terça-feira, 5 de agosto de 2014

Das crenças, conflitos e religiões, e da Religião universal do auto-conhecimento do Espírito e do Amor...

I - Uma das questões culturais e cultuais bastante actual é a de saber se devemos manter-nos simplesmente nas Religiões em que nascemos, ou que viemos a escolher mais tarde, e apenas dialogarmos com as outras, reconhecendo ou não entre elas insuperáveis diferenças ou se, pelo contrário, quer nos mantenhamos numa Religião ou não, deveremos reconhecer que por detrás delas, e das suas diferentes crenças e ritos, visões, concepções e adorações encontra-se (ainda que pouco a encontremos ou aprofundemos..) a mesma Realidade, Fonte, Origem e Essência última, Absoluta, Divina, Primordial, qualquer que seja o nome ou a ideia que Dela façamos...
Ora esta última hipótese ou posição parece-me a mais correcta, ou seja que há uma Unidade das Religiões, e daí a actualidade e perenidade da admissão ou abertura a uma posição religiosa em que a Fonte ou o Ser Primordial seja reconhecida como o fundamental, "relativizando-se" de certo modo todas as Religiões enquanto aproximações históricas e condicionadas a Ele Ser ou Ela Fonte...
Talvez pudéssemos mesmo então chamá-la a Religião da Divindade Primordial, ou ainda Religião do Espírito Primordial, ou ainda mais simplesmente a Religião Universal, a Religião do Espírito, a Religião do Amor, a Religião da Verdade Última, esta afirmações e posicionamentos feitos com humildade mas com esperança de avançarmos mais tanto no seu sentimento e conhecimento, como na diminuição das ignorâncias e dos ódios responsáveis por tantos conflitos, assassinatos e sofrimentos...

II - Quanto à existência de diferenças insuperáveis haveria ainda a considerar se elas são tão fundamentais e exclusivistas, se são tão reais, ou se teremos de reconhecer que circunstâncias e condicionalismos diferentes fizeram com que as revelações e religiões adoptassem formas muito diferentes mas em todas elas subsistindo um núcleo comum e essencial e que é tanto o do Bem, da Verdade e do Ser como o das metodologias semelhantes ou próximas para nos religarmos a tal...
Simultaneamente, devemos reconhecer que, ligando todos os fundadores, profetas e mestres, há um Espírito universal comum, ou que em todo o Cosmos perpassa e providencia (inspirando) um Logos (Razão animante) comum, provavelmente primeiro substracto ou emanação da Divindade Primordial....
Contribuindo para a diminuição do exclusivismo e fanatismo religioso está o evoluir da Humanidade, pois, graças ao expandir dos conhecimentos e das consciências, seja em relação à génese, transformações e desvios das religiões seja em relação aos mistérios e pormenores da existência humana, naturalmente certas formulações, crenças e dogmas deixam de ter o sentido imperativo ou absoluto e passam a ser compreendidos na sua contextualidade e relatividade...
 Estão neste caso muitos aspectos do legendário que as Religiões Reveladas ou do Livro, usaram e abusaram. E assim, menos oprimidos ou limitados por essas cinturas e balizas, cargas e nacionalismos poderemos caminhar em diálogo permanente com qualquer tradição ou religião, numa abertura perseverante à subjacente e coroante religação mais consciente, efectiva e realizadora à Verdade ou à Fonte, a qual é a essência da Religião Universal ou da Religião da Divindade Primordial, ou da Religião do Espírito e do Amor, que terá sempre de ser realizada interiormente no caminho da vida...
Seria também muito importante que as Nações Unidas ou a Unesco e representantes das religiões e vias espirituais se reunissem e chegassem à formulação de um manual básico da Religião da Humanidade e do Espírito que, lido e estudado nas escolas, abrisse as crianças e jovens para as vias da Unidade das Religiões e idealmente não só por teoria mas também por vivências, visitas de estudo, práticas espirituais, etc.
Estejamos pois mais auto-conscientes e bem abertos à Tradição perene que engloba todos os fiéis e mestres das diversas religiões e vias e saibamos escolher e praticar o melhor possível numa ampla base, de modo a que a Presença Espiritual e Divina em nós, base flamejante e iluminante da Religião Universal ou do Espírito, desperte e brilhe mais ou, se quisermos, esteja mais presente e activa em nós e diminuindo-se assim a ignorância e o ódio (que tanto grassam e aparentemente baseados em conflitos religiosos) e aumentando-se e intensificando-se o conhecimento e o amor que ainda tanto faltam...

III - Nos nossos dias, nos quais uma violência inaudita se tem desencadeado em diversos locais do planeta, de forma orquestrada por várias potências, em que a manipulação das populações é também imensa e em que posicionamentos religiosos conflituam, ou então não dissuadem ou impedem os conflitos, como poderemos ser e agir correctamente, sabendo nós que a interconectividade de todos os seres é uma realidade a todos os níveis e que contudo as barreiras da ignorãncia, da insensibilidade e do ódio bloqueiam nas consciências tal circularidade fraterna?
Que posicionamento religioso e espiritual, mas também cívico e planetário, devemos aprofundar, assumir, partilhar? Que consciência ética e prática, ecológica e harmonizadora devemos desenvolver?
É fundamental a investigação constante da verdade em todos os campos que possamos, o viver diariamente com sentimento religioso e alguma prática meditativa (em que vamos despertando os sentidos espirituais e recebendo a luz) e a harmonização consequente das nossas vidas, ambientes, ritmos e relações, de modo a não nos deixarmos desviar ou destruir por todo o caos e violência que nos possa chegar ou afectar. E, corajosamente,  pensando e falando a verdade, denunciando a mentira, a opressão, a violência, o ódio, resistindo civilmente, só ou em grupos afins, quando for necessário, propondo e apoiando o diálogo para a resolução dos conflitos pela sabedoria justa e não pelos egoísmos dos mais fortes...
Para isto de novo a Religião do Espírito e do Amor, e da Fraternidade Humana, que é a essência de todas religiões e que é também no fundo o objectivo filosófico da vida, conforme o dito milenário dos gregos: Gnothi seauton, "conhece-te a ti próprio”, é fundamental e devemos manter o vertical o eixo da coluna, da coragem, da sinceridade, da aspiração e da ligação com os espíritos afins, os mestres e Anjos, para que o Espírito Primordial esteja mais activo e poderoso em nós, irradiante mesmo do coracão, e saibamos assim vencer os enfraquecimentos e lutas, renascendo e crescendo pela Luz e Amor do Alto, do Espírito e da Fraternidade, constante, criativa e amorosamente...


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