segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Erasmo, mestre actual...

           Erasmo, mestre sempre actual e amigo perene....

   Primeira pequena homenagem e evocação neste seu dia de anos, pois nasceu perto de Roterdão em 20-10 de 1466, lembrando ainda o Prof. José Vitorino de Pina Martins, um erasmiano, amigo e sábio humanista, com quem muito convivi sob as asas espirituais de Pico della Mirandola e Marsilio Ficino, Thomas More e Erasmo....
                     
                “No que foi mestre nos seus dias, Erasmo será mestre para sempre.” 
A expressão mestre é porém complexa, pois se no Oriente o “guru” tem um sentido claro de dispersador das trevas, ou ainda de pesado, em termos de conhecimento e sabedoria, o magister latino (provindo do magis, mais, e que significa o que dirige, ensina, comanda, preside), acabou por ser na época palco de lutas pelo vazio que por vezes encerrava e assim os magisters nostris são ridicularizados por Erasmo, ainda que ele próprio se tenha tornado um mestre para milhares de seres, pois se formos a ler as três mil duzentas e tal cartas de Erasmo veremos que muitos se dirigiam a ele nesses termos ou com imensa devoção...
E de facto Erasmo foi-o, no bom sentido, de clarificador e impulsionador, por várias razões que passo a enumerar:
Mestre viajante, de polémicas, pioneiro do amor aos estudos das belas letras ou greco-latinas, da poesia e eloquência à retórica e à gramática, mestre na pedagogia, mestre no acesso das mulheres ao estudo e à educação, mestre enquanto dominava o latim e o grego, mestre na firmeza da sua posição por si mesmo e não se deixando influenciar demasiado pelas pressões viessem de quem viessem. Por vezes “demasiado” porque acabou por aqui e acolá de ter de retirar algo da sua ousadia, tal como a designação de “Novo Instrumentum”, para o “Novo Testamento”, ou ainda o coma joanino, uma interpolação tardia no Evangelho de S. João por ele assinalada
Mestre da união da sabedoria dos antigos com as fontes autênticas do Cristianismo, os Evangelhos e os escritos dos primeiros Padres da Igreja que ele traduzira, purificara, comentara e editara.
Mestre da critica e da ironia, bem desenvolvida no Julio Exclusus, nos Colóquios, na sua obra prima o Elogio da Loucura, mestre da cultura europeia letrada (que está ficar cada vez mais longe e bolonhizada), mestre de príncipes, mestre dos cristãos (frase de um correpondente em Espanha), mestre da concórdia, da paz (na altura designada por irene, do grego), e do irenismo ou pacifismo, do qual é um exemplo a sua obra Consulta acerca da utilidade da guerra aos turcos, e que hoje em dia é tão necessária face ao imperialismo destrutivo do petrodolar.
Neste sentido, irenaico, escreveu: «O importante, onde se deve aplicar toda a nossa energia, é a curar a nossa alma das paixões: Inveja, ódio, orgulho, avareza, concupiscência. Se não tenho o coração puro, não verei a Deus. Se não perdoar ao meu irmão, Deus não me perdoará... S. Agostinho encontrou um ou outro caso onde não se reprova a guerra: mas toda a filosofia de Cristo a condena. Os apóstolos reprovam-na sempre, e os doutores santos que a admitiram em certos casos, em quantos outros não a condenam? Porquê procurarmos à custa duma passagem evangélica o com que autorizar os nossos vícios?»
Mestre de Cristianismo, nomeadamente com o seu best-seller “O Manual do Cavaleiro Cristão”, de espiritualidade, tal como com o seu Modo de Orar a Deus (que traduzi com Álvaro Mendes, e comentei, nas Publicações Maitreya, em 2008), de mística, esta considerada como o sumo Bem a ser procurado e que nos aponta em textos religiosos e sobretudo no Elogio da Loucura, na loucura dos amantes ou no extâse dos místicos.
A sua modernidade está bem visível na profunda auto-consciência crítica (seja a ironizar consigo próprio no Elogio da Loucura ou no Ciceroniano), na percepção da relatividade das coisas e da própria verdade, na fragilidade do conhecimento humano, nomeadamente nos aspectos religiosos (“anotação ridícula", "lapso miserável", "engano”, surgem nas notas que fez ao Novo Testamento, em relação às interpretações que S. Tomás de Aquino fizera) e espirituais, donde uma reserva quanto ao valor e eficácia de superstições, rituais, dogmas, fanatismos e seitas.
Na valorização da transformação interior, da metanóia a partir da experiência espiritual e da vivência das doutrinas e ensinamentos.
Na valorização da convicção pessoal obtida por esforço ou studium, nomeadamente dos textos mais sagrados para se transformar a mente e o coração.
Neste sentido dirá: 
Ego aliam artem notoriam non novi nisi curam, amorem, et assiduitatem.
Fácil de compreender em português mas que traduzimos com variantes de sinónimos: 
"Eu não conheço outra arte de conhecimento que o tomar de dores, amar o assunto e perseverança.”
Até a sua actualidade em termos de política pode ser realçada e terminamos com ela para nos rirmos um pouco dos reis modernos que nus sempre estão e vão e despojam a muitos:
No adágio A Mortuo I, IX. 12, comenta assim: «Não há pacto nem limite, cada dia eles inventam novas formas de impostos, e o que quer que tenha sido introduzido para satisfazer uma necessidade momentânea retém-nas muito agressivamente.”
Sancte Erasmo, ora pro nobis…

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