sábado, 3 de maio de 2014

Antero de Quental. "As Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc.XIX". Excertos e Reflexões...


 «eu tenho por certo os presentimentos. Agora como, isso não sei e penso que ninguém sabe». 1886.



Reflexão sobre a primeira das três partes das Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX

A demanda filosófica e espiritual de Antero de Quental teve na publicação, em Janeiro de 1890 e nos dois meses seguintes, no seio da Revista Portugal, do ensaio Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX o seu momento culminante, concluído o qual Antero pode partir rumo à ilha utópica dos seus ideais  que, naturalmente, não existindo  em parte alguma do exterior, só podia esperar (e resta-nos saber o que ele antevia...)  encontrar nos mundos subtis do além e do Espírito, onde apressada ou samuraicamente ingressou, sentado sob o signo da Esperança...

Antero de Quental, na fotografia da qual gostava e é pouco conhecida...
Nas Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX Antero de Quental presenteia-nos com várias  deduções, conclusões e intuições de grande qualidade que ainda hoje valem, das quais apresentamos algumas, de acordo com a  nossa visão. Este ensaio, e viram-no bem tanto Leonardo Coimbra como Sant' Anna Dionísio, é verdadeiramente o seu testamento filosófico e embora bem analisado ou debatido filosoficamente por muitos pensadores portugueses e em especial anterianos, tem sido ainda  insuficientemente compreendido ou acolhido espiritualmente...
Oiçamo-lo dentro desta perspectiva ou assunção mais espiritual, em alguns passos do seu texto:
Se o descobrir "a directriz da força íntima inicial", ou a nossa própria, é a base da via do conhecimento, seja pessoal seja geral, constantemente devemos retemperar-nos e redescobrirmo-nos na nossa essência para enfrentarmos "a acção mais ou menos perturbadora das forças que lhe condicionam a expansão".
Esta busca do "misterioso princípio ideal" que tenta manifestar-se em nós e na Humanidade faz-nos consciencializar da sua "potência infinita" e da expressão ou "acto limitado" que vamos conseguindo conceptualizar ou realizar...
Desta limitação humana e da sua capacidade expressão resulta que a Verdade tem de ser para nós simbólica pois "não é o Absoluto mas participa da natureza do Absoluto e tem em si, como diz o poeta, parte alguma do infinito".
Quem é então o Filósofo ou o que é a Filosofia: "`é a equação do pensamento e da realidade", ou "equilíbrio momentâneo entre a reflexão e a experiência: a adaptação possível em cada momento histórico...".
O que Antero de Quental nos pede é então coerência, verdade, sinceridade entre o que conhecemos e cremos, sentimos e pensamos e logo vivemos. Certamente na medida do possível, num fazer-se incessante, no desenvolvimento da nossa própria especificidade, equilibrando, diremos nós por exemplo, a contemplação e a acção, ou os nossos anseios e uma certa aura constante de aceitação transformante dos condicionalismos inevitáveis.
Este é o trabalho do amante da Sabedoria, o "filo Logos", que é também aquele que ama a Inteligência ou a Razão, o Espírito ou o Ser...


 Antero de Quental em vários aspectos deste texto foi bastante clarividente e espiritual e, na compreensão que apesar dos sistemas filosóficos serem irredutíveis entre si há algo de comum, afirma:"O espírito da época penetra-os a todos: o génio da raça e da civilização, que os viu nascer, imprimiu em todos igualmente o seu cunho indelével", intuíndo que: "haverá em cada época em cada civilização, uma metafísica latente, mais profunda que a que se formula nos diversos sistemas e tão profunda que a todos escapa, mas que influa insentida em todos e de que cada um murmure muito confusamente um eco?"
Esta ideia da existência de uma metafisica comum tanto pode ser vista como a Anima mundi, da Antiguidade e do Renascimento, como também a de uma aura psico-espiritual, e neste sentido se encaminhou Jung com o seu inconsciente colectivo, certamente um aperfeiçoamento das noções que vinham do séc. XIX, nomeadamente de Hartman e que Antero tão bem conhecera, ou mesmo com a ideia de sincronia, por exemplo quando vemos diversos autores murmurarem um eco dessa fala subtil do que do mundo dos arquétipos está mais próximo e afim da humanidade numa determinada época e que chega até às suas mentes mais prescrutantes ou às almas mais sensíveis e receptivas. Seria interessante estarmos mais conscientes, por exemplo, dos esforços (e resultados...) meditativos e contemplativos de Antero para captar os ecos ou reflexos de tais arquétipos, princípios, leis, formas geométricas e  ideias do mundo intermediário intelectual e causal entre a Divindade ou o Absoluto e a mente racional humana, a Humanidade.

