quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Hugo Rocha, um dos ocultistas portugueses do séc. XX. "O problema dos fantasmas", sempre actual...


                                
                          
                                 Últimas duas páginas do antelóquio... 
                          
                             Páginas com referências ocultistas 
                           
Páginas finais, com referências à celebre Mens agitat molem: a Mente, ou mesmo o Espírito, move, agita, anima a material, a massa... Em Fernando Pessoa, não te deixas adormecer massificado... 

Hugo Rocha é um escritor português que terá morrido nos anos 70 e que está bastante esquecido nos nossos dias, apenas visível num ou noutro alfarrabista ibérico. E contudo teve vários méritos, tendo viajado e escrito bastante, sobre África, Açores, Madeira e Galiza e aspectos da espiritualidade ou a procura serena da Verdade..
Em 1933 publicava tanto o seu 1º livro, de crónicas africanas, intitulado Bayete, como o 2º, Rapsódia Africana, de poemas.
Em 1934 publica o ensaio e extracto de conferência intitulado Espiritualismo, que seria valioso conhecermos mas que ainda não vimos [entretanto já encontramos um exemplar, mas transmite pouco de espiritualidade, para além da oposição ao materialismo, considerando Júlio Dantas um dos soldados do Espírito], E uma novela O homem que morreu no deserto, incluído no I volume da Colecção Amanhã.

Até 1962 serão mais as obras publicadas, das quais destacaremos, como nos sinalizou o amigo Paulo Andrade como sendo de qualidade, O Enigma dos «Discos Voadores» ou a Maior Interrogação do Nosso Tempo, em 1951, o qual teve uma edição brasileira aumentada em 1961, o Namaste, um roteiro de uma viagem a Goa, em 1953, e em 1958 o estudo Outros Mundos/Outras Humanidades.
Se em 1946 escrevera a sua primeira obra sobre a Galiza, crónicas de viagem, intituladas Itinerário na Galiza, será já em 1961 e 1963 que escreverá os dois volumes dos Encontros da Galiza, com capítulos de grande sensibilidade e conhecimento. Um critico da época, Francisco Leal Insua, no El Progresso de Lugo dirá: "En estilo directo y expressive, Hugo Rocha supo penetrar en el alma de Galicia como ningún visitante extrangero lo habia hecho hast hoy. Ahi esta nuestra amada region, palpitante y saudosa. Con la inquietude sonante de su atlantismo en el litoral; con la serenidade de sus lejanias en el interior"
Foi em 1937 que publicou o valioso O Problema dos Fantasmas. Ensaio sobre certos aspectos da fenomenologia sobrenatural, numa edição da Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas (uma sociedade a merecer alguma investigação) e que descrevemos um pouco em seguida...
Nesta obra, num in-8º gr. de 169 páginas, e terminando com o Finis Laus Deo, destacamos nas três dedicatórias iniciais a última: "a todos os que crêem na sobrevivência e na eternidade da vida", este pequeno livro, sereno, desapaixonado e despretensioso"
São oito os seres ou mestres invocadas antes do antelóquio: Sócrates, Conhece-te a ti mesmo.; Alexandre Herculano, A tradição é verosímil.; Leonardo Coimbra, A tragédia do homem está na ignorância de si e do Universo em que vive, ou antes, convive.; Charles Richet, O mundo oculto existe. Arrisco-me a ser considerado insensato pelos meus conterrâneos, mas acredito que há fantasmas.; S. Paulo, O homem é posto na terra como um corpo animal e ressuscitará como corpo espiritual. Assim como há um corpo animal, também há um corpo espiritual.; Farady, Com o que ignoramos das leis espirituais poderia criar-se o mundo.; Newton, É loucura acreditar que se conhecem todas as coisas e é sabedoria estudar sempre.; Santo Agostinho, Porque não atribuir esses factos aos espíritos dos finados e não deixar de acreditar que a Divina Providência faz de tudo um uso acertado para instruir os homens, consolá-los e atemorizá-los?»
Nesta obra, além das referências a Leonardo Coimbra, Antero de Quental, Antero de Figueiredo (transcrevendo as suas descrições das aparições em Fátima) realçaremos as que faz a João Antunes e às suas obras sobre ocultismo, publicadas na Livraria Clássica A. M. Teixeira Gomes, onde Fernando Pessoa traduziu em 1915-1916 alguns clássicos da Teosofia, que Hugo Rocha também cita. 
Outro autor apreciado em comum por Fernando Pessoa e Hugo Rocha é o Heitor Durville, com quem Fernando Pessoa se chegou mesmo a corresponder e a expor o seu caso de desdobramento psíquico. Mas os autores mais citados são certamente os que se dedicaram mais à investigação experimental da existência de uma vida post-mortem, nomeadamente Ernesto Bozzanno, Charles Richet, Arthur Conan Doyle, William Crookes, Camille Flammarion, ou mesmo o Henry Bergson, tão apreciado, mas também rectificado, por Leonardo Coimbra, e que chegou a ser o presidente da famosa Society for Psychical Research, de Londres, que Fernando Pessoa louvara, nomeadamente quando os seus investigadores desmontaram alguns truques nas pretensas aparições e cartas de Mestres dos Himalaias a Helena P. Blavatsky, em Adyar, Índia.
A obra, com descrições de vários casos de aparições das almas do além, acaba com um apelo a que pela união do "esoterismo e do exoterismo" se ultrapasse o gemido de Dante posto à entrada da porta da Dolência no Inferno, Lasciate ogni speranza, ó voi ch'entrate... "Deixai toda a esperança, ó vós que entrais"...
Registemos ainda nas páginas finais a transcrição da famosa frase da Eneida de Virgílio )que Fernando Pessoa conheceu e glosou (Mens agitat molem) ao dar o título de Mensagem à sua última obra), transcrita por Hugo da Rocha mais extensamente:
Spiritus intuis alit, totamque infusa per artus. 
Mens agitat molem, et magno se corpore miscet.
Hugo Rocha, provavelmente com a ajuda do seu amigo Manuel Cavaco, traduziu assim: 
«Tudo o que existe no Universo está penetrado do mesmo princípio: a alma, que anima a matéria, que se mistura com este grande corpo...»
Mas talvez fique melhor: «O espírito íntimo sustenta e infunde-se plenamente em tudo.
A mente agita (ou anima) a matéria e mistura-se no grande corpo...»
Se quisermos alongar ainda mais que Fernando Pessoa e Hugo Rocha a transcrição dos versos 744 a 748 do canto VI da Eneida, aquele canto em que Eneias consulta a sibila Cumeana (e teremos aqui outra ligação subtil profética com a Mensagem), encontraremos:
Principio caelum ac terras camposque liquentis 
lucentemque globum Lunae Titaniaque astra 
spiritus intus alit, totamque infusa per artus 
mens agitat molem et magno se corpore miscet.

