quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Hallowen, Samain, ou as celebrações sacras celtas e pré-cristãs...


                              Samain, Hallowen no ar e nas almas...
Esta celebração celta e druídica, ou ainda da imemorial religiosidade pré-cristã europeia, realiza-se nesta altura do ano (29/10 a 2/11), entre o equinócio do Outono e o solstício do Inverno, desenrolando-se por alguns dias de festejos, danças, rituais e orações que marcavam o fim e o começo do novo Ano. 
Eram dias fortes, de entrada no Inverno e nas trevas maiores do tempo, para um renascimento posterior. Seja a Divindade, seja os Deuses e Espíritos da Natureza, tinham que ser evocados como protectores do novo ano e presenteados com energias aplacantes, pelo que rituais, danças e sacrifícios eram-lhe oferecidos. 
As lutas entre as forças do bem e mal adivinhavam-se nas tempestades e raios, e os Deuses e espíritos da Natureza desciam mais à Terra e à visibilidade: o mundo de Sid (do além) estava aberto, as fronteiras esfumavam-se, as visitações, inspirações e oráculos podiam suceder...
Esta abertura ao Sid, ao mundo subtil e espiritual, era um dos traços mais distintivos dos dias da celebração do Samaim, algo que se conservou no Cristianismo, com os dias de Todos os Santos e o dos Mortos, que assinalam e apelam a esta abertura e sintonia maior entre os mundos e seres, na velocidade luminosa ou frequências vibratórias que conseguirmos...
Onde se localizam as entradas para o Sid
Tradicionalmente era para o lado do Sol poente, ou Ocidente e, portanto, nestes dias quem quiser orar ou meditar poderá fazê-lo virado nesta direcção e aproveitando o balanço ou a corrente energética… 
Ou mesmo virar a cama para tal eixo e, ao adormecer, orar, sonhar e deixar-se partir para o mundo intermediário e subtil, ou mesmo para a Ilha Afortunada, no meio do imenso Oceano da Manifestação, também denominada Avalon, a ilha da imortalidade ou das maçãs pentagonais que a propiciam...
Ou seja, da consciência mais perfeita do espírito que somos e dos que nos rodeiam e que se manifesta harmoniosamente nos mundos, sob o Um Divino e a sua Graça branca e nos sete planos...

                                                                         Branca de Neve, por Leonor B

Quanto às festas, às comidas, às cabaças escavadas (ou cabeças sacrificadas e iluminadas), talvez possamos lembrar que muito provavelmente nestes dias, os sacrifícios primitivos passaram a ser também refeições ou banquetes nos quais algumas comidas eram oferecidas aos deuses, aos antepassados e protectores dos grupos e que chamas (ou velas..), perfumes de flores, odores de ervas ou incensos, poções e alimentos, preces e cantos elevavam-se para o Sid, com amor e gratidão, e podiam assim fazer descer alguma presença, inspiração ou bênção, que enchia o silencioso círculo ou família, mesa ou cabeça, de que a cabaça aberta e luminosa é símbolo, e como hoje se faz mais ou menos conscientemente aqui e acolá...
Mas porque será que as pessoas hoje sentem muito pouco do Sid ou do além? 
Basicamente talvez porque estão cheias do mundo e das suas futilidades, roubos e desgraças, sendo os meios de informação e a televisão os principais causadores de tal crescente insensibilidade e incapacidade de se sentir ou ver mais os mundos subtis e espirituais e os seus seres...
Morre tanta gente nossa amiga ou próxima, queixamo-nos da tragédia que foi e da sua falta, mas depois embebedamo-nos de informação televisiva ou revisteira e desenvolvemos pouco silêncio e escuta interior para os poder sentir e escutar ou orar e iluminar… 
Passe então a ver ou contemplar mais com o olho espiritual, e deixe de o encher de lixo televisivo, informativo ou de conversas.. 
Abra-se então aos sonhos visões, telepatias e oráculos, nestes dias de transparência e ligação maior entre as almas e os espíritos e a Divindade... 
O Samain está de novo entre nós e mesmo que sob a forma ruidosa e superficial do Hallowen poderemos intuir os aspectos tradicionais e luminosos que estão por detrás dele e se os aprofundarmos e aplicarmos amorosamente conseguiremos despertar mais o espírito que está em cada um de nós e naqueles com quem nos relacionarmos, seja vivos ou já desencarnados, na Unidade Divina, ou sob a Sua Graça... 





segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Erasmo, pedagogo do Renascimento. Homenagem no dia do seu aniversário...