Da complementariedade dos sistemas e visões resulta que "sem o quererem, completam-se uns aos outros, e é só no conjunto deles que o espírito que anima a idade, o ciclo humano que os produziu, se encontra inteiro e pode ser bem estudado e compreendido. A expressão completa deste espírito seria pois um teoria geral do Universo, que formulasse superiormente, reduzindo-os à sua unidade, todos aqueles pontos de vista parciais, aqueles momentos limitados de compreensão, que cada sistema representa isolada e divergentemente"
Neste aspecto, a procura contemporânea da exposição de uma teoria do campo unificado de energia-consciência do Universo, e vemos de novo  a actualidade de Antero que além de ter intuído que já no que se designava como magnetismo se encontrava essa força orgânica unitária (conforme a Carta a Cirilo Machado, de 1886, tratada num artigo neste blogue) considera que, na impossibilidade de um síntese perfeita dos diferentes pontos de vista, doutrinas e sistemas "um ecletismo ou um sincretismo mais ou menos sistemático" é o "possível sucedâneo daquela síntese irrealizável".
Antero adianta então que na história da Humanidade algo disso se conseguiu na época ou período de Alexandria «quando Pitagóricos, Platónicos, Estóicos e até Peripatéticos se uniram» e no declinar da Idade Média, quando Thomas de Aquino formulou na «gigantesca Summa, senão uma verdadeira síntese, pelo menos a redução a uma unidade sistemática das tendências das várias correntes do espírito medieval, mais ou menos confundidas ou harmonizadas no seu sábio ecletismo.
 «Hoje, ao cabo de quatro séculos de elaboração do pensamento moderno, parece dar-se alguma coisa semelhante... A hora do joeiramento das verdades adquiridas, da crítica e coordenação dos diversos pontos de vista e da conciliação dos sistemas parece ter soado para a filosofia moderna...  O adepto de uma escola, segundo os velhos moldes, absoluto e intransigente, faz-nos hoje muito proximamente o efeito de uma inteligência acanhada, às vezes quase de um extravagante. Um largo criticismo vai substituindo o antigo dogmatismo. Por este lado ainda, tudo indica que somos entrados no que se pode chamar o período alexandrino do pensamento moderno", algo que nos nossos dias de globalização e da instrumentalidade da Internet amplificou poderosamente, permitindo sínteses cada vez mais abrangentes das múltiplas esferas e fontes do conhecimento.
Antero vai então destacar no substrato do pensamento geral actual quatro noções capitais, "quatro palavras que representam em amplitude como em profundeza, a maior revolução intelectual da humanidade": força (a essência comum da matéria e o espírito), lei ("as leis do espírito são as leis do universo"), imanência ("o espírito é o ser tipo, medida de todos os seres, revelação da sua mais íntima natureza") ou espontaneidade, e desenvolvimento ("a força manifesta-se em actos que alargam a esfera da acção").


Ao comparar o que até então se pensara e o que se começava a compreender, realça que "se, para o pensamento antigo, a realidade aparecia como uma emanação do ser em si absoluto e só verdadeiramente existente, para o pensamento moderno é a realidade o fieri incessante de um ser em si só potencialmente existente e que só realizando-se atinge a plenitude...", acrescentando ainda  que "segundo o pensamento moderno matéria e forma são indissolúveis, fundem-se na natureza autónoma dos seres cujo princípio de energia lhes é próprio, ou antes, constitui a sua mesma essência" e que hoje em dia se "vê na realidade o acto único de uma substância omnimoda, por virtude da qual todos os seres, momentos e modalidades dela, comunicam continuamente entre si, influenciando-se mutuamente, opondo-se e, por essa constante e universal oposição, realizando, não a recíproca anulação, mas a integração de todos os momentos na unidade, cujas diversas potências manifestam.", algo que a ciência moderna vai confirmando, nomeadamente com a sua noção do emaranhamento da mente, que por exemplo o cientista Dean Radin tem exposto e comprovado, ou que muitos de nós vão sentindo em diversos tipos de telepatia e pressentimentos, estes referidos por Antero em 1886: ««eu tenho por certo os presentimentos. Agora como, isso não sei e penso que ninguém sabe».