Oiçamos a tradução de Manuel Odorico Mendes (1799-1864):
«Desde o princípio intrínseco almo espírito
Céus e terra aviventa e o plaino undoso,
O alvo globo lunar, titâneos astros,
E nas veias infuso a mole agita,
E ao todo se mistura.»

E uma tradição inglesa, a de E. Fairfax Taylor:
"First, Heaven and Earth and Ocean's liquid plains, 
The Moon's bright globe and planets of the pole, 
One mind, infused through every part, sustains; 
One universal, animating soul
Quickens, unites and mingles with the whole." 

Terminemos com mais uma tradução, a nossa:
«Ao Princípio, o Céu (Ouranos) e a Terra (Gaia) e as extensões líquidas,
O globo luminoso da Lua e os astros dos Titãs 
São sustentados pelo Espírito íntimo, infundido plenamente em tudo,
E a mente (ou alma spiritual) move a matéria e no grande corpo tempera-se.»

Fiquemos então com a ideia, ou melhor consciencializemo-nos mais, do Espírito omnipresente e da nossa quota parte de temperarmos harmoniosamente o grande corpo do Universo, o Cosmos, pela nossa vida harmoniosa e receptiva ao Espírito, que nos fala e inspira interiormente, seja como o daimon socrático, seja como os fantasmas do Antero ou do Hugo Rocha, seja como os guias ou mestres ocultos do Fernando Pessoa e do Hugo Rocha, seja ainda como o nosso Anjo ou Musa...
                        
                        A Musa de Hesíodo, ou a sua fravashi... 

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