     Erasmo, ainda hoje, passados cerca de 500 anos da sua vida, sobrevive no coração e ouvidos de quem o ama, e numa grande força interior de sabedoria, liberdade e amor à verdade…
     Entre os muitos aspectos da sua riquíssima personalidade destacaremos, hoje dia do seu aniversário, o do pedagogo ou educador, que ele foi desde muito cedo, ao princípio por necessidades de pagar os seus estudos de Grego em Paris, mais tarde por natural fluir da sua imensa erudição, ironia e amor.                                                 
      Ora como pensador e pedagogo ele inseriu-se na corrente Humanista Italiana, que vinha de Collucio, Lorenzo Valla, Pico della Mirandola, Marsilio Ficino,  valorizadora da Dignidade Humana, da Tradição Perene e do criticismo intelectual dos textos, sendo bastante pioneiro em vários aspectos da sua vasta obra, por exemplo, ora desejando que as mulheres tivessem uma educação mais completa e que se emancipassem ora propondo que o estudo “seja visto como lúdico e não labor», escrevendo por isso muito dos seus Colóquios, nos quais ensina pelo diálogo, o paradoxal e o irónico.
     Assim a auto-consciência lúcida e a crítica do que exteriormente condiciona, manipula, esmaga e destrói as melhores  potencialidades do género humano é bem desenvolvida por Erasmo que, na linha de Luciano, de quem traduz as obras com Thomas More aquando da sua estadia em Londes, a torna libertadora da vida em si das pessoas e inspiradora de uma consciência  mais desperta, criativa, irenaica, sábia e estulta simultaneamente, e universal…
     Realçou ainda muito a sacralidade e o amor que estão na essência da Educação, apresentando a paternidade-maternidade como o meio mais natural e nobre dela e de tal modo que a transmissão de mestre a aluno ou a discípulo deve ser como a de um pai, e visar o desabrochamento do génio próprio, da sua pessoalização ou, como Carl Gustav Jung viria a denominar e a, desenvolver, a individuação.
    No aspecto da sensibilidade na Educação, Erasmo realçou muito o valor da poesia, do subjectivismo, da sensibilidade poética, da leitura e do culto dos grandes poetas e escritores clássicos (tendo sido por isso criticado), em especial os greco-latinos, tendo composto uns poucos de poemas ao longo da sua vida, muito mais desenvolvida ou afirmada certamente na prosa e na epistolografia, esta sendo vista como um diário afectivo e intelectual dialogante, e que teve um sucesso enorme (o inglês Allen editou-a em 12 volumes no séc. XX) e por onde perpassa muito da sua amizade, liberdade e sabedoria, além de todas as perseguições que lhe fizeram ou polémicas em que se envolveu, sobretudo com o começo da Reforma.
    Na pedagogia erasmiana uma das ideias forças é a do irenismo ou não-violência, pacifismo, tolerância activa, conciliação. Uma forte oposição e condenação da resolução dos conflitos pelo recurso às armas é afirmada, considerando que até os animais da mesma espécie raramente lutam entre si, pelo que o ser humano deve procurar pelo diálogo chegar à concórdia… 
    São os pedagogos, os professores, os cultores das Belas Letras, os humanistas (por vezes unidos em círculos e sodalidades, na grande  república literária), hoje diríamos os intelectuais, os cientistas e os espirituais, quem pode e deveria exercer o papel de mediador ou de esclarecedor nos grandes conflitos de opiniões, interesses, partidos, povos, estados, religiões.
    Neste último sentido considerará, por exemplo, que a frase de Jesus Cristo: ”Ninguém vai ao Pai senão através de mim”,  mim o Logos ou o Cristo, é igual ou corresponde a Razão,  Sermo (que sempre preferiu a Verbo) ou Palavra, ou ainda ao Diálogo verdadeiro e amoroso. Neste sentido corre também a expressão paradigmática do mestre:”Onde dois ou três se reunirem em meu nome eu estarei no meio deles”. Reunirem, direi eu, em diálogo, em colóquio, silencioso ou com palavra luminosa audível…
     A pedagogia irenaica ou educação pela não-violência, contra as guerras, os fanatismos e autoritarismos, acaba por desaguar numa ideia de religião interior e pura, que Jesus transmitiu e cuja base de simplicidade, amor, douta piedade e verdade é universal e subjaz a todas as religiões. Assim sendo, diremos que hoje é fundamental que desde a mais tenra idade isso seja ensinado, mas contudo quase nada vemos, por exemplo, fomentado pela UNESCO ou as Nações Unidas, ainda muito atadas por pressões e interesses negativos, nem pelo laicismo neutro das modernas democracias, dando azo a que a ignorância, o fundamentalismo e o fanatismo grassem de Oriente a Ocidente, ainda que o ecumenismo e o diálogo inter-religioso floresçam em alguns pontos.
     Para Erasmo, muito mais do que organização, dogmas e sacramentos, a Religião ou a Igreja é a assembleia ou congregação da fé e vontade de ligação amorosa à Divindade e à Humanidade, sendo por isso universal e baseada no estudo dos textos sagrados e na comunhão com o corpo místico em que todos temos parte.  Tal desagua na metanóia ou transformação interior, na reforma das mentalidades e costumes, na defesa dos oprimidos e perseguidos, na distribuição mais justa dos bens, e na menor valorização das hierarquias e autoridades exteriores.  As suas propostas de Educação são vastíssimas e apenas demos uma pequena amostra ou introdução à leitura das suas imensas e riquíssimas obras…
   Terminemos então com algumas  das frases que são testamentos deste  humanista, de quem o grande sábio francês Lefévre d‘Étaples escreveu em 1514, “Quem é que não admira, ama, honra Erasmo? Ou que Rabelais considerou  “campeão invencível da liberdade” (e lembremos a sua polémica com Lutero na qual defendeu convincentemente o livre-arbítrio). E de quem o nosso Damião de Goes, seu grande amigo, disse em 1538, pouco após a sua morte (11 Julho de 1535):”aquele prudentíssimo e gravíssimo Erasmo de Roterdão, neste nosso áureo e doutíssimo século, príncipe de toda a doutrina e eloquência”.
Assinatura de Damião de Goes num exemplar da sua Crónica do rei D. Manuel
Eis então alguns dos seus ditos, à altura das centenas de adágios da antiguidade que ele coligiu e comentou, e que considerava o “arsenal de Minerva”: “Um homem não nasce homem, torna-se", dito este extraído do  seu tratado “Da Educação das Crianças”, o De Pueris.
Os que transcrevi nas páginas ante-prefaciais do livro que traduzi com Álvaro Mendes, e prefaciei  e comentei,  em 2008 nas Publicações Maitreya, o Modo de Orar a Deus:

