sábado, 15 de fevereiro de 2014

Antero, um dos mestres de Portugal... Acerca da biografia de Antero, de José Calvet de Magalhães.

                       

                                       Santo Antero, inspirador idealista ético-espiritual...
           Acerca da biografia de Antero, de José Calvet de Magalhães.

Santo Antero, no jardim da Estrela, em Lisboa...

Antero de Quental, o escritor português talvez mais carismático do século XIX, ressurge de tempos a tempos das brumas do passado graças a uns poucos de fiéis da sua alma, vida e obra, tal o embaixador José Calvet de Magalhães que, depois de publicar as biografias de Eça e de Garret, escreveu o livro “Antero, a Vida Angustiada dum Poeta", editado em 2006 pela editora Bizâncio, ou os que o lêem e reflectem hoje...


Antero de Quental, nascido em 18 de Abril (signo Carneiro) de 1842, nos Açores, foi bem um ilhéu que emigra, na expressão de Vitorino Nemésio, e a sua vida de andarilho no fluir impermanente da vida foi tal que denominaram-no (e considerou-se de certo modo, em unidade com o helenismo) budista, não só pela sua aspiração intensa a um indefinível para além do Ser, como também pela sua vida de génio celibatário itinerante (ainda que tendo tido os seus amores), portador duma mensagem revolucionária, a exemplo dos monges budistas, discípulos do Dharma, do caminho realizado por Gautama Buddha. Talvez até porque os seus antepassados se tinham notabilizado na religiosidade católica e no livre-pensamento, Antero possuia energias místicas e independentes fortes e quando desembarcou em Coimbra aos 16 anos para estudar Direito mergulhou nas correntes ideológicas que então tentavam liderar os europeus, entre as quais se destacavam as do socialismo nascente, com Hegel e Proudhon, e as do universalismo espiritual democrático, impulsionadas pelos estudos das religiões e pelas obras de Michelet e Quinet. Grande parte do drama de Antero resultou, ou estava em sincronia, com este embate formidável de ideias, ao qual se entregou de corpo e alma bastante sensíveis, desenvolvendo especulações e estudos filosóficos notáveis, consignados nas "Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX" e em muitas análises culturais, sociais e políticas que foi fazendo com grande lucidez, além de estarem por detrás e por cima da sua notável e bela poesia. Contudo, o facto de terem sido destruídos alguns dos seus escritos fundamentais acerca da religião, metafisica e arte impedem-nos de cingir plenamente a fundura e abrangência do seu pensar, meditar, intuir e ser.

