotus da devoção...

Quarenta páginas com alguma informação, mas quem quiser saber mais de Fernando Leal terá de socorrer-se de outros autores, nomeadamente dos seus sobrinhos, e sobretudo dele próprio...
Sérgio de Castro, in Homens de Letras e Flores, 1926.; Cândido de Figueiredo in Homens e Letras, 1881.; Mayer Garção, Homens Esquecidos, são outras das fontes.




AUM Lakshmi, Aum Antero de Quental, Aum Fernando Leal....


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Os sinais apocalípticos nas livrarias. As últimas inundações lisboetas também mataram. 13/10/2014


            OS SINAIS APOCALÌPTICOS DOS LIVROS E DAS LIVRARIAS               AS ÚLTIMAS INUNDAÇÕES LISBOETAS TAMBÉM MATARAM...


Foi a 13 de Outubro de 2014 que mais uma chuvada se abateu por algumas curtas mas intensas horas não em Fátima mas em Lisboa, o suficiente para lançar o caos no trânsito e na vida das pessoas... Nada que não se esperasse, dado o seu acontecimento quase já crónico últimamente, ao qual se acrescenta a passividade e a grande capacidade de sacrifício ou de amochamento dos lisboetas, que tudo aguentam sem nada fazer e pouco protestar ou votar...
Não morreram pessoas nem animais, pelo menos de porte maior pois dos outros não reza a história, mas os danos colaterais foram grandes, sobretudo na Cultura, com a morte de centenas de livros desfeitos em água e talvez desfazendo algumas partes das almas em lágrimas...
Os sinais apocalíticos foram dados para os entendedores, ou para os subconsciente deles, na Livraria do Bernardo Trindade, à rua do Alecrim,


na qual uma gravura de homenagem ao grande feito da união do Oriente e do Ocidente, que foi o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, por Vasco da Gama e os seus corajosos companheiros, se encontrava muito ultrapassado por um cartaz moderno que, em sintonia com o profético aviso e clarim de Fernando Pessoa: "É a Hora", declarava: "O Apocalipse é Agora"...

Duas jovens livreiras, a Gabriela Gouveia e a Ana Cruz, manifestavam alguma preocupação nos seus campos de ressonância psico-mórfica, face às crises que tem caído sobre os portugueses pelas múltiplas causas político-financeiras que todos sabemos, mas pouco podemos...

A funda livraria, os livros secos e até pousados delicadamente no chão, o olhar lúcido do Bernardo e do Filipe, garantiam que nesta zona uma livraria funciona bem e preserva e transmite cultura, com livros para todos os gostos e bolsas... Situada numa zona de descida  acentuada do solo lisboeta, e logo protegida de acumulações do caudal das águas que emigram fora das sarjetas, entupidas ou inscoavéis pela proximidade do Tejo, ela é poupada aos apocalipses que revelam as fragilidades das instituições e saneamentos, que nunca são o que todos desejaríamos...

Já no Rossio, local onde se tem verificado  as grandes inundações nos últimos tempos e dias, uma pomba sobre a cabeça do libertador augurava-nos que tudo já passara e que a Arca, tal a a famosa Arca do Fernando Pessoa, estaria incólume

Contudo, visto de outro ângulo a coluna de homenagem ao D. Pedro IV mostrava algumas nuvens em descida, o que poderia ser um sinal de borrasca ou paspalhice (de paspalhão, nome que os marinheiros dão a algumas nuvens baixas que se podem tornar chuva...)

E eis-nos que, chegados à Arca que demandávamos, um dos templos mais frequentados na capital, a livraria do Carlos Bobone, na rua das Portas de S. Antão, ao mítico Coliseu, nos vimos subitamente envolvidos num rescaldo apocalíptico, assim se efectivando os presentimentos inconscientes  sob os avisos proféticos...

Sacos e sacos a acumularem-se fora da livraria, a Sónia forçada ora a saltar ora a carregar e a descarregar para o olho da rua toda uma quantidade imensa de livros afogados nas últimas inundações e onde ninguém mais porá os olhos enlevada ou clarificadoramente...

Será que esta apreciada tradução portuguesa (e António Sérgio foi um dos tradutores) de Axel Munthe, de um dos belos livros do séc. XX, o Livro de San Michele, sonharia que o papão da reciclagem se abateria sobre ele? 

Baldes de água fria e humidade nos livros não fazem bem, não....

Em suma, fechemos os sacos, pensará a Vânia, lancêmo-los ao mar do esquecimento, e esperemos que um dia chegue o D. Sebastião camarário que resolva o saneamento da zona baixa de Lisboa...

Uma jovem violinista, sentindo o estado sofrimento não só dos livros como dos seus autores já mortos ou dos bibliófilos desencarnados, e dos livreiros (aqui a Ana, a Sónia  e o Carlos, a quem apresentamos desde já e daqui as nossas sinceras condolências), resolveu intervir no local e com a sua arte maviosa dispersar os eflúvios mais traumatizantes e bloqueantes da aceitação do que já sucedera e do optimismo profissional e nacional.... 

O interior da tão arrumada e recheada livraria parecia mais uma dispensa de obras, ou um dispensário generosos para o papelão, o sucedâneo do receado papão...

Mais um, bem pesado, ... O que devemos sentir, pensar, fazer?

As bibliotecárias da Sociedade Histórica da Independência, nesta imagem a poetisa Maria João Nunes, que sobreviveram calmamente a todas as vicissitudes históricas, lá do alto não deixaram de expressar solidariedade com os livros atingidos, levados pelas águas, e pelas almas mais afectadas ou sensíveis, como os peregrinos da Sabedoria que por ali passavem e se condoíam ou indignavam...

Enquanto alguém, que não sabemos se era um mirone se um amante dos livros, com a mão em pala para desviar reflexos ou embaciamentos, espreitava para o interior da casa de cultura ferida ou inundada, a Arianna Luci continuva sorrindo e tangendo melodiosamente o seu espírito e violino, vindos de Itália sempre bela e humanista...


Uma poça de água interroga-nos: está a Câmara a tentar resolver estas inundações quase crónicas, em que se podem perder centenas de livros e de euros, sem que haja o mínimo de ressarcimento, e quando os desvios fraudulentos dos banqueiros são pagos pelos contribuintes?
O bibliófilo firme a rezar pela alma dos livros mortos e a violinista na rua ainda encharcada lançando acordes harmoniosos fazem-nos pensar, querer ou crer que a Cultura triunfará...