"As pessoas de engenho generoso e livre gostam de ser guiadas, não de ser coagidas”

Ego mundi civis esse cupio, communis omnium vel peregrinus magis.
“Eu desejo ser cidadão do mundo, pertencendo a todos, ou mesmo mais, peregrino”
      E, finalmente, de grande pedagogia e actualidade: “Não nego que procuro a paz sempre que possível. Sou a favor de ouvir ambos os lados com ouvidos bem abertos. Amo a liberdade. Não servirei, nem posso servir, nenhum partido”

      Escrito em Lisboa e dedicado a Erasmo e a seus discípulos Damião de Góis e  José Vitorino de Pina Martins, neste dia 28 de Outubro de 2013 e em que Erasmo faria anos, 547...
       Mas como disse o deão da igreja de S. Paulo em Londres, seu amigo, sábio e místico John Colet:   Nomen Erasmi nunquam peribit.
           "O nome [e espírito] de Erasmo nunca perecerá…”
                        Saibamos acolhê-lo, comungá-lo e frutificá-lo…

Erasmo, mestre espiritual. A oração sem cessar...


                                 DOS ENSINAMENTOS ETERNOS DE ERASMO 

                    DA ORAÇÃO PERMANENTE ou Incessante....

São tantos os ensinamentos espirituais valiosos de Erasmo, para aqueles que procuram aprofundar o caminho do conhecimento, da verdade e da espiritualidade, que escreverei, hoje (28 de Outubro 2013) que se festeja o seu aniversário, no ano de 1466, acerca da Oração sem cessar, tanto mais que traduzi com Álvaro Mendes, e comentei e prefaciei, o seu tratado Modus Orandi Deum, Modo de Orar a Deus, impresso em 2008 nas Publicações Maitreya, do Porto.

A Oração sem cessar ou oração ininterrupta, por um lado, e a oração vehemente ou intensa, frequente, por outro, são duas das recomendações principais dadas por Erasmo no caminho da realização espiritual.
Como conseguirmos a equanimidade, a intensidade e capacidade de estarmos sempre a orar?
Poderemos ligar tal com a plena consciência, a de tentarmos estar sempre auto-conscientes, o mais lúcidos possíveis. E assim conseguirmos constantemente afastar da nossa mente e do nosso ego os factores de dispersão e aceleração, perturbação e frustração  que de facto constantemente surgem, derivados das reacções e envolvimentos múltiplos com o mundo. 
Um certo desprendimento é então necessário e um constante posicionamento supra-mental da nossa consciência. E o acolhimento ou assunção da intencionalidade do nosso ser espiritual ou essencial, que está acima da personalidade e da constante competição, comparação e conflitualização, ou então das dependência e envolvimentos com os outros.
Só assim é que a nossa alma conseguirá estar mais em oração permanente, ou seja, com o seu coração e a sua mente abertos e alinhados com o seu propósito de vida e logo com a Divindade, em gratidão, sentindo a presença do espírito, ou mesmo a comunhão do corpo místico, recebendo as inspirações do acesso ao intelecto único de Deus, ou seja, tanto na sua Realidade última (certamente difícil...) quanto no vastíssimo Campo unificado de consciência e informação da humanidade e do Cosmos
Esta oração sem cessar pode então basear-se ou apoiar-se numa consciência mais plena da nossa verticalidade tanto postural, como respiratória, como de aspiração e sintonização com a Unidade Divina e daí terem nascido tantas práticas psico-energéticas ligadas à respiração em todos os povos. E uma consequente tomada nas nossas mãos das vibrações psiquicas que geramos ou acolhemos.
E também poderemos dizer que estamos a orar sem cessar quando a intencionalidade da nossa vida é luminosa, é e destina-se ao bem, ao amor, à compaixão, à partilha com os seres e as ideias, destas fazendo parte a Arte de Orar, a capacidade de estarmos na presença de Deus, de caminharmos constantemente Nele ou na Luz, algo que pode ser ainda reforçado pelas tais orações mais ardentes e veementes, as jaculatórias, mantras, palavras de poder que encontramos também em todas as tradições…
Saibamos pois escolher bem e praticarmos os modos de viabilizarmos melhor a oração sem cessar em nós, ou seja, a consciência da Unidade Divina que nos inclui, também chamada por Erasmo de Simplicíssima…

Erasmo, mestre actual...

           Erasmo, mestre sempre actual e amigo perene....

   Primeira pequena homenagem e evocação neste seu dia de anos, pois nasceu perto de Roterdão em 20-10 de 1466, lembrando ainda o Prof. José Vitorino de Pina Martins, um erasmiano, amigo e sábio humanista, com quem muito convivi sob as asas espirituais de Pico della Mirandola e Marsilio Ficino, Thomas More e Erasmo....
                     
