sábado, 5 de julho de 2014

Antero de Quental, poeta e filósofo, discípulo e mestre de Portugal.






                                      ANTERO DE QUENTAL
                       Poeta e filósofo, discípulo e mestre de Portugal.


       É sempre bom revisitar a sua espiritualidade, extrair e sintonizar as pistas e veredas que ele intuiu, pensou, poetizou ou revelou, e pô-las de novo em reflexão e acção, não só para que a Tradição espiritual Portuguesa circule e revivifique-se, como para que sejamos impulsionados a aprofundar as suas questões e descobrimentos, limitações e realizações.
Consulto os “Sonetos Completos”, edição da livraria portuense de Lopes & C.ª - Editores, sita na Rua do Almada , 123, de 1886, com a particularidade de ter uma dedicatória manuscrita ao alto da folha de guarda, na qual só a palavra impressa “Sonetos” surge a meio, e que reza assim «Ao seu querido amigo António de Azevedo Castello Branco off. O autor»....   A humildade de Antero..., nem sequer pôs o seu nome...
Sobre este exemplar abençoado afloremos o soneto Nocturno, onde encontramos alguns dos traços essenciais do nosso poeta filósofo, nomeadamente quando se dirige ao espírito nocturno que passa e que verte sobre ele as águas do esquecimento, num triste alento mas eficaz:
“A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno bem.”
Temos então Antero considerando-se levado por um instinto, ou uma aspiração ou bússola de luz, que rompe, vence ou fende as trevas numa busca do eterno Bem entre visões.
Há portanto um instinto, uma impulsão, uma aspiração de luz em acção nele que busca o Bem eterno, seja a Verdade, seja a Divindade, seja a Felicidade.
Temos então nós algo deste instinto ou aspiração de luz em acção? Cultivamo-lo?
Quando podemos dizer que estamos a buscar o Eterno Bem, seja em visões, seja em teorias, seja em meditações, seja em acções e abnegações?
O que é o Eterno Bem para nós? O que estamos a fazer por o encontrar, por o realizar, por o cumprir? Onde o sentimos mais ou quando?
O que é que o Eterno Bem quer de nós? Que o encontremos, que o vivamos, que o transmitamos? O que estamos a fazer verdadeiramente pelo advento do eterno,  perene ou supremo Bem? E com que pessoas e grupos, já que a união faz a força?
E como os instintos satisfazem-se em actos, perguntemos se assim como diariamente satisfazemos o instinto de sobrevivência pela alimentação, o que fazemos quanto ao instinto da luz?
Será que apenas o satisfazemos alegrando-nos quando está sol?
Ou maravilhando-nos com os fogos de artifício, ou as luzes das ribaltas futéis ou mesmo alienantes e degradantes?
O instinto da Luz significa tanto tornarmo-nos mais luminosos, como querer saber e conhecer mais a fonte da luz, que é o eterno Bem. E portanto despertar mais a Luz que está em nós e exprimi-la criativamente e nos esforços que vencem a inércia, a dor, o desanimo, os obstáculos
Sem irmos para as teorias platónicas e neo-platónicas, muito desenvolvidas no Renascimento com homens como Marsilio Ficino, Pico della Mirandola ou Leão Hebreu, e que falam da procissão ou emanação da Luz amorosa criadora e que atrai a si, depois de circular, o amor, conforme a imagem simbólica das três Graças, a que dá, a que recebe e aque retorna, queremos apenas realçar que o culto da Luz, o assumir o instinto implica sobretudo tentarmos descobrir e intensificar a Luz em nós, recebê-la na nossa consciência, irradiá-la poderosamente nas meditações ou orações. No fundo trabalhar criativamente com este instinto, potencial ou dinamismo anímico que possuímos, do qual mesmo podemos dizer que somos, pois a nossa essência e ligações mais vitais e perenes são as luminosas, ígneas...
Estava bem consciente disto Antero, dominava relativamente claro a psique luminosa, vira ou assumira as asas do anjo nele?
A resposta neste verso final não é muito promissora: Antero sente apenas uma febre de ideal que o consome. E sabemos como na vida acabou por não bater tanto as asas como desejara e sonhara na pujância juvenil.
