segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Erasmo, pedagogo do Renascimento. Homenagem no dia do seu aniversário...

     Erasmo, ainda hoje, passados cerca de 500 anos da sua vida, sobrevive no coração e ouvidos de quem o ama, e numa grande força interior de sabedoria, liberdade e amor à verdade…
     Entre os muitos aspectos da sua riquíssima personalidade destacaremos, hoje dia do seu aniversário, o do pedagogo ou educador, que ele foi desde muito cedo, ao princípio por necessidades de pagar os seus estudos de Grego em Paris, mais tarde por natural fluir da sua imensa erudição, ironia e amor.                                                 
      Ora como pensador e pedagogo ele inseriu-se na corrente Humanista Italiana, que vinha de Collucio, Lorenzo Valla, Pico della Mirandola, Marsilio Ficino,  valorizadora da Dignidade Humana, da Tradição Perene e do criticismo intelectual dos textos, sendo bastante pioneiro em vários aspectos da sua vasta obra, por exemplo, ora desejando que as mulheres tivessem uma educação mais completa e que se emancipassem ora propondo que o estudo “seja visto como lúdico e não labor», escrevendo por isso muito dos seus Colóquios, nos quais ensina pelo diálogo, o paradoxal e o irónico.
     Assim a auto-consciência lúcida e a crítica do que exteriormente condiciona, manipula, esmaga e destrói as melhores  potencialidades do género humano é bem desenvolvida por Erasmo que, na linha de Luciano, de quem traduz as obras com Thomas More aquando da sua estadia em Londes, a torna libertadora da vida em si das pessoas e inspiradora de uma consciência  mais desperta, criativa, irenaica, sábia e estulta simultaneamente, e universal…
     Realçou ainda muito a sacralidade e o amor que estão na essência da Educação, apresentando a paternidade-maternidade como o meio mais natural e nobre dela e de tal modo que a transmissão de mestre a aluno ou a discípulo deve ser como a de um pai, e visar o desabrochamento do génio próprio, da sua pessoalização ou, como Carl Gustav Jung viria a denominar e a, desenvolver, a individuação.
    No aspecto da sensibilidade na Educação, Erasmo realçou muito o valor da poesia, do subjectivismo, da sensibilidade poética, da leitura e do culto dos grandes poetas e escritores clássicos (tendo sido por isso criticado), em especial os greco-latinos, tendo composto uns poucos de poemas ao longo da sua vida, muito mais desenvolvida ou afirmada certamente na prosa e na epistolografia, esta sendo vista como um diário afectivo e intelectual dialogante, e que teve um sucesso enorme (o inglês Allen editou-a em 12 volumes no séc. XX) e por onde perpassa muito da sua amizade, liberdade e sabedoria, além de todas as perseguições que lhe fizeram ou polémicas em que se envolveu, sobretudo com o começo da Reforma.
    Na pedagogia erasmiana uma das ideias forças é a do irenismo ou não-violência, pacifismo, tolerância activa, conciliação. Uma forte oposição e condenação da resolução dos conflitos pelo recurso às armas é afirmada, considerando que até os animais da mesma espécie raramente lutam entre si, pelo que o ser humano deve procurar pelo diálogo chegar à concórdia… 
    São os pedagogos, os professores, os cultores das Belas Letras, os humanistas (por vezes unidos em círculos e sodalidades, na grande  república literária), hoje diríamos os intelectuais, os cientistas e os espirituais, quem pode e deveria exercer o papel de mediador ou de esclarecedor nos grandes conflitos de opiniões, interesses, partidos, povos, estados, religiões.