                “No que foi mestre nos seus dias, Erasmo será mestre para sempre.” 
A expressão mestre é porém complexa, pois se no Oriente o “guru” tem um sentido claro de dispersador das trevas, ou ainda de pesado, em termos de conhecimento e sabedoria, o magister latino (provindo do magis, mais, e que significa o que dirige, ensina, comanda, preside), acabou por ser na época palco de lutas pelo vazio que por vezes encerrava e assim os magisters nostris são ridicularizados por Erasmo, ainda que ele próprio se tenha tornado um mestre para milhares de seres, pois se formos a ler as três mil duzentas e tal cartas de Erasmo veremos que muitos se dirigiam a ele nesses termos ou com imensa devoção...
E de facto Erasmo foi-o, no bom sentido, de clarificador e impulsionador, por várias razões que passo a enumerar:
Mestre viajante, de polémicas, pioneiro do amor aos estudos das belas letras ou greco-latinas, da poesia e eloquência à retórica e à gramática, mestre na pedagogia, mestre no acesso das mulheres ao estudo e à educação, mestre enquanto dominava o latim e o grego, mestre na firmeza da sua posição por si mesmo e não se deixando influenciar demasiado pelas pressões viessem de quem viessem. Por vezes “demasiado” porque acabou por aqui e acolá de ter de retirar algo da sua ousadia, tal como a designação de “Novo Instrumentum”, para o “Novo Testamento”, ou ainda o coma joanino, uma interpolação tardia no Evangelho de S. João por ele assinalada
Mestre da união da sabedoria dos antigos com as fontes autênticas do Cristianismo, os Evangelhos e os escritos dos primeiros Padres da Igreja que ele traduzira, purificara, comentara e editara.
Mestre da critica e da ironia, bem desenvolvida no Julio Exclusus, nos Colóquios, na sua obra prima o Elogio da Loucura, mestre da cultura europeia letrada (que está ficar cada vez mais longe e bolonhizada), mestre de príncipes, mestre dos cristãos (frase de um correpondente em Espanha), mestre da concórdia, da paz (na altura designada por irene, do grego), e do irenismo ou pacifismo, do qual é um exemplo a sua obra Consulta acerca da utilidade da guerra aos turcos, e que hoje em dia é tão necessária face ao imperialismo destrutivo do petrodolar.
Neste sentido, irenaico, escreveu: «O importante, onde se deve aplicar toda a nossa energia, é a curar a nossa alma das paixões: Inveja, ódio, orgulho, avareza, concupiscência. Se não tenho o coração puro, não verei a Deus. Se não perdoar ao meu irmão, Deus não me perdoará... S. Agostinho encontrou um ou outro caso onde não se reprova a guerra: mas toda a filosofia de Cristo a condena. Os apóstolos reprovam-na sempre, e os doutores santos que a admitiram em certos casos, em quantos outros não a condenam? Porquê procurarmos à custa duma passagem evangélica o com que autorizar os nossos vícios?»
Mestre de Cristianismo, nomeadamente com o seu best-seller “O Manual do Cavaleiro Cristão”, de espiritualidade, tal como com o seu Modo de Orar a Deus (que traduzi com Álvaro Mendes, e comentei, nas Publicações Maitreya, em 2008), de mística, esta considerada como o sumo Bem a ser procurado e que nos aponta em textos religiosos e sobretudo no Elogio da Loucura, na loucura dos amantes ou no extâse dos místicos.
A sua modernidade está bem visível na profunda auto-consciência crítica (seja a ironizar consigo próprio no Elogio da Loucura ou no Ciceroniano), na percepção da relatividade das coisas e da própria verdade, na fragilidade do conhecimento humano, nomeadamente nos aspectos religiosos (“anotação ridícula", "lapso miserável", "engano”, surgem nas notas que fez ao Novo Testamento, em relação às interpretações que S. Tomás de Aquino fizera) e espirituais, donde uma reserva quanto ao valor e eficácia de superstições, rituais, dogmas, fanatismos e seitas.
Na valorização da transformação interior, da metanóia a partir da experiência espiritual e da vivência das doutrinas e ensinamentos.
Na valorização da convicção pessoal obtida por esforço ou studium, nomeadamente dos textos mais sagrados para se transformar a mente e o coração.
Neste sentido dirá: 
Ego aliam artem notoriam non novi nisi curam, amorem, et assiduitatem.
Fácil de compreender em português mas que traduzimos com variantes de sinónimos: 
"Eu não conheço outra arte de conhecimento que o tomar de dores, amar o assunto e perseverança.”
Até a sua actualidade em termos de política pode ser realçada e terminamos com ela para nos rirmos um pouco dos reis modernos que nus sempre estão e vão e despojam a muitos:
No adágio A Mortuo I, IX. 12, comenta assim: «Não há pacto nem limite, cada dia eles inventam novas formas de impostos, e o que quer que tenha sido introduzido para satisfazer uma necessidade momentânea retém-nas muito agressivamente.”
Sancte Erasmo, ora pro nobis…

domingo, 27 de outubro de 2013

Da Tradição de Portugal e da missão de cada um...