Realcemos então neste excertos a posição de síntese ecléctica de Antero,  as quatro palavras que para ele eram as ideias-forças mais importantes, que nós hoje  devemos reactualizar e aprofundar com os dados da física quântica e das neuro-ciências, e por fim a sua dinâmica visão do Ser, que em nós é a energia própria e íntima, a nossa essência, e que na "identidade do ser e do saber" vive em ampla unidade comunicativa com todo o Universo.

Transcrevamos uma parte do significativo parágrafo em que Antero desenvolve a "sublime" ideia de desenvolvimento, ela «é a consequência e o complemento natural das ideias de força e de imanência.... todo o ser tende para a afirmação de si mesmo, isto é, para a expansão e a realização da sua essência. Se essa essência, que exprime a sua mesma existência, lhe é imanente, a sua potência ou virtualidade de expansão e realização é necessariamente ilimitada, pois no momento em que encontrasse um limite absoluto a essência do ser estaria em contradição consigo mesmo: realizar-se, e realizar-se numa sucessão ilimitada de momentos, em que cada um abrange o anterior e por isso compreende mais do que ele, tal é a sua lei. Ainda por este lado chegamos à ideia de desenvolvimento. O Universo aparece-nos agora já não somente como o grande ser autónomo e eternamente activo, mas como ser de ilimitada e infinita expansão, tirando de si mesmo, da sua inesgotável virtualidade, de momento para momento, criações cada vez mais completas, mais ricas de energia, vida e expressão, envolvendo-se e desdobrando-se, em voltas cada vez mais largas e sinuosas, na espiral sem termo do seu maravilhoso desenvolvimento. Divino e real ao mesmo tempo, manifesta a si mesmo a sua essência prodigiosa, contempla-se numa infinidade de espelhos e em cada um sob um aspecto diverso, desenrolando a sua eterna existência numa série de panoramas, desde as forças elementares e puramente mecânicas, as mil afinidades da matéria bruta, até ao instinto que sonha, à inteligência que observa e compara, à razão que ordena, ao sentimento que fecunda, até à contemplação e à virtude dos sábios e dos santos»

Na parte final do último parágrafo da I parte das Tendências Gerais da Filosofia diz-nos Antero:
" A nova filosofia fundada sobre a «identidade do ser e do saber» leva as ideias fundamentais do espírito moderno, as ideias de força, de imanência e de desenvolvimento, até ao máximo grau de condensação. Schelling e Hegel fundaram definitivamente a doutrina da evolução, e fundaram-na na mais alta região das ideias, donde ela domina todo o pensamento do nosso século. A evolução, vista dessa altura, não é somente o processo mecânico e obscuro da realidade [hoje bem menos...] : é o próprio processo dialéctico do ser, tem as suas raízes, comuns com as raízes da razão, na inconsciente [ou seremos nós que estamos inconscientes de tal?] mas fundíssima aspiração da natureza a um fim soberano, a consciência de si mesmo, a plenitude do ser e a ideal perfeição. A lei suprema das coisas confunde-se com a sua finalidade e essa finalidade é espiritual. Com Schelling e  Hegel a filosofia da natureza compenetra-se dos seus verdadeiros princípios metafísicos: o mecanismo dissolve-se no dinamismo, cujo tipo ultimo é o espírito. O universo, à luz do realismo transcendental dos dois grandes sucessores de Kant, transfigura-se: o seu movimento aparece como uma sucessão e encadeamento de ideias e a sua imanência define-se como a da alma infinita das coisas»

Sejamos pois mais nós próprios, realizando a nossa essência e expandindo-a num fazer incessante, bem ou mais conscientes da "substância omnímoda" viva e interdialogante, "alma infinita das coisas" "na espiral sem termo do seu maravilhoso desenvolvimento, Divino e real ao mesmo tempo", na qual temos o nosso ser, e onde a Tradição Espiritual Portuguesa, de que Antero e nós fazemos parte, é um dos veios ou rios auríferos...

4 comentários:

fernanda dias disse...

Muito bom,
Sejamos sim nós próprios em consciência, só assim poderemos evoluir espiritualmente

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Graças, Fernanda. Sem dúvida importante mantermos viva a chama da evolução consciencial e espiritual...

Alexa disse...

Interessantes considerações filosóficas, que nos poderão conduzir a uma reflexão mais profunda.

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Graças, Alexa. Sem dúvida, Antero é um grande ser filosoficamente, embora não tenha sido tão reconhecido como merecia.... Este artigo e o próximo são contributos para clarificar o seu valor e a sua actualidade...