    Neste último sentido considerará, por exemplo, que a frase de Jesus Cristo: ”Ninguém vai ao Pai senão através de mim”,  mim o Logos ou o Cristo, é igual ou corresponde a Razão,  Sermo (que sempre preferiu a Verbo) ou Palavra, ou ainda ao Diálogo verdadeiro e amoroso. Neste sentido corre também a expressão paradigmática do mestre:”Onde dois ou três se reunirem em meu nome eu estarei no meio deles”. Reunirem, direi eu, em diálogo, em colóquio, silencioso ou com palavra luminosa audível…
     A pedagogia irenaica ou educação pela não-violência, contra as guerras, os fanatismos e autoritarismos, acaba por desaguar numa ideia de religião interior e pura, que Jesus transmitiu e cuja base de simplicidade, amor, douta piedade e verdade é universal e subjaz a todas as religiões. Assim sendo, diremos que hoje é fundamental que desde a mais tenra idade isso seja ensinado, mas contudo quase nada vemos, por exemplo, fomentado pela UNESCO ou as Nações Unidas, ainda muito atadas por pressões e interesses negativos, nem pelo laicismo neutro das modernas democracias, dando azo a que a ignorância, o fundamentalismo e o fanatismo grassem de Oriente a Ocidente, ainda que o ecumenismo e o diálogo inter-religioso floresçam em alguns pontos.
     Para Erasmo, muito mais do que organização, dogmas e sacramentos, a Religião ou a Igreja é a assembleia ou congregação da fé e vontade de ligação amorosa à Divindade e à Humanidade, sendo por isso universal e baseada no estudo dos textos sagrados e na comunhão com o corpo místico em que todos temos parte.  Tal desagua na metanóia ou transformação interior, na reforma das mentalidades e costumes, na defesa dos oprimidos e perseguidos, na distribuição mais justa dos bens, e na menor valorização das hierarquias e autoridades exteriores.  As suas propostas de Educação são vastíssimas e apenas demos uma pequena amostra ou introdução à leitura das suas imensas e riquíssimas obras…
   Terminemos então com algumas  das frases que são testamentos deste  humanista, de quem o grande sábio francês Lefévre d‘Étaples escreveu em 1514, “Quem é que não admira, ama, honra Erasmo? Ou que Rabelais considerou  “campeão invencível da liberdade” (e lembremos a sua polémica com Lutero na qual defendeu convincentemente o livre-arbítrio). E de quem o nosso Damião de Goes, seu grande amigo, disse em 1538, pouco após a sua morte (11 Julho de 1535):”aquele prudentíssimo e gravíssimo Erasmo de Roterdão, neste nosso áureo e doutíssimo século, príncipe de toda a doutrina e eloquência”.
Assinatura de Damião de Goes num exemplar da sua Crónica do rei D. Manuel
Eis então alguns dos seus ditos, à altura das centenas de adágios da antiguidade que ele coligiu e comentou, e que considerava o “arsenal de Minerva”: “Um homem não nasce homem, torna-se", dito este extraído do  seu tratado “Da Educação das Crianças”, o De Pueris.
Os que transcrevi nas páginas ante-prefaciais do livro que traduzi com Álvaro Mendes, e prefaciei  e comentei,  em 2008 nas Publicações Maitreya, o Modo de Orar a Deus:

"As pessoas de engenho generoso e livre gostam de ser guiadas, não de ser coagidas”

Ego mundi civis esse cupio, communis omnium vel peregrinus magis.
“Eu desejo ser cidadão do mundo, pertencendo a todos, ou mesmo mais, peregrino”
      E, finalmente, de grande pedagogia e actualidade: “Não nego que procuro a paz sempre que possível. Sou a favor de ouvir ambos os lados com ouvidos bem abertos. Amo a liberdade. Não servirei, nem posso servir, nenhum partido”

      Escrito em Lisboa e dedicado a Erasmo e a seus discípulos Damião de Góis e  José Vitorino de Pina Martins, neste dia 28 de Outubro de 2013 e em que Erasmo faria anos, 547...
       Mas como disse o deão da igreja de S. Paulo em Londres, seu amigo, sábio e místico John Colet:   Nomen Erasmi nunquam peribit.
           "O nome [e espírito] de Erasmo nunca perecerá…”
                        Saibamos acolhê-lo, comungá-lo e frutificá-lo…

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