Cada pessoa representa ou culmina uma série infinita de seres, experiências e informações, comuns a muitos outros, mas numa singularidade e axialidade (eixo entre o céu e a terra e entre a ignorância e o conhecimento) única... A impressão digital assinala no dedo essa unicidade, mas também na voz, na personalidade, na essencialiadade o único surge... A comunicação digital e internética é a explosão total de uma infinidade de unidades multiplicando-se associativamente em movimentos mais ou menos luminosos e harmoniosos...
Fazer convergir várias pessoas ou unidades nalgumas das afinidades não é tão difícil, tal como as famílias, os grupos, os clubes, os partidos, as nações manifestam com tanta profusão...
Mais difícil é fazer surgir delas as singularidades que um determinado meio ou época precisa, permite ou exigiria como culminância...
E este é o grande apelo, constante nas noites mais longas e subtis...
Estamos numa época de marés cheias e de marés vivas e cavalgar ou surfar na crista das ondas é provavelmente melhor alternativa de que as termos a rebentarem em cima de nós...
Mil olhos, mil braços mostram-nos as deidades orientais...
Que rajadas de vento nos impelem mais, em que direcções devemos singrar, que contenções ou expansões devemos iniciar, com quem devemos dialogar e estabelecer os planos das caminhadas?
Em Portugal há um ser que nos une: o Ser espiritual ou Arcanjo de Portugal, a face séria, amorosa e grave do nosso país. Tentemos sintonizar mais com ele...
Depois, há a comunidade dos que aqui aportaram por nascimento ou por segundo nascimento e que nos rodeiam vivos ou mortos, ainda activos ou apenas nos testamentos anímicos e obras que nos deixaram...
Saber cultivar este fogo do lar e da nação é fundamental...
E um seus dos aspectos primaciais é o aprofundamento do tesouro dos valores, das ideias e ideais que ainda conseguem estimular, juntar, unir e impulsionar as pessoas...
Assim, sair da ignorância e do sofrimento, do egoísmo e da miséria, da violência e da superficialidade são fundamentais e urgentes, e apelam ao melhor de nós...
Assim chego até ti, na noite do tempos, e desafio-te a meditares uns minutos agora sobre estas duas questões candentes e que só tu podes responder:
- O que é mais urgente e importante que eu desenvolva para o bem de mim próprio, e para o bem de Portugal?

Se uma das respostas é sermos cada vez mais a nossa singularidade e ser própria, a Seidade, o Espírito, sem dúvida que a nossa acção, solitária ou em grupos mais fortes na compreensão e na acção justa e verdadeira é bem importante...
Desenvolver a compreensão de quem somos e do que viemos fazer à terra, quais as prioridades e opções, é fundamental ser meditado e trabalhado com regularidade...

E ao nascermos em Portugal, apercebemo-nos melhor da riqueza cultural que nos envolve, ou seja, de que há uma Tradição Cultural e Espiritual Portuguesa, que nos forma ou informa mas cujos melhores níveis estão em geral esquecidos ou menosprezados...
Saber escolher bem os veios que vamos trabalhar, os arroios que vamos utilizar e os mestres que nos irão inspirar, é então fundamental...
Se admitirmos, o que não é assim tão certo e evidente, diga-se já, que todo o bom escritor adquire no além um papel de guia para as gerações vindouras que o lerão ou reflectirão, perguntaria:
Que escritores ou pensadores mais gostas e com quem sentes mais afinidades?
Escolhe então alguma das linhas de desenvolvimento deles, ou algumas frases que te dizem mais e trabalha-as, medita-as, reescreve-as, aprofunda-as, e assim estarás a inserir-te na Tradição Espiritual Portuguesa e a continuá-la.
Estarás a reactivar a ligação psíquica ou espiritual com esses seres que já da lei da espada da morte terrena se libertaram e que te podem visitar ou mesmo passar a inspirar-te mais...
Discerne no património da riqueza cultural do país o que te diz mais, o que gostas mais, e tenta trabalhar, aprofundar alguma pedra ou canto rítmico  para a construção incessante  do Templo da Verdade ou do Divino em Portugal...
Tantos campos da criatividade humana já trabalhados entre nós onde podes tu cooperar, contribuir...
Tenta assim diaria ou gradualmente aprofundar ou enriquecer alguma faceta do multifacetado cristal do trabalho, da sabedoria ou da arte,  da Tradição Espiritual de Portugal e Universal.
Avancemos então e juntemos engenhos e esforços em prol da Tradição Perene em Portugal...

Façamos reverdecer a árvore quase seca, intensifiquemos a comunhão ardente e clarificante. 
Sejamos mais o Espírito...


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O que é a meditação? Contributos...