O ideal social, o ideal fraterno, o ideal de amor e conhecimento, sim certamente que abrasaram sempre a vida dum sábio que era também um santo, na feliz expressão de uma mulher amiga do poeta e que Eça de Queiroz popularizou magistralmente no seu contributo para o In-Memoriam de Antero. Mas conseguiu ele mais que ser abrasado e consumido por uma febre idealista que ele próprio consideraria tanto um mal, como um fogo juvenil, porque não atingiu a estabilidade do espírito ou do Divino? Como equilibrar os ideias e utopias, a sociedade entorpecedora e enleadora e os subtis e elevados níveis espirituais e o Divino Ser?
Eis a questão que há que pôr e repôr constamente nas nossas vidas e ao ouvirmos e estudarmos Antero em cartas, sonetos e textos de prosa. Certamente que poderemos afirmar que Antero procurou, sentiu e teorizou o caminho do espírito, seja na sua procura de unir o transcendentalismo e o imanentismo espiritual, ou o budismo e uma doutrina espiritualista que coroasse o naturalismos helénico. Mas como a sua vida pessoal não suportasse os embates da vida devido à estrutura psico-corporal e saúde frágil, as revelações e fulgurações que teve não foram suficientes para conseguirem-no iluminar nem para lhe dar a estabilidade duma prática diária harmoniosa alimentar, vital, ritmica, emocional, mental, social, científica e espiritual, ainda que no tempo de estudante tudo fosse vigor e génio e já no findar da Vida, junto ao mar em Vila de Conde tivesse vivido momentos de grande serenidade e felicidade.
Muito gratos devemos estar nós hoje pois podemos bem mais facilmente obter e realizar as almejadas sínteses entre o espírito imanente, uma vida justa e livre e a aspiração, abertura e comunhão ao Alto e ao Transcedente. Daí a nossa responsabilidade de agradecer, completar, de continuar Antero.
No soneto Nocturno, dirige-se ele no princípio ao espírito que passa, e no final ao Génio da Noite, o único ser que o entende.
Génio da Noite, em Antero de Quental, Senhora antiquíssima da Noite, em Fernando Pessoa e Teixeira Pascoaes, e tantos cultores portugueses da potência anímico-espiritual que de noite, sobretudo nos poetas e espiritualistas, se torna mais presente e sensível e nos apela a despertar, erguer, ardermos, crarmos e amarmos...
Procuremos então o Espírito que não só passa mas que fica e que é, do Espírito não só nocturno mas também diurno e mesmo que inclua os pares de opostos e os transcenda e seja uno com o Espirito Divino.
Trabalhemos pois mais conscientemente a Luz em nós, as energias divinas que chegam até nós sobretudo pela leitura e a escrita, a doação e a criação, a meditação e oração, contemplação e palavra desperta e que constituem a nossa essência e desenvolvimento luminoso.
“Vós sois a luz do mundo”, disse Jesus, procurando e incitando a estabelecer-nos numa base confiante e assumida da nossa natureza de luz.
“Eu sou o Espírito luminoso” Que estas palavras cheguem até a todos os que de algum modo são procuradores ou discípulos do Caminho, que ele próprio percorreu e trilhou com dificuldades e fortes e que em Portugal pioneiramente abriu enquanto


Sim, importará realçar e clarificar sempre o que de mais valioso ou pioneiro tem Antero na história do pensamento espiritual em Portugal, seja no seu interesse pela Sabedoria do Oriente seja na sua demanda intensa de uma síntese entre a ciência, a religião, a ética e a espiritualidade e de um acesso ao centro e voz da consciência, no que foi depois continuado em parte por Fernando Pessoa e mais alguns cultores da Tradição Portuguesa, num Caminho que hoje em dia está mil vezes mais conhecido e difundido embora também superficialmente, com conteúdos éticos, filosóficos e espirituais frequentemente bastante mais fracos...
Saibamos continuar a demanda e ir mais longe, profundo e alto na esteira do facho luminoso de Antero...

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