José Calvet de Magalhães soube na sua biografia recrear alguns dos mais interessantes acontecimentos da vida de Antero, e vêmo-lo desde Coimbra, nas suas caminhadas com botas de sete léguas e nas audaciosas participações na Sociedade do Raio, donde saiu o “Manifesto dos Estudantes da Universidade de Coimbra à opinião ilustrada do país”, ponto final num reitor e em praxes (que diferena para os nossos dias onde ainda subsistem...) e hábitos universitários caducos, ou ainda em intensas discussões e polémicas literárias ("Bom Senso e Bom Gosto"), até ir amadurecendo à custa de muita dor e desilusão, movimento e reflexão. Todos estes aspectos exemplares da vida «do guia de uma geração» são bem descritos, numa prosa clara e directa que nos alicia invencivelmente, ou não fosse também a vida de Antero uma travessia rápida e dramática do mar da existência sempre em busca dos caminhos da Justiça e da Consciência.
Diferentes interpretações da vida e obra de Antero são inevitáveis, e ainda mais seriam se fossemos aos aspectos mais íntimos das suas motivações, impulsos e atavismos, e devemos então confrontar as visões e compreensões que nos guiam ou desviam da verdade.  Calvet de Magalhães crê, por exemplo, que a vida boémia estudantil provocou uma úlcera, que terá evoluído para o estrangulamento do piloro, causador das digestões difíceis, que ainda mais o perturbavam pelo seu regime espartano duma refeição por dia. E pensa que o dr. Filomeno da Câmara e o sábio Jaime Batalha Reis, os únicos que teriam diagnosticado este mal, não o revelaram a Antero por a operação ser então impossível. Mas se pensarmos na constante busca de verdade que animava Antero, custa-nos a crer que não o esclarecessem sobre a causa dos seus males. Este aspecto é ainda importante pelas crises de insónia que sofria Antero e que para alguns serão determinantes no findar da sua vida...
As relações de Antero com as figuras da época formam uma aura de grandes amizades, nascidas na idade mais propícia que é a vida estudantil, sobretudo quando temperadas nos debates idealistas e nas acções abnegadas. Mas surgem também os momentos de capa e espada, com Camilo e Ramalho Ortigão (este batido em duelo), ou mesmo a inimizade com o torcido Teófilo Braga. Até que ponto é que devemos condenar como coléricas certas atitudes ou cartas de Antero, ou se as devemos considerar expressões de indignação justa, será sempre motivo de controvérsia, mas não é evidente que o facto de pedir depois de algum acto desculpas implique uma plena culpabilidade.
Oliveira Martins foi um dos dialogantes mais próximos de Antero, mas isso não o impediu de receber uma resposta negativa quando o convidou a participar num ministério com ele. Para Calvet de Magalhães foi uma atitude bastante egoísta , mas discordamos pela simples razão que Antero lhe dá ou diz no fim da carta: «The right man in the right place»... E não nos espantaremos se soubermos a conta em que Antero tinha a generalidade dos políticos do pobre Portugal, tal como escrevera pouco antes a Martins, justificando com ironia a sua breve passagem pela capital:«Não ouvia senão falar em roubos, tive medo de encontrar algum ministro e ficar sem camisa». E nos tempos do séc. XXI algo disto ainda permanece...
Contudo, em 1890, quando já iam bem longe os ímpetos mais revolucionários ou a candidatura a deputado no idealista Partido Socialista, ao rebentar a crise ultramarina que culminou com o Ultimato britânico, Antero assume um cargo público mas por delegação directa. Calvet de Magalhães descreve, talvez no capítulo mais conseguido do livro, a intrincada situação e o erguer efémero da Liga Patriótica do Norte, da qual Luís de Magalhães, que o convidou, diz:«Era preciso que à frente dessa Liga se pusesse uma consciência absolutamente pura e imaculada, um grande coração generoso e heróico, um nome que a todos inspirasse uma absoluta cofiança e fosse já aureolado». Depois de terem sido consultados os estudantes e aprovado o nome de Antero, este veio de Vila do Conde, sendo recebido entusiasticamente na estação de caminho de ferro da Boavista. E ao fim da tarde, com uma multidão diante da casa onde se hospedara, conta-nos Calvet de Magalhães, «Antero apareceu a uma varanda, sendo recebido por uma estrondosa salva de palmas e novos e entusiásticos vivas. Pedindo silêncio o poeta disse algumas palavras de agradecimento, manifestando a esperança do bom êxito da campanha de renascimento da Pátria, em que ele agora acreditava sinceramente, em virtude do apoio que recebia dos estudantes», e era realmente esse o propósito que levava o venerando poeta-filósofo a entrar sem muitas ilusões na arena pública...
 Bons tempos em que os estudantes eram uma das forças mais vivas, dinâmicas, revolucionárias da Pátria...

Em 7 de Março, quando o desapoio político gerava o falhanço da Liga do Norte (embora não devamos esquecer as influências não só no eclodir da revolução do 31 de Janeiro de 1891, frustrada, como no futuro movimento portuense da Renascença Portuguesa, de Leonardo Coimbra, Pascoais, Cortesão e Casimiro), Antero redige um «manifesto em que definia a sua posição pessoal e em que, em termos severos, condenava os dois grandes partidos monárquicos e, igualmente, o partido republicano, afirmando que deles nada haveria a esperar...» 
Era o velho panfletário que renascia, o Saint-Just de que falara Basílio Teles, o qual, com Sampaio Bruno, Luís de Magalhães, Joaquim de Vasconcelos e o conde de Resende, foram os principais auxiliares da aventura nortenha. Mas Oliveira Martins, alertado para o facto, veio de imediato para o Norte e conseguiu convencer Antero a dar ordens de destruição da obra prestes a sair, de que não escapará um só exemplar... 
Desta intervenção de Oliveira Martins resultou um esfriamento temporário da amizade de ambos, um aumento do pessimismo do poeta e a perda dum documento importantíssimo, e que, acrescentada à dos dois volumes do “Programa de Trabalho para as Gerações Futuras”, sacrificados ao fogo em 1874 por Antero os considerar imperfeitos, deixou um vazio arquétipo na história das ideias portuguesas ainda hoje não preenchido e cada vez mais necessário perante o afundamento ideológico-cultural das últimas governações poortuguesas... O que diria Antero dos nossos dias...

  
Tudo se conjugava então  para o regresso final à ilha-mãe e as despedidas sábias e belas emergem imorredoiras: em Vila do Conde (onde passou os seus tempos mais serenos e felizes e onde nasceram Sonetos de grande qualidade) separa-se ou despede-se de Alberto Sampaio, Jaime Magalhães de Lima e Luís de Magalhães, interrogando este Antero se «depois de ter habitado por tanto tempo aqueles privilegiados lugares ia sentir muitas saudades de tanta doçura e beleza. E Antero, em um daqueles sorrisos mágicos do seu cintilante humorismo, que tanto nos confundia o entendimento como nos alvoraçava a hilariedade, de pronto me respondeu: Não!…Não! Porque em virtude dos meus princípios filosóficos resolvi não ter saudades de coisa nenhuma!».
 E em Lisboa, uns dias antes de partir, em conversa com o seu amigo e condiscípulo Vasconcellos Abreu, estudante e mais tarde professor de sânscrito, este passa-lhe uma frase do fabulário de instrução moral, o “Hitopadexa”, que considerava apropriado aos “Sonetos” : «Tudo estudou, aprendeu tudo e tudo executou, quem voltou as costas à esperança e se ampara descansado em nada esperar», que Antero regista num papel, talvez vaticinando o caminhar para o banco sob a palavra Esperança, onde uns meses depois, já em S.Miguel, repentinamente e devido ao desgosto de ter de se separar das filhas adoptivas, ou porque os seus nervos não conservaram o estoicismo que desejava e pensava,  ou porque sentira que chegara ao fim a sua pergerinação neste vale de sofrimento e ignorância, termina voluntariamente a sua passagem e demanda no labirinto terreno...




      Poder-se-ia pensar que após a publicação do “In Memorian” de 1895, da biografia de José Bruno Carreiro, e da edição das “Cartas”, por Ana Almeida Martins,  e de tantos estudos como os de Leonardo Coimbra, Sant’anna Dionísio, Joaquim de Carvalho, Manuel da Câmara, Fidelino de Figueiredo, António Salgado Júnior, José Régio, Pina Martins, Eduíno de Jesus, Eduardo Lourenço,  José Esteves Pereira, Leonel Ribeiro dos Santos, etc. etc, não muito mais haveria a dizer, mas de facto cada nova geração tem a obrigação de revisitar os seus maiores e aprofundá-los com as luzes suas e, assim, esta obra de Calvet Magalhães, ainda que não indo tão fundo como mereceria nos aspectos mais íntimos de uma biografia ou nos filosóficos e metafísicos (tal como se observa no capítulo intitulado “Tendência Gerais da Filosofia”), vale não só por clarificar aspectos da conimbricense e secreta Sociedade do Raio (embora não refira a menos conhecida Ordem dos Mateiros), das estadias em França, do Grupo dos Cinco, das amizades e inimizades e da lenda da santidade ("Um génio que era um Santo", Eça de Queirós), como também por conter um capítulo muito bom acerca das relações internacionais na crise ultramarina e a famigerada Liga Patriótica do Norte. 

E, finalmente, por nos permitir reviver, numa estruturação fluida, um itinerário único e sempre actual de beleza, sinceridade e ardente demanda da verdade, num corpo a corpo com a morte que a todos espera, e que para bem viveu "é mais rutilante na sua noite, que a luz do dia", e na qual se anima a Voz da Consciência, como Antero nos segreda...

    "Só no meu coração que sondo e meço,
    Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
    Em segredo protesta e afirma o Bem!"

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