Meditar é um acto sagrado e íntimo, por vezes mais difícil de se conseguir, outras vezes surgindo facil e rapidamente, como um estado de graça, ou numa inspiração, mas que apela para uma certa perseverança, amor e fidelidade...
Vejamos uma metodologia de aproximação:
Após um certo alinhamento e desbloqueamento, para o que podemos fazer alguns exercícios de movimentação, já sentados, podem ainda brotar alguns gestos e sons com os dedos ou mãos, tal como várias tradições desenvolveram, estimuladores da energia nos meridianos que começam ou terminam nas mãos, gestos para limpar, harmonizar e elevar os fluxos energéticos e psíquícos, e eis-nos então prontos a embarcar na viagem auto-consciencial e meditativa.
No início, depois de uma invocação do Ser e seres divinos, mestres, santos ou anjos, conforme as nossas afinidades, começaremos a observar o ritmo da respiração, descontraidamente, e até procurando sentir energias luminosas a entrarem, sendo retidas para nos fortificarem e na expiração saindo e deixando-nos mais harmonizados. Aos poucos, os pensamentos que nos preocupam vão-se também acalmando e, sendo vistos com mais interioridade e calma, vão perdendo as suas energias emotivas ou conflituosas que os tornam repetitivos ou que nos afectam mais...
Depois, deveríamos começar a sentir a Presença interna do Espírito e a sua ligação com o Infinito ou o Ser Divino...
Mas como é difícil chegar a um estado imediato de poucos pensamentos, deveremos de quando quando invocar e adorar com mais aspiração a forma ou nome do Absoluto ou do Divino que mais nos toca, para isso também contribuindo, por exemplo, o inclinar-nos sobre o peito e aí juntar as mãos, sentindo bem nessa postura a receptividade invocativa grata e humilde...
Entre nós e o Espírito ou a Divindade não deveria haver tantas barreiras, tantos véus, tantos canais desviando-nos para outros direcções e seres, pensamentos e imagens. E por isso esses momentos de tentativa de união maior das meditações são muito valiosos, podendo ainda ser acentuados pelos cantos e preces, ou mesmo pelas mãos juntas. Mãos, que podem depois elevar-se ao céu em forma de Graal, taça ou cálice, e acolher melhor as bênçãos luminosas ou ainda, mais tarde, derramá-las para pessoas já falecidas, ou para as que, vivas, mais precisam.
A destilação maior do elixir da imortalidade acontece então pela auto-consciencialização do Ser profundo que está em nós, e pela captação e circulação da luz divina que permeia o universo, que começa então a ser mais vista no olho espiritual, sensível no nosso corpo interior energético espiritual, e pelas bênçãos e expansões de consciência que possamos sentir.
 E meditamos não só para nós e o ambiente, mas também pelos mortos, terrenamente ou já no além, sobretudo quando a luz circula e emana visivelmente do coração ou do olho espiritual e que, pelo nosso amor, chega até eles...
Então, quando meditamos, ou apenas perseveramos no respirar consciente e no orientar das ondas do pensamento mais concentradas, já não estamos apenas a acalmar as ondulações psíquicas, a harmonizar os dois hemisférios, a clarificar a nossa mente e alma mas estamos também a unir mundos e seres, personalidade e o Espírito divino, talhando o corpo espiritual, recuperando a nossa dimensão mais profunda e extensa, cooperando na clarificação e iluminação planetária, religando-nos à Divindade...
Boas meditações...

Fernando Pessoa, conde Hermann von Keyserling, e a defesa da Grande Alma Portuguesa...

Em 15 de Abril de 1930, o conde Hermann von Keyserling, convidado pela Junta de Educação Nacional, depois de ter exprimido a Alberto de Oliveira, escritor e ministro (ou embaixador português) em Roma, a vontade de visitar Portugal, chega a Lisboa, para pronunciar três conferências, animadoras de ideias como ele pretendia, às quais assistirá grande parte da intelectualidade portuguesa, ecoando-as os jornais em artigos assinados por Simões Dias, Vitorino Nemésio e outros. 
A primeira conferência foi pronunciada na Sociedade de Geografia, a 16, sob o título A Alma de uma Nação, seguindo-se mais duas, a 21 e 22, tendo depois partido para o Porto, onde o escutariam pensadores da Renascença Portuguesa, tal como Leonardo Coimbra e Sant’Anna Dionísio, como este último me confirmou. Ora também Fernando Pessoa assistiu certamente, pelo menos à primeira das conferências, pois escreveu uma carta dactilografada a Keyserling, com a data de 20 de Abril 1930 (e que esteve longo tempo perdida ou inédita antes de eu a publicar), para além de provavelmente ter lido relatos jornalísticos, alguns bem desenvolvidos.
Na impressiva recepção que lhe foi oferecida na Academia das Ciências de Lisboa, a 15 de Abril, o insigne professor da Universidade de Coimbra Joaquim de Carvalho proferiu uma notável conferência, na qual realçou a importância da sabedoria, «tensão infatigável, sinónimo de uma qualidade espiritual, onde a inteligência e a vida se fundem, num centro irredutível a todo o exclusivismo, sempre sinónimo de limitação», concordando com Keyserling que «é de uma educação espiritual que o homem do nosso século carece», elogiando a Escola da Sabedoria, que aquele fundara na Alemanha: «nos já vastos tipos de instituições escolares que a cultura europeia tem conhecido, a Escola de Sabedoria é a primeira escola onde se ministra um ensino sem conteúdo. Ninguém a demanda para aprender: sob a influência da personalidade desperta-se e intensifica-se o pensamento, e, acima de tudo, se forma uma orientação espiritual, sem cânones». 
Elogiará ainda tanto as palavras de Keyserling, vindas de «quem compreende a sua vida como uma missão», inserindo-as nas vozes que se elevam contra «as pretensões do pensamento racional, crítico e analítico, como também a sua visão «do primado da vida, libertada pela compreensão e espiritualizada pelo sentido», lembrando por fim o sentido universal de Portugal e «que se fomos os primeiros a ocidentalizar o Oriente, fomos também os primeiros a compreende-lo sem perder a nossa essência», dando mesmo o exemplo de Wenceslau de Morais, o nosso grande amante do Japão.
Keyserling, ao agradecer as palavras, aceita este enunciado final de Joaquim de Carvalho e afirma, provavelmente pelas suas capacidades psíquicas intuitivas ou de imediata absorção, segundo o relato do Diário de Notícias do dia 16, que «nas poucas horas da sua presença em Portugal sentia-se já mais português do que suponha. Referindo-se ao pensamento português, afirmou que ele era, sobretudo, realista, apesar do seu romantismo. Assim como ele, orador, viajava, para se ampliar em matéria de conhecimentos, assim os portugueses foram para as descobertas, não por motivos de ordem material, mas sim para dilatarem a sua espiritualidade. E, assim, o português é um verdadeiro criador de almas». 
Filósofo alemão, reformador prático do espírito, como se intitulava, fundador em 1919 da Escola de Sabedoria, ou Sociedade de Filosofia Livre, em Darmstaad, figura mundial graças ao sucesso dos seus vários livros de viagens e análises do que observava e compreendia, então com 46 anos, de envergadura avantajada, foi bem recebido em Portugal, encontrando-se com Joaquim de Carvalho, Afonso Lopes Vieira, Agostinho de Campos e outros pensadores. Os seus discursos acentuaram a sua visão, intuição ou imaginação profética da passagem da Humanidade das épocas da crença e da ciência, ambas cegas, para a da compreensão, na qual o homem, conhecendo-se a si próprio, acabará por dar a plenitude espiritual ao desenvolvimento material, «realizando na Terra a nossa missão – essencialmente, fundamentalmente espiritual». O Espírito de um povo é apresentado como tensão, como «associação profunda do sentir, pensar e querer dos homens», que serve o sentido de vida nacional.
Considerado um ecuménico, conhecendo o Oriente e as suas visões e perspectivas, ainda que com as suas limitações bem patentes em algumas apreciações do seu valioso e original Diário de viagem de um Filósofo, Keyserling, contudo, não aceita que a Humanidade esteja já num estado de decadência contrapondo antes o de juventude e portanto, de renovação, de criatividade, de novos sentidos. Considerando-se um chefe de orquestra do espírito, queria que os seres humanos «se tornassem «conscientes da sua missão no mundo, capazes de exprimirem pelos seus actos o sentido cósmico que as suas vidas comportam», pois assim «mais ricas serão as culturas que tais homens ajudem a constituir».
Ora da reacção de Fernando Pessoa ao conde Hermann von Keyserling e à sua pretensa compreensão de Portugal encontramos no seu espólio uma carta escrita em francês, dactilografada, mas assinada enigmaticamente por um O. S., que tanto poderia ser Ordo Solis ou Ordo Serpentis ou Ordo Sanctissimorum, tal como surge desdobrada em alguns outros fragmentos do seu espólio, mas que mais acertadamente será a Ordem Sebastianista, tanto mais que na mesma altura, a propósito da homenagem em Silves a Al-Motamide, Fernando Pessoa assinava uma nota com O. S., surgindo dentro do texto a referência à Ordem Sebastianista.
Esta carta acabou por ser apenas publicada pela primeira vez em 1988, no livro que então escrevi e intitulei A Grande Alma Portuguesa. Nela, Fernando Pessoa não questiona tanto o que o conde de Keyserling disse como antes os seus pressupostos e bases: «Viestes a Portugal para compreender - nós teríamos preferido que fosse para conceber – a alma portuguesa. Muniste-vos da preparação ilógica para o fazer? Seria suficiente que estivesse munido do conceito da alma como tripla – comum aos platonizantes e aos cabalistas, como a outros (...) Que Portugal pensa ter podido ver? Há três e tudo está lá (...) Da terceira alma portuguesa feita de inteligentes e de entendedores, nada há a compreender. Quanto à primeira alma portuguesa, se a vossa intuição é subtil, tê-la-eis adivinhado. Talvez a tenhais mesmo deduzido da paisagem e da luz, mais até do que a aprendido nas próprias almas. Nisto tudo, viu bem, mas não tereis visto que o visível. O Portugal essencial – a Grande Alma portuguesa, em toda a sua profundidade aventurosa e trágica – foi-vos velada...». Anote-se que esta tríade anímica surge de modo semelhante em outros textos de Pessoa, tal como os dos três tipos de portugueses, apontando a génese do português essencial, ou «imperial», ao tempo de D. Dinis.
Fernando Pessoa explica, em seguida na carta, quem é, como nasceu, quais as transformações e o futuro da segunda alma, que é a Grande Alma portuguesa, e que de aventura material e conquista de costas passará a uma aventura supra-religiosa que culminará de então a 200 anos. E termina a missiva (que não sabemos ainda se terá sido enviada ou não..), exprimindo a «nossa simpatia intelectual. O. S.»
Anote-se que, num texto anterior, Fernando Pessoa aventava mesmo a data de 1924, segundo certas profecias, «para o Grande Regresso, em que a Alma da Pátria se reanimará (...) e se começará a realizar aquela antemanhã ao Quinto Império, justificando-o pelo «sebastianismo, hoje mais vigoroso que nunca, na assombrosa sociedade secreta que o transmite, cada vez mais ocultamente, de geração em geração». Quanto à grande Alma Portuguesa, que «nos vinha de mistérios antigos e de sonhos antigos (...) herdeira da divindade da alma helénica» e que urge reavivar ou reassumir é noutros textos significativos invocada, com outras raízes, tal a árabe, «a alma árabe é o fundo da alma portuguesa», ou a cristã: «Que Portugal tome consciência de si mesmo (...) Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de cavalaria, onde passa próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal (...) Deixemo-nos de importar Deus, porque Deus está em toda a parte», esta última frase surgindo a lápis e não tendo sido publicada por Joel Serrão, no sua antologia de textos de Fernando Pessoa intitulada Sobre Portugal.
Fernando Pessoa, tão sensível à Anima Mater, à Pátria (e vejam-se as obras de Dalila Pereira da Costa, ou o ensaio de Eduardo Frias, O Nacionalismo Místico de Fernando Pessoa, Braga, 1971, no qual já compara Keyserling e Fernando Pessoa), tentando-a revificar pelo Sebastianismo, pelo Quinto Império, pela Rosea Cruz, pela Ordem Templária de Portugal, pela Gnose e pela Mensagem, não poderia deixar passar a ignorância de tal veio nacional, tal como em 1935 o faria em relação ao projecto-lei de proibição das Associações Secretas, debatido e promulgado pela Assembleia Nacional, e que ele rebateu em artigo de jornal e em várias cartas e textos inéditos na época e que têm vindo a ser publicados.
De realçar que, em 1932, na revista Descobrimento, dirigida por José de Castro Osório e na qual Fernando Pessoa colaborava, saía a tradução portuguesa das impressões psicológicas recolhidas por Keyserling e que estariam para constituir a parte consagrada a Portugal, da 2ª edição do seu livro Analyse Spectrale de l’Europe. As reacções não se fizeram esperar (às quais Fernando Pessoa, como vemos, se tinha antecipado...), o que levou a direcção da revista a publicar uma nota explicativa e uma resposta de Keyserling às críticas ou mesmo insultos recebidos (sobretudo de Agostinho de Campos, autor de um sugestivo livro Jardim da Europa, que o acusava de se prostituir a quem lhe pagava mais, algo então raro), explicando que o espelho pouco lisonjeiro apresentado de cada país era para os obrigar a reagir, saindo finalmente, num número posterior, um ensaio do director da revista intitulado Portugal visto da Europa
O que é um facto, resultante certamente desta oposição lusitana (embora fosse interessante descobrir-se a movimentação psíquica de Keyserling, talvez através de uma investigação nos arquivos de Darmstaad, é que na 2ª edição dessa obra de Keyserling, as últimas vinte linhas do ensaio desapareciam, as mais críticas e que referiam, por exemplo, que os portugueses «viviam de ilusões e de imagens do desejo. Identificam-se como povo, com as grandes individualidades da sua história, que, naturalmente já em vida eram excepções, não tendo nenhum Português de hoje o direito de se comparar com eles. Não querem convencer-se de que o facto de terem grandes possessões coloniais é um simples acaso: se a Inglaterra não tivesse interesse na sua conservação, elas já não existiriam e nenhum português moderno poderia criar um império colonial», afirmações estas que quer para um Portugal tradicional quer para um Estado Novo em formação talvez tivessem impulsionado algumas das reacções mais insultuosas ou as pressões para não ser publicado...
Rabindranath Tagore e o conde Keyserling em Darmstaad
Anote-se por fim que, embora não haja qualquer livro de Keyserling no que restou da biblioteca pessoana, a sua vasta obra ensaística, ainda que com certas limitações, merecia bem a simpatia intelectual expressa por Fernando Pessoa no final da sua carta, tal como aliás sucedera com mestres como Rabindranath Tagore ou Nicolas Berdiaef que elogiaram as capacidades e realizações do fundador da Escola de Sabedoria, de Darmstaad, ainda hoje viva e orientada com certamente fidelidade e verdade pelos seus descendentes...

Das Noites Claras. Meditações e Reflexões....

Da Noite. Meditações e reflexões, Feelings and Thoughts...

I - Um dia bem trabalhado não quer parar mesmo de noite e então ardem as barreiras mas por fim temos que ceder ou porque os olhos ou porque o cérebro pedem algumas trevas de descanso e fluímos então através dos sonhos em interelações sempre novas e desafiantes e quem sabe rumo à Unidade, que se idealiza tão silenciosa quão profunda e cósmica... 
Ah, e é importante antes de adormecermos revermos um pouco o dia e deixarmos evolar-se para os céus a gratidão imensa, primeva, que liga os mundos e seres, iluminando-nos na comunhão com os antepassados, os guias, os mestres, os anjos, a Divindade...

By the night, well inside, we feel: don't stop, even if it is to late... Indeed, the wings of the soul and the fire of the spirit make us work, pray or worship with gratitude and love, in the night's blessing silence of the unfathomable Unity...


2- Bem aventurados os que mesmo de dia conseguem atravessar auto-conscientemente esse tempo que os medeia da noite estrelada e se mantém em comunhão, entrecortada ou permanente, com as águas ou energias subtis da Unidade do Inconsciente e do Supraconsciente, onde mergulham ou já se banham mesmo durante o dia, pesem as muitas distracções, contrariedades e obstáculos que encontrem no seu trabalho e caminho, que deve ser cada vez mais de luz, amor e consciência profunda e unificadora, intensificada ou clarificada pelas adorações verticalizantes intensas, as audições súbitas, as visões subtis, os momentos de amor sentidos ou partilhados.

Mantermos aberta ou sintonizada a unidade dos mundos e dos estados psíquicos numa unificada consciência é uma tarefa grande ou exigente que nos desafia a sairmos dos compartimentos estanques e das medianias das agitações, cansaços e indignações para estarmos cada vez mais em lucidez, paz e amor...
Saibamos pois manter a chama do coração acesso e a consciência expandida, crendo e lutando por um futuro melhor para a